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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Ivan Junqueira

Ó MEMÓRIA INSEPULTA
Ó memória insepulta nas areias
da praia a que regresso, mas não ouço
ali a voz dos ventos, o balouço
da espuma nas espáduas das sereias.
Ó memória da infância sob as teias
que as aranhas teceram rente ao poço
do jardim: ervas, lodo, o calabouço
onde se afiam os punhais, as meias
palavras, as intrigas cujas veias
vertem ódios tão duros quanto um osso
e tudo o que separa, fundo fosso,
as coisas puras das mais vis e feias.
Ó memória que augura: ainda és moço,
e a velhice é tão só outro alvoroço.

(In Essa música, Rio de Janeiro: Rocco, 2014, p. 47)




Mariana Ianelli: Um legado de afeto e pensamento do poeta e crítico Ivan Junqueira

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Ivan Junqueira

PENÉLOPE: CINCO FRAGMENTOS

I
Pois foi aqui, nestas areias, 
entre estes íngremes granitos, 
que o aprisionaste em tuas teias
de astutos fios infinitos.

Sim, foi aqui. Ele partira
de sua ítaca nupcial.
Trirremes rumo a Troia, a pira
dos deuses no ermo litoral.

Por três anos, da mesma lã,
fiaste em surdina a infinda tela.
Tudo era espera, ó tecelã!
No horizonte nem uma vela.

Agulha e linha, o teu destino
era o ir e vir daquele fio,
pêndulo amargo, áspero sino
vibrando inútil no vazio.

O que é de Ulisses, o Odisseu,
suspenso no arco das espumas?
O que é do herói, o que é do teu
esposo envolto pelas brumas?

Sob o penhasco que anoitece,
o som das ondas vai rolando.
Penélope tece e destece.
O mar é onde, o tempo é quando.


II
Diz a lenda que o cenário 
era fluído, imaginário:

À sua roda, os aqueus, 
e ela, virtuosa, entre véus.

Dá-la-ia o pai ao que fosse 
o mais arguto e mais doce,

ao que mais luz ostentasse 
no aço da astúcia e da face.

Levou-a Ulisses nos braços, 
entre as algas e os sargaços;

levou-a. O gume das vagas 
se fundia ao das adagas.

Levou mar afora a esposa
e agora em Ítaca a pousa

como um pássaro glorioso, 
em meio às plumas do gozo.

Penélope o olha no rosto:
o herói faísca ao sol-posto.

De Icário a esplêndida filha 
põe o pé e o cetro na ilha.


III
Cingida pelas ondas, ítaca flutua
como a côncava nau de um rei no mar violeta.
Além das vinhas e olivais, a escarpa nua,
a névoa, a espuma, o espaço, a dura linha reta.
Em silêncio, Ítaca recorda: havia um poeta,
e um tempo de discórdia sob o sol e a lua.
E uma rainha havia. E havia mais: a sua
volúpia de estancar as horas na ampulheta.
Errava Ulisses sobre o imenso e rude oceano,
e em seus domínios os aqueus, agora em bando,
iam-lhe os bois e os bens aos poucos devorando.
Absorta e fiel, os dedos ágeis sobre o pano,
Penélope tecia o intérmino sudário.
E o sono lhe era o esposo no átrio solitário.

IV
We are the hollow men.
T. S. Eliot

Nós somos os pretendentes,
o espírito ermo de arrojo,
a cupidez entre os dentes,
a fronte ungida de nojo.

Nossas vozes sem doçura
são como um coro de esgares
cuja surda partitura
suja o branco dos altares.

Não temos nome ou semblante.
Somos todos uma escória,
Uma anônima e arrogante
Poeira rala e sem memória.

Em nossas mãos, dardo ou lança
nada valem: são brinquedos;
mais do que nós, uma criança
lhes sabe o gume e os segredos.

Aqui estamos, ó rainha,
e não há quem nos demova;
aqui estamos, na bainha
de teu corpo e tua alcova.

Ai de nós, homens sem flama!
A esposa fiel trapaceia:
fia ao sol a infinda trama
e à noite desfaz a teia.

Foi-se Ulisses: sua nau
afundou no mar vinhoso.
Quando, ó Penélope, o sal
provaremos de teu gozo?

Nós somos os pretendentes,
a alma ambígua, o olhar oblíquo
— somos o cume e as vertentes
do que há de mais iníquo.

V
Só. Estou só. O mar que me circunda
é um dédalo de arcaicas escrituras,
de alígeras e esfíngicas criaturas
cujo perfil o azul do oceano inunda.
Meu rei se foi. Em que ânforas e agruras
agora, em desespero, ele se afunda?
Que ninfa o enfeitiçou, que água profunda
lhe enche de horror as órbitas escuras?
Ó doce e astuto Ulisses, tuas vinhas
sangram de dor, definham as espigas,
o ouro esfarela, enfezam as olivas
e a terra seca engole os bois que tinhas.
Só. Estou só. Tudo em redor esquece:
o olho que chora, a alcova, a mão que tece.

Junqueira, Ivan. Poemas Reunidos, Rio de Janeiro, Ed. Record, 1999, p. 168-175.



sábado, 15 de dezembro de 2012

Ivan Junqueira

ELES SE VÃO
Eles se vão, os olhos no infinito,
a alma em vigília, o tíbio pensamento
suspenso no ar como um emblema e um grito.

