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sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Dora Ferreira da Silva


Moras num antiquário e nunca estás.
Um gato sonolento recebe instáveis visitantes
mas eu fico à espera. Conheço cada fresta da parede
suas manchas e os objetos estranhos que ninguém
pensa comprar: a pátina os cobre de suave indiferença.
Parecem meteoros expulsos de espaços
infinitos e eu sinto a esperança de ver-te
ainda que um só momento — ausente de ti mesmo
e a sós contigo. Aqui estou de joelhos. Imóvel.
Julgarias que lá estava — se tanto — uma pequena pirâmide
silenciosa. Ver-te-ia de pálpebras fechadas
teu modo de estar a sós tua possível neurastenia
debatendo-se no antiquário entre objetos.
E quando te fosses quem sabe desligarias
as pesadas correntes que me prendem.

[In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 1999]

sábado, 16 de março de 2019

Dora Ferreira da Silva

Habitas meu coração: barbas de rei assírio
olhar de extensões alheias
a tempo e medida.
Tua voz tem asas de falcão e pousa
nas torres mais altas do meu ser
onde jamais me aventurei. É minha a tua solidão.
Sirvo-te em silêncio e às vezes
como a uma criança me apertas em teu peito:
acaricio então tua face estranho rei.
Outras vezes ouço passos ecoando
no enlace das colunas em seteiras escadas. Se grito
teu nome – és mil ressonâncias e seu eco em mim.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Dora Ferreira da Silva

ÁRTEMIS

Entre espadas cruzadas de verdes ramas
a nenhum olhar doada, senão às claras pupilas que a
[circundam,
o fogo branco do corpo queima feixes de água
e à seta mais ligeira precede,
desferida num voo mais secreto.

Cantam ursinhas no lago
ao som da harpa que o vento cego estende
à ninfa. Em vagas se distende a música.
Rolam pérolas nas frontes, em fios de úmidos
vapores. E não seria o som — nem mesmo o sopro
mais ligeiro —

companheiro da nudez velada,
se pousasse o vento aedo as fortes mãos
na harpa atirada ao colo de Cirene, a clara.

AFRODITE

Disse a deusa a sorrir:
esta manhã o mar deu-me adereços
e vestida de pérolas
fui a um reino distante.
Cânticos despertaram vides
e frutos nasceram, que o sol
cultiva nos pomares.
Coros adolescentes perseguiam Eros
— o coroado de pâmpanos —
pois de meus lábios haviam provado
o vinho farto e suave.

Liames atando e desatando,
ele a beleza ocultava nas angras mais profundas,
pois quando emergia — flâmeo! —
o murmúrio do mar as praias inundava
e a embriaguez vizinha da morte
ameaçava os amantes... 

O DEUS QUE VEM

Frêmito no alto céu,
morde Scorpio a Virgo escura.
Este o sinal de que se deve cantar os tempos
de juvenil tropel. Estua o vinho na uva por nascer
e a terra nas grotas úmidas de lágrimas fecha a boca.
A Lua espreita, enquanto dorme o Sol do liso flanco
de ouro. Acordêmo-lo e em procissão subamos
aos lugares altos. A noite é propícia para o germinar,
para o borbulhar de risos líquidos.
Lamenta a Virgem de verde sua casta solidão.

Ei-lo que desponta ao longe, nas dobras do mar:
no topo de um penhasco, grava-o a águia em sua
[pupila.
É o deus que vem, há um frêmito no alto céu
enquanto se une ao Sol a Lua desnudada,
submersos nos remoinhos das águas do dia por nascer.
Frutos brilharão nos campos e os celeiros não bastarão 
para conter tantas espigas. O Novo Tempo vem,
[circundando
bosques, alvas colunas e imagens se dissolvem para
[que tudo
reverdeça: beberemos o vinho saboroso, o trigo terá
[sabor
de trigo e o deus vestirá de amor os corpos nus.


[In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 1999, pp. 244-246]



quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Dora Ferreira da Silva

MARIA ZAMBRANO I
Teu ensinamento de mulher:
a razão poética une cabeça e coração.
Grata o recebo de tuas mãos
de tua alma sábia
e feminina. Diotima de Mantinéia
precedeu-te no ágape socrático
e sabemos o que ensinou aos doutos
sobre o Amor. Abundância e penúria
o muito e o nada
o paradoxo.
Vi tuas imagens: a Menina bela e grave
a mulher fascinosa
a anciã de olhar desesperado
que de longe vinha - de alguma nebulosa
ou de uma estrela desfazendo-se no céu.
Principalmente guiavas os que partiam
para outros mundos e países sem nome
em teu veleiro de vidência.


