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domingo, 11 de dezembro de 2016

Luiza Neto Jorge

BANDA SONORA PARA CURTA-METRAGEM ERÓTICA 

Ó harmonioso
ó estigma
ó consciencioso
enigma

ó sal
ó sal
ó gume
ó ímpio
ó sumo
ó escasso
ó sal

ó harmonioso
enigma
ó dente
ó estigma
do gozo

ó vocábulo
ó peso a sós
ó ar
ó ar arável
ó fraternicida
ó voz

ó harmonioso
frio
ó cingido
negro estio

ó dor voraz
ó timbre
ó cristificado
ó cru

ó harmonioso
espaço alheio
ó príncipe
princípio
ó morte a meio

[In O seu a seu tempo, Lisboa, Ulisseia, 1966]



sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Luiza Neto Jorge

O ÊXODO
I
Ninguém duas vezes passa o rio
porque os rios se afastam para morrer
ou, correndo nós,
vivemos, disséssemos,
com os rios morrendo.

E com o nível posto
na baixa altura da nascente
incorressem os vivos e
corressem os mares que não
se ajuntam mais, na mesma igualdade
longínqua.

II

Dentro de dias morre
mais alguém
para o hermético triunfo
das paisagens.

Então os sítios vão
subindo
povoam-se e entreolham-se
desencantam-se.
A órbita apodrece
descrê-se o sol.


O SIMULACRO
Aprendam o simulacro daquilo
que me retém no meu vulto
de animal excessivo de
vegetação mais densa:

um pião pôs-se a rodar no mês de Maio
donde nasceram os lábios e várias forças
que frequentaram a terra, como a música de
concertina, o ventre, o touro.

Fez-se uma roda no mês de Maio, com lotaria
com tudo a sumir-se com tudo a unir-se
velhos a parecerem outra coisa mais leve
peixes converteram-se à fala prédios
ocuparam um lugar acrescentaram-se
vegetações por dentro e por fora.

Foi o simulacro. O touro riu-se.
Animais práticos bem falantes
roçaram pelo meu pelo. Vários voavam
para o centro vários espojavam-se no ar
houve quem sorrisse para dentro de uma
vasilha quem se forrasse de cobra
quem se cobrisse de folhas no sexo e o touro,
no mês astrológico de Maio, a rir-se.

[In Poesia (1960-1989), 2a. edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, pp. 149-151]




terça-feira, 28 de outubro de 2014

Luiza Neto Jorge

BALADA APÓCRIFA
Olhai os lírios do campo
meninas de saia rodada
íris de teias de aranha
desvendam o mar nas searas

Olhai os lírios de pedra
em copos de limonada

Os soldados em manobras
enterram a sombra caiada
Bebei os lírios de água
(com grandes bicos de aves)

Sofreram sempre derrota
deixaram mãos enforcadas
sem lençóis com clarins
grades de pernas doadas

Olhai os lírios do tempo
meninas virgens por dentro

Os soldados em manobras
têm noite por espingarda
Colhei os lírios do corpo
meninas de saia travada

[In Luiza Neto Jorge - poesia (1960-19879), 2a. edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p. 46]


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Luiza Neto Jorge

RECANTO 2
Viver, entretanto, é ver, ir vendo
e também ver inclui dormir
sem que nada se desfaça ou exclua
no interior dos sonhos.

Pensemos no comércio de viver:
passagem dos navios
quando, a passar, se retém a espessa
água do tempo, da tempestade.

Um comércio, apenas — desvio da moeda
da trajectória do ouro
para o papel.

Sempre viver incluiu andar percorrer voar
de avião ou com os braços ou num ser de mais
rodas que nos conduza
a outro sentido ambulatório.

