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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Adriana Lisboa

POR UM INSTANTE DE PENUMBRA

Há sol demais por aqui. As sombras
expatriam-se dentro das coisas, sem uma
chance. A luz é cáustica,
esta luz de inquérito sob a qual o preso
não tem outra alternativa.
Você optaria por um mundo em claro-escuro,
mas tudo se revela (pior: se demonstra,
como num laboratório, como no corpo
aberto de uma cobaia) com enorme zelo e
não admite perfis, murmúrios, vislumbres.
Essa luz medonha que se esfrega
na sua cara — o quanto você não daria
por um instante de penumbra.
Por um segundo de indecisão.

[In Parte da Paisagem, São Paulo: Iluminuras, 2014]







segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Adriana Lisboa

DEPOIS DE UM LONGO DIA DE TRABALHO 
para Claudia Roquette-Pinto 
O panteão tibetano
em suas molduras de brocados
e na janela uma bandeja:
pedaços de ossos e frutas para
os pássaros. Vejo você
outra vez doméstica,
apaziguada - disseram certa vez: é
como tirar os sapatos depois de um
longo dia de trabalho.
Você toca a testa no chão
e a umidade dos olhos comprova
o que sua voz agora doce entoa
numa língua que não compreendo.
Tenho a impressão de que
as paredes se curvam numa
mesura quase imperceptível. Tenho
a impressão de que lá fora as folhas
do outono, festivas, esvoaçam
também por isso.

A MANHÃ INTEIRA
para Mariana Ianelli
A manhã inteira e nenhum trabalho que preste.
O mundo respirando quieto
no pulmão da neve tardia.
Você queria que as palavras
fossem simples e poucas,
os objetos ao seu redor simples e poucos,
a fome abrandável por um pedaço
de pão. Queria a mansidão
das folhas ainda meninas
tapadas pela neve, sem susto.
Ali, esperando. Ali, quietas, meditativas,
livres até mesmo da crença
de que mais tarde voltarão a brotar.

CACHORRO DEITADO NA NEVE
Diz ali que foi eleito
o quadro preferido dos visitantes do museu
A cidade é Frankfurt, o artista
é Franz Marc e o dia
é uma coleção de horas a
transpor, a passar a perder
de vista. As calçadas também sentem
frio, acho, e todos os passantes
devem ter os pés doloridos.
Mas o que será que guarda
em seu coração de tela o cachorro, esse cachorro alourado
ressonando expressionista sobre a neve,
será que ele dorme em alemão?
Será que ele suspeita como percute
este coração humano
que passa diante dele, igualmente
manso, aguardando o degelo,
o pulo, o verão?

ANIMAIS DELICADOS
Claro que não têm a menor importância
as tardes nubladas. O comentário serve para
tirar da palavra a trava
de proteção. Tanto que depois
falamos de Hermann Hesse,
universos paralelos, Edward Bernays.
Falamos dos caras que querem saber
se suas garotas tiveram orgasmos múltiplos
e quantos exatamente
pois essa é a medida de sua (deles) adequação.
Falamos do quadro que você pintou
inspirado no filme. Mencionamos
esta nossa fé torta, exonerado o dogma.
Numa revelação ao revés,
fica acertado que seremos tenazes antes
da extinção, como o leopardo-de-zanzibar
e o lobo-da-tasmânia. Aliás:
como se enganam os passantes
acreditando, pelo tom da nossa voz,
que somos animais delicados.

[In Parte da Paisagem, São Paulo: Iluminuras, 2014]

José Castelo: O Manto de Adriana



quinta-feira, 26 de junho de 2014

Adriana Lisboa

DENSIDADE
No  meio do caminho tinha uma pedra porosa. Dava para ver seus grãos. Chegando mais perto, raios finíssimos de sol atravessavam a pedra. Mais perto ainda, um turbilhão, um pequeno redemoinho (uma galáxia minúscula) se movia lá dentro, no leve corpo da pedra.