MARIA ZAMBRANO II
Estrela do caminho
do alto guias. Vi tua face de Menina
como se já soubesses teu destino.
Vi teu rosto jovem
feito só de madrugada
estando a noite adormecida.
Que asa liga o rosa ao magenta
levando pólen pelas estradas
roçando pensamentos
enlaçando ao dom poético
um dom de dizer
quase impossível nas pautas do Ser?
A outros e a mim deixaste
sílabas sagradas
pedras roladas
no flanco dos rios.
Anjo e criatura
pura e impura
conheces infernos e alturas
de um céu mais íntimo e profundo
que as margens deste mundo.

No silêncio que habitas
pouso esta vida
sem deter-te a labareda:
brilho de ouro e seda.

[In Cartografia do Imaginário, T.A. Queiroz Ed,, São Paulo, 2003, pp. 124-125]

terça-feira, 2 de junho de 2015

Dora Ferreira da Silva

DEPOIS
Sim, era o tempo. Depois — inútil consultares o relógio —
o tempo não era.Tudo pleno e íntegro: obedecíamos a um
[milagre
mais simples que as coisas usuais. A labareda encontrou o
[seu fiel
cessando de crepitar. As emoções se extinguiram
na lareira que não fora acesa em noite de verão.
O calor das coisas a si mesmo se bastara a ponto
de adormecer. E a orquestra ali estava suspensa depois do
acorde final, os músicos ausentes
algumas folhas caídas no chão de madeira morta.
O perdão da seiva antiga recendia a música de violinos
e flautas. Persistente floresta de sons, a música!
Os acordes da alma ainda ecoavam — do insípido à
[exaltação.
Persistente floresta, a alma. E tu misericórdia
há onde caibas? Exorbitas instrumentos partituras:
música pura. Silêncio que nos acolhe
e disso faz um ramo de primavera.

APAGADAS AS LUZES
Ônibus de luzes apagadas
de Volta Redonda a Barra do Pirai.
O motorista sorriu
o tempo de um adeus
e o ônibus seguiu —
barco sacolejante de operários.
Faróis de automóveis (em sentido contrário)
acendiam-lhes os olhos. Muito o sono
e a noite cresceu. Evolavam-se
os corpos de suor e incenso.
No altar do silêncio brilhava
a hóstia da comunhão.

Segui a via que liga Volta Redonda
a Barra do Pirai
com a legião cansada
dos anjos daquele dia.

ALÉM
Não me explicas
não te explico
o milagre do contato
que é de alma e é carnal
que é do espírito abissal
tudo somando o igual.
Sinto o frêmito do vento
nas plantas do beiral
desta casa provisória.
Não há linhas divisórias
que nos digam quem é qual
por tão próximos — não há espaço
para o abraço
para o ai!
Andando em duas direções
transpusemos nossa essência
um é o outro
e o círculo no entanto
determina eterno encontro.
Sem assombro dou-te um beijo
o realejo da infância
é o fundo musical.
Valha-nos Deus!
Vamos chorar? Vamos sorrir?
O agora é o por vir
que empurra e enterra o antes
para nova floração.
Só não passa nem transita esse
doido coração
não é meu
não é teu
está nu de possessivos
a imperecível carnação.
Sorrimos o mesmo sorriso
diante das megapalavras
somente cativos do Nada.
E eternamente calamos.

[In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 1999, pp. 354-355]

Randall David Tipton


sábado, 27 de dezembro de 2014

Dora Ferreira da Silva


APOLO
Na ilha, sob a única palmeira, veio à luz
que se ofuscou, embora os anéis de seu cabelo
fossem negro-azulados. Cisnes, seus pássaros;
lira e flauta, brinquedos; e jovens atônitas com seu brilho divino,
fugitivos amores, em flores e arbustos transformados.
Dominou as trevas, sem que os braços brancos se crispassem
ao desferir as setas, célere seguido pela matilha dos presságios.

