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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Elizabeth Bishop

GALOS
Quatro horas. De repente,
no azul metálico da noite, a gente
ouve o primeiro galo dar um grito estridente

bem junto ao muro
do mesmo tom azul-escuro,
e logo vem um eco, seco e duro,

de algum lugar distante,
e outro, da cerca logo adiante,
e mais outro, horrendo e claudicante

qual fósforo molhado,
na horta, bem aqui ao lado,
acende, e incendeia toda a cidade.

Notas ferinas
vêm da porta da latrina
e do galinheiro coberto de titica,

e, sempre admirados
pelas esposas excitadas,
os galos testam os esporões afiados,

fixam o o olhar parvo,
escancaram o bico ávido
e soltam o velho grito irrefreável.

Estufam o peito
amedalhado de penas, feito
para dar ordens e espalhar o medo

entre as bobinhas
cortejadas com louvaminhas
e depois desprezadas como galinhas;

das gargantas nuas
espalha-se uma ordem absurda
pela cidade inteira. Um galo nos perturba

em nossos quartos,
lá de um galpão enferrujado
ou de uma cerca feita de velhos estrados,

ou do telhado cinzento
de uma igraja, duplo vivente
do galo de metal do cata-vento,

galos oriundos
dos becos mais imundos
traçando verdadeiros mapas-múndi:

alfinetes vivos
de vidro colorido,
azuis, verdes, laranja, decididos

a proclamar
alto e bom som, e sem parar,
a quem os ouça: "Aqui é o meu lugar!".

Sempre gritando:
"Chega de sonhos! Todos levantando!".
Galos, o que vocês estão projetando?

Na Antigüidade
vocês já combatiam à saciedade
quando ofertados a alguma divindade,

e eram tidos
por "muito aguerridos..."
Com que direito agridem nossos ouvidos

com ordens feras
e nos despertam nesta terra
de amor malquisto, arrogância e guerra?

A coroa feia
na cabecinha altaneira
é vermelha de sangue de guerreiro.

Essa excrescência
soma-se à viril eloquência
de beleza vulgar da iridescência.

Em pleno ar,
aos pares, começam a se atracar.
Eis a primeira pena a voar.

Um, moribundo,
ainda briga, furibundo,
disposto a enfrentar sozinho o mundo.

Outro jaz na calçada,
porém suas penas arrancadas
continuam caindo, ensanguentadas;

seu canto tremendo
já afundou no esquecimento.
Seu corpo se mistura ao excremento,

os olhos duros
abertos, as penas já escuras.
Suas esposas jazem no mesmo monturo.

Maria Madalena
pecou com a carne apenas,
o que, afinal, é falta bem pequena

se comparada
com a de Pedro, cujo pecado
foi do espírito, ali "entre os guardas".

Numa escultura antiga
a cena inteira é resumida:
Cristo olha, como quem não acredita,

para Pedro,
que leva aos lábios um dedo,
petrificado de espanto e de medo.

Mas no intervalo
entre os dois homens sem fala,
talhado numa coluna, vê-se um galo,

e, como lembrete,
a inscrição gallus canit; flet
Petrus. Porém o episódio promete

esperança: Pedro chora,
e suas lágrimas escorrem
galo abaixo, e perlam suas esporas.

Lavado em pranto, qual
uma relíquia medieval,
ele espera. Pedro, coitado, mal

sonha que esses tão
temidos cocorocós hão
de tornar-se um dos emblemas do perdão,

um cata-vento
no alto de cada templo,
e que diante do Latrão haverá sempre

sobre um pilar
um galo de bronze, a lembrar
ao papa e a quem por lá possa passar

que até a fraqueza
do primeiro príncipe da Igreja
foi perdoada, e para que finalmente veja

mesmo o mais cego
que "cocorocó" tem outro emprego
além do simples "eu nego, nego, e nego".

E quando
o dia vem raiando,
uma luz aos poucos vai dourando

na diagonal
os brócolis no quintal -
como que a noite terminou tão mal? -

e além das folhinhas,
doura o ventre das andorinhas
e as nuvens que traçam, retilíneas,

o dia em seu papel.
Já os galos calaram o escarcéu.
E, "para ver o fim", surge no céu

o sol renascido,
fiel como um inimigo
ou como (dá no mesmo) um amigo.

