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domingo, 9 de novembro de 2014

Paulo José Miranda

Ó hora de patas longas
E olhos grandes sem pálpebras onde descansar
Corpo coberto de escamas prateadas
Que fazem brilhar os mortos recentes no meio do mar
Ó hora guerreira e bárbara
Que deixas escorrer fogo pelos cantos da boca
Lembrando os corações jovens quando se encontram
Nas ruínas dos casebres mais distantes
Ó hora peçonhenta e vil e traiçoeira
Que arrastas com as vidas para o fundo
Dos rios mais rápidos e profundos
Onde a morte adormece devagar a um canto qualquer
Ó hora que levas e trazes os carros
Cheios de pessoas e mercadorias e suas expectativas
E pulsas no interior do sangue de todos nós
Como uma bomba humana
Ó hora que cais do céu sobre vida de alguém
Agarras numas pernas e vais a algum lugar
Como és parecida comigo aqui e agora
Lembrando o tudo que fui, o nada que sou, o tudo por ser
Ó hora que tudo fazes e tudo deixas por fazer
Porque aterrorizas tanto aquele que por enquanto é
Se assim como Deus tu não existes e a tudo dás existência
Porque mostras os dentes sem dizer porque és e ao que vieste
Ó hora que passas e não passas
Enquanto eu espero

(Inédito)

By  Linda Vachon




sábado, 8 de março de 2014

Paulo José Miranda

POEMA INÉDITO

Aos mestres e amigos António De Castro Caeiro e Mário Jorge Carvalho:

Caminhamos do fim ao fim
Porque não há princípio
Vamos do fim que nos deram
Ao fim que conseguimos
Entre estes dois nadas
Que mais que as nossas mãos são as nossas mães
Uma que nos expulsou
E uma outra que nos espera
Sempre se vai encontrando
Aqui e ali um ou outro remédio
Alguma coisa sem importância
Ou o que quer que seja para se fazer

9 de Outubro de 2011

 ©Paulo José Miranda 
Todos os direitos reservados


 Jacopo Pontormo

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Paulo José Miranda

POEMA PARA ANTÓNIO CABRITA 
E SUA FILHA MAIS NOVA
Não é que se não saiba nada
Sabe-se tudo o que se inventa
E até um pouco mais do que se imagina
Uma só teoria levanta milhares de quilos do chão
Faz crescer o feijão muito mais rápido que a chuva
E apazigua momentaneamente o nosso medo de andar na vida
Sustenta assim as nossas horas dia a dia
Porque um milheiral é um país para as bocas
Um verso uma linha ao contrário
Que não fecha só abre feridas não cerze nada
Um pincel rasga o mundo no meio de um muro
Uma só equação canta por um infinito de números
E o assobio que se dá a uma rapariga ilumina a noite dela
Sim não é que se não saiba nada
Mas pudéssemos nós ver a verdade
Entrelaçar as linhas e curvas do universo e de uma vida humana
Do mesmo modo que fazemos com o cadarço dos sapatos

© Paulo José Miranda - Todos os direitos reservados
Publicado originalmente no Facebook.

By Renee Kahn




sexta-feira, 12 de julho de 2013

Paulo José Miranda

A natureza das coisas
Todas as viagens são negócios 
e os hotéis reservam-nos o direito 
de não encontrarmos diferenças.
Como os amantes da mulher de outro, 
mantêm-se os gestos familiares 
no servir das bebidas

e nas vestes que se usa.
A volta havia mar 
e isso, sim, 
diferia da cidade

de onde se vinha, 
com um rio e um oceano.
No interior dos viajantes 
habitavam versos, 
frases que mentiram acerca de um sentimento

que o seu país não tem, 
acerca da linguagem, 
do existente desprezo pelo rigor, 
de uma identidade encontrada 
além ou aquém do que se é.