[In Poesia (1960-1989), 2a. edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p. 179]






quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Luiza Neto Jorge

RECANTO 16
Dulcíssimo, coração do corpo, expande-se desata-se
desintegra-se pelos calcanhares de minha mãe
cansada
olha-me nos ombros
afasta-se no índico

Movimento mais que uníssono: órgão sonoro
a ressoar numa revolução
número odorífero
número de oiro negro sinal da mão que se coça
debaixo da terra
a empurrar-nos

Vestígio nosso?
Nossa absorção, respondo eu.

Tenta abrir o jacto para beijar em voo
um passageiro tenta ordenar o transito com um beijo
nos dedos destruídos
mas consegue pouco:

uma luminosidade quase cesariana
na barriga do melhor amigo.

[In Poesia (1960-19879), 2a. edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p. 198]
By Júlio Pomar

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Luiza Neto Jorge

O POEMA ENSINA A CAIR
O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

[In Poesia (1960-19879), 2a. edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, pp. 140-141]





sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Luiza Neto Jorge

DIFÍCIL POEMA DE AMOR
    Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa do juiz supremo dos amantes. Para que os juízes me possam julgar, conhecerão primeiro o amor desonesto infinito feito de marés ambulantes de espinhos nas pálpebras onde as ruas são os pontos únicos do furor erótico e onde todos os pontos únicos do amor são ruas estreitíssimas velocíssimas que se percorrem como um fio de prumo sem oscilação.

     Ontem antes de ontem antes de amanhã antes de hoje antes deste número-tempo deste número-espaço uma boca feita de lábios alheios beijou.

     Precipício aberto: ele nada revela que tu já não saibas.

     Porque este contágio de precipícios foste tu que mo comunicaste maléfico como um pássaro sem bico.

     Num silêncio breve vestiu-se a cidade.

     Muito bom-dia querido moribundo. Sozinho declaraste a terceira grande paz mundial quando abrindo os olhos me deste de comer cronometricamente às mil e tantas horas da manhã de hoje.

     Deito-me cedo contigo o meu sono é leve para a liberdade acordas-me só de pensares nela. As casas e os bichos apoiam-se em ti. Não fujas não te mexas: vou fixar-te para sempre nessa posição.

     Que há? Abrem-se fendas no ar que respiro vejo-lhe o fundo. Tens os olhos vazados. Qual de nós os dois "quero-Te" gritou?

     Bebe-me espaçadamente encostada aos muros. Se és poeta que fazes tu? Comes crianças jogas ases sentado és uma estátua de pé a cauda de um cometa.

     Mães entretanto vão parindo. Os filhos morrerão ainda? Entregas-te a cálculos. Amas-me demais.

     Confesso: não sei se sou amada por ti.

     Virás quando houver uma fala indestrutível devolvida à boca dos mais vivos. Então virás vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado. Desiludiste-me.

     E iremos com o plural de nós nos leitos menores onde o riso, onde o leito do rio é um filho entre os dois. Que farei de teus braços de meus cabelos benignos que faremos?

     Nasci-te da minha pele com algumas fêmeas te deitei por vezes. Conheces-me. Não me tens amor

     Grave esta corda cortada agudo seixo me ataste aos olhos para me afundar.

     Só por grande angústia me condenas à morte se de mim te veio a cidade e os minúsculos objectos que já amaste ou que irás amar um dia espero.

     Ah a cratera o abismo eléctrico!

     Por isso o teu novo amor será comigo mais perigoso que este imaculado com mais visco de amor cópula mortal.

     Calo-me.

     Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas de mulher desabitada. Sei que um dia desviarei sem ti os passeios rectos esvaziarei os gordos manequins falantes. A razão é uma chapa de ferro ao rubro: se acredito na tua morte começo o suicídio.

     Enquanto penetrantemente te espero a luz coalhou. Os pássaros coalharam enquanto te espero. O leite enquanto te espero coalhou. Haverá outro verbo?

     Submersa, muito distante de qualquer inferno de um paraíso qualquer existo eu. Existirão tais palavras?

     É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em volta de mim em volta de mim de ti.