Eles se vão, eles se vão. As mãos
são flâmulas em fluido movimento
à procura de duendes e de irmãos.

Eles se vão, esguios bailarinos
que dançam entre as vértebras do vento
ao som arcaico de órficos violinos.

Sortilégios, ambíguos e secretos,
trazem na fronte o alfanje do tormento
e são-lhe os passos pássaros inquietos.

Nenhum palmo de terra os enraíza,
nem lhes concede gozo ou sofrimento,
e o efêmero em seu visgo os eterniza.

Nada os detém, nem rogos nem promessas,
e os dois extremos, morte e nascimento,
lhes sabem como imagens às avessas.

Cristais de um brilho esfíngico e assassino
ofuscam-lhes o rosto sonolento
quando os acorda o fel do sol a pino.

E a tarde escorre lenta como um rio
que os banha no torpor do esquecimento
ou de algo mais espesso e mais sombrio.

De si não deixam mais do que um indício,
como se à luz de um vago testamento
o fim lhes desse o frêmito do início.

Eles se vão. O céu não lhes responde
e o inferno não lhes ouve um só lamento.
Eles se vão. Mas para onde?




Ivan Junqueira. Poemas Reunidos, São Paulo:Record, 1999, p. 241 

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Ivan Junqueira


O POEMA


Que será o poema,
essa estranha trama
de penumbra e flama
que a boca blasfema?

Que será, se há lama
no que escreve a pena
ou lhe aflora à cena
o excesso de um drama?
Que será o poema:
uma voz que clama?
Uma luz que emana?
Ou a dor que o algema?

Fonte: Poemas Reunidos, Editora Record: São Paulo, 1999, p. 215

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Ivan Junqueira



QUASE UMA SONATA


É música o rigor com que te moves
à fluida superfície do mistério,
os pés quase suspensos, a aérea
partitura do corpo, seus acordes.
Espaço e tempo são teu solo. E colhem,
não tanto a luz que entornas, mas o pólen
com que ela cinge e arroja as coisas mortas
além da espessa morte que as enrola.
E música o silêncio que te cobre
quando lampeja à noite tua nudez,
em franjas derramada sobre o leito
das águas, onde as algas te incendeiam
porque semelhas, mais que o mar profundo,
o intemporal princípio e fim de tudo.

De Opus Descontínuo (1969-75)

domingo, 8 de abril de 2012

Ivan Junqueira

ROSTO


Teu rosto em fuga na vidraça
é uma gota que escorre devagar,
tão devagar que o tempo, avaro,
sequer ensaia um magro passo.
Uma gota que cai, sem lastro,
leve como a asa de um pássaro,
mas tão repleta de presságios
que sinto o fio de uma adaga
rasgar-me a carne das ilhargas.
Por que, às vésperas do nada,
a alma desperta, arrebatada?

Ivan Junqueira

ANTES QUE O SOL SE PONHA




Antes que o sol se ponha e seja tarde,
e o azul crepuscular me deite a garra,
e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra
ou mortalha que o corpo me resguarde;
antes que murche a pétala na jarra,
e eu cale, para sempre, sem alarde,
e tudo o que me coube, por covarde,
não mais recorde a relva que se agarra
às últimas raízes da existência;
antes que eu cerre os olhos e adormeça,
e em minhas próprias células esqueça
as chamas que me arderam na consciência;
antes que a luz regresse e que amanheça,
e eu a mim mesmo já não me conheça.


Ivan Junqueira. Poemas Reunidos, Record:São Paulo, 1999, p. 244

sábado, 7 de abril de 2012

Ivan Junqueira

Assusta-me essa inóspita brancura
Assusta-me essa inóspita brancura
com que o mudo papel me desafia.
Assustam-me as palavras, a grafia
dos signos entre os quais ruge e fulgura,
como um rio que escava a pedra dura,
a expressão de quem busca, em agonia,
o sentido da fáustica e sombria
angústia de que o ser jamais se cura.
Assombram-me as medusas da loucura,
as pancadas no crânio, a garra fria
que a morte deita em nós qual uma harpia
sedenta, odiosa, hedionda, infausta, escura.
Assusta-me a algidez da terra nua
que é a nossa única herança: a minha e a tua.

[Ivan Junqueira. Poemas Reunidos, Record:São Paulo, 1999, p. 241]













Ivan Junqueira

CARPE DIEM

O duro travo desta hora:
o travo é o mesmo,
diverso embora
a hora
a hora
hera agora
além do tempo dorme
nos relógios da memória

Duro é o travo deste acorde,
aérea forma, áspero
espasmo de órgãos góticos

(e a hora, no adro, se desfolha)

Dura laje, duro claustro
(outrora mártires e apóstolos
aqui, na pedram se rojaram)
os anjos zombam de Deus
napalm sobre o Gólgota

E a Cruz sem hóspedes

A dura bênção desta hora
ladainha litania
sem misericórdia

(Kant, ao canto
esquivo da estante,
indaga se é possível
a metafísica)

A dura bênção desta hora

toda a esperança
ó ave implume
cega e torta
é sempre espera
sem resposta

E o tempo cruza lento a noite morta

[Poemas Reunidos, Record:São Paulo, 1999, p. 94]


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...