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quinta-feira, 23 de julho de 2015

Paul Celan

FUGA DA MORTE
Leite negro da madrugada nós o bebemos de noite
nós o bebemos ao meio-dia e de manhã nós o bebemos de noite nós o bebemos bebemos
cavamos um túmulo nos ares lá não se jaz apertado
Um homem mora na casa bole com cobras escreve
escreve para a Alemanha quando escurece teu cabelo de ouro Margarete
escreve e se planta diante da casa e as estrelas faíscam ele assobia para os seus Mastins
assobia para os seus judeus manda cavar um túmulo na terra
ordena-nos agora toquem para dançar
Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos de manhã e ao meio-dia nós te bebemos de noite nós bebemos bebemos
Um homem mora na casa e bole com cobras escreve
escreve para a Alemanha quando escurece teu cabelo de ouro Margarete
Teu cabelo de cinzas Sulamita cavamos um túmulo nos ares lá não se jaz apertado
Ele brada cravem mais fundo na terra vocês aí cantem e toquem
agarra a arma na cinta brande-a seus olhos são azuis
cravem mais fundo as pás vocês aí continuem tocando para dançar
Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos de noite nós bebemos bebemos
um homem mora na casa teu cabelo de ouro Margarete
teu cabelo de cinzas Sulamita ele bole com cobras
Ele brada toquem a morte mais doce a morte é um dos mestres da Alemanha
ele brada toquem mais fundo os violinos vocês aí sobem como fumaça no ar
aí vocês têm um túmulo nas nuvens lá não se jaz apertado
Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia a morte é um dos mestres da Alemanha
nós te bebemos de noite e de manhã nós bebemos bebemos
a morte é um dos mestres da Alemanha seu olho é azul
acerta-te com uma bala de chumbo acerta-te em cheio
um homem mora na casa teu cabelo de ouro Margarete
ele atiça seus mastins sobre nós e sonha a morte é um dos mestres da Alemanha
eu cabelo de ouro Margarete
teu cabelo de cinzas Sulamita

[In  "Quatro mil anos de poesia", J. Guinsburg e Zulmira Ribeiro Tavares, São Paulo: Perspectiva, 1969].


sábado, 5 de julho de 2014

Paul Celan

HAVIA TERRA neles, e
escavavam.

Escavavam, escavavam, e assim
o dia todo, a noite toda. E não louvavam a Deus
que, como ouviram, queria isso tudo,
que, como ouviram, sabia isso tudo.

Escavavam e não ouviram mais nada;
não se tornaram sábios, não inventaram uma canção,
não imaginaram linguagem alguma.
Escavavam.

Veio um silêncio, veio também uma tormenta,
vieram os mares todos.
Eu escavo, tu escavas, e o verme também escava,
e quem canta ali diz: eles escavam.

Oh alguém, oh nenhum, oh ninguém, oh tu:
Para onde foi, se não há lugar algum?
Oh, tu escavas e eu cavo, e eu me escavo rumo a ti,
e no dedo desperta-nos o anel.

[In CRISTAL, trad. Cláudia Cavalcanti, São Paulo, Iluminuras, 2011, p. 89]



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Paul Celan

PRISÃO DA PALAVRA
Olho redondo entre as barras.

Pálpebra de animal cintilante
rema para cima,
libera um olhar.

Íris, nadadora, sem sonhos e triste:
o céu, cinza-coração, deve estar próximo.

Inclinada, no bico de ferro,
a limalha fumegante.
No sentido da luz
adivinhas a alma.

(Se eu fosse como tu. Se fosses como eu.
Não estaríamos
sob um mesmo alísio?
Somos estranhos.)

Os ladrilhos. Por cima,
uma junto à outra, as duas
poças cinza-coração:
dois
bocados de silêncio.

[In CRISTAL, trad. Cláudia Cavalcanti, São Paulo, Iluminuras, 2011, p. 71]

sábado, 16 de novembro de 2013

Paul Celan

CORONA 
De minha mão o outono devora suas folhas: somos amigos
Descascamos o Tempo das nozes e o ensinamos a partir:
O Tempo regressa à casca

No espelho é domingo,
no sonho dorme-se,
a boca fala veracidade.