A pedra, no meio do caminho, era permeável: se chovesse, ficava encharcada. O vento a enchia de poeira, pólen e cadáveres de insetos. O calor do meio-dia a deixava com sono e sede. A neblina que às vezes baixava no fim da tarde invadia a pedra, no seu corpo as nuvens trafegavam sem pressa. Os sons passavam por ela e iam se extinguir em algum lugar desconhecido. Na pequena galáxia dentro da pedra havia pequenos planetas orbitando em torno de sóis de diamante.

[Caligrafias, Rio de Janeiro: Rocco, 2004, p. 79]



segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Adriana Lisboa

LUGAR
A ermida corpo, sim, caiada
e rústica. Mas também a ferida aberta
da mente, esta nação sem chefe,
este lugar que habito (me habita?)
sem habite-se ou alvará.
Que não me habilita, ademais, ao corpo —
que não se casa a ele nem
nele se cala. Este descampado (ermo
sem fundo) onde não há ermida ou
alpendre: tudo é deserto
e as vozes dos deuses
se confundem nas sarças.

JERUSALÉM
Já bastava o duplo clichê quando
desembarcaram no campo de batalha:
o para sempre do prelúdio,
o não era bem isso do posfácio.
Mas ainda mais ingênuo foi ter suposto que
a substância do amor, se ele por acaso
acaba (sim, ele por acaso acaba),
não oxida: apenas evapora no ar
como um anjo morto por assepsia.
Que ela não azeda,
não estraga nem fede nem mofa,
não se arrasta nesse purgatório de
partilha, promissórias, honorários,
até que a morte definitiva os repare
(ou o tempo ou o cansaço)
e assim destacados, desenredados
duas vezes da substância do
— como é mesmo o nome?
(eles dividiram as suas vestes e as sortearam)
possam seguir
como os estranhos que são,
Jerusalém enfim libertada.

NESTA FESTA COM HORA PARA ACABAR
para Adriana Lunardi
Tapamos os ouvidos quando começa
o extravagante baticum,
mas nos escutamos com clareza
através de uma mesa de bar ou café,
nubladas como este Rio de Janeiro
à sombra dos guarda-chuvas.
Temos fracassado em muita coisa,
e buscado amparo não tanto
na esperança quanto na curiosidade:
abrir a fresta da cortina
para uma alvorada estrangeira,
abrir a boca apesar do bafo
desse medo indigesto,
exercitar a inadequação, sabendo-nos
ridículas como missas em latim.
Quando acabar a festa, seguiremos a pé
para casa, brincando de percutir
o mundo roto com os nossos sapatos
ainda mais. Terá sido como a canção
que sua mãe queria (a minha também):
E bandos de nuvens que passam ligeiras
— pra onde elas vão, ah, eu não sei,
não sei.

OS ANJOS
Onde estão os anjos bonitos,
os anjos de Wim Wenders,
com asas e sobretudos? E se
eles estiverem olhando agora,
não apenas para mim — e para
este pensamento de mãos
trêmulas: a você perdôo tudo —
mas também para o homem prestes
a ser decapitado e para o homem
prestes a decapitá-lo e para
a mulher com o rosto corroído
pelo ácido e o irmão que jogou
ácido em seu rosto: anjos
de Wim Wenders, por favor
digam onde, onde
essa beleza em câmara lenta
que tanto os comoveu, o mundo no reflexo
dos pára-brisas, o mundo tal como visto
em branco e preto
do céu sobre Berlim?


[Fonte: Jornal Rascunho,edição 164, Dezembro de 2013]

by Remédios

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Adriana Lisboa

Excerto de "Hanói"
A dor parecia mais forte do que nunca. Veio de madrugada, quando não havia mais do que uma mínima sugestão de luz no seu quarto. David estava sozinho, como queria. Certo? Não era o que ele queria?

Levantou-se para pegar o analgésico. Suava frio. A náusea agarrou seu estômago e ele vomitou ajoelhado diante do vaso, no banheiro do seu apartamento já quase vazio.

Alex não estava, nem Bruno, nem Trung ou Huong ou Linh. Seus amigos músicos não estavam. Lisa não estava. Bob e seus antigos colegas de trabalho não estavam. Os escritores famosos que haviam autografado livros para ele quando trabalhava na livraria em Gold Coast, a garota ra­diante da tribo indígena canadense. Luiz. Guada­lupe. Seus primos. Miles Davis, Louis Armstrong e Dizzie Gillespie não estavam. Christian Scott. Nem mesmo seu trompete estava ali com ele.

