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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Giorgos Seféris

PRIMAVERA DEPOIS DE JESUS CRISTO

Com a primavera de novo
Ela vestiu cores vivas
E com um passo ligeiro
Com a primavera de novo
Com o verão de novo
Ela se pôs a sorrir.

Entre os renovos
Os seios nus até as veias
Para além da noite árida
Para além dos anciões brancos
Chicaneando em voz baixa para saber
Se não valia mais entregar as chaves
Ou esticar a corda e pendurar-se
E não deixar senão corpos vazios
Onde a alma não mais aguentaria
Onde o espírito faltaria
Onde os joelhos se dobrariam.

Na estação dos renovos
Os anciãos perderam a cabeça
E entregaram tudo absolutamente
Netos, bisnetos,
Campos profundos e montanhas verdes,
O amor e a abundância,
A piedade e o abrigo,
Os rios e os mares,
E partiram como estátuas
Deixando atrás de si o silêncio
Que nenhuma espada cortou
Que nenhum galope arrastou
Nem o grito dos adolescentes;
E veio a grande solidão
E veio a grande privação;
Ao mesmo tempo que essa primavera
Ela se estabeleceu, ela se estendeu
Como a geada da aurora
Suspendeu-se dos mais altos ramos,
Nas árvores insinuou-se
E revestiu nossa alma inteira.

Mas ela, sorriu,
Enfeitada de cores vivas
Qual amendoeira florida
Entre chamas amarelas
E foi-se com passo ligeiro
Abrindo janelas
Para o céu que ria
Sem nós, os infelizes.
E vi seu peito nu,
Suas ancas e seus joelhos,
Tal, subindo aos céus
Escapa às torturas
O mártir irredutível
Irredutível e puro,
Fora dos murmúrios confusos da multidão
Na arena desmedida
Fora da careta negra
E da nuca em suor
Do carrasco extenuado
De golpear cada vez em vão.

A solidão tornou-se um lago,
A privação tornou-se um lago,
Um lago virgem e sem rugas.

[Poemas Giorgos Seféris,  sel., trad. e notas de José Paulo Paes, São Paulo: Nova Alexandria, 1995, pp. 143-144]. 

domingo, 27 de julho de 2014

Giorgos Seféris

Lembrança, II
Éfeso
Falava sentado sobre um mármore
que parecia resto de um antigo pórtico;
à direita, intérmino e vazio, o campo;
à esquerda, as sombras do monte que baixavam:
"O poema está em toda parte. Tua voz
por vezes se avizinha do seu flanco
como o golfinho que acompanha fugazmente
um navio dourado sob o sol
e de novo some. Está em toda parte
o poema, como as asas do ar que dentro do ar
roçam por um instante as asas da gaivota.
Igual e diverso em nossa vida, como se transforma
o rosto que no entanto permanece o mesmo
da mulher a desnudar-se. Sabe-o
quem amou; à luz dos outros
o mundo se consome; lembra-te porém
"São o mesmo o Hades e Dioniso."
Disse e foi-se embora pela estrada larga
que leva ao porto de outros tempos, ora em ruínas
além dos juncos. Dir-se-ia
ser o lusco-fusco um bicho que morre,
assim tão nu.
Lembro-me ainda:
eu viajava por promontórios jônicos, conchas vazias de teatros
onde só o lagarto rasteja sobre a pedra árida
e perguntei-lhe: "Voltará a encher-se?"
Replicou-me: "Na hora da morte pode ser."
E correu gritando até a orquestra:
"Deixem-me escutar o meu irmão!"
E era áspero o silêncio à nossa volta
sem traço algum no cristal do céu azul.

[Poemas Giorgos Seféris,  sel., trad. e notas de José Paulo Paes, São Paulo: Nova Alexandria, 1995, pp. 143-144]. 





terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Giorgos Seféris

Strátis marinheiro entre os agapantos
Não há asfódelos nem violetas nem jacintos aqui;
como falar então aos mortos?
Os mortos só conhecem a linguagem das flores;
por isso calam
viajam e calam, padecem e calam
na terra dos sonhos na terra dos sonhos.

