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terça-feira, 22 de outubro de 2019

Mariana Ianelli

MANUSCRITO DO FOGO
Memento Homo
Antonio Vieira

Ainda não é hora,
Há que tecê-la.
Adubá-la
Para o seu devido tempo.

As chuvas, as unhas lascadas,
O restar na penumbra,
Mas a hora ainda não está madura

As gavetas cheias,
A palha trançando o cesto,
O casaco no ponto da agulha,
Tudo é fruto.

Enquanto acesa a vela
Para a noite do pastor,
Generosa é a doação do fogo.

O braço se estende
Como se coberto de plumas,
Poderia, quem sabe, tentar um voo.
Pernas que, de tão leves,
Não deixariam rastro de fuga
E esta voz maviosa, que canta

São os pequenos grandes eventos
De um diário de bordo:
A poeira sobre a mesa,
Um perfume de laranjas,
O sono dormido em outras camas,
A nostalgia do amanhã.

Quanto cansaço, quanta luz.
Queimam as provas da razão,
Mas o pavio é longo.

Do novo a sede reclama,
O prato esta vazio,
O sexo dilata
Urgências do uma alma
Ancorada na carne e em suas rugas.

E o tributo que se paga
Por estar vivo.
Número do registro,
Licença, currículo,
Passagem.

E os planos traçados
Em sigilo
Para eternizar a duração da rosa.
Dar de comer a um gato,
E caminhar com os pés descalços
Sobre um mar de grãos.

No teatro da quimera,
O mais romanesco dos atos:
Um lugar para morrer
Entre as muralhas de Évora
Numa tarde de maio.

Pássaro do mosaico.
Caligrafia no jarro,
Sete mil contas vidradas.
Assim vai se fazendo a hora.

E queimam os projetos
Desde muito sepultados
De não perguntar
Pelo que não se deve saber,
E menos temer que amar.

Fia-se o tapete, desfia-se,
A areia escorre de um bojo a outro.
Badala o sino, badala o peito,
O sol já rasteja
E, apesar disso, a chama.

Quanta sombra., quanto gozo.
A água para o chá das dez
Borbulhando a um palmo da mão,
O vapor com que se prepara o sono.

E para distrair o acaso
De suas travessuras.
Deixar-se ficar, simplesmente.
Para dar alma à casa
Torna-la necessária
Simplesmente deixar-se ficar.

E se os pés caminhassem.
Levassem o mundo
Para dentro do mundo.,
Se não voltassem mais?
Apenas uma hipótese.
(Mas e quando não voltarem mais?)

Na direção leste do céu. Pégaso.
Então se diz: é verão.

A safra rendeu pouco,
O caule cedeu,
A pele já não tem mais aquele frescor.
Mas a terra permanece
E o vinco marcando a boca
Imprime o sinal
De uma indecifrável alegria
Sobre o rasgo de antigos pavores.

Quantas odisseias escritas
No centenário da estrada,
O correr de um outro rio
Na areia que o vento lava.
O vento e incontáveis passos —
Uns que regressam,
Outros que não chegaram.
Relatos de pioneiros e náufragos.

De repente, a imaginação invade
O que terá sonhado
Aquele homem de mil anos atrás,
Um vassalo na casa do senhor
De quem nenhum outro homem
Se lembra agora.

Baixo-relevo na pedra,
Ânfora pintada.

E se a boca aprendesse
O momento de calar
Para melhor dizer,
Se recitasse mais, saboreasse mais.
Se os olhos, se os dedos,
Ágape dos sentidos,
Se o pêndulo, se a clepsidra.

A cera derrete e se remodela,
Um galo decreta a noite,
cada órbita se cumprindo
Para que a matemática siga
Com seu balé de algarismos
E páginas se acumulem.
Teses, revoluções.

Prepara-se o vaso,  o epitáfio,
A moldura do espelho,
A primeira idade do álamo.
Seis manhãs, sete madrugadas
E um rosto emerge do mármore.
Meio século para a construção da abadia,
Segundos para derrubá-la
E assim vai se fazendo a hora.

Erguendo, inclinando.
Tangendo as abstrações,
Materializando
O medo na mordaça,
A morte nos poros vedados,
A simples felicidade num quarto,
A juventude extinta em Cassiana.