Era somente a dor vertiginosa, a vontade de descolar a cabeça do resto do corpo e atirá-la pela janela, como Lisa tinha feito com o trompete. A dor e a cerâmica do vaso sanitário e a água boiando ali, a água sempre voltando a boiar ali educadamente todas as vezes que ele dava descarga. Seu estômago cuspindo o que houvesse para cuspir e o que não houvesse. A nata de suor frio na testa, nas mãos.

Era extraordinário como a dor simplificava as coisas.

Ele tomou o analgésico quando conseguiu parar de vomitar, e foi se deitar de novo.

Pensou em conchas.

Pensou no que estariam fazendo todas aquelas pessoas em Capitão Andrade, as pessoas que tinham visto Luiz ir embora décadas antes, naquela leva contínua de romeiros escorrendo he­misfério acima.

Perguntou-se onde estaria o piano da avó de Guadalupe, em Hermosillo.

Pensou em Cuauhtémoc e seus pés quei­mando sob orientação de Hernán Cortés. E no coração dos espanhóis prisioneiros, arrancados de seus corpos em altares sacrificiais antes da queda da capital do império asteca.

Pensou no cachorro Oscar e no chocolate do seu último dia.

Deixou que os pensamentos fossem saindo uns de dentro dos outros como as salas de um imenso museu, até sobrar somente o cansaço.

[Lisboa, A. Hanói, Rio de Janeiro: Objetiva, 2013, pp. 201-203].



terça-feira, 18 de junho de 2013

Adriana Lisboa

Excerto do romance "HANÓI"
Ele entrou no mercado asiático, acenou para Alex e pegou um cesto de plástico que encheu com itens pequenos. O critério era um só: que levasse bastan­te tempo para passar no caixa. Por cima, colocou um pé de alface, feito um buquê.
Ela disse oi e passou o código de barras de uma lata de milho no leitor.
Escuta, não sei se te interessa, ele disse. Mas vou entregar o meu apartamento em breve, e náo vou ficar com nada do que tem lá dentro. Vou colocar um anúncio oferecendo no meu prédio, mas estava aqui fazendo compras e me ocorreu que poderia falar com você. Quem sabe alguma coisa tem utilidade.
Achei que você ia ficar uns tempos fora da cidade e depois voltava, ela disse, passando no lei­tor o código de barras de um pacote de macarrão sabor espinafre, made in Taiwan.
Ah, não. Eu não vou voltar.
Alex fez um breve silêncio, depois confir­mou, você disse que não vai ficar com nada do que tem no seu apartamento?
Isso.
Eu na verdade estava era precisando de um computador.
David parou, pensou, o laptop era um bem móvel que não deixaria de ter utilidade, mas que diabos.
Não vou levar meu laptop. Ele não está novo em folha, mas funciona bem. Pode ficar com ele, se quiser.
Ela parou de somar os itens da cesta e olhou-o nos olhos, com curiosidade.
Vamos fazer o seguinte, David falou. Eu vou em casa e já volto com o laptop. Se você gostar, é seu.
Estou precisando de panelas, ela acres­centou, enquanto ele pegava suas duas sacolas de compras.
Meia hora mais tarde, David estava de vol­ta com o laptop debaixo do braço e três panelas encaixadas uma dentro da outra, empunhadas pe­los cabos.
Trung, que arrumava bananas num cesto, olhou para ele como quem tentasse ler as entreli­nhas das suas rugas de expressão. Quem sabe veria o que havia para se ver. Talvez houvesse um desa­pego artificial e ansioso em David. Tome, leve o laptop, leve as panelas — quem sabe todo o com­portamento dele fosse comparável ao de um mau palhaço de circo. Até para ser ridículo é necessário certo grau de seriedade.
Antes de sair de casa David apagou os seus arquivos, por nenhum motivo além do fato de que náo teriam utilidade para Alex. Não havia segre­dos de Estado ali.
Pelo sim, pelo não, resolveu deixar sua mú­sica. Renomeou a pasta: ouça isto Alex.
Talvez no futuro próximo ele pudesse lhe perguntar se tinha chegado a ouvir, e nesse caso se tinha gostado, e nesse caso do que tinha gostado mais. Pensava nela naquele momento como uma pessoa do tipo Nina Simone. Tinha quase certeza de que Alex gostaria de ouvi-la cantando “Feeling Good”.
Lembrou-se mais uma vez daquele doente, o do diagnóstico errado.
Se novos exames revelassem que na verda­de ele não estava doente, David pensou, talvez fos­se uma troca válida. Tudo o que ele tinha em troca de tudo de que precisava. E um diagnóstico errado no meio do caminho, só para que aprendesse a di­ferença entre as duas coisas.
Como que para lhe dizer que aquela não era uma possibilidade, uma pontada funda na ca­beça quase o fez perder o equilíbrio.
Alex não viu. Trung sim. Ele levantou o rosto das bananas e seu olhar topou por um ins­tante com o olhar de David.
Depois Trung retomou seu trabalho, como alguém talvez um tanto constrangido por ter visto o que acabara de ver. O mau palhaço contando uma piada sem graça, os rostos impas­síveis da platéia. O mau palhaço prestes a perder o emprego.
Alex pegou as panelas, revirou uma e de­pois outra.
David apanhou uma caneta largada por ali e uma nota fiscal que alguém tinha deixado para trás. Escreveu seu telefone no verso. Já tinha nota­do que estava perdendo aos poucos essa habilidade tão simples, a escrita — e isso era esperado —, mas por enquanto sua caligrafia ainda era legível.
Se você e o seu patrão quiserem passar para dar uma olhada no resto, ele disse, entregando o pedaço de papel a Alex.
Ela ainda exclamou obrigada pelo compu­tador e pelas panelas! antes que ele saísse para a rua e para a chuva que voltava a cair.

