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quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Wislawa Szymborska

 NADA É DADO

Nada é dado, tudo emprestado.
Estou atolada em dívidas até o pescoço.
Serei forçada a pagar por mim
gastando a mim mesma,
dando a vida pela vida.

É coisa já arranjada:
tenho que devolver
o coração e o fígado
e cada dedo em particular.

Tarde demais para quebrar os termos do contrato.
O que devo me será tirado
junto com a minha pele.

Ando pelo mundo
numa multidão de outros devedores.
Alguns suportam o ônus
de pagar pelas asas.
Outros, queiram ou não,
prestarão conta de suas folhas.

Todo tecido em nós
está na coluna Débito.
Nenhum cílio, nenhuma haste
a conservar para sempre.

O inventário é minucioso
e tudo indica
que não vamos ficar com nada.

Não consigo lembrar
onde, quando e com que fim
permiti que abrissem
essa conta em meu nome.

O protesto contra ela
chamamos de alma.
Esse é o único item
que não consta do inventário.

(Em [Para o meu coração num domingo], tradução: Regina Przybycien e Gabriel Borowski, Companhia das Letras, São Paulo, 2020)
 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Wislawa Szymborska

MONÓLOGO PARA CASSANDRA

Sou eu, Cassandra.
E esta é minha cidade sob as cinzas.
E estes são meu bastão e fitas de profeta.
E esta é minha cabeça cheia de dúvidas.

Triunfo, é verdade.
Minha razão em chamas até lambeu o céu.
Só os profetas desacreditados
têm essa vista.
Só aqueles que tiveram um mau começo,
e tudo podia concretizar-se tão rápido,
como se eles nunca tivessem existido.

Recordo claramente agora
como as pessoas, ao me ver, emudeciam.
Morria-lhes o riso.
Desentrelaçavam as mãos.
As crianças corriam para as mães.
Não sabia sequer seus nomes efêmeros.
E aquela canção sobre a folhinha verde —
ninguém a terminava na minha frente.

Eu os amava.
Mas amava do alto.
Acima da vida.
Do futuro. Onde sempre é vazio
e nada é mais fácil do que ver a morte.
Lamento que minha voz fosse dura.
Olhem para si mesmos das estrelas — bradava
olhem para si mesmos das estrelas.
Escutavam e baixavam os olhos.

Viviam na vida.
Varridos por um grande vento.
Já condenados.
Presos desde nascidos em corpos de despedida.
Mas havia neles uma esperança úmida,
uma chama que se nutre da própria cintilação.
Eles sabiam o que é um instante,
ah, ao menos um, um qualquer
antes que —

Foi como eu falei.
Só que disso não resulta nada.
E estas são minhas vestes chamuscadas.
E estes são meus trastes de profeta.
E esta é minha face contorcida.
Uma face que não sabia que podia ser bela.

In [Um amor feliz], tradução Regina Przybycien, Companhia das Letras, 2016


sábado, 23 de julho de 2016

Wislawa Szymborska

NUVENS
Para descrever as nuvens
eu necessitaria ser muito rápida —
numa fração de segundo
deixam de ser estas, tornam-se outras.
É próprio delas
não se repetir nunca
nas formas, matizes, poses e composição.
Sem o peso de nenhuma lembrança
flutuam sem esforço sobre os fatos.
Elas lá podem ser testemunhas de alguma coisa —
logo se dispersam para todos os lados.
Comparada com as nuvens
a vida parece muito sólida,
quase perene, praticamente eterna.
Perante as nuvens
até a pedra parece uma irmã
em quem se pode confiar,
já elas — são primas distantes e inconstantes.
Que as pessoas vivam, se quiserem,
e em sequência que cada uma morra,
as nuvens nada têm a ver
com toda essa coisa
muito estranha.
Sobre a tua vida inteira
e a minha, ainda incompleta,
elas passam pomposas como sempre passaram.
Não têm obrigação de conosco findar.
Não precisam ser vistas para navegar.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Wislawa Szymborska

A MULHER DE LOT
(1976)
Dizem que olhei para trás curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.
Olhei para trás de pena pela tigela de prata.
Por distração – amarrando a tira da sandália.
Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.
Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.
Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia.
Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A futilidade da errância. Sonolência.
Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.
No meu caminho surgiram serpentes,
aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.
Já não eram bons nem maus – simplesmente tudo o que vivia
serpenteava ou pulava em pânico consorte.
Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.
Ou foi só quando um vento me bateu,
despenteou o meu cabelo e levantou meu vestido.
Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma vez, outra vez.
Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.
Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.
Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.
Não, não. Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.
Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.
Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.
É concebível que meus olhos estivessem abertos.
É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.


quinta-feira, 22 de maio de 2014

Wislawa Szymborska

FIM E COMEÇO

Tradução de Regina Przybycien

Depois de cada guerra
alguém tem que fazer a faxina.
Colocar uma certa ordem
que afinal não se faz sozinha.