Era o início ou o fim 
do Mediterrâneo,
uma ilha onde o mundo 
já vivera tudo e partiu, 
e ninguém esperaria o contrário, 
ninguém esperaria ficar 
para o sempre de uma vida 
no corpo da amante.
Não é a natureza humana,

é a natureza das coisas, 
o absoluto com que se compreende 
o passado e os gestos, 
como os que ruborescem o rosto 
onde a mulher deseja.
E também há noite,

no hotel e em redor dele.
Tudo como o que havia 
e o que já houvera, 
tudo, sem que se pudesse

invocar o nada,
por mais evidências que as horas 
se esforcem por mostrar.
O marido, fatigado e bêbado, 
recolhe ao quarto.
Ao acaso abriu um livro

que nunca vira, 
que nunca iria ler, 
como uma mulher bela
com quem um homem se cruza na rua, 
para nunca mais senão possibilidades 
O outro viajante entreter-lhe-á

a mulher, a vida.
Entreter-lhe-á 
o próprio inexistente nada, 
como uma visita ao forte da ilha 
ou a falta de rigor na linguagem.

(O Tabaco de Deus, Edições Cotovia: Lisboa, 2002, pp. 27-29)


sábado, 30 de março de 2013

Paulo José Miranda

Já nada tarda
Por vezes, tudo é tão tarde que já nada tarda.
Um pouco de imaginação e a humilhação é doce.
E o que cresce dentro de nós não clama unidade,
espera-se o sol, qualquer flor do prado,
Chamamos homem a tão pouco e até se ama por isso.
Veste-te, agora veste-te para a cidade,
escuta os malefícios de um gesto que não quiseste.
Mais simples que isto não consigo,
tudo é tão tarde que já nada tarda.

Devolução
Não sinto culpa por não saber o nome das flores.
Foram dúvidas o que sempre tive,
e as dores não admitem nomes.
Uma vez não acreditamos já tudo ter sido dito.
Espera-se numa palavra a devolução do amor.

O sábio
Despojou-se das metáforas,
depois sentou-se nos seixos do rio
a escutar as águas.

A liberdade de Jeremias
Jeremias libertado na dor do espaço.
Aqui, Lisboa é o pior dos séculos.
Deus - Senhor, perdão! - onde estás?
Sequer uma voz vinda de longe, um sorriso,
uma mão que me acalme.
Já noite, o calor intempestivo de insectos,
as ruas passam ao largo das tabernas, de todos outros.
O pouco que sabe não lhe dá que fazer,
e quão difícil não pecar, rejeitar um verso.
Sem passos ao lado, voz,
p'ra'qui entregue a estes livros,
Jeremias escuta o pó de alguns
animais e os donos em viagem.
Quem parte assim de noite - já foge - procura?
Libertado - e não quer dizer nada - o profeta.

In A voz que nos trai,  Lisboa: Ed. Cotovia, 1997. 









quarta-feira, 20 de março de 2013

Paulo José Miranda

A SOMBRA
Ó sombra da respiração
Minha mãe
Que abandonaste teu filho às margens de uma estrada grande
Parco de tudo o que existe menos de ignorância
Altiva como o nada que nos assola pela manhã
Assola à tarde e nos assola de novo na aurora

Minha mãe
Sombra da respiração de onde vim
Desenha uma porta neste caracol vazio que é a nossa vida
Deixa-me sair de mim e de ti
Que nada aconteceu entre nós que não se possa apagar
Como a luz que acontece às vezes no campo nas noites escuras

Ó minha sombra de respiração
De quem sou filho e filho também do que nada sei
És a responsável
Pelo desequilíbrio com que se começa a vida
Por tudo o que cai e se desfigura
Muitos ou apenas poucos dias depois

Meu coração é do tamanho do escuro
É à porta de mim que se faz luz
Não tenho dores em lugar algum para mostrar
Há em mim uma parte de todos
Que se espalha entre nós como sémen
Um humano desperdício vingativo

Tenho a cabeça derramada na laje fria
E não é a primeira nem será a última
Escrever da dificuldade de respirar
Da dificuldade de ver que vim de onde vim
É crer na noite e no fim de tudo
Crer é um enorme ponto final

in "Cintilações da Sombra", antologia coordenada por Victor Oliveira Mateus.


