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sexta-feira, 20 de maio de 2022

Alberto Bresciani

 

REFUGIADOS
 
No silêncio das florestas,
na solidão da cidade,
 
somos os refugiados
de um tempo em cinzas.
 
Desejamos tanto
e é pouco o que passou.
 
Sim, ouvimos vozes,
um certo rumor impreciso.
 
Chegamos a pensar
que não queremos mais,
 
apenas o sol onde está,
pássaros nos binóculos.
 
Este é um lugar
onde nada nos sobra.
 
(Em Hidroavião, 2020)


  • terça-feira, 19 de maio de 2015

    Alberto Bresciani

    AINDA SOBRE FALAR BRETÃO
    (SEM TRADUÇÃO)
    Não dizer palavra

    aos pais irmãos amigos
    mulher marido amante
    aos filhos vizinhos
    à florista ao taxista

    ao desejo que enlouquece
    à mão que alisa corta aperta
    à sede e à fome de sangue corpo
    vingança e ar

    às enfermeiras de Paol Keineg

    Ou dizê-las todas

    às paredes

    BAQUE
    Jonas entrou na baleia e sentiu
    naquelas entranhas o melhor destino

    não pôde evitar seus pelos
    e uma convulsão explodiu nas vísceras

    arremessado contra as rochas Jonas
    ainda guarda memórias azuis e antigas

    os olhos de vidro têm um estranho
    estático brilho

    FLAYED FIGURE
    Repito
    o ritual do esfolamento

    (ao lado
    todas essas coisas
    de cor e som)

    Você trouxe os pássaros
    o cão cego
    ofereceu poemas
    em outras línguas

    Ainda arranco a pele
    mas agora
    veja
    só em segredo

    RADICAL
    A despeito do medo de altura
    e de escadas verticais
    subir ao topo do prédio
    olhando para o alto —
    um convite a prometidos sinais

    Fácil escalar esquecendo
    as histórias do solo
    o mergulho possível
    — pássaro mal empenado que arrisca
    aprende a voar e deixa
    o gemido das pedras
    antes que o mate a fome —

    No cimo desse edifício
    enfim quase se toca o céu e além disso
    (do céu) pouco há
    A leste oeste norte ou sul
    tudo avança ao igual e ilusório
    E ainda o vento varre até os restos
    abandonados e lembra
    que a boca mais desejada sopra abismos
    cola calcário à língua

    Talvez voltar mas voltar é pior
    a vertigem apaga pegadas
    Lá em cima
    sobra andar de um lado ao outro
    comer pedaços de azul e esperar
    a voz dos cortes fechados

    Ela (a voz) tem seu preço
    e no entanto ensina
    a secar a umidade e o musgo e o lodo
    dessa chuva chovendo por dentro

    E agora que outra ave irrompe
    nem eles (cume chuva ou ave) importam

    A loba uiva o tempo
    ver ouvir provar é tão bom
    os dias são o que são
    uma única vez

    nem contar até três
    pular

    RITUAL
    Neste lugar de sofrimentos vãos
    (repleto de quartzos e conchas cortantes
    fraturas escárnio lanças e quedas)
    as cem virtudes dela ataram suas pontas
    às pontas do meu corpo

    Cem dedos cedo muito antes
    do antes envolveram nossas mãos

    E não
    Não era mito ou lenda
    Era o que era: história trama banal
    uma avenida esquina rima
    sina pura de quem sabe
    atravessar muralhas cores
    toda dor frio aço êxtase
    Meus medos e delírios engolidos
    no fundo da flor
    na flor da minha cama

    Quando os anjos caíram
    já era tão depois tarde tão depois
    que nunca soube aprender resposta
    nem guerra sem sentir o ar fluindo
    pela geografia dessa pele
    — arma e armadura caminho
    resposta sorte cura
    E tão melhor muito mais do que
    serei eu sempre e como for

    Entre detonações e torres traídas
    entre um sonho cinza e outro azul
    ervas alfazemas e águias
    eu convido repito víscera ainda
    e ainda véu ainda digo eu quero a dança
    teus renascidos e fundos ser e estar
    que me tocam e me salvam do tempo
    O infinito na minha boca

    TRADUÇÃO
    Confesso meu amor
    imenso às ilhas

    Claro está
    não falamos
    a mesma língua

    Não sei se me ouvem
    e percebem

    mas em meio às ondas frias
    um cardume de águas-vivas
    lambe de azul
    as pernas
    o corpo

    No gosto
    no gozo

    Eu

    imerso

    [In Sem Passagem para Barcelona, 1 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015]


    sábado, 20 de dezembro de 2014

    Alberto Bresciani

    MITOLOGIA

    O muro não me libertará
    (sei porque sou tempo)

    Conhecendo também
    suas entranhas, armadilhas
    saliências e entraves

    eu o escalo
    até o alto
    onde ameias são faces tantas
    e arranham ou assaltam
    a vida

    Lá, debruço-me
    pendo, estico-me
    jogo as mãos
    a pele

    e mesmo que não encontre
    matéria de igual trama
    ainda tenho

    céu, vento, ar
    ou desejo e dúvida e ilusão

    Este (é um murmúrio)
    o meu plano de voo
    ramo de salvação

    Sim, no relume das horas
    arranco uma ou outra
    de suas plumas e
    do cimo
    sinto

    o doce estrépito
    de um corpo
    que arde e responde
                     sob o meu.

    HALO
    Para Maria de Assis Calsing

    Essa casa não tem janelas
    não tem portas, paredes

    A solidez rejeita a ameaça
    mas não pesa sobre a água

    Translúcido é o nome solto no ar
    no perfume, nas açucenas

    Leve e diáfana casa
    aninha o que flutua, o que não cai

    tudo nela germina e enflora
    abriga sim e a tudo afirma

    E nela, clara casa, não há não
    caminhos se abrem

    e sopram à cálida folhagem
    a brisa, a carícia do lago

    Sobre ela, firme e branda casa,
    palavras brincam com a luz

    são imagens que a alma canta
    (e eu digo: alada mão as deixou).

    MARGHE(RITA)

    Não valem os dias
    além dos corações
    que neles batem
    São caminhos

    Essa única vista
    me verte o sim
    Você fala por ela
    e repete as imagens

    A porta que abre
    verdeja
    e floresce
    para dentro do corpo

    história maior
    do que antigas lembranças

    Do teu nome,
    margaridas nascem sobre a lava.

    [In Incompleto Movimento, Rio de Janeiro: José Olympio, 2011, pp. 24-25, 33, 64]




    Fernando Paixão

      Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...