[In Poemas Escolhidos de Elizabeth Bishop, Seleção, tradução e textos introdutórios de Paulo Henriques Britto, São Paulo: Companhia das Letras, 2012, pp. 129-137]




quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Elizabeth Bishop

ANÁFORA
In memoriam de Marjorie Carr Stevens

Cada dia, cerimonioso,
começa com pássaros, e fábricas
a apitar, estrepitosas;
diante de céus aurialvos
tão claros nossos olhos se abrem,
e por um instante perguntamos:
“De onde esta força, esta melodia?
Para qual inefável criatura
que não vimos, foi feito este dia?”
Logo, logo ela surge, e assume
          sua natureza terrena
          e cai vítima da intriga,
          sob o
ônus da memória,
          da mortal, mortal fadiga.

Mais lentamente, aparecem
os rostos sarapintados,
condensam sua luz, e a escurecem;
apesar de tantos sonhos
gastos nela em tal olhar,
atura nosso uso e abuso,
mergulha no fluxo de corpos,
mergulha no fluxo de classes
até chegar ao mendigo exausto
sem livro, sem luz, no lusco-fusco,
          imerso em estupendos estudos:
          este incandescente evento
          de cada dia em constante
          constante consentimento.

[In Poemas Escolhidos de Elizabeth Bishop, Seleção, tradução e textos introdutórios de Paulo Henriques Britto, São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 161]


quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Elizabeth Bishop

SAGACIDADE
“Espere. Vou pensar um minuto.”
E no mesmo minuto vemos
Eva e Newton, maçãs na mão,
Moisés, com a Tábua erguida,
Cofiando a cachola Sócrates
E muitos outros helenos,
Todos acudindo em corrida
À sua testa franzida.
Então você faz um trocadilho brilhante
Rimos e aplaudimos, ruidosas.
Assustados, vão embora os ajudantes.
E no espaço onde vagueiam as conversas ociosas
Surpreendemos — lá atrás, muito distante —
O nascimento radioso de uma estrela petulante.
- Tradução de Carmen L. Oliveira - 

[Fonte: Jornal Rascunho, edição 162, outubro de 2013].


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Elizabeth Bishop

PARIS, SETE DA MANHÃ
Viajo a cada um dos relógios do apartamento:
histriões, alguns ponteiros indicam uma direção,
alguns a outras, a partir de seus ignorantes rostos.
O tempo é uma Etoile;  as horas divergem tanto
que os dias são travessias ao redor dos subúrbios,
círculos ao redor de estrelas, círculos que se sobrepõem.
A pequena escala demi-ton dos climas do inverno
é uma asa de pombo aberta.
O inverno vive sob a asa de um pombo, de um pombo morto e com
[as plumas viscosas.

Olhe para baixo, no pátio. Todas as casas
estão construídas assim, com urnas ornamentais
no cimo das mansardas onde os pombos
passeiam. É como introspecção
o olhar para o interior, ou como retrospecção,
uma estrela dentro de um retângulo, uma recordação:
este quadrado vazio poderia ter estado lá.
— Os fortes de neve da infância, erigidos em invernos mais
[brilhantes,
poderiam ter assumido esta proporção e converter-se em casas;
os poderosos fortes de neve de quatro ou cinco andares,
se resistissem à primavera como os de areia às marés,
seus muros, sua forma, não se teriam dissolvido e morto,
mas somente teriam um se sobreposto ao outro, tornados pedras,
agora acinzentados e amarelecidos como são as pedras.

Aonde as munições, as bolas de canhão em pilhas,
com seus corações de gelo como estilhaços de estrelas?
Este céu não é um pombo-correio-guerreiro
que sabe safar-se da intersecçâo de intermináveis círculos.
É um céu morto, ou o céu do qual caiu um pombo morto.
Suas cinzas, ou plumas, estão guardadas nestas urnas.
Quando se fundiria a estrela, ou teria ela sido capturada
pela sequência de quadrados e quadrados, de círculos e círculos?
E os relógios, saberão? Estará a estrela lá embaixo,
a ponto de despencar sobre a neve?


Bishop, Elizabeth. Poemas. tr. e intr. de Horácio Costa, São Paulo, Companhia das Letras, 1990, pp. 51-53 


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...