     Nunca te conheci - assim explico o teu desaparecimento. Ou antes: separei-me de ti no solstício de um verão ultrapassado . As mulheres viajavam pela cidade completamente nuas de corpo e espírito. Os homens mordiam-se com cio. Imperturbável pertenceste-me. Assim nos separámos.

     Não calhasse morrer um de nós primeiro que o outro porque ambos ao mesmo tempo será impossível enquanto não houver relógios que meçam este tempo e as horas fielmente se adiantarem e atrasarem.

     Alguma vez pretendi dizer-te o que quer que fosse? Falava por paixão por tibieza por desgosto por claridade por frio por cansaço nunca por pretender dizer o que quer que fosse.

     Não me desculpo. Se já me cai o cabelo se já não sinto os ombros é porque o amor é difícil ou a minha cabeça uma pedra escura que carrego sobre o corpo a horas e desoras ostentando-a como objecto público sagrado purulento. O odor que as pedras têm quando corpos. O apocalipse de tudo quando amamos. O nosso sangue em pó tornado entornado.

     O teu amor espreita o meu corpo de longe. De longe por gestos lhe respondo. Tenho raízes nos vulcões ternuras íntimas medos reclusos beijos nos dentes.

     A pobreza surge dentro de nós embora cautelosos deitados de manhã e de tarde ou simplesmente de noite despertos. Ambos meu amigo estamos sentados neste momento perfeitamente incautos já. Contemplamos um país e sentamo-nos e vestimo-nos e comemos e admiramos os monumentos e morremos.

     Inventei a nossa morte em toda a impossível extensão das palavras. Aterrorizei-me segundos a fio enquanto em corpo nu ouvindo-me adormecias devagar.

     Com a precaução de quem tem flores fechadas no peito passeei de noite pela casa. Um fantasma forçou uma porta atrás de mim. Gemendo como um animal estrangulado acordei-te.

     Enterro o meu terror como um alfange na terra. Porque é preciso ter medo bastante para correr bastante toda a casa celebrar bastantes missas negras atravessar bastante todas as ruas com demónios privados nas esquinas.

     Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da ideia que me impus da morte.

     És tu tão único como a noite é um astro.

     Sobre a poeira que te cobre o peito deixo o meu cartão de visita o meu nome profissão morada telefone.

     Disse-te: Eis-me.
E decepei-te a cabeça de um só golpe.

     Não queria matar-te. Choro. Eis-me! Eis-me!

In Luiza Neto Jorge - poesia (1960-19879), 2a. edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, pp. 108-111

PICASSO


terça-feira, 5 de novembro de 2013

Luiza Neto Jorge

O corpo insurrecto
Sendo com o seu ouro, aurífero,
o corpo é insurrecto.
Consome-se, combustível,
no sexo, boca e recto.

Ainda antes que pegue
aos cinco sentidos a chama,
por um aceso acesso
da imaginação
ateiam-se à cama
ou a sítio algures,
terra de ninguém,
(quem desliza é o espaço
para o corpo que vem),

labaredas tais
que, lume, crepitam
nos ciclos mais extremos,
nas résteas mais íntimas,
as glândulas, esponjas
que os corpos apoiam,
zonas aquáticas
onde os órgãos boiam.

No amor, dizendo acto de o sagrar,
apertado o corpo do recém-nascido
no ovo solar,
há ainda um outro
corpo incluído,

mas um corpo aquém
de ser são ou podre,
um repuxo, um magma,
substância solta,
com pulmões.

Neste amor equívoco
(ou respiração),
sendo um corpo humano,
sendo outro mais alto,
suspenso da morte,
mortalmente intenso,
mais alto e mais denso,

mais talhado é o golpe
quando o põem em prática
com desassossego na respiração
e o sossego cru de quem,
tendo o corpo nu,
a carne ardida,
lhe pede o ladrão
a bolsa ou a vida.

[In Terra Imóvel  Poesia, 2ª edição,  organização e prefácio de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001].

Sobre Luiza Neto Jorge



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...