O MUNDO, A NANQUIM
Os traços já vão se apagando, mais de quinhentos
anos passados. Quando a tinta ainda era fresca,
os traços já iam se apagando. Os galhos retorcidos
estão aqui, os mesmos galhos com o frescor de sempre
atiçando os troncos no ar. Posso vê-los recortando
o espaço, prolongando a rocha, desenhando trilhas.
Subir pelo caminho deserto provocaria em mim
ora uma sensação de descanso, ora um cansaço
da solidão excessiva. Um pouco abaixo do centro,
à direita, uma moita de bambus curvados pelo tempo.
Deve haver alguém por perto para aprender a lição.
O solo branco, de neve. Não: não faz o frio
que ela causaria. Talvez, sejam apenas os traços
se apagando, o papel branco aparecendo com o gesto do
pincel. No bosque de bambu, algumas manchas se assemelham,
quem sabe, a uma casa camuflada com arbustos
e relevos do solo. Por toda montanha, pelas rochas
e pelos bambus, pelos troncos e pelos galhos, pela
espessura da tinta no alto da página e pelo capim delgado
na planície, pelas águas e pelos barcos pesqueiros,
mesmo pela casa escondida por toda a paisagem e pelos
ideogramas que por nada decifro, só não encontro aquilo
para que o título, com humor, aponta: um homem
lendo, numa cabana do ermo bosque de bambu.
In Ecometria do silêncio, in A Fronteira Desguarnecida (Poesia Reunida 1993-2007), Rio de Janeiro, Azougue Editorial, p. 87
Mostrando postagens com marcador Alberto Pucheu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alberto Pucheu. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
quinta-feira, 18 de julho de 2013
Alberto Pucheu
VALE DO SOCAVÃO
No plano da montanha ensolarada,
vario entre o livro e a
paisagem.
Os gaviões retomam pelas manhãs há mais de 40 dias.
Não sei
o que querem:
a companhia de quem há meses
não pronuncia uma palavra?
a
companhia de quem caminha pelas trilhas
como gavião voando pelos ares? Não.
Eles reparam em minha presença apenas para se
recolherem,
esquivos, na altivez - alheios a nada.
Deixo restos de frango assado no tronco próximo à casa.
Comem-nos.
O vento bate em meu rosto,
em minhas costas nuas e friorentas apesar do sol.
Vejo a clareza límpida do dia,
sabendo que sou outro, além
do olhar.
Algo se move em mim, impossível de ser visto.
Algo se move em mim, impossível de ser escutado,
cheirado,
tocado, degustado... algo se move em mim,
para o qual as palavras não se
dispõem
mas obrigam-me a dizê-lo, após meses de indiferença
e mutismo. Tudo em
mim, agora, é combustível:
difícil ficar ileso aos verdes da manhã,
ao trabalho
diário, aos acontecimentos que,
mesmo corriqueiros, me contaminam.
Não há mais ninguém por aqui,
e minha existência é viável.
In Inquietação-Guia - 15 Poetas em torno da Azougue, Rio de Janeiro: Azougue editorial, 2009, p. 23
| Arkhip Kuindzhi |
Assinar:
Postagens (Atom)
Fernando Paixão
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
-
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
-
PÃO-PAZ O Pão chega pela manhã em nossa casa. Traz um resto de madrugada. Cheiro de forno aquecido, de levedo e de lenha queimada. Traz as...
-
O Barco Bêbado Quando eu atravessava os Rios impassíveis, Senti-me libertar dos meus rebocadores. Cruéis peles-vermelhas com uivos terríve...
