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sábado, 23 de maio de 2015

Giacomo Leopardi

A CALMA DEPOIS DA TEMPESTADE
Passou a tempestade:
Ouço a aérea alacridade, e a galinha
Que volta e recomeça
Seu ciscar costumeiro. Eis que o céu limpo
Ressurge do poente, na montanha;
Alegra-se a campanha
E claro o riacho surge lá no vale.
Todo peito se alegra, a todo lado
Retornam os rumores
E o labor costumado.
O artesão, fito o olhar no úmido espaço,
Canta, empunhando a obra,
Na porta. Alegremente
Sai a aldeã a recolher a água
Da tormenta recente.
A voz sempre presente
Do homem das ervas erra
Pelas trilhas de terra.
Eis o Sol de retorno, que irradia
Nos montes e casais. Cada família
Nos balcões e terraços logo assoma:
E, da estrada molhada, se ouve ao longe
Chocalhos a tinir,- o carro chia
Do viajante que o rumo enfim retoma.

Em toda alma um ardor
Doce, se espalha enfim,
Quando é, a vida, assim?
Quando com tanto amor
No estudo o homem se alenta?
Ou à obra torna? ou coisa nova intenta?
Quando dos males seus se lembra menos?
Prazer, filho da ânsia;
Vão deleite, que é fruto
Do passado temor, onde tremeu
Quem, não amando a vida,
Teve medo da morte,
Onde, em longo tormento,
Muda, fria, transida,
Toda gente arfa e sua, apenas vendo
Cobrir-nos de uma vez
Raios, granizo e vento.

Natureza cortês,
Eis teu dom portentoso,
São esses os deleites
Que ofertas aos mortais. Fugir de penas
Entre nós é um gozo.
Penas espalhas de mão cheia, a dor
Surge espontânea, e se um prazer, acaso,
Por monstruoso milagre algumas vezes
Nasce da angústia, grande é o ganho. Impura
Raça aos Céus cara! Já és feliz bastante
Respirando um instante
De alguma dor; bendita
Se a ti de toda dor a morte cura.

[In Alexei Bueno, Cinco século de Poesia, São Paulo, Record, 2013, p. 43-45]

HEIDI MALLOT


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Giacomo Leopardi

A NOITE DO DIA DA FESTA

Noite sem vento, doce, clara. A lua
Flutua sobre tetos e pomares,
Serena, revelando ao longe, os montes.
As ruas e os caminhos silenciam,
Minha amada. Pelos balcões, são raros
Os lampiões, um sono suave invade
Os aposentos, você dorme, nada
Perturba o seu repouso, muito menos
A chaga que me abriu dentro do peito!
Mas você dorme, e ao céu de aspecto ameno
– E à antiga natureza onipotente
Que me vota à aflição – dirijo os olhos.
“Para você, nem mesmo uma esperança;
Para os seus olhos, só um brilho: lágrimas”,
Ela me disse. Mas que dia magnífico!
Dormem danças e jogos, mas, em sonho,
Talvez para você desfilem todos
De quem gostou ou aos quais agradou
(Menos eu, que nesse rol não compareço).
Mas se calculo os dias que me restam,
Vejo-me aos gritos, a rolar na terra:
Que vida horrível numa vida jovem!
Vai pela rua o canto solitário
De quem já trabalhou, passou na tasca,
E volta tarde para a casa pobre.
Vai-me apertando, amargo, o coração,
Só penso em como tudo passa e passa,
Quase sem deixar rastro. Já se foi
O dia de festa, e agora chega o dia
Normal, onde tudo se escoa no tempo,
Todos os atos humanos. E o estrondo
Dos antigos, as vozes dos heróis
De ontem, onde estão? e o grande império,
E as armas e o fragor que faz tremer
Os caminhos da terra e do oceano?
Tudo é paz e silêncio. O mundo
Tudo aquieta. Já não se pensa em nada.
Quando criança, vinha a espera ansiosa
Do dia de festa, que findava logo.
Sofrendo, comprimia o travesseiro,
Ao ouvir pela noite aquele canto
Que ia morrendo, aos poucos, lentamente,
Morrendo e me apertando o coração.

(Tradutor:  Décio Pignatari)

segunda-feira, 3 de março de 2014

Giacomo Leopardi

FRAGMENTO DO GREGO, DE SIMÔNIDES
Todo o mundano evento
De Jove está nas mãos, de Jove, ó filho,
Que, por seu próprio intento,
Tudo traz já contado.
Mas de um lugar passado
Nosso cego pensar se alegra e apura,
Se bem que o humano rito,
Como prepara o céu nossa ventura,
De dia em dia dura.
Nutre a nós todos a bela esperança
De semblante bendito
Onde cada um se cansa:
Um busca a aurora mansa,
Um outro a idosa meta;
E nada em terra segue
Que nos anos a vir extraordinários
Com Pluto e os deuses vários
A mente não prometa.
Eis que antes que a esperança ao porto chegue
Um traz de velho a face 
Outro por doença o turvo Letes traga;
Este o ríspido Marte, aquele a vaga
Do pélago arrebata,- outro desfaz-se
De árduos cuidados, o outro, um nó atando
Ao pescoço, dentro do chão se encerra.
Assim de muitos ais
Aos míseros mortais
Bando vário e feroz dissolve e aterra.
Antes certo eu diria
Que um sábio, livre do vulgar error,
Sofrer não quereria
Nem poria na dor
E no seu próprio mal tamanho amor.

[In Alexei Bueno, Cinco século de Poesia, São Paulo, Record, 2013, p. 57]




domingo, 29 de setembro de 2013

Giacomo Leopardi

A SI MESMO
Enfim repousas sempre
Meu lasso coração. Findo é o engano
Que perpétuo julguei. Findou. Bem sinto
Que em nós dos caros erros
Mais que a esperança, o próprio anelo é extinto.
Repousa sempre. Muito
Palpitaste. Nenhuma coisa vale
Teus impulsos, nem digna é de suspiros
A terra. Nojo e tédio
É a vida, nada mais, e lama é o mundo.
Repousa. E desespera 
A última vez. À nossa espécie o fado 
Não deu mais que o morrer. Enfim despreza 
A natureza, o rudo
Poder que, oculto, o comum dano gera 
E a vacuidade sem final de tudo.

[In Alexei Bueno, Cinco século de Poesia, São Paulo, Record, 2013, p. 47]

Sobre Giacomo Leopardi


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...