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quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Ruy Belo

DA POESIA QUE POSSO
Há uma certa maré nas coisas humanas
Espero pelo verão como por outra vida
no inverno é que o verão existe verdadeiramente
É o dia em que segundo alguns jornais
john hoare e david johnstone iniciam
a travessia do atlântico num barco a remos
É o dia das grandes travessias
o mar a vida isso que importa?
Dios qué bueno es el gozo por aquesta manana
aqui na orla da praia mudo e contente do mar
Ao chegar aos cinquenta sessenta anos
Quando os fizer talvez pense nisso
e não agora a tanto tempo de distância
Agora sou do cúmulo da tarde
desta tarde no início do outono
ou do início desta tarde de outono
Só depois é que pergunto que fazer de tudo isto
que torna o cid meu contemporâneo
Dios qué bueno es el gozo por aquesta manana
de um dia em que me achei mais pachorrento
Manhã ou tarde? primavera ou outono?
Não sei pouco me importa
Pouco me importa o quê? Não sei
(o resto vem no pessoa
Pessoa é o poeta vivo que me interessa mais)
Basta a cada dia a sua própria alegria
e é grande a alegria quando iguala o dia

[In Homem de Palavra[s], Todos os Poemas, Lisboa, Assírio & Alvim, 3a. edição, 2009, p. 339].


segunda-feira, 23 de março de 2015

Ruy Belo

PRIMEIRO POEMA DO OUTONO
Mais uma vez é preciso
reaprender o outono -
todos nós regressamos ao teu
inesgotável rosto
Emergem do asfalto aquelas
inacreditáveis crianças
e tudo incorrigivelmente principia
Já na rua se não cruzam
olhos como armas
Recebe-nos de novo o coração

E sabe deus a minha humana mão

SEGUNDO POEMA DO OUTONO
Quantas vezes ainda verei eu cair
as pálidas leves folhas do outono?
- Não pode um homem vê-las
cair e conseguir viver
(e cá estou também eu
cá estou eu incorrigivelmente a cantar
as gastas folhas do outono
as mesmas das minhas mais antigas leituras
as primeiras e as últimas que tenho visto cair
Haverá outra poesia que não
a que cai nas tristes
folhas do outono?)
- Não pode o homem ver
cair as folhas e viver

[In Aquele Grande Rio Eufrates, Todos os Poemas, Lisboa, Assírio & Alvim, 3a. edição, 2009, pp. 106-107].

CLAUDE MONET

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Ruy Belo

POEMA DE NATAL
É dia de natal a festa da família um deus nasceu
não me sinto sozinho mas estou sozinho
toda a minha família sou só eu
Levo nas algibeiras alguns versos e caminho
quando sinto de súbito o desejo de reler o herculano
a única pessoa que nos livros e na vida hoje me faz falta
única companhia para o meu natal
Entro nas poucas livrarias de peniche
e gasto em livros de herculano o dinheiro que tenho
O herculano entre outras coisas bem sabia distinguir os tempos
sabia o que num tempo é distinto de outro tempo
tinha muitos amigos entre os seus e meus antepassados
e deu sempre à verdade o que os demais costumam dar à vida
Era casmurro abandonou um dia as casas de má nota
deixou o parlamento e a vida literária
e procurou no campo a companhia
de árvores bem mais que os homens verticais
Tinha muito mau génio fulminava com os olhos
franzia a testa e não havia nada que fazer
era teimoso o velho como antero lhe chamava
Penso nele e caminho pelas ruas de peniche
e só vão a meu lado uma má música daquelas
que ferem os ouvidos nestas quadras do natal
e a fotografia num jornal de um elevado dignitário da hierarquia
para quem o mistério do natal não sei bem que mistério ou que natal
encerra o verdadeiro humanismo novo
frase que me provoca comoções
porquanto as aliterações são dos meus pratos favoritos
Vou encerrar-me em casa a sós com herculano
que tanto quanto sei não era humanista
ou que se porventura o era o não sabia
ou não dizia ao menos ser tal coisa como
se duvidássemos que o fosse se é que o era
É dia de natal estou sozinho e penso ler o herculano
que há tanto ano já me não fazia
a falta que me faz precisamente neste dia
em que só me faz falta a sua companhia
Vamos pra minha casa ó herculano
vou fechar as janelas acender a luz
e aguardar contigo o fim do ano
Prefiro-te herculano a músicas e altos dignitários pois
nem talvez tenha já a convicção de quem anualmente
escreve pontual se não contente o seu poema de natal
(Transporte no Tempo)
[In Todos os Poemas, Lisboa, Assírio & Alvim, 3a. edição, 2009, pp. 474-475]



