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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Silvina Ocampo

Envelhecer
Envelhecer é singrar um mar de humilhações diariamente;
É olhar para a vítima à distância, por uma perspectiva
que não diminui os detalhes,  mas os aumenta.
Envelhecer é não poder esquecer o que se esquece.
Envelhecer transforma uma vítima em culpado.

Sempre achei que todas as idades são  cruéis,
e que se compensam ou teriam que compensar-se
umas às outras. O que ganhei pensando assim?
Espero  uma revelação. Por que uma árvore
embeleza-se ao envelhecer? E um homem espera se redimir
Só com os despojos da juventude.

Nunca pensei que envelhecer fosse o mais árduo dos exercícios,
um tipo de acrobacia que é um perigo para o coração.
Todo disfarce repugna a quem o porta. A velhice
É um disfarce com anexos inúteis.
Se os velhos parecem  disfarçados, as crianças também.
Essas idades carecem de naturalidade. Ninguém aceita
ser velho, porque ninguém sabe sê-lo,
como uma árvore ou uma pedra preciosa.

Sonhei em ser velha para ter tempo para muitas coisas.
Não queria ser jovem, porque perdia tempo somente em amar.
Agora eu perco mais tempo  com o amor,
Porque tudo que  faço,  faço-o em dobro.
O tempo transcorrido nos encurva; parece-nos
que o que foi deixado para trás tem mais realidade
para reduzir o presente a um interessante precipício.


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Silvina Ocampo

QUE ANJO TE LIVRARÁ DA TRISTEZA ...
Que anjo te livrará da tristeza
e  te despertará um belo dia
sem memória do que te afligia
e te dirá ao ouvido: "Ouça e cessa

teus gritos. Nos meus braços não te pesa
a lentidão do tempo nem a  ímpia
delação dos homens. És minha,
não és deste fútil mundo presa.

Mostra-te nesta fúlgida janela
para tua felicidade adornada. A dor
já murchou como uma grande flor

cuja sabedoria finalmente te cura
ao dissolver-se porque se transforma
em pó, ilusão, noutra ventura".


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Silvina Ocampo

PRESSENTIMENTO
Durante muitos dias me seguiste.
No canto do pássaro, nas sombras,
Nas modulações do espaço:
Aprendi a conhecer-te.
Eu sentia tua luz atravessar-me
Como uma flecha de ouro envenenada.
Desobedecia-te arrependida.
Falavas-me em segredo.
Nos espelhos quebrados, na tinta
Azul dos cadernos que deixavas
Sobre a mesa de meu quarto.
Eu tremia a olhar-te, eu tremia
Como tremem os galhos refletidos
Na água movida pelo vento.
Agora que conheço teus sinais,
Tua pele e tuas orelhas, teu semblante,
Não te desobedecerei,
E  ajoelharei diante de tua imagem,
Implacável sibila que me segues.

[Silvina Inocencia Ocampo Aguirre nasceu em Buenos Aires no dia 28 de julho de 1903. Na juventude estudou desenho em Paris com Giorgio de Chirico e Fernand Léger. Poeta, contista e tradutora, casou-se com o escritor  Adolfo Bioy Casares, em 1940. Faleceu no dia 14 de dezembro de 1993, em Buenos Aires].

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...