Se eu me puser a cantar, gritarei
e se gritar
os agapantos me imporão silêncio
erguendo a mãozinha azul de menino da Arábia
ou seus passos de ganso no ar.

É difícil, oneroso; não me bastam os vivos;
primeiro porque não falam e depois
porque eu preciso interrogar os mortos
para poder seguir.
Não há outra maneira; mal me vem o sono
os companheiros rompem os cordéis de prata
e o odre dos ventos se esvazia.
Eu o encho, esvazia-se; eu o encho, esvazia-se;
acordo
como peixe dourado a nadar entre as intermitências
do relâmpago,
e o vento, o dilúvio, os cadáveres humanos
e os agapantos cravados como setas
do destino na terra sequiosa
sacudidos por gestos espasmódicos,
dir-se-ia levados numa velha carroça,
a rolar por ínvios caminhos, pavimentos
decrépitos
os agapantos, asfódelos dos negros:
como hei de aprender tal religião?

A primeira coisa que Deus fez foi o amor
depois veio o sangue
e a sede de sangue implantada
pelo sêmen do corpo, como sal.
A primeira coisa que Deus fez foi a longa viagem;
e a casa à espera
e o fumo azulado
e o velho cão
aguardando, para expirar, tão-só a volta do seu dono.
Mas é preciso que os mortos me esclareçam
e os agapantos os deixam taciturnos,
como o fundo do mar ou a água do copo.
Os companheiros permanecem nos palácios de Circe;
Elpenor meu caro! o meu tolo, o meu pobre Elpenor!
Eh! não o vedes ali?
("Socorro!")
De Psará a negra serrania.

Transvaal, 14 de janeiro de 42

[Poemas Giorgos Seféris,  sel., trad. e notas de José Paulo Paes, São Paulo: Nova Alexandria, 1995, pp. 121-122]. 


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Giorgos Seféris

VIII
Mas que procuram elas, nossas almas, viajando assim 
Sobre pontes de barcos arruinados,
Empilhadas entre mulheres pálidas e crianças que choram,
A quem não distraem nem os peixes voadores 
Nem as estrelas assinaladas pelas pontas dos mastros;
Almas gastas pelos discos dos fonógrafos,
Ligadas sem o querer a inoperantes peregrinações,
Murmurando em línguas estrangeiras migalhas de pensamentos? 
Mas que procuram elas, nossas almas, viajando assim 
De porto em porto 
Sobre cascos apodrecidos?

Deslocando pedras lascadas, respirando 
O frescor dos pinheiros mais penosamente cada dia,
Nadando ora nas águas de um mar,
Ora nas de outro mar,
Sem contato,
Sem homens,
Num país que não é mais o nosso 
Nem tampouco o vosso.
Sabíamos que elas eram belas, as ilhas 
Nalguma parte perto do lugar onde vamos às cegas,
Um pouco mais baixo, um pouco mais alto,
A uma distância ínfima.

[In Mitologia, In Poemas, Rio de Janeiro: Ed. Opera Mundi, 1973, trad. Darcy Damasceno, p. 59]. 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Giorgos Séferis

O ÚLTIMO DIA 
Era um dia nublado. Ninguém decidia.
Soprava uma brisa leve. "Não é o vento leste, é o siroco"
   [disse alguém.
Alguns magros ciprestes espetados na encosta e o mar
cinzento com lagoas de luz um pouco adiante.
Os soldados apresentavam armas quando começou a chuviscar.
"Não é o vento leste, é o siroco" foi a única decisão
   [que se escutou.
E no entanto sabíamos que na manhã seguinte não nos
   [restaria
mais nada, nem a mulher que ao nosso lado bebe o sono,
nem a lembrança de que um dia fomos homens,
mais nada na manhã seguinte.

"Este vento traz à mente a primavera", dizia a
   [amiga
que passeava comigo a olhar para longe "a primavera
que de repente fez baixar o inverno sobre o mar fechado.
Tão inesperado. Tantos anos se passaram. Como
   [morreremos?"

