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terça-feira, 1 de julho de 2014

Miguel Torga

S. Martinho de Anta, 28 de setembro de 1965.

UM POEMA
Um poema, poeta!
É o que a vida te pede.
A fome diligente
Colhe
E recolhe
Os frutos e a semente
Doutros frutos.
Junta à fecundidade
Da natureza
Os frutos da beleza...
Versos grados e doces
Na festa do pomar!
Versos, como se fosses
Mais um ramo, a vergar.

Coimbra, 5 de Novembro de 1965.

CAUDAL
Ergo a voz no silêncio hostil do mundo,
Como um galo que canta a horas mortas.
Nem me posso calar,
Nem posso amortecer
A força que faz dela um desafio.
A fonte brota, e tem logo ao nascer
O ímpeto dum rio.
E o rio não tem foz dentro de mim.
Some-se às vezes, não sei como e onde,
Mas reaparece.
E retoma de novo o curso desabrido,
Mais largo, mais barrento
E violento,
E sem que eu lhe descubra o íntimo sentido.

Monforte do Alentejo, 30 de Novembro de 1965-

SERÃO
Lento, o poema
Vai ardendo e abrindo
Na fogueira.
E ponho-me a cantá-lo,
Sonolento:
Lume alentejano
De lenha de azinho;
Calor do calor...
O sol da charneca,
Depois de ser tronco,
Depois de ser rama,
Depois de cortado,
Depois de secar
À própria torreira,
Ainda a brilhar
No céu da lareira!

[In Diário X, In Poesia Completa, Vol. II, Lisboa, Dom Quixote, 2007, p. 308-309]

quinta-feira, 20 de março de 2014

Miguel Torga

FEDERICO GARCIA LORCA
Garcia Lorca, irmão:
Sou eu, mais uma vez...
Venho negar à humana condição
A humana pequenez
Da ingratidão.

Venho e virei enquanto houver poesia,
Povo e sonho na Ibéria.
Venho e virei à tua romaria
Oferecer-te a miséria
Duma oração lusíada e sombria.

Venho, talefe branco da Nevada,
Filho novo de Espanha!
Venho, e não digas nada;
Deixa um pobre poeta da montanha
Trazer torgas à rosa de Granada!

Indomável cigano
Dos caminhos do tempo e da ventura,
Sensual e profano,
O teu génio floresce cada ano...
Venho ver-te crescer da sepultura!

Bruxo das trevas onde alguém te quis,
Nelas arde a paixão do que escreveste!
Sete palmos de terra, e nenhum diz
Que secou a raiz,
Que partiste ou morreste!

Uma luz que é o oceano da verdade
Abre-se onde os teus versos vão abrindo...
A eternidade,
Na pureza da sua claridade,
Sobre o teu nome, universal, caindo...

E o peregrino vem.
Reza devotamente,
Põe no altar o que tem,
E regressa mais livre e mais contente...
Assim faço, também!

[In Poemas Ibéricos, In Poesia Completa, Vol. I, Lisboa, Dom Quixote, 2007, pp. 292-293]

Joaquin Sorolla



sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Miguel Torga

Coimbra, 6 de Julho de 1963. 
Poesia
Não te quero trair 
Com palavras cansadas.
Abstracta presença
No seio da concreta natureza,
Voz de pureza
No silêncio imundo,
Luz que nas madrugadas 
Anuncias mais luz,
Rigor da imprecisão,
Nenhum verso traduz 
Sequer
A doce melodia do teu nome.

Por isso, quando todos os sentidos 
Te desejam visível, figurada,
Rasgo dentro de mim o véu 
De não sei que lonjura,
E fico a namorar a curvatura 
Da linha desenhada 
Pelo gume do céu 
A cortar a planura 
Imaginada...

In Diário IX, In Poesia Completa, Vol. II, Lisboa, Dom Quixote, 2007, p. 239

konstantin Kornakov



domingo, 21 de julho de 2013

Miguel Torga

À Beleza
Não tens corpo, nem pátria, nem família, 
Nem te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos, 
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.

Es a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim! És o teu nome!
Um milagre, uma luz, uma harmonia, 
Uma linha sem traço...

Mas sem corpo, sem pátria e sem família, 
Tudo repousa em paz no teu regaço!

In Odes (1946), In Poesia Completa, Vol. I, Lisboa, Dom Quixote, 2007, p. 231

Amedeo Modigliani


quarta-feira, 29 de maio de 2013

Miguel Torga

Conquista

Livre não sou, que nem a própria vida 
Mo consente.
Mas a minha aguerrida 
Teimosia
É quebrar dia a dia 
Um grilhão da corrente.


Livre não sou, mas quero a liberdade. 
Trago-a dentro de mim como um destino. 
E vão lá desdizer o sonho do menino 
Que se afogou, e flutua 
Entre nenúfares de serenidade 
Depois de ter a lua!

In Cântico do Homem, In Poesia Completa, Vol. I, Lisboa, Dom Quixote, 2007, p. 394

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...