DAQUI DESTE DESERTO EM QUE PERSISTO
Nenhum ruído no branco.
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra
escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra
busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras
Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto
Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto
As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito
Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco
Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total
Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
[In O Poeta na rua, Quasi Edições]
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terça-feira, 8 de setembro de 2015
quarta-feira, 27 de março de 2013
António Ramos Rosa
UMA NOVA INTERPRETAÇÃO DO MITO DE NARCISO
Quero aconchegar-me nos meus braços nocturnos
sou o meu próprio berço maternal e musical
inteiramente prolongando-se redondo
como um cavalo de veias nuas numa vagarosa torrente cálida
no radioso tremor do meu corpo nascente
pertenço-me numa onda que vai morrendo
numa ilha numa nuvem numa teia tecendo-me
pela minha língua pelas minhas mãos pela saliva
do meu sol embriagado
pelo sabor do meu corpo que se dilata como um fruto branco
como um rio que enrola e desenrola numa contínua onda
sou o que só a si se pertence e de um útero verde desponta
numa fuga amorosa
sou Narciso aquele a que se dá esse nome puro
de flor e adolescente de solidão amada
no berço da sua extasiada fonte
e me pertenço na dádiva de me dar
o que vem do fundo de um sim de um princípio divino
e é uma mulher na sua origem de irmã incestuosa
de virgem pródiga na primitiva nudez de Eva.
Quero aconchegar-me nos meus braços nocturnos
sou o meu próprio berço maternal e musical
inteiramente prolongando-se redondo
como um cavalo de veias nuas numa vagarosa torrente cálida
no radioso tremor do meu corpo nascente
pertenço-me numa onda que vai morrendo
numa ilha numa nuvem numa teia tecendo-me
pela minha língua pelas minhas mãos pela saliva
do meu sol embriagado
pelo sabor do meu corpo que se dilata como um fruto branco
como um rio que enrola e desenrola numa contínua onda
sou o que só a si se pertence e de um útero verde desponta
numa fuga amorosa
sou Narciso aquele a que se dá esse nome puro
de flor e adolescente de solidão amada
no berço da sua extasiada fonte
e me pertenço na dádiva de me dar
o que vem do fundo de um sim de um princípio divino
e é uma mulher na sua origem de irmã incestuosa
de virgem pródiga na primitiva nudez de Eva.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
António Ramos Rosa
As árvores têm o nome de árvores
e a pedra é pedra. Mas a mulher é árvore
e no pátio um sopro: uma lagartixa sem nome.
A mão desliza nos caminhos minúsculos.
A caneta escreve com a saliva das lâmpadas.
Alegria do sono numa virilha obscura.
Alguém escreve na erva e a erva é a sua camisa.
Tudo se traduz: músculos, nervos, papéis.
Come-se a epiderme frágil de um fantasma.
Quem ouve agora a voz cheia de areia?
As palavras agitam-se entre silhuetas esguias.
Dedos acariciam pedras e folhas, ventres.
Fibras e tendões produzem suor e tinta.
O alento das árvores invade os pequenos vocábulos.
Sem língua e sem dedos o poema caminha
num verde corredor para um arbusto de água.
e a pedra é pedra. Mas a mulher é árvore
e no pátio um sopro: uma lagartixa sem nome.
A mão desliza nos caminhos minúsculos.
A caneta escreve com a saliva das lâmpadas.
Alegria do sono numa virilha obscura.
Alguém escreve na erva e a erva é a sua camisa.
Tudo se traduz: músculos, nervos, papéis.
Come-se a epiderme frágil de um fantasma.
Quem ouve agora a voz cheia de areia?
As palavras agitam-se entre silhuetas esguias.
Dedos acariciam pedras e folhas, ventres.
Fibras e tendões produzem suor e tinta.
O alento das árvores invade os pequenos vocábulos.
Sem língua e sem dedos o poema caminha
num verde corredor para um arbusto de água.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
António Ramos Rosa
| Os anjos que conheço são de erva e de silêncio Os anjos que conheço são de erva e de silêncio nalgum jardim de tarde. Mas quais os mais ardentes? Feitos de mar e sol, elevam-se nas ondas, entre as mulheres de coxas tão fortes como touros O meu luto é de mesas e de bandeiras sem paz É estar sem corpo à espera, inconsolada boca, o fogo ateia o peito, a cabeça perde a fronte, o vazio rodopia, é o celeste inferno. Desço ainda um degrau com o anjo infernal, um turbilhão de ervas, um redemoinho de sangue Quem me vale agora se perdi o meu cavalo? [In Ciclo do Cavalo, Antologia Poética, Selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, 1975] |
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