Uma marcha fúnebre zanzava pela chuva fina.
Como morre um homem? Estranho que ninguém
   [pensasse nisso.
E para os que pensaram era como recordações de velhas
   [crônicas
do tempo dos cruzados e da batalha naval de
   [Salamina.
E no entanto a morte é coisa que acontece; como morre
   [um homem?
E no entanto cada um recebe a sua morte, a sua própria
   [morte, que não pertence a mais ninguém
e a vida é esse jogo.
Baixava a luz sobre o dia nublado, ninguém decidia.
Na manhã seguinte não nos restaria nada: rendição
   [total; sequer as nossas mãos;
e nossas mulheres servindo aos estrangeiros, nossos filhos
   [nas pedreiras.
Passeando comigo minha amiga cantava uma canção
   [estropiada:
"A primavera, o verão, raiás..."
Vinham à lembrança velhos mestres que nos deixaram
   [órfãos.
Passou um casal a conversar:
"Eu me cansei da tarde, vamos para casa
vamos acender a luz de casa."

Atenas, fevereiro de 39

[Poemas Giorgos Seféris, São Paulo: Nova Alexandria, 1995, pp. 113-114, sel., trad. e notas de José Paulo Paes].



quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Giorgos Seféris


Lembrança, I
e o mar não mais existe

Eu sozinho com uma flauta nas mãos;
a noite deserta a lua no minguante
e a terra a recender da última chuva.
Murmurei: "Onde quer que a toque, a lembrança me dói,
céu há pouco, o mar já não existe;
o que matam de dia, com carretas o esvaziam atrás do
          [monte."

Meus dedos brincavam distraídos com a flauta
que um velho pastor me deu porque lhe desejei boa-tarde;
os outros aboliram cumprimentos:
despertam, barbeiam-se e começam a matança diária,
como se poda ou se opera, metodicamente, sem paixão;
a dor é um cadáver como Pátroclo e ninguém comete enganos.

Pensei em tocar uma ária mas tive vergonha das pessoas
que me vêem além da noite dentro da minha luz tecida pelos corpos vivos, pelos corações desnudos e pelo amor que pertence tanto às Fúrias
como ao homem e à pedra e à água e à erva
e ao bicho que olha a morte de frente quando ela o vem
          [buscar.

Foi assim que avancei pela vereda escura
de volta ao meu jardim onde cavei um buraco e sepultei a
          [flauta
e tornei a murmurar: "Um dia haverá ressurreição, 
quando na primavera as árvores brilharem, a rósea manhã
          [irá resplandecer,
voltará o mar e outra vez Afrodite surgirá das ondas;
Nós somos a semente que morre." E entrei na minha casa
           [vazia.

In Poemas Giorgos Seféris, São Paulo: Nova Alexandria, 1995, pp. 140-141, sel., trad. e notas de José Paulo Paes. 



segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Giorgos Seféris

De cinco Poemas do Sr. Strátis Marinheiro
I. Hampstead
Como um pássaro de asa partida
que tivesse viajado no vento anos a fio
como um pássaro que não mais pudesse suportar
o vento e a tempestade
cai a tarde.
Sobre a erva verdejante
três mil anjos tinham dançado o dia inteiro
desnudos feito aço,
cai a tarde pálida;
os três mil anjos
juntaram suas asas e trouxeram à luz
um cão
esquecido
que late
solitário
e que busca o dono 
ou o segundo advento 
ou um osso.
Agora eu busco um pouquinho de paz 
me bastaria uma choça na colina ou numa praia
me bastaria em frente da janela
um lençol tinto de anil
estendido feito mar
bastaria no meu vaso de flores
até mesmo um cravo artificial
um pedaço de papel vermelho num arame
que o vento pudesse
o vento, dirigi-lo sem esforço
a seu talante.
Vai cair a tarde
os rebanhos descem balindo para seu aprisco
como um simples e ditoso pensamento
e vai cair para que eu durma
já que não teria
uma vela sequer para acender
nem luz
para ler.
1931

In Poemas Giorgos Seféris, São Paulo: Nova Alexandria, 1995, pp. 86-87, sel., trad. e notas de José Paulo Paes. 

Quem foi Giorgos Seféris

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...