Eis que me designas, deus, para teu culto na manhã
que desdobra a túnica. Cigarras vibram à tua passagem
e pássaros cedem ao canto grácil, ouvindo-te chegar.
Porte de cipreste, olhos de azul profundo,
traças caminhos no Jônio Mar e às ilhas da Perfeição te achegas
e às claras fontes.

Alguns celebram ainda teu rastro iluminado
e outros nomes dão à beleza nascida
na ilha abraçada pelo Mar. 


APOLO HIPERBÓREO
Ele ama a distância além do inverno,
onde não declinam a luz radiosa e os cantos.

Quando se afasta, pássaros silenciam e a fonte
em Delfos quase se extingue. Lobos uivam.
Imensa é a noite fria em sua ausência.

Mas ouve! O jubiloso peã de novo repercute
nas pedras brilhantes. Corpos e olivais dourados
revivem na dança: o Citaredo retorna coroado de folhas.

[In Hídrias, São Paulo, Odysseus, 2004, pp. 36- 37].



 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Dora Ferreira da Silva

DIANA NUA
Ametista rolada em negro céu
silenciosa despenhas no convés desta vigília.
Ao teu lábio abandono o vinho rubro o mel
e o trigo da oferenda.
Corola da altura
deusa em seu trono
tímida e esquiva
embora cingindo a tiara e a branca túnica.

Tocas meu flanco
minha cintura adornas com pérolas frias
e entre tochas pervagas na alta madrugada
trânsfuga do sol exilado nas ilhas.

E as tranças desnastradas
os cabelos desatas sobre minha nudez.
num só corpo amoldadas de pureza tão fria
— rácimos gêmeos do delírio —
as taças derramamos
e os cristais mordemos
entre risos e lírios.

Quando lassas o dorso do equinóxio percorremos
enlaçadas na mesma indolência e nostalgia
o alvo velame da nudez primeira
não-engendrada e sempre fugidia
rompe a muralha da noite
rumo ao mar que principia.
(1970)

[In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 1999, p. 309]



quarta-feira, 23 de abril de 2014

Dora Ferreira da Silva

PERSÉFONE
A Lua testemunhou teu rapto, quando
colhias violetas e anémonas. Para onde foste,
arrancada à campina pelo sombrio Amante?
Nem tu sabias do tenebroso percurso sob a Terra,
antes tão doce, nem da dança para sempre traçada
e nela teu passo aprisionado, coroada por Hades
com grinalda de romãs pesadas. Kóre Perséfone, rainha,
não dos vivos e da campina em flor, mas das sombras frias.

HADES
Da profunda cisterna da Noite
tuas pupilas perseguiam estrelas frias.
Sombras em torno de ti rondavam. Só lágrimas
e a antiga alegria, pena, a mais severa.
Tudo perdido fora do círculo de deuses
jubilosos. Tuas mãos pediam o fardo cálido,
pressentido na campina e a flor do único sorriso
que te movera além da treva. E ousaste!
Contra leis e deuses. Tocara-te Amor
e tremias sob a Lua sublevada. Flores
perfumaram teu reino. Embora tristonha em seu trono,
Perséfone era o bem que te faltava.

[In Hídrias, São Paulo, Odysseus, 2004, pp. 54- 55].


Patricia Ariel

sexta-feira, 21 de março de 2014

Dora Ferreira da Silva

NARCISO (I)
Lampeja o olhar que antes a toda a beleza
se esquivara. És tu, Narciso,
teu reflexo nas águas, ou a irmã
de gêmeo rosto e forma?
Não, não te afastas, porque a unidade
em duas se faria e o mundo das sombras ulula
à espera de tal luto. Permaneces inclinado
e adoras, sem saber se és tu, ou quem queres ver
no exasperado amor que as águas refletem.
A Morte veio enfim buscar-te, consternada,
vendo os olhos do estranho amante
fixos na flor nascida de teu sonho.

NARCISO (II)
Folhas incandescentes fizeram da fonte
vale de fulgores. Bebia Narciso sobre a onda
quando uma face viu de tal beleza
que a luz mais viva se tornou.
E Amor — cujas setas jamais puderam alcançar
seu coração esquivo — nele reinou e jamais do jovem
se apartava, que a seu chamado às águas acorria.
Insidiosa veio a Morte para o levar consigo,
deixando numa flor a forma de Narciso.

