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sábado, 30 de novembro de 2013

Etty Hillesum

"O jasmim nos fundos da minha casa encontra-se agora completamente destruído pelas chuvadas e temporais dos últimos dias. As suas florzinhas brancas boiam dispersas nas lamacentas poças negras do telhado raso da garagem. Mas, em algum lugar  em mim, esse jasmim continua a florir sem impedimentos, tão exuberante e delicado como sempre floriu. E espalha os odores pela casa onde habitas, meu Deus. Como vês, trato bem de ti. Não te trago somente as minhas lágrimas e pressentimentos temerosos, até te trago, nesta tempestuosa e parda manhã de domingo, jasmim perfumado".

"Dá-me um pequeno verso por dia, meu Deus. E se eu nem sempre o puder copiar por não haver papel ou luz, então hei-de declamá-lo baixinho para o teu grande céu, à noite, mas dá-me um pequeno verso de vez em quando"  (24 de Setembro de 1942).

[In Diário 1941- 1943,  Lisboa, Assírio & Alvim, 2009, p. 251]



Etty Hillesum

"O que interessa agora é não me deixar dominar por aquilo que neste momento está a acontecer dentro de mim. Deve passar para segundo plano, de uma maneira ou de outra. O que quero dizer é o seguinte: na realidade, uma pessoa nunca deve deixar-se paralisar completamente por uma só coisa, por pior que ela seja, a grande corrente da vida deve continuar a fluir". [ETTY HILLESUM, In Diário 1941-1943. 5 de dezembro de 1941, sexta-feira de manhã, às 9 horas].

(Hoje, 30 de novembro de 2013, 70 anos do martírio de Etty Hillesum)

domingo, 7 de abril de 2013

Etty Hillesum


Todo esse devorar de livros, desde pequena, é simplesmente preguiça da minha parte. Deixo que os outros formulem aquilo que eu mesma devia fazer. Procuro a confirmação por toda a parte do que em mim vive e se revolve, mas para obter o esclarecimento vou ter de utilizar as minhas próprias palavras. Vou ter de deitar borda fora muita preguiça, e sobretudo inibição e insegurança, antes de me descobrir. E por minha via, aos outros. Tenho de atingir o esclarecimento e tenho de me aceitar. E agora vou comprar um melão ao mercado. É tudo um peso enorme dentro de mim. E eu gostaria tanto de ser leve.
Absorvo tudo, há anos e anos, vai tudo para dentro, para um grande reservatório, mas um dia terá de sair tudo cá para fora, senão fico com a sensação de ter vivido para nada, de só ter espoliado a humanidade e não ter dado nada em troca. Às vezes tenho a sensação de que parasito, daí às vezes a grande depressão e a interrogação de se na realidade levo uma vida útil. Se calhar é minha tarefa explicar-me toda, explicar-me realmente toda, tudo o que me atinge e tortura e o que em mim brada por uma solução e formulação. Porque porventura não serão problemas só meus, mas também os problemas de muitos outros. E quando eu, ao fim de uma longa vida, conseguir encontrar uma forma para as coisas que agora são um caos dentro de mim, talvez tenha então concluído a minha pequena tarefa com êxito. Enquanto escrevo isto, creio que algures no meu subconsciente estou a ficar ago­niada. Por causa das palavras «tarefa de vida», «humanidade» e «solu­ção de problemas». Acho essas palavras pretensiosas, acho-me a mim mesma uma ingênua «donzela recatada», mas isso deve-se ao fato de ainda não ter coragem de me revelar.

[In Diário 1941- 1943,  Lisboa, Assírio & Alvim, 2009, p. 100]

domingo, 3 de março de 2013

Etty Hillesum

"Escreve ambição. Aquilo que me sai para o papel deve ser imediatamente perfeito, não me contento com banalidades. Também não estou convencida dos meus dotes, essa sensação ainda não se me tornou orgânica. Em momentos extáticos acho-me capaz de operar milagres, para depois bater no fundo do poço da incerteza. Isso advém de eu não fazer diariamente aquilo que acho ser o meu talento: a escrita. Teoricamente há muito que o sei; há uns anos, escrevi num pedaço de papel: nas raras vezes em que aparece, a mercê deve ser acolhida por uma técnica bem cultivada. Mas esta foi uma frase saída do cérebro, que ainda não tomou corpo. Será que realmente vai começar uma nova fase na minha vida? Este ponto de interrogação já está errado. Inicia-se uma nova fase! A luta já está a ser travada. Luta não é exatamente a palavra certa para o momento atual  presentemente sinto-me tão bem e em harmonia por dentro, tão completamente saudável, melhor é dizer pois: a consciencialização está em pleno progresso e tudo o que até agora tem estado irrepreensivelmente ordenado em fórmulas teoréticas há-de instalar-se no coração e ser concretizado. E em seguida a minha considerável autoconsciência deve ser banida — de momento ainda gosto demasiado da fase de transição. Tudo se deve tornar mais óbvio e mais simples, e assim talvez me torne finalmente adulta, capaz de ajudar outros seres humanos em dificuldades que partilham neste mundo, alcançando a claridade através do trabalho com os outros, porque afinal de contas é disso que se trata".

