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terça-feira, 8 de julho de 2014

Olga Savary

INSÔNIA
A José Carlos Audíface Brito

Quero escrever um poema irritado.
Quero vingar meu sono dividido
(busco palavras que interroguem essa alquimia
do poema, que vire a noite em fogo vário
e a lua em pegada escondida atrás do muro
- vagaroso desmoronar de extinto voo ).
Quero um poema ainda não pensado,
que inquiete as marés de silêncio da palavra
ainda não escrita nem pronunciada,
que vergue o ferruginoso canto do oceano
e reviva a ruína que são as poças d’água.
Quero um poema para vingar minha insônia.

Rio de Janeiro, março 1950 

[In Repertório Selvagem, Obra Reunida, Rio de Janeiro: MultiMais editorial, 1998, p. 26]

By Clare Elsaesser

sábado, 31 de agosto de 2013

Olga Savary

UMA CENA
Vês acordada como em sonho
o sonho mau tal fosse belo
- o belo horror do real
que nem consciência nítida
ou lúcida, clara, exata -,
não como é visto sol a pino
e sim através do fogo
ou através da água,
como quem vê dentro do mar
ou através de um vidro fosco,
mais, no fundo de um espelho,
não o que mostra a imagem
mas aquele que a deforma
inteiro fora de foco.

OUTRA CENA
Sentada estavas quando ele entrou
seguido de uma princesa ou uma serpente.
Só sabes que teu rosto não mudou
mas em turvo mudou-se o transparente
riso de antes, pesados os gestos.
Viraste uma mulher que, acordada
e de frente, vê um sonho mau
se sonho e distante já nem sente
e que já não amando é como se amasse
e, perdido o amor, é como se o tecesse.

Rio de Janeiro, 6 maio 1978

 In Éden-HadesIn Repertório Selvagem, Obra Reunida, Rio de Janeiro: MultiMais editorial, 1998, p. 292-293.

Madame Brassai

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Olga Savary

Tango de Partida
Choro na Calle Corrientes, 
eu que há anos não choro, 
choro no bar, no café 
(óculos escuros disfarçam), 
no mais total desconsolo 
por não querer te deixar. 
Choro enfim no aliscafo 
de Buenos Aires a Colônia, 
senhora do Rio da Prata, 
por uma hora seguida 
até não te ver mais, cidade.

Cidade-meu-amor, não quero 
não quero mais ir embora, 
o meu lugar é aqui 
entre o gelo aparente
e o perigo à espreita 
dos tigres que não se vê.

In Repertório Selvagem, Obra Reunida, Rio de Janeiro: MultiMais editorial, 1998, p. 270


Brent Jensen


sexta-feira, 19 de julho de 2013

Olga Savary

Gazel I
De amor, criei (incriado) 
este jardim secreto 
de rosas fechadas em seu tédio 
e espero
aquele que virá e há de decifrar 
hieróglifos de ternura desenhados 
pela lua em meu corpo - seu legado.

O amado pedirá em minha boca 
o segredo desvendado a todas as perguntas. 
Eu lhe responderei sem palavras 
mas com o perigoso silêncio parecido 
ao rumor da água caindo
sem cessar.

Belém, julho 1953

Gazel II
Chamo-te-, Amado 
com voz abstrata
alongada no jardim onde me esqueço 
sob a lua porque verta em minha forma 
o sortilégio dessa cor fantástica 
com que esperar-te.

Chegas e há fugas 
de sombras e silêncios eleitos 
para teu alto redor.

Vais: foge contigo 
o vento levando os últimos sons 
de folhas machucadas e na relva 
meu corpo ainda
iluminado.


Belém, julho 1953

Sobre Olga Savary

In Repertório Selvagem, Obra Reunida, Rio de Janeiro: MultiMais editorial, 1998, p. 34-35

Alba Lavermicocca

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...