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Ruy Belo

O GIRASSOL DE RIO DE ONOR 
Existe juro um girassol em rio de onor 
mais importante por exemplo para mim que seja lá quem for
Eu vi hoje na andaluzia o girassol de rio de onor
à beira de uma estrada pouco antes de chegar a fernan nunez
(Amigos que passais em direcção a córdova ou aos cobres de lucena
dai-me notícias desse girassol menos brilhante sol
mas bem mais acessível pelo menos para nós que não temos raízes
mas pomos o que temos sobre a terra)
Reconheci-o logo embora há muitos anos o não visse além de o conhecer sabia ser ele natural de rio de onor e lá habitualmente residente
E ele raios o partam disse idênticas as pétalas igual a cor
é ele ó céus é ele sem tirar nem pôr
o meu amigo girassol de rio de onor
(é fácil ter na flor um verdadeiro amigo
se o não sabíeis antes desde agora que o sabeis)
Era o mesmo era ele sem tirar nem pôr o girassol de rio de onor há tantos anos visto Mas nós os que lá fomos e por lá passámos nós é que já não somos quem lá fomos
e muito menos nós que somos vivos menos os mesmos somos que tu o meu amigo com as tuas duas pernas pendentes lá da ponte sobre o rio pequena ponte e diminuto rio a dois passos dos olhos tão redondos que solares dessas duas ou três quatro no máximo crianças (meu deus essas crianças onde é hoje o seu país?)
Viajo pela espanha mas é este julgo juro o girassol pois embora não esteja em portugal
não há ainda julgo plantas nacionais
e além disso aquela terra é meio espanhola
Mas nós que assim passamos pelos campos pelos dias
nós que não temos nem nunca tivemos
coisa pequena como uns palmos de país
pomos tudo o que somos nestes seres que passamo
e nos fixamos só em certas fotografias que tiramos
Era aquele julgo juro o girassol de há anos
mas nós que como sombras por aqui passamos
porventura seremos os que éramos há anos?
Qual é ao certo o nosso verdadeiro país?
Lanço a pergunta aos verdes campos outonais da andaluzia
mas esta paisagem que tanto me diz
quem sou isso é que ela nem ninguém mo diz.


(TRANSPORTE NO TEMPO)

In Todos os Poemas, Lisboa, Assírio & Alvim, 3a. ed., 2009, pP. 448-449.




segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Ruy Belo

I
QUASI FLOS
A morte é a verdade e a verdade é a morte

Tão contente de vento, ó folha que nomeio 
como quem à passagem te colhesse, 
palavra de que tu, ó árvore, dispões para vir até mim 
do alto da tua inatingível condição

De muito longe vinda, inviável lembrança 
indecisa nas mãos ou consentida 
por alguma impossível infância 
E a alegria é uma casa recém-construída

Face melhor de todos nós, ó folha
dos álamos nocturnos e antigos visitados pelo vento,
no calmo outono, o dos primeiros frios, sais
do ângulo dos olhos, acolhes-te ao poema
como no alto mês de maio a flor imóvel do jacarandá

Não há outro lugar para habitar
além dessa, talvez nem essa, época do ano
e uma casa é a coisa mais séria da vida

(O PROBLEMA DA HABITAÇÃO - Alguns Aspectos)

In Todos os Poemas, Lisboa, Assírio & Alvim, 3a. ed., 2009, p. 139.