A hora ecoando, vertendo,
Inflamando a alegoria
Da balbúrdia das línguas
E dos jardins de canela
E da grande Prostituta
Em escrituras profanas.
O ano do jubileu se exibindo
No produto dos campos.

E na borra da vela consumida
Amontoam-se os erros formidáveis,
A virtude quebrada, o descaminho.
Torna ao pó o aceno desfraldado
Com ternura de mãe, mas nunca visto.
Desaparece de novo e de novo ressuscita
A palavra mal pensada
Que levou embora o amigo.

E o braço se inclina
Como que sob o peso do chumbo.
Pernas que, de tão velhas,
Não ousariam saltar um muro.
E esta voz esgarçada, que range.
Desejo de ser a ave do Nilo
Que renasce da essência do cinamomo.

Treme o farol para aquele que vem
E o quasar na lente do telescópio.
Quantos olhos mais, quantas brasas
Sob a tocaia da lâmpada.
Explode o botão na corola,
Explode o núcleo do urânio.
E o aroma da fertilidade,
É a catinga da devastação.

E quanto dura a restauração da cidade
Diante da sua ruína?
Quanto duram as ruínas?
A caverna dos manuscritos,
O baile dos povos, o hino dos povos,
Sua semeadura, sua vindima.
Quanto dura este círio?

Se fosse possível sair.
Deitar o continente das partes,
O espolio das obras,
Se permitido fosse vagar
Sem os pés, sem o aviso dos ossos,
Eximir-se de ganhos e faltas,
Fugir estando ao redor,
Um instante apenas, um relance.

Pelas mãos aborígines
Que esculpiram essa lança,
Reconsideram-se as cronologias.
E as mãos que cifraram os códigos,
Que tingiram uma prece
Na casca da arvore,
Hosana à memória.

E a mensagem guardada sob as dunas,
Debaixo das mesquitas,
A doze quilômetros no abismo,
A pirâmide que alçou a força escrava
Para o orgulho dos reis
E a amnésia de seus filhos.
O que matando concebeu,
E,  por ter sido concebido, morreria.

Assim está feito, posto.
Urdido, enraizado.
Ao alcance dos dedos,
Tão grandioso e tao frágil.
O balanço da candeia
Na sombra desta luz,
Na seiva desta fala.

A hora plena, cinza e dadiva.

(Em Almádena, Iluminuras, SP, 2007)



quarta-feira, 31 de julho de 2019

Mariana Ianelli

FAZER FOGO

Que sei eu da tua vida feita de milhões de instantes?
Das tuas monstruosidades, tuas taras, teus dramas?
Que sei eu dos teus contrabandos no caminho até agora?
Se nem sei teu nome e as palavras de um pós-guerra
São como pedras que precisamos atritar para dar fogo...
Não é mau que o cenário seja pobre e antes uma questão
De sobrevivência fazer fogo: isso aproxima estranhos, dispensa
Cerimônia, protela a discórdia e nos chama a certos gestos
De linguagem universal, rosto de dor, corpo com sono, sede,
Medo, fome, e então se tocam a tua loucura, a minha sanha,
O meu desejo e o teu desejo, acordados, então queimamos,
E queimamos bem, como se assim fizéssemos juntos a vida toda.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Mariana Ianelli

VIDA
Vida, pátria dos resistentes,
Quiséramos perder-te às vezes.

Partir e voltar por infinitos meses
Até que partíssemos somente.

Mas parecíamos fortes
E olhávamos para o chão cá de cima.

Empreendíamos novos encontros,
Multiplicávamos vínculos.

Uma carícia qualquer sempre havia
Por sobre a espessa nuvem do silêncio.

Pelo código do tempo, íamos adiante
Tramando futuros arrependimentos.

De dezembro a dezembro
Desabrochava a nossa rosa invisível, sedenta.

Sonhávamos que te perdíamos,
Mas éramos fortes ainda.

E por ti combatíamos,
A festa dos exércitos, dia a dia.


ESTAÇÕES
A estrada é apenas uma,
Desenhada no verso das mãos.
Intimidades da terra,
Que sei de seus dons, também meus?
Nada além estar cobrindo os montes.

Cruzado o rio, cidade nova.
Há muito o que fazer pela memória,
Para que a fonte entorne e se esvazie,
Mulheres para amar entre os lobos
E amá-las porque amanhã terei partido.