Alguém tem que jogar o entulho
para o lado da estrada
para que possam passar
os carros carregando os corpos.

Alguém tem que se afundar
no lodo e nas cinzas
em molas de sofás
em cacos de vidro
e em trapos ensanguentados.

Alguém tem que erguer a viga
para apoiar a parede,
pôr a porta nos caixilhos,
envidraçar as janelas.

A cena não rende foto
e pode levar anos.
E todas as câmeras já debandaram
para outra guerra.

As pontes têm que ser refeitas,
e também as estações.
De tanto arregaçá-las,
as mangas ficarão em farrapos.

Alguém de vassoura na mão
ainda recorda como foi.
Alguém escuta
meneando a cabeça que se safou.
Mas ao seu redor já rondam
os que acham tudo muito chato.

Às vezes alguém desenterra
de sob um arbusto
velhos argumentos enferrujados
e os arrasta para o lixão.

Os que sabem
o que aqui se passou
devem dar lugar àqueles
que pouco sabem,
ou menos que pouco.
E por fim nada mais que nada.

Na relva que cobriu
as causas e os efeitos
alguém vai se deitar
com um capim entre os dentes
e namorar as nuvens.

Pavel Filonov - O Homem na Carroça (1915)

quinta-feira, 13 de março de 2014

Wislawa Szymborska

ALGUNS GOSTAM DE POESIA
Alguns -
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam -
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.

De poesia -
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

Josef Marian Chelmonski



segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Wislawa Szymborska

EXEMPLO
O vendaval
à noite arrancou todas as folhas de uma árvore,        
menos uma,
deixada
para balançar só num galho nu.

Com este exemplo
a Violência demonstra    
que sim –
às vezes ela gosta de se divertir.

OS PENSAMENTOS QUE ME VISITAM NAS RUAS MOVIMENTADAS
Rostos.
Bilhões de rostos na face da terra.
Dizem que cada um é diferente
dos que já se foram e dos que virão um dia.
Mas a Natureza – quem é que a entende? –
cansada do trabalho que nunca acaba
talvez repita suas ideias antigas            
e ponha-nos rostos
já usados outrora.

Pode ser Arquimedes de jeans que passa ao seu lado,
a czarina Catarina com roupa de brechó,              
um dos faraós de pasta e óculos.

A viúva de um sapateiro descalço
vinda de uma Varsóvia pequenina ainda,
um mestre da gruta de Altamira
levando as netas para o zoológico,
um Vândalo cabeludo a caminho do museu
para se deliciar com os mestres do passado.

Os que tombaram há duzentos séculos,
há cinco séculos,
há meio século.

Alguém levado em carruagem dourada,
alguém levado em vagão de extermínio.
Montezuma, Confúcio, Nabucodonosor,
suas babás, suas lavadeiras e Semíramis
que só fala inglês.

Bilhões de rostos na face da terra.
Meu, seu, de quem –
você nunca saberá. Talvez a Natureza tenha que ludibriar
para dar conta dos prazos e da demanda
e pesque até o que estava submerso              
no espelho da deslembrança.

UM ACIDENTE DE TRÂNSITO
Ainda não sabem
o que há meia hora        
aconteceu na estrada.

Em seus relógios
a hora é mais ou menos
tarde, de quinta-feira, e setembro.

Alguém escoa o macarrão.          
Alguém varre as folhas do jardim.        
Crianças correm gritando ao redor da mesa.
Um gato se digna a ser afagado.        
Alguém chora –
diante da televisão, como de costume,
quando o malvado Diego trai a Juanita.            
Alguém bate na porta –
não é nada, só uma vizinha devolvendo a frigideira.
O telefone toca nos fundos da casa –            
por ora, só o telemarketing.

Se alguém chegasse à janela
e olhasse o céu
poderia ver as nuvens
que vinham do lugar onde ocorreu o desastre.        
Rasgadas, despedaçadas,
mas, até aí, nada de especial.

AUSÊNCIA
Por pouco
e a minha mãe teria casado
com o senhor Zbigniew B. de Zduńska Wola.
Se tivessem uma filha – não seria eu.
Talvez com a memória para nomes, rostos
e canções ouvidas uma só vez – melhor que a minha.
Distinguindo sem erro um pássaro do outro.
Com excelentes notas de física e química,
de polonês nem tanto,
mas escrevendo poemas às escondidas,
logo muito melhores que os meus.                      

Por pouco
e naquela mesma época meu pai teria casado
com a senhorita Jadwiga R. de Zakopane.
Se tivessem uma filha – não seria eu.
Talvez mais teimosa e intransigente.
Saltando sem medo na água funda.
Suscetível ao que comove as massas.
Vista em vários lugares ao mesmo tempo,
poucas vezes com um livro, muito mais com a bola,
jogando com meninos nos pátios e ruas.

