INSÔNIA
A José Carlos Audíface Brito
Quero escrever um poema irritado.
Quero vingar meu sono dividido
(busco palavras que interroguem essa alquimia
do poema, que vire a noite em fogo vário
e a lua em pegada escondida atrás do muro
- vagaroso desmoronar de extinto voo ).
Quero um poema ainda não pensado,
que inquiete as marés de silêncio da palavra
ainda não escrita nem pronunciada,
que vergue o ferruginoso canto do oceano
e reviva a ruína que são as poças d’água.
Quero um poema para vingar minha insônia.
Rio de Janeiro, março 1950
[In Repertório Selvagem, Obra Reunida, Rio de Janeiro: MultiMais editorial, 1998, p. 26]
By Clare Elsaesser
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terça-feira, 8 de julho de 2014
sábado, 31 de agosto de 2013
Olga Savary
UMA CENA
Vês acordada como em sonho
o sonho mau tal fosse belo
- o belo horror do real
que nem consciência nítida
ou lúcida, clara, exata -,
não como é visto sol a pino
e sim através do fogo
ou através da água,
como quem vê dentro do mar
ou através de um vidro fosco,
mais, no fundo de um espelho,
não o que mostra a imagem
mas aquele que a deforma
inteiro fora de foco.
OUTRA CENA
Sentada estavas quando ele entrou
seguido de uma princesa ou uma serpente.
Só sabes que teu rosto não mudou
mas em turvo mudou-se o transparente
riso de antes, pesados os gestos.
Viraste uma mulher que, acordada
e de frente, vê um sonho mau
se sonho e distante já nem sente
e que já não amando é como se amasse
e, perdido o amor, é como se o tecesse.
Rio de Janeiro, 6 maio 1978
In Éden-Hades, In Repertório Selvagem, Obra Reunida, Rio de Janeiro: MultiMais editorial, 1998, p. 292-293.
Vês acordada como em sonho
o sonho mau tal fosse belo
- o belo horror do real
que nem consciência nítida
ou lúcida, clara, exata -,
não como é visto sol a pino
e sim através do fogo
ou através da água,
como quem vê dentro do mar
ou através de um vidro fosco,
mais, no fundo de um espelho,
não o que mostra a imagem
mas aquele que a deforma
inteiro fora de foco.
OUTRA CENA
Sentada estavas quando ele entrou
seguido de uma princesa ou uma serpente.
Só sabes que teu rosto não mudou
mas em turvo mudou-se o transparente
riso de antes, pesados os gestos.
Viraste uma mulher que, acordada
e de frente, vê um sonho mau
se sonho e distante já nem sente
e que já não amando é como se amasse
e, perdido o amor, é como se o tecesse.
Rio de Janeiro, 6 maio 1978
In Éden-Hades, In Repertório Selvagem, Obra Reunida, Rio de Janeiro: MultiMais editorial, 1998, p. 292-293.
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| Madame Brassai |
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Olga Savary
Tango de
Partida
Choro na Calle Corrientes,
eu que há anos não choro,
choro
no bar, no café
(óculos escuros disfarçam),
no mais total desconsolo
por não
querer te deixar.
Choro enfim no aliscafo
de Buenos Aires a Colônia,
senhora do
Rio da Prata,
por uma hora seguida
até não te ver mais, cidade.
Cidade-meu-amor, não quero
não quero mais ir embora,
o meu
lugar é aqui
entre o gelo aparente
e o perigo à espreita
dos tigres que não se
vê.
In Repertório Selvagem, Obra Reunida, Rio de Janeiro: MultiMais editorial, 1998, p. 270
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| Brent Jensen |
sexta-feira, 19 de julho de 2013
Olga Savary
Gazel I
De amor, criei (incriado)
este jardim secreto
de rosas
fechadas em seu tédio
e espero
aquele que virá e há de decifrar
hieróglifos de ternura
desenhados
pela lua em meu corpo - seu legado.
O amado pedirá em minha boca
o segredo desvendado a todas as
perguntas.
Eu lhe responderei sem palavras
mas com o perigoso silêncio parecido
ao rumor da água caindo
sem cessar.
Belém, julho 1953
Gazel II
Chamo-te-, Amado
com voz abstrata
alongada no jardim onde me esqueço
sob a lua porque verta em
minha forma
o sortilégio dessa cor fantástica
com que esperar-te.
Chegas e há fugas
de sombras e silêncios eleitos
para teu
alto redor.
Vais: foge contigo
o vento levando os últimos sons
de folhas
machucadas e na relva
meu corpo ainda
iluminado.
Belém, julho 1953
Sobre Olga Savary
In Repertório Selvagem, Obra Reunida, Rio de Janeiro: MultiMais editorial, 1998, p. 34-35
In Repertório Selvagem, Obra Reunida, Rio de Janeiro: MultiMais editorial, 1998, p. 34-35
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| Alba Lavermicocca |
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