In Diário 1941- 1943, Assírio & Alvim: Lisboa, 2009, p. 68


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Etty Hillesum


19 de Junho [1942]. Sexta-feira de manha, às nove e meia.
Sabes o que me exaspera em ti, menina? A tua meia sinceridade e meia pomposidade. Ontem à noite queria escrever  ainda meia dúzia de palavras, mas na realidade eram palermices vagas. Às vezes tenho medo de chamar as coisas pelos nomes. Talvez porque depois não sobra nada? As coisas deviam aguentar ser nomeadas. Não aguentam, então não têm direito a existir. As pessoas tentam salvar muitas coisas na vida usando uma espécie de misticismo vago. A mística deve basear-se  numa sinceridade cristalina. Após ter investigado as coisas até à sua última realidade.

[In DIÁRIO, 1941-1943, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009, p. 200].


domingo, 27 de janeiro de 2013

Etty Hillesum

SEXTA-FEIRA PELA MANHÃ [5 DE JUNHO DE 1942], ÀS SETE E MEIA.

Esta tarde vi gravuras japonesas com o Glassner. E de repente fiquei a saber: é assim que eu quero escrever. Com um espaço imenso à volta das palavras. Detesto muitas palavras. Quereria escrever somente palavras organicamente inseridas num grande silêncio, daquelas cuja única utilidade é dominar o silêncio e rasgá-lo. Na realidade as palavras devem acentuar o silêncio, tal como naquela gravura japonesa com o ramo florido para baixo, para o canto. Umas tênues pinceladas  — mas com que olho para reproduzir o mais pequeno pormenor — e, à volta delas, o grande espaço,  mas não um espaço representando um vazio, mas sim, digamos, um espaço com alma. Detesto uma acumulação de palavras. Na realidade pode usar-se poucas palavras para nomear as grandes coisas que importam na vida. Se algum dia chegar a escrever — o quê, sinceramente? — gostaria então de pincelar algumas palavras sobre um fundo mudo. E há-de ser mais difícil de reproduzir e animar esse silêncio e essa mudez do que achar as palavras. O importante será a relação justa entre palavras e silêncio, um silêncio no qual acontece mais do que em todas as palavras que uma pessoa consiga reunir. E em cada novela — ou seja lá aquilo que for — o fundo em silêncio terá de ter um matiz e um conteúdo diferentes, exatamente como acontece nas gravuras japonesas. Não se trata de um silêncio vago e inatingível, esse silêncio terá também de ter os seus próprios contornos definidos e a sua própria forma. E, por conseguinte, as palavras deveriam servir somente para dar forma e delineação ao silêncio. E cada palavra é como um pequeno marco ou um pequeno relevo ao longo de infindáveis caminhos planos e extensos, e vastas planícies.

[In Diário 1941-1943, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009, colecção Teofanias].

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Etty Hillesum

Há um desassossego em mim,um desassossego bizarro, diabólico, que poderia ser produtivo
se eu o soubesse utilizar. Um desassossego criador.Não se trata do desassossego do corpo.
Nem mesmo uma dúzia de excitantes noites de amor lhe conseguiriam por fim. É um desassossego quase "sagrado". Ó Deus, toma-me na tua grande mão e torna-me o teu instrumento, faz-me escrever.

In Diário 1941-1943 04.07.1941, sexta-feira.

Uma pessoa procura o sentido da vida e pergunta-se se ela na realidade ainda tem sentido.
Mas este é um assunto que cada um deve decidir consigo e com Deus. E talvez cada vida tenha o seu próprio sentido e dure uma vida inteira para o encontrar. Pelo menos de momento perdi toda a relação com as coisas e a vida, e tenho a sensação de que tudo é casual e que interiormente uma pessoa
se deve desligar dos outros e de tudo. Parece tudo tão ameaçador e sinistro, e depois a grande impotência.

In Diário 1941-1943


E agora sou aquilo a que chamam doente e anêmica e mais ou menos acamada, e no entanto, 
cada minuto é frutuoso, até não mais poder.  Como será quando eu estiver novamente com saúde?
Sou obrigada a aclamar-te continuamente, meu Deus: estou-te muitíssimo grata por teres querido dar-me esta vida.

Uma alma é algo feito de fogo e cristal de rocha.É algo muito severo e com a dureza do Antigo Testamento, mas também tão suave como o gesto com que suas cautelosas pontas dos dedos afagam as minhas pestanas.

In  Diário 1941-1943. 12-10-42, segunda-feira


Sobre ETTY HILLESUM



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...