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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Antonio Tabucchi

EXCERTO DE TRISTANO MORRE
A propósito de elefantes, de todos os rituais fúnebres que as criaturas deste mundo excogitaram, sempre admirei o dos elefantes, que têm uma estranha forma de morrer, sabia? Quando um elefante sente que chegou a sua hora afasta-se da manada, mas não o faz sozinho, escolhe um companheiro que vá com ele, e partem. Avançam pela savana, muitas vezes trotando, depende da urgência do moribundo... e caminham, caminham, podem fazer quilômetros e quilômetros, até o moribundo decidir que é ali que ele quer morrer, então dá algumas voltas e traça um círculo, porque sabe que chegou a hora de morrer, leva a morte dentro de si, mas tem de colocá-la no espaço, como se se tratasse de um encontro, como se quisesse olhar a morte de frente, fora dele, e lhe dissesse bom-dia, senhora morte, cheguei... trata-se de um círculo imaginário,naturalmente, mas precisa dele para geografizar a morte, por assim dizer... e só ele pode entrar naquele círculo, porque a morte é um assunto privado, muito privado, e ninguém pode entrar lá senão quem está morrendo... nesse ponto pede ao companheiro que o deixe, adeus e muito obrigado, e o outro regressa à manada... Li Pascal quando era novo, e gostava, nesse tempo, especialmente pelo seu jansenismo, tudo aquilo era ou branco ou preto, tudo muito reconhecível, você há de perceber que naquele momento a vida era em preto e branco, lá na serra, escolhas precisas tinham que ser feitas, ou com uns ou com outros, ou preto ou branco, até a vida se encarregar de introduzir o claro-escuro... Seja como for, sempre gostei daquela definição de Pascal, uma esfera cujo centro está em toda parte e a circunferência em lado nenhum, lembra-me os elefantes... E de certa maneira isto tem a ver com aquilo de que o encarreguei... como lhe disse há pouco, você vai precisar de paciência, porque a minha hora ainda está para chegar, mas foi por isso que você acedeu de imediato a vir trotar comigo, para acompanhar o moribundo... Só eu conheço o meu círculo, sei quando há de chegar o momento, é certo que quem nos escolhe é a hora, mas também é certo que se tem de concordar que ela nos escolha, a decisão é dela, mas no fundo também tem de ser nossa, como se fosse nossa a escolha e nos limitássemos a capitular frente a ela... Por enquanto vamos trotando juntos, aparentemente seguimos em frente, embora na realidade estejamos recuando, porque eu sou um elefante que o chamou para recuar, mas recuo para chegar ao meu círculo, que fica à minha frente.Você entretanto ouve e escreve, quando chegar a hora da despedida eu digo.

[In Tristano morre, Rio de Janeiro: Rocco, 2007, pp. 8-9]

By SEBASTIÃO SALGADO

sábado, 12 de julho de 2014

Antonio Tabucchi

ESTÁ FICANDO TARDE DEMAIS - Excerto

Um amigo meu defende a ideia de que o suicídio, pelo fato de ser uma decisão radical, paradoxalmente, no fundo é mais fácil, um gesto, e pronto. Bem mais difícil é o silêncio. Este pressupõe paciência, constância, teimosia; e sobretudo, se confronta com o dia-a-dia da nossa vida, os dias que nos restam, um depois do outro, realmente longos com as suas pequenas horas, é como uma promessa, é de vidro, pode quebrar-se com um nada, e o seu inimigo é o tempo. Como vão as coisas. E o que as guia: um nada. Foi por acaso. Entrei no corredor daquela taberna por simples curiosidade, para olhar. A sala era sóbria, com cadeiras de palha amontoadas umas sobre as outras, e as mesas colocadas num canto. Havia fotografias nas paredes e comecei a olhá-las. Naquele vilarejo veneram duas pessoas: uma é Venizelos, porque nasceu por aqueles lados e ali teve o seu quartel-general durante as batalhas; e vê-se em retratos de quando era jovem e jornais amarelecidos que representam em cor sépia o seu amor pelo povo. O outro é Kazantzakis, porque parou neste vilarejo quando uma das suas muitas infelicidades o perseguia, e aqui o acolheram. É um escritor de que nunca gostei muito, talvez porque nos parecemos na soberba, só que nos micromeandros do nosso ser os caminhos da soberba são mais infinitos que os caminhos do Senhor, e no seu caso a soberba escolheu o caminho da coragem e do orgulho de tê-la. O meu é um caso totalmente diferente, como você bem sabe, é quando o orgulho pode optar pela covardia. Além do seu retrato, vestido de homem de bem (paletó, gravata, bigode bem cuidado, brilhantina, olhar profundo de quem está olhando a máquina fotográfica como se olhasse nos olhos a Verdade), havia também a fotografia do seu túmulo (se assim o podemos chamar), porque a sua Igreja não acolheu no cemitério um homem que lhe parecia blasfemo, e a sua cidade, Herakleion, enterrou os despojos na muralha que a circunda, e escreveu na lápide uma frase sua que o retrata fielmente, da cabeça aos pés: “Não acredito em nada. Não espero nada. Sou livre.” Veja como vão as coisas, e o que as guia, basta uma frase assim para destruir o propósito de uma pessoa como eu. O silêncio é mesmo frágil.

[In Está ficando tarde demais, tradução de Ana Lúcia Ramos Belardinelli, Rio de Janeiro, Rocco, 2001, p. 23]

SOBRE ANTONIO TABUCCHI

Mikko Lagerstedt


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...