Meu olhar desce para o sexo da amante:
Vemos-nos,
falamos sombrios,
amamos-nos como papoula e memória,
adormecemos como vinho nas conchas,
como o mar no brilho sanguíneo da lua.

 Estamos abraçados à janela, vêem-nos da rua:
é tempo de saber!
é tempo da pedra se preparar para florescer
que a inquietação faça pulsar um coração.
É tempo de ser tempo.

 É tempo.



sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Paul Celan

PRESSÃO DA LUZ (1970)

UMA VEZ, a morte era corrente,
tu te escondeste em mim.

o0o

PRÉ-CIENTE SANGRA
duas vezes atrás da cortina,

Consciente
pérola

o0o

QUANDO ME ABANDONEI EM TI, 
eras pensamento,

algo
murmura entre nós dois: 
do mundo a primeira 
das últimas
asas,

em mim cresce
a pele sobre
tempestuosa
boca,

tu
não chegas
até
ti.

o0o

COMO TE EXTINGUES em mim:

ainda no último
e gasto
nó de ar
estás lá com uma
faísca 
de vida. 

o0o
OS DESAPARECIDOS
papagaios-cinza
rezam a missa
em uma boca.

Ouves chover
e achas que também agora
seria Deus.

In CRISTAL, trad. Cláudia Cavalcanti, São Paulo, Iluminuras, 2011,pp. 137-145

richard toveen




quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Paul Celan

TENEBRAE
Estamos próximos, Senhor,
próximos e palpáveis.

Palpados já, Senhor,
Agarrados uns aos outros, como se
o corpo de cada um de nós fosse
teu corpo, Senhor.

Roga, Senhor,
roga por nós,
estamos próximos.

Empurrados pelo vento fomos,
fomos até lá para curvar-nos
rumo a vale e cratera.

Havia sangue, havia
o que verteste, Senhor.

Brilhava.

Cristal, São Paulo, Ed. Iluminuras, 1999, seleção  e tradução Cláudia Cavalcanti, p. 67

OS CÂNTAROS
Nas longas mesas do tempo
embebedam-se os cântaros de Deus.
Eles esvaziam os olhos de quem vê e de quem
                                                              [não,
os corações das sombras reinantes,
o magro rosto da noite.
São os maiores bebedores:
levam à boca o vazio como o pleno
e não transbordam como eu ou tu.

Cristal, São Paulo, Ed. Iluminuras, 1999, seleção  e tradução Cláudia Cavalcanti, p. 41


CANÇÃO DE UMA DAMA NA SOMBRA
Quando vem a taciturna e poda as tulipas:
Quem sai ganhando?
                  Quem perde?
                        Quem aparece na janela?
Quem diz primeiro o nome dela?

É alguém que carrega meus cabelos.
Carrega-os como quem carrega mortos nos braços.
Carrega-os como o céu carregou meus cabelos no ano em
                                                                        [que amei.
Carrega-os assim por vaidade.  

E ganha.
              E não perde.
                         E não aparece na janela.
E não diz o nome dela.  
É alguém que tem meus olhos.
Tem-nos desde quando portas se fecham.
Carrega-os no dedo, como anéis.
Carrega-os como cacos de desejo e safira:
era já meu irmão no outono;
conta já os dias e noites.

E ganha.
             E não perde.
                    E não aparece na janela.  

E diz por último o nome dela.
É alguém que tem o que eu disse.
Carrega-o debaixo do braço como um embrulho.
Carrega-o como o relógio a sua pior hora.
Carrega-o de limiar a limiar, não o joga fora.

E não ganha.
                    E perde.
                              E aparece na janela.
E diz primeiro o nome dela.  

E é podado com as tulipas.

(Tradução: Claudia Cavalcanti )

Fonte: www.culturapara.art.br

Sobre Paul Celan

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...