Quem vejo como espelho de mim mesmo:
Um viajante no fim da primavera
Provocando a rebelião das águas,
Ajudando a cintilar a poeira
Que a brisa carrega de uma parte a outra.

O dia posto, uma noite mais.
Mudas, todas as cores se ocultam,
Fingem-se de negro o vermelho, o verde
E a cor de certa música esquecida
Que vagamente me seduz, num calafrio.

Arde a coroa de fogo,
Define-se o diagrama de um círculo.
Na ensoalhada direção do extremo norte,
O céu do mapa, sem planetas, predomina.
Nele revoluteiam as minhas asas estendidas.


SOPHIA
Tenho olhos para o inaudito,
Mãos para acudir o amigo,
Pernas para estar a caminho,
Ouvidos que retêm o invisível.

O silêncio eu trago no corpo
E a voz para quando é preciso.

No plasma acumulo e dissipo
O plasma dos meus vinte filhos.
Todo instante de agora
É a gota de luz que eu respiro.

Nos labirintos da mente,
Existe o sem-limite do que amo,
Hóstia do meu pensamento.

E existem os desertos do mal,
Paraíso eterno da serpente,
O grau zero do sobrenatural,
Razão por que temo a mim mesma.

Sedenta, a besta vive aqui dentro
Com sua cabeça de touro
Desfigurada pela tirania do desejo.

E também vivem comigo os arcanjos,
Presença secreta de um verbo
Que me ensina tudo que posso,
O perdão, a vergonha, o comedimento,
Honras que fazem minha alma serena.

Sobrenome do minuto presente,
A memória coleciona páginas
De um livro iniciado muito antigamente.
A franja de longas histórias sacode
E se rebela a qualquer murmúrio do vento.

Perco-me no meio de um bosque,
Mas no ramo da palmeira eu me reconheço.
Sorrio para uma caravana de homens,
Mas tão-só na mulher de olhos claros
Eu de fato me esqueço e me acrescento.

Pequeno grão no deserto de um século,
Sou também um pouco de ti,
Que às vezes estás ao meu lado,
Às vezes abaixo, às vezes acima de mim.

(In Fazer Silêncio, 2005)


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Mariana Ianelli

PARA AQUELES A QUEM OS DIAS SÃO UM SOPRO
Raramente concede entrevistas este ermitão chamado Antonio Lobo Antunes. Não vai a lançamentos, não aparece, não promove seus livros. Uma vez, convidado a encerrar um congresso de medicina, não hesitou em frustrar as expectativas declarando que “esperar que um escritor diga coisas interessantes é o mesmo que esperar de um acrobata que ande aos saltos mortais na rua”. Por muito que soe antipático, e com isso prove a outra face da fama, Lobo Antunes não participa da indústria do espetáculo por uma razão muito simples, talvez por isso mesmo incômoda, elementar feito água. Lobo Antunes não aparece porque, sendo escritor, está a escrever. Porque o tempo é curto para o que de melhor ele tem a fazer, e está fazendo - diante do papel, não dos microfones.

Há certo escândalo em se abster do espetáculo quando vigora a lógica de que todo o tempo, por uma boa causa, pode ser negociável. Há um escândalo no sentido radical da palavra, o impedimento desta lógica perversa que arrebata o escritor da sua mesa de trabalho para um palco, aparentemente em favor da própria literatura. E esperado que, além de escrever, o escritor fale a respeito do seu livro, e fale sedutoramente, que seja cativante, que desperte e faça durar o interesse de uma plateia, que conte um pouco sobre o seu método de trabalho, sobre como faz para pensar o que pensa e dizer o que diz. É esperado que ele dê mais do que o inefável de sua escrita, ele, que já falhou tantas vezes na vida, e falhou com tanta excelência a ponto de criar um mundo novo dentro da órbita do espanto de estar vivo; ele, que escreve desde sua solidão sem fundo, desde súplicas remotas, fazendo de suas perguntas sem resposta o seu poema, ele agora é este escritor que deve estar apto a responder, a fascinar, a surpreender, como quem volta de uma longa jornada e abre sua bagagem cheia de lembranças exóticas, histórias de além-mar, relatos de pequenas grandes peripécias por trás de suas cicatrizes, tudo isso transformado de chofre num livro vivo, numa proeza, num evento digno de aplauso, como um acontecimento que, para além dos inenarráveis fracassos pessoais que porventura alimentam a própria escrita, possa ser considerado o fato de uma conquista, a razão de um sucesso, a prova de que um livro antes escrito sem plateia e sem garantia de resposta é um livro que, afinal, merece ser lido.

