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sábado, 24 de maio de 2014

Charles Baudelaire

CADA UM COM SUA QUIMERA
Sob um grande céu de cinza, numa grande planície poeirenta, sem caminhos, sem relva, sem um cardo, sem uma urtiga, encontrei vários homens que marchavam curvados.
Cada um deles trazia às costas uma enorme Quimera, tão pesada como um saco de farinha ou de carvão, ou o equipamento de um infante romano.
Porém o monstruoso animal não era um peso inerte; ao contrário, envolvia o homem, e oprimia-o, com seus músculos elásticos e possantes; aferrava-se-lhe ao peito com suas duas garras imensas; e sua cabeça fabulosa elevava-se por sobre a cabeça do homem, como um desses horríveis capacetes com que os antigos guerreiros procuravam agravar o terror do inimigo.
Interroguei um daqueles viajantes, indaguei-lhe aonde eles iam assim. Respondeu-me que não sabia de nada, nem ele, nem os outros; mas que evidentemente iam a alguma parte, pois eram impelidos por uma necessidade invencível de caminhar.
Curioso: nenhum deles se mostrava irritado contra o animal feroz que trazia pendurado ao pescoço e agarrado às costas; dir-se-ia considerá-lo parte integrante de si mesmo. Nenhuma daquelas fisionomias extenuadas e graves dava indício do mínimo desespero; sob a tediosa cúpula do céu, os pés mergulhados na poeira de um solo tão desolado como o céu, eles marchavam com o ar resignado daqueles que são condenados a esperar eternamente.
E o cortejo passou ao meu lado e afundou-se nos longes do horizonte, no ponto em que a redonda superfície do planeta se furta à curiosidade do olhar humano.
E durante alguns momentos obstinei-me em querer compreender esse mistério; mas logo a irresistível Indiferença caiu sobre mim, e eu fiquei mais rudemente oprimido do que o estavam aqueles homens pelas suas esmagadoras Quimeras.

[In Pequenos poemas em prosa, tradução de Aurélio Buarque de Holanda, Rio de Janeiro: José Olympio, 1950, pp. 21-22]




sábado, 9 de fevereiro de 2013

Charles Baudelaire

ELEVAÇÃO
Acima dos lagos, acima dos vales,
Das montanhas, dos bosques, das nuvens, dos mares
Para além do sol, para além dos éteres,
Para além dos confins das esferas de estrelas,

Meu espírito, tu moves-te com agilidade,
E, como um bom nadador que desfalece na onda,
Sulcas jubilosamente a imensidão profunda
Com uma indescritível e viril volúpia.

Voa para bem longe desses miasmas mórbidos;
Vai purificar-te no ar celestial,
E bebe como um puro e divino licor,
O fogo claro que enche os espaços límpidos.

Por detrás das atribulações e das vastas angústias
Que carregam com seu peso a existência sombria,
Feliz aquele que pode com uma asa vigorosa
Lançar-se até aos campos luminosos e serenos;

Aquele, cujos pensamentos, como cotovias,
Aos céus na manhã tomam um voo livre,
- Quem plana sobre a vida, e compreende sem esforço
A linguagem das flores e das coisas mudas!


Élévation, in “Les Fleurs du Mal”

Tradução de Ana Pinto

[In Fonte de Hipocrene - Poesia de temática clássica e arqueológica, grupo do Facebook]

Sobre CHARLES BAUDELAIRE
juan carlos boveri

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...