As duas poderiam ter se encontrado
na mesma escola e na mesma classe,
mas sem afinidades,
nenhum parentesco,
e na foto da turma, bem afastadas entre si.

Fiquem aqui, meninas
– diz o fotógrafo –,
as pequenas na frente, as mais altas atrás.              
E sorrisos bonitos quando eu der o sinal.        
Verifiquem ainda,
não falta ninguém?

– Sim, senhor, estamos todas aqui.

O DIA DEPOIS – SEM NÓS
A previsão é de manhã fria e céu nublado.
Do oeste
aparecerão nuvens chuvosas.    
A visibilidade será fraca.
As estradas escorregadias.

Ao longo do dia,
possível diminuição de nebulosidadeem áreas isoladas        
causada pela frente de pressão alta do norte.
No entanto, com o vento forte e inconstante            
podem ocorrer tempestades.

À noite,                                
tempo bom em quase todo o país,
só no sudeste
possíveis pancadas de chuva.                  
A temperatura vai baixar significativamente
e a pressão vai subir.

O dia seguinte
deve ser de sol,          
mas quem ainda estiver vivo                
talvez precise de guarda-chuva.

Tradução de Henryk Siewierski

Poemas do livro "Here", de Wislawa Szymborska. Copyright 2010 de Wislawa Szymborska. Traduzido e reproduzido sob permissão de Houghton Mifflin Harcourt Publishing Company. Todos os direitos reservados.

Fonte: Revista Piauí


Stanisław Wyspiański

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Wislawa Szymborska

CÉU
Era preciso começar daí: céu.
Janela sem encosto, sem moldura, sem vidraça.
Abertura e nada mais, porém muito bem aberta.
Não preciso aguardar a noite amena:
nem levantar a cabeça
para perscrutar o céu.
Tenho céu atrás de mim, sob as mãos
e debaixo das pálpebras.
Estou enredada de céu
e isto me exalta.
Nem as montanhas mais altas
Estão mais próximas do céu
que os vales mais profundos.
Não há mais céu num lugar
do que em outro.
A nuvem está atada ao céu
indiferente como o túmulo.
A toupeira é tão feliz
quanto a coruja que abre as asas.
O objeto que cai no precipício
cai do céu no céu.
Partes poeirentas, líquidas, montanhosas,
passageiras e queimadas do céu, migalhas do céu,
brisas de céu e montes.
O céu é onipresente
até nas trevas sob a pele.
Devoro o céu, rejeito o céu.
Estou com armadilhas na armadilha,
com o habitante instalado,
com o abraço abraçado,
com a pergunta presente na resposta.
A divisão entre céu e terra
não foi pensada de forma adequada
a respeito desta unidade.
Permite até que se sobreviva
no endereço mais exato,
que pode ser achado mais depressa
se me procurarem.
Os meus sinais característicos são
o arrebatamento e o desespero.

[In "Antologia de 63 poetas eslavos", trad. e org. Aleksandar Jovanovic, editora Hucitec, São Paulo, 1996]

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Wislawa Szymborska

POSSIBILIDADES
Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro- me gostando das pessoas
do que amando a humanidade.
Prefiro ter agulha e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
do ser ter sua razão.

[In Poemas, Comnpanhia das Letras: são Paulo, 2011, p.p. 87-88, trad. Regina Przybycien]


quinta-feira, 26 de abril de 2012

Wislawa Szymborska

A ALEGRIA DA ESCRITA

Para onde corre essa corça escrita pelo bosque escrito?
Vai beber da água escrita
que lhe copia o focinho como papel-carbono?
Por que ergue a cabeça, será que ouve algo?
Apoiada sobre as quatro patas emprestadas da verdade
sob meus dedos apura o ouvido.
Silêncio - também essa palavra ressoa pelo papel
e afasta
os ramos que a palavra "bosque" originou.
Na folha branca se aprontam para o salto
as letras que podem se alojar mal
as frases acossantes,
perante as quais não haverá saída.
Numa gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho semicerrado
prontos a correr pena abaixo,
rodear a corça, preparar o tiro.

Esquecem -se de que isso não é a vida.
Outras leis, preto no branco aqui vigoram.
Um pestanejar vai durar quanto eu quiser,
e se deixar dividir em pequenas eternidades
cheias de balas suspensas no voa.
Para sempre se eu assim dispuser nada aqui acontece.
Sem meu querer nem uma folha cai
nem um caniço se curva sob o ponto final de um casco.

Existe então um mundo assim
sobre o qual exerço um destino independente?
Um tempo que enlaço com correntes de signos?
Uma existência perene por meu comando?

A alegria da escrita.
O poder de preservar.
A vingança da mão mortal.

[Poemas, Trad. Regina Przybycien, Companhia das Letras: São Paulo, 2011, pp. 36-37]




Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...