Basta pensar no teor venatório da expressão “público-alvo” para ver que alguma coisa aí não faz sentido. Num auditório que reúne uma centena de pessoas com o propósito de ouvir a uma só pessoa, ali, de frente para todos, caberia a pergunta de onde está realmente o alvo. Porque, ao fim e ao cabo, num verdadeiro encontro entre o escritor e seus leitores, não há quem não saia atingido, quem não se reconheça nas mesmas antigas interrogações de um único homem que, há muito tempo, nos confins da Arábia e do país de Edom, por falta de um consolo para a angústia que sentia, não encontrou outra saída senão cantar dentro de um longo poema, e assim, cantando, perguntava por que ele era cercado por todos os lados, vigiado, tomado por alvo, posto à prova, agarrado pela orla de sua túnica, confundido com o pó e a cinza.
(Publicada em 26/03/2011)

[In Breves Anotações sobre um Tigre, ilustrações de Alfredo Aquino, Porto Alegre: Ardotempo, 2013, pp. 79-81]



sexta-feira, 5 de junho de 2015

Mariana Ianelli

ESSENCIAL

O branco há de me cobrir.
Nenhuma ótima filosofia,
nenhuma música para essa vez.
Os bárbaros conversam comigo do poço,
os mais hábeis, os mais inertes.
Minha confidência se abre para eles:
é a demolição do minuto pontual,
da cadeia insustentável de regras,
dos meus calçados infalíveis
que respeitaram sempre um certo simulacro.
Bárbaros por uma ausência profana
de ideais e arrependimentos:
o exemplo da rendição inocente.
Deveres à parte,
costumes exauridos e desígnios à parte,
o branco há de deitar sobre mim.

[In  Duas Chagas, São Paulo: Iluminuras, 2001, p. 53]

By Amelia von Buren

terça-feira, 12 de maio de 2015

Mariana Ianelli

ÁGUAS MIÚDAS
Não é do tipo excruciante, dessas dores que derrubam, que torturam, que enlouquecem. Comparada com outras dores, se é que dores se comparam, se é que podem competir umas com as outras só porque em quase tudo neste mundo se compete, comparada com as dores gordas das tragédias, essa é ridícula. Realmente ridícula. No cômputo geral das lágrimas, ridícula. Coisa de águas miúdas. Uma cadela que não se levanta mais, que mal se mexe, mal respira, mas que ainda abana o rabo quando vê você. Dor de ternura. A casa vendida, demolida, apagada do mapa da cidade, sem que nada disso seja exatamente chocante, até o dia em que você passa em frente ao terreno e se dá conta de que o velho flamboyant foi decapitado. Dor de ternura. Saber pelo tapeceiro da rua, amigo do pedreiro dono do galo, que o galo não canta mais para a vizinhança porque morreu. Podia não tecer a manhã, sendo ele único no bairro, mas que tecia o ânimo de muita gente, isso o galo do pedreiro tecia. Dor de ternura. Os livros que eram presentes para a avó, um dia, todos de volta para você, com as páginas marcadas com flores secas. Esses nomes pequenos, como já disse um poeta, esses nomes do afeto quando voltam, meu unicórnio azul, minha lágrima de vidro, minha pérola, minha branquinha. Dor de ternura quando esses nomes pequenos murcham como um pé de hortelã que amarela e pende de um canteiro já em si mesmo tão humilde. Dor de ternura quando voltam no ar do pátio de casa esses nomes, bruma rápida, miragem, chamando você. E você vai, você os ouve, a esses nomes, Coyotito, você cai nesse momento enternecido, que é só isso mesmo, um momento com pouco tempo e pouco mundo para durar, Coyotito, meu poemeto escrito com dedo na areia da praia, meu anjo, meu principezinho.