Pyotr Konchalovsky

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Ruy Belo

A MÃO NO ARADO
Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
e equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro

É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de Novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente

("O Problema da Habitação - Alguns Aspectos") - 1962



segunda-feira, 24 de junho de 2013

Ruy Belo

ALGUMAS PROPOSIÇÕES COM PÁSSAROS E ÁRVORES QUE O POETA REMATA COM UMA REFERÊNCIA AO CORAÇÃO

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração
[Homem de Palavra(s), 1969]

In Todos os Poemas, Lisboa, Assírio & Alvim, 3a. ed., 2009, p. 308


Pyotr Konchalovsky

terça-feira, 14 de maio de 2013

Ruy Belo

ACONTECIMENTO
Aí estás tu à esquina das palavras de sempre
amor inventado numa indústria de lábios
que mordem o tempo sempre cá
E o coração acontece-nos
como uma dádiva de folhas nupciais
nos nossos ombros de outono
Caiam agora pálpebras que cerrem
o sacrifício que em nossos gestos há
de sermos diários por fora
Caiam agora que o amor chegou

 in Aquele Grande Rio Eufrates


Vincent van Gogh

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Ruy Belo

PEREGRINO E HÓSPEDE SOBRE A TERRA
Meu único país é sempre onde estou bem
    é onde pago o bem com sofrimento
    é onde num momento tudo tenho
    O meu país agora são os mesmos campos verdes
    que no outono vi tristes e desolados
    e onde nem me pedem passaporte
    pois neles nasci e morro a cada instante
    que a paz não é palavra para mim
    O malmequer a erva o pessegueiro em flor
    asseguram o mínimo de dor indispensável
    a quem na felicidade que tivesse
    veria uma reforma e um insulto
    A vida recomeça e o sol brilha
    a tudo isto chamam primavera
    mas nada disto cabe numa só palavra
    abstracta quando tudo é tão concreto e vário
    O meu país são todos os amigos
    que conquisto e que perco a cada instante
    Os meus amigos são os mais recentes
    os dos demais países os que mal conheço e
    tenho de abandonar porque me vou embora
    porque eu nunca estou bem aonde estou
    nem mesmo estou sequer aonde estou
    Eu não sou muito grande nasci numa aldeia
    mas o país que tinha já de si pequeno
    fizeram-no pequeno para mim
    os donos das pessoas e das terras
    os vendilhões das almas no templo do mundo
    Sou donde estou e só sou português
    por ter em portugal olhado a luz pela primeira vez

[In Transporte no Tempo, 1973]

Sobre o Autor



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Ruy Belo

VESTIGIA DEI
És tu quem perseguimos pelos lábios
e tens em equilíbrio os seres e o tempo
És tu quem está nos começos do mar
e as nossas palavras vão molhar-te os pés
Tu tens na tua mão as rédeas dos caminhos
descem do teu olhar as mais nobres cidades
onde nasceram os primeiros homens
e onde os últimos desejarão talvez morrer

Tu és maior que esta alegria de haver rios
e árvores ou ruas donde serem vistos
Por ti é que aceitamos a manhã
sacrificada aos vidros das janelas
aceitamos por ti o sol ou a neblina
que faz dos candeeiros sentinelas
É para ti que os pensamentos se orientam
e se dirigem os passos transviados
e o vento que nos veste nas esquinas

És sempre como aquele que encontramos
diariamente pela rua fora
e a pouco e pouco vemos onde mora
Só tu é que nos faltas quando reparamos
que os papéis nos vão envelhecendo
e os dias um por um morrendo em nossas mãos
És tu que vens com todos os versos
És tu quem pressentimos na chuva adivinhada
quando os olhos ainda se nos fecham
embora o sono nunca mais seja possível
É tua a face oposta a todas as manhãs
onde o tempo levanta ombros de espuma
que deixam fundas rugas pelas faces

Os céus contam contigo é para teu repouso
a terra combalida e sem caminhos
Ser indecomponível teu corpo foi maior
que vítimas e oblações. Quando tu vens
a solidão cai leve como a flor do lírio
e as aves nos pauis levantam voo
e há orvalho em teus primeiros pés

Não assistisses tu a esta nossa vida
caíssem-nos os gestos ou quebrados ou dispersos
e nenhum rosto decisivo um dia fecharia
todas as palavras com que dissemos os versos

 [in Aquele Grande Rio Eufrates]

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...