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sábado, 17 de maio de 2014

Juan Gelman

PRESENÇA DO OUTONO
Devia ter dito te amo.
Mas estava o outono fazendo sinais,
cravando suas portas em minha alma.

Amada, tu, recebe-o.
Vai buscá-lo, transporta a tua doçura
por sua doçura-mãe.
Vai buscá-lo, vai, outono duro,
outono suave em quem reclino meu ar.

Vai buscá-lo, amada.
Não sou eu quem te ama este minuto.
É ele em mim, seu invento.
Um lento assassinato de ternura.

[In Amor que serena, termina? Trad. Eric Nepomuceno,  Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 87]



Juan Gelman

ORAÇÃO
Habita-me, penetra-me.
Seja teu sangue um só com meu sangue.
Tua boca entre em minha boca.
Teu coração aumente o meu até explodir. 
Desgarra-me.
Caias inteira em minhas entranhas.
Andem tuas mãos em minhas mãos.
Teus pés caminhem em meus pés, teus pés. 
Queima-me, arde-me.
Cubra-me com tua doçura.
Banha-me tua saliva o paladar.
Estejas em mim como está a madeira no palito. 
Que já não posso mais assim, com esta sede 
queimando-me.

Com esta sede queimando-me.

A solidão, seus corvos, seus cães, seus pedaços.

[In Amor que serena, termina? Trad. Eric Nepomuceno,  Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 39]

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...