kal gajoum

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Paulo José Miranda

CHIPRE REVISITADA
Chipre não é uma ilha, mas duas
penínsulas. De um lado
os Gregos, do outro os Troianos,
que, como na Ilíada,

são apenas dois modos
de se olhar Helena: os trabalhos
de a ter e o castigo de a ter
perdido. O avião

chega como a faca no porco.
Ulisses, o artífice
do engenho, aterrou
perfeito no seu fato azul

mediterrâneo. Nestor
conduz-nos até ao hotel
pela paisagem desértica e Helena,
esse nome nos lábios

como livro decorado para exame.
(Ou será antes como as putas
a quem nos feriados se paga?
Depois das montanhas, o mar

a origem de todos os crimes
sobre a terra. À chegada
aos muros da cidade
há muito mais vento
do que árvores, muito
mais vento do que almas,
muito mais do que qualquer outra coisa) pensamos

em Aquiles, em tudo
o que não trouxemos.
Se fosse só para sofrer,
pela vida, não se tinha vindo

aqui. A felicidade fica
para os turistas, às mãos
de Ulisses e da culinária
abjecta onde gastam as suas

economias. Nestes séculos
quem morre mata. Por isso
a vida é uma cor,
não tem significado.
________________________

(O Tabaco de Deus, Edições Cotovia: Lisboa, 2002, pp. 30-31)




domingo, 27 de janeiro de 2013

Paulo José Miranda

DA CORRUPÇÃO DOS CORPOS
À saída da cidade bizantina, depois das Muralhas de Teodósio
o mar de Mármara e as janelas (enormes laranjas brilhantes
penduradas nas altas árvores de betão e famílias no lado de lá, na Ásia)
que lembram os olhos a arder ao fim de mais um dia

depois de se largar a solda e antes de se deixar a oficina.
Com um só cigarro, restava-lhe pôr-se a andar
ao contrário dos carros, em busca de peixe e Raki.
Toda a terra é estrangeira, se não houver

uma gota de álcool e uma língua que se cale,
as pequenas coisas com que se desperdiçam os dias
e se inventa a eternidade ou uma noite de sexo à tarde.
Do Mar Negro, chegaram

um maço de cigarros e um prato de anchovas.
Juntou-se ao velho que cantava versos dolentes
acerca da corrupção dos corpos e de raparigas.
Com a neve a derreter, os carros

ficam cobertos de um gelo mal semeado
como a barba dos velhos quando acordam
com os olhos e as ruas enlameadas pelo peso dos passos.
Partilharam a mesma garrafa,

palavras sem decência alguma,
folhas de agrião a moverem-se nos lábios
e um isqueiro como dados de gamão.
Eram dois irmãos filhos de um pai inexistente,

despediram-se para nunca mais.
A beleza branca e macia da neve (que quase sempre mata)
já não cobre a noite nem de silêncio nem de vontades ferozes
de se pegar num corpo qualquer e perfurá-lo,

como se essa vida fosse o dente que nos maça.
Ainda assim não procurou a casa, seguiu as velhas ruas de Gálata
decidido a pagar para ouvir alguém fingir prazer,
como se fingir não fosse realmente natural.

(O Tabaco de Deus, Edições Cotovia: Lisboa, 2002, pp. 37-38)

***

Esforça-te para que saibam que o
[mundo começou de vez
Estende uma palavra amável ao
[transeunte
E o luxo anacrónico de um sorriso
Àquele que falar mal de ti
Perdoa – o com a ternura de falar bem
[dele
Segue pela rua não esquecendo nunca
Essa missão dura e difícil que tens
[pela frente
Ainda que te esbofeteiam te
[espezinhem te humilhem
És e serás sempre o profeta do
[humano
Aquele que anuncia a chegada do
[mundo

***

Ninguém diria que trazias o cheiro
Dos últimos começos
Da primeira apanha de frutas das
[nossas árvores
Ninguém diria que cheiravas ao
[momento
Em que por fim
O enfermo abre a janela e deixa
[entrar o ar fresco
A prometida e bela manhã tantas
[vezes sonhada
Que faz renascer a vida e seus
[atributos
Ninguém diria que serias o Sol
E sua chama acesa bem alta
Queimando a pele humana
Desgastando todos os outros animais
Deixando o dia e que girar á sua
[volta em cinzas
Ninguém diria que tudo irá acabar
Numa cova profunda e escura
De tão escura que um ou outro
[insecto
Parecerá uma estrela

Fonte: http://manuthinkerfree.blogspot.com.br

Sobre o Autor

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...