[In Hídrias, São Paulo, Odysseus, 2004, pp. 38-39].



segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Dora Ferreira da Silva

ÚLTIMO DIA DE UM ANO QUALQUER
Eis a chuva do último dia.
Levados são todos os outros
neste ar de chuva,
mais que o sol, dissipador de imagens.
Mas quem é que tange as cordas de um instrumento
delicadamente desafinado,
sobressaltando objetos sobre a mesa
e a madeira polida?
Há uma nota imprevista: leve pisar de outrora.

A chuva cessa. O ano findou
com seu vestido sóbrio, quase elegante.

[In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Ed. Topbooks, 1999, pp. 264-265]



sábado, 26 de outubro de 2013

Dora Ferreira da Silva

NOITE ESCURA
Eras tu atravessando o semáforo de sinal fechado 
entre noite e neblina? Bem sei que não mudas apenas 
o jeito dos cabelos e o modo de acentuar os olhos 
e nem é só outro o vestido de tua feminilidade 
ou tua força contida de homem e de sol.
Não é a lua que altera teu humor 
nem os móveis que te circundam 
e o jardim nu ou com flor. 
Mas é meu o medo de não reconhecer-te 
ao dobrar a esquina, ao virar para o outro lado 
na cama fixando a mancha na parede.
É a hora do medo que antes de mim desapareças 
deixando a dúvida de tua prisão ou morte.
Partiste sem deixar bilhete.
Foste todas as coisas esplêndidas
e as banais: Deus e a rua
a folha e o pó. Chamo-te de muitos nomes
e a nenhum respondes. Procurei nos muros (em vão)
o grafito de tua morte. Continuarei chamando
não a Deus (que as palavras violentam)
mas o Poema entre noite e neblina
e principalmente te suplico:
não morras antes de mim.

In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Ed. Topbooks, 1999, pp. 337-338.


SERVANDO CABRERA MORENO

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Dora Ferreira da Silva

A RAINER MARIA RILKE
Minha tua pele pálida 
e as pálpebras de entumecidas pétalas.
De castanhas em azuis, estas pupilas.
Amo as mulheres que adoraste,
Anjo inconstante, ou Criança 
alcançando-lhes o joelho:
Lou e Paula Modersohn e Clara 
Benvenuta ao piano 
a Princesa esbelta e sardenta 
e o estranho Pasha.

Instável pássaro do amor,
de polainas cinzentas, tão feias e aristocráticas.
Teu chapéu e bengala usei 
no vergel friorento de Muzot.

Entramos com o vento na grande sala hipóstila, 
ou encravado na Catedral o eterno ponteiro sou 
do Anjo do Meio-Dia. Perambulo por todos os jardins, 
corro atrás de epiléticos e saltimbancos de subúrbio, 
dou a rosa à mendiga enquanto adere ao meu rosto 
o pegajoso escárnio. E as escadas... subo-as todas. 
Entro no quarto rue Toulier e enlouqueço 
nos crisântemos sobre a mesa.
Teu passo anda em meus pés e não os esquivo.

Abismo, abismo de tua pupila azul!
Nela tudo vejo do que viste em Firenze, Rússia e
                                                              [Toledo,
debruço-me sobre a ponte e deixo cair o lenço: 
a Desconhecida assim o pediu...

Esta manhã trouxe-nos a morte.
Sou viva em ti e morta e novamente viva, 
morro em teu leito com tuas feridas, 
tua angústia refletida em meus olhos azuis.

Nesta manhã de inverno desfaço-me contigo, 
para que do nada crie-nos Deus.
(Talhamar, 1982)

[In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Ed. Topbooks, 1999, pp. 260-261]


domingo, 2 de junho de 2013

Dora Ferreira da Silva

Agora
Agora que no vagar dos pensamentos
chamo-te - pai - da estação da infância
como se pudesses voltar no rápido só para me embalar,
fecho os olhos dentro de tuas pálpebras.
És minha invenção de amor. Olhos melancólicos
os teus. Eu contigo em degredo.

Difícil tocar a face desse segredo cada vez mais longe
e partir e também ficar, embora encontrada a chave
[da porta mais secreta.
Se eu pudesse dizer: seja a paisagem de seda azul
e o último sol fortíssimo do ocaso
- eu liberta enfim de tuas pupilas.
Um rio passaria desenhado pela mão mais fina. Passa uma
[pluma apenas uma
no rio acordado.


Sobre a autora

  


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...