[In HANÓI, Rio de Janeiro:Alfaguara, 2013, pp. 107-110]

Sobre Adriana Lisboa



sábado, 8 de dezembro de 2012

Adriana Lisboa

PRESENTE

para Claudia Roquette-Pinto
O menino no sinal me pede uma esmola. Vê o meu rosto cansado, os meus músculos bradando urgências, a minha vida resfolegando, os meus sustos. Eu digo, no sinal, que fujo de alguma coisa rumo a outra que está muito longe.

O menino me dá uma esmola: seu sorriso. No tempo que para, percebo que sou eu a sorrir no menino enquanto sou eu do lado de cá, dentro do carro, e eu e o menino nos fitamos com um só olhar. Sem desespero e sem esperança.

Quando o sinal abre, minhas mãos custam um pouco a retomar o mundo que buzina lá fora, implorando esmolas. Sinto o motor do carro afagando o asfalto e venho de alguma coisa rumo a outra que talvez não esteja tão longe assim.

[Caligrafias, Rio de Janeiro: Rocco, 2004, p. 31]


domingo, 2 de dezembro de 2012

Adriana Lisboa

RETIRO
Mesmo o verde do deserto é marrom. Corvos voam sobre a estrada enquanto Angela me conta que perdeu todos aqueles a quem amou. Minha pele está seca, descarna no rosto e nos dedos das mãos.

Disseram-nos para tomar cuidado com as cobras-cascavel. Também avisaram que uma viúva-negra foi encontrada ontem no banheiro.

Esta é a Grande Montanha Escondida. Descemos pela estrada empoeirada até Melru Lane, onde há aquelas casas espalhadas, sem muros, com bandeiras no jardim. Americanos gostam muito de bandeiras. Uma das casas parece um brechó e tem cabaças amarradas numa árvore seca, uma imensa Pantera Cor-de-Rosa de papelão, um mexicano de barro dormindo embaixo de seu sombrero, um monte de quinquilharias pelo jardim. Nessa casa não há bandeiras.

Na volta, estão nos esperando para trabalhar na cozinha. O monge simpático pergunta meu nome. Que bonito, comenta, para depois acrescentar que antes de ser ordenado chamava-se Adrian.

Cantamos. Depois vamos dobrar panos de prato azuis sob o sol.

[Caligrafias, Rio de Janeiro: Rocco, 2004, p. 81]

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...