Fonte: Revista digital RUBEM, 9.5.2015


sábado, 14 de março de 2015

Mariana Ianelli

De Rilke para Sophia, de Alceu para Lia
Além dos célebres contos e poemas de Natal, que todos os anos surgem em novas coletâneas, há na literatura este nicho muito particular das cartas natalinas, no qual Rainer Maria Rilke ocupa um lugar especial. Suas cartas de Natal para a mãe cobrem nada menos que 26 anos, um período sem lacunas que raramente encontra paralelo no gênero epistolar a ponto de render um livro temático. Curiosamente, o que sintetiza as cartas do poeta e ao mesmo tempo as mantém vivas por um quarto de século tem relação com as cartas de Alceu Amoroso Lima para sua filha Lia. Essa presença por meio da palavra, nunca como presença física, numa época do ano em que era esperado que pais e filhos celebrassem juntos, acontece com uma intenção que não foge ao espírito da data.

Diz-se que Rilke mantinha uma distância estratégica da mãe e suas cartas seriam prova disso, de um filho que, não faltando com o afeto, tampouco buscava expandir essa relação. Mas a importância do Natal para o poeta como um momento de celebração meditativa, nítida nos motivos de sua poesia, coincide com o gesto e o conteúdo de suas cartas. Em 1903, três anos depois do início da correspondência com a mãe, Rilke propõe a ela um ritual: que sua carta seja aberta apenas no dia 24 e às 6 horas da tarde os dois se encontrem em pensamento. Fica tacitamente acordado que o Natal será comemorado sempre assim, numa secreta sintonia entre mãe e filho que significará para ambos uma comunhão sagrada.

As cartas não falham, a cada ano vêm de um lugar diferente, Paris, Westerwede, Roma, Duíno, Viena, Munique, cada lugar marcando uma fase da vida e da obra do poeta. O ritmo intenso tanto nas mudanças de residência de Rilke quanto em seu trabalho literário tem como contraponto sutil a serenidade de espírito que o poeta busca para si, desejando o mesmo para sua mãe. O presente de Natal enviado com a primeira carta, em dezembro de 1900, é simbólico: "Histórias do Bom Deus", um livro em que a mãe vai reconhecer - ele espera - o melhor em que seu filho se tornou.

É bom lembrar que, nessa época, Rilke já esboçava com o pintor Heinrich Vogeler o projeto de um ciclo de poemas de Natal que, mais de dez anos depois, resultaria no livro "A Vida de Maria". Uma das cenas escolhidas para esse ciclo é o repouso de Maria e Jesus durante a fuga para o Egito. Esse momento de repouso dos prófugos está representado também de modo simbólico no conteúdo das cartas natalinas, especialmente durante os anos da Primeira Guerra Mundial. Aquela paz de uma hora em que os dois se encontram, sempre em dezembro, numa espécie de cerimônia íntima, de cumplicidade na solidão, significa ainda um espaço interior de refúgio, uma celebração da criança a salvo dentro de um e de outro.

No Natal de 1901, em Westerwede, Rilke está casado, tem uma filha, e a família recém-formada justifica as palavras breves. No dezembro seguinte ele volta a escrever, dessa vez longamente. Fala do trabalho, da filha pequena, do tempo quente e úmido de Paris. Já em 1906, instalado em Capri, na Villa Discopoli, Rilke está separado mulher e da filha, tão sozinho quanto a mãe. A paz da hora então é real, e a solidão, uma palavra festejada. A partir daí, Rilke afasta-se cada vez mais de sua família a ponto de comentar, poucos anos depois, em Duíno, que há muito tempo não recebe notícias de sua mulher, Clara.

Em 1910, Rilke celebra o Natal em Túnis, em meio a uma paisagem de mesquitas, "templos divinos de outra crença, mas [erguidos] ao mesmo Deus". Esse breve comentário resume a convicção de fundo místico do poeta. Também nessa carta está uma de suas definições para o espírito da data: "Sentir no peito uma vez ao ano a expectativa, a esperança inabalável, de que o adulto, ora vigorando em nós, nos quer surpreender, não um pouco, não, muito, com o infinito".

Essa "esperança inabalável" e essa "feição de inocente criança" que dão sentido à hora sagrada serão desafiadas durante os anos de guerra. Justamente em 1914, a carta vem sem referência de lugar. É o primeiro dezembro de um mundo em transe, uma época em que as palavras não convencem. Mas René, o velho René, como agora assina suas cartas, continua a ver no Natal "a comemoração do júbilo", o envolvimento de cada um na imagem daquela criança pura, mesmo em circunstâncias de destruição e luto.

Se já a fidelidade das cartas, ao menos uma vez por ano, mostra uma constância de pensamento, o equilíbrio que o poeta mantém numa época de desabono espiritual prova que sua alegria não oscila com as oscilações do mundo. Por isso, suas cartas de 1914 a 1918 insistem em reabilitar as palavras desacreditadas e assumem o desafio: "Somos assim postos à prova, se de fato compreendemos a necessidade de transcender a nós próprios no congraçamento".

As cartas que se seguem, de 1919 a 1921, marcam uma temporada de turnês de leituras e conferências de Rilke pela Suíça, além da etapa final da longa gestação de "Sonetos a Orfeu" e "Elegias de Duíno". Em 1923, os poemas de "A Vida de Maria" estreiam numa peça para canto e piano.

O interessante nessa arquitetura dos poemas de Natal, contemporâneos das primeiras "Elegias", e nas cartas natalinas para a mãe, é a sugestão de uma mesma atmosfera de capela, sob a influência das artes, especialmente a pintura de ícones. Não por acaso, além das pinturas citadas pelo poeta em suas cartas, há referências a capelas que ele visita, em particular a capelinha abandonada de Santa Ana, de propriedade do Castelo de Muzot, que sintetiza em uma imagem o imperturbável sentimento ascético de Rilke nos tempos do pós-guerra. Sua última carta vem em 1925, de Muzot, e ali está, mais uma vez intacta, a celebração de júbilo do filho, comungando em pensamento com a mãe.

A criação desse espaço de sintonia lembra o teor de outras cartas natalinas, agora de pai para filha. Cobrindo um período de mais de 20 anos, as cartas de Alceu Amoroso Lima para sua filha Lia aproximam-se do espírito de união entre Rilke e Sophia. Vale destacar a carta de dezembro de 1950. A bordo do navio Argentina, no Dia dos Santos Inocentes, Alceu escreve para a filha se despedindo. Começava um tempo novo para os dois, Alceu a caminho dos Estados Unidos, Lia a caminho do mosteiro Santa Maria, em São Paulo. Nessa carta de despedida, Alceu faz um único pedido para a filha às vésperas da vida nova: que ela nunca perca sua naturalidade. Que, dali a alguns anos, ele possa reconhecer a mesma alegria de menina quando a reencontrar, "com os seus véus negros, atrás de uma grade".

É assim que os dois comemoram o Natal, celebrando a figura de uma criança e nela a essência de uma pureza e uma alegria. Em dezembro de 1961, Alceu escreve: "Se não fosse, hoje em dia, Santa Maria, e em Santa Maria se não fosse uma 'nossa menina', sempre alegre, sempre igual, sempre animada, sempre criança, (...) e por isso com o ar puro do espírito varrendo sempre todos os miasmas da minha melancolia, da inquietação, da dúvida, da divisão, da discórdia comigo mesmo, do medo, em suma, dos fantasmas do demônio exterior e interior (...), que seria de mim, neste confuso crepúsculo de 61?"


[In Valor Econômico, 6 de dezembro de 2013]

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Mariana Ianelli

CANTO DE OFÍCIO
A cada dia, por ser hoje,
Eu te agradeço.
Por esse quarto à meia luz
E outros mundos,
Por esse gosto de amêndoa
E outros prazeres.

Quem quer que sejas tu
E onde estiveres,
Sob qualquer face
Que me apareças,
Assim é.

Pela incerteza essencial
Sobre mim mesma,
E estas palavras
Desde há pouco sem proveito,
Entranha, mistério, vereda
- Eu agradeço.

A cada noite inaugural
E derradeira,
Que me sustém
Não menos que o suficiente,
Bendito o fruto, o sal, o chão
E este silêncio.

Fundo de ravina o meu lugar,
Se já não creio.
Alto de um monte, se resisto.
E descrendo, resistindo,
Eu agradeço.

Que me possua o antro
Dos meus edifícios,
Como a pedra ordinária
É possuída
Por sóis e luas
Em seu tempo de maré.

Que eu me refaça
De quanto tenha desistido
Como a dizimação de um povo
No testemunho dos vivos.

E que eu envelheça
Par a par com esta casa,
Debaixo do musgo e da poeira,
O corpo palpitando ainda,
Mas num insensível batimento.

Por tudo o que se eleva
Numa onda
Logo se quebrando
Junto à espuma,
Pelo que no adeus se perpetua,
Sim, louvado seja.

Embora muito fique por saber
Das letras e dos números,
E tanto por dizer
Sobre o mal e a loucura,
Embora o rosto penso,
O grito, os pés inúteis.

Quão breve o momento
E quão vasto seu milagre.
Os favores da pele,
O céu de um poema,
A benção do pão e da água.

A benção, apesar
Do irremediável olho cego,
Das almas perseguidas
E do aborto solitário.

Porque aqui se chega,
A este dia e a esta luz
E é tão raro aceitá-lo.
Porque daqui se vai.

O adágio,
A flor do ourives,
O vermelho da China,
Um giro de bailarina,
Graças a ti, todas as artes.

Por esse vinho
E seus quinze outonos.
Pelo descanso da terra.
Por essa terra.

(In Almádena, São Paulo: Iluminuras, 2007)
Interior de igreja, Arcângelo Ianelli, óleo sobre tela, 1953


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Mariana Ianelli

NÓS, OS MELANCÓLICOS
Porque são melancólicos todos os bichos atrás das grades, melancólicos, melancólicos os macacos mendicantes da Indonésia, e ainda os que sobraram no zoológico bombardeado em Al-Bisan, como também é melancólico um poliedro de vidro sobre a asa de um Messerschmidt feito de chumbo, e melancólico o Lúcifer de Franz von Stuck, com os mesmos olhos leitosos de um androide de Blade Runner, como também melancólicas, melancólicas, as garotinhas de Lewis Carroll, as crianças armadas nos campos do norte do Iraque, a menina Rosalia nas catacumbas de Palermo, e ainda as cento e oitenta e seis velas pelo aniversário de dez anos dos cento e oitenta e seis anjos da cidade de Beslan, além do mais, ainda porque são igualmente melancólicas as santas nas caves iluminadas dos sobrados, e as cruzes de beira de estrada, e as polaroides de Tarkovski, aquela obsessão de Tarkovski pela Rússia, aquela obsessão pela névoa que uns chamam de estilo, e no fundo, no fundo, é uma bruta saudade de casa, e porque mais, porque também são melancólicas, melancólicas, as bonecas nas redomas de Farnese, e todas as mulheres do Dr. Charcot, e todas as mulheres de Hopper, e ainda porque, entre outras coisas, também é melancólico o pequeno príncipe no deserto, lá onde uma vez Santo Antão enfrentou e venceu seus demônios, como, além disso, é melancólico, entre outras coisas, o velho piano polido, com um candelabro de cada lado, na casa de campo do poeta assassinado, hoje museu em Valderrubio.

Fonte: Site Vida breve, 09/11/2014


ALFREDO AQUINO

domingo, 7 de setembro de 2014

Mariana Ianelli

HISTÓRIA DE UM CORAÇÃO REABILITADO
Um dia a casa desaba, é a gota ácida de uma desilusão pequena a que faltava para o oco da imensa desilusão de tudo, é uma vontade de descriar o mundo, de enxotar as palavras que fazem contar histórias, é a solução final de desprezar essas histórias, de matar por esquecimento, pouco a pouco, e, pouco a pouco, as coisas vão ficando menos graves, menos sólidas, as palavras muito frágeis, apagadas, sem memória, mas, mesmo com toda a vontade, com todo aquele imenso oco, ainda assim não é tão fácil, produzir cacos e restos também requer muito trabalho, todo um esforço de força bruta aplicada, todo um labor de fogo, e quanto mais a casa desaba, quanto mais cacos e restos, mais a vontade se energiza, é como drenar o calor das coisas numa explosão magnífica, é um louco glorioso o mentor desse desperdício, criador de escombros, fautor de uma noite infinita, coração desarvorado, um coração em seu limbo, até que um dia, um dia alguém olha a roseira seca no meio de um monte de mato e resolve que ela vai rebrotar, porque, agora sim, está disposto a cuidar de um jardim, mais que disposto, tentado, desafiado a ver se quando rebrota uma rosa vem a vontade de um jasmim, e se é só rebentar o cheiro doce que elas também vêm, as abelhas, essas que andam desaparecidas, as abelhas, as libélulas e as borboletas suicidas de Vinicius, e ver se depois disso tudo a vontade rebenta também, vira corpo de afeto, prazer de cuidar, de dizer e se ouvir dizendo palavras mal despertas, de finas, finíssimas raízes, palavras que um dia se dão ao excesso de estar vivas – lágrimas da aurora, moradas, amor, primícias.

Fonte: vidabreve.com/

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Mariana Ianelli

CARTA LACRADA
Falo desses anos que percorro sem enigma
Porque é sob os gestos simples do tempo
Que se espraia o segredo.
Anos que eu lembro
Sem nem poder reparti-los contigo
Porque estamos no intervalo arredio
E para mim já não é lúcida a tua face revisitada.
Agora envio a expressão que faltou ao poema.
Todo tempo com a sua teimosia,
Com a sua viração, ou serenidade.
Será dessa vez a bravura da luta adiada,
Será a paixão murmurando que veio
Porque também o homem tem a sua parte louca.
Eu te consulto em imaginação.
Se não descubro os teus conselhos,
Recorda que eu não entendo signos...
Ou que a tua melhor razão não cobrirá o meu grito,
Eis a minha vida resguardada dos outros
E, porque resguardada, mendiga.
Tenho sim os meus acordes impecáveis,
Mas está com Deus ou com uma igual vibração
A dimensão ao mesmo tempo justa e difusa
Do concerto da vida.
Nós falhamos na conquista da flor,
Esbanjamos o abraço querido,
Pisamos a planta orvalhada.
Somos o ínfimo ou somos tanto,
Não cabemos no projeto venturo
Ou em acontecimentos.
Esse pouco desvario nos põe a correr pelo sangue.
É a força que não declaro,
Uma segunda existência palpitante
Em toda beatitude e nos corpos enfermos,
Porque eu acredito.
Ouve, ouve o estribilho —
Um amor penitente, um amor libertado,
Quando é tão desejável morrer,
Quando morrer é um perigo devassado.
No verso fugidio eu deponho meu passado,
Ali eu o acarinho, eu o adormeço nos braços.
Lembra por quantas vezes
Fracassamos e prosseguimos o nosso pacto,
A nossa marca grave de irmãos, o sangue conjugado,
Quantas foram as noites que tombei de pecado
Por atraiçoar a alegria,
Quantas outras repetiste que a tua resignação era exausta.
Nem há mais o apelo delicado,
Direito de reiniciar lentamente a busca do teu corpo,
Do teu olho particular esverdeando uma tímida sensualidade
Que era o sentido da tua inteligência.
Dessa vez será o desespero cerrado entre os dentes,
A jugular sobressalente, o muque rijo e latente,
Meu sexo intumescido de medo.
Tua palma rente na minha,
Entrávamos com primeiros lavores
No encantamento da vida,
E levávamos nada,
Nenhum juízo, nenhuma cintilação ainda.
Agora é o meu viço preservado,
Essa estreita presença de Deus ou de uma sinfonia parecida,
Que me faz rebentar num tufão
E marcar estas linhas embriagadas e mortas para ti.
Porque eu acredito.

[In Cartas, desenhos de Alfredo Aquino, textos de  Ignácio de Loyola Brandão e Mariana Ianelli, São Paulo, Iluminuras, 2004, pp. 72-73]






quinta-feira, 17 de abril de 2014

Mariana Ianelli

OS TEUS OLHOS
Que estejam vivos em algum lugar
Os teus olhos -

Não importa onde se demorem,
Que coisas afaguem, que outras molestem,
Importa que estejam vivos e curiosos
Esses olhos

E olhem para dentro alguma vez
E o que vejam
Seja alguma força de sequoia
Presa à terra desde o império
De outros tempos

E seja ainda uma fonte de pedra,
Sejam águas correntes e o privilégio
De uma calma repleta
(O regozijo da sombra
Passado o terror das guerras)

Que dessa multidão, desse rubor de sumo
E segredo de floresta
Se encham os teus olhos,
E só então se esfumem, e só então se fechem.

[In O AMOR E DEPOIS, São Paulo, Iluminuras, 2012, p. 43]



terça-feira, 4 de março de 2014

Mariana Ianelli

Nada foi feito que revivesse a coisa morta,
Mas no rosto do amante solitário
Uma tarde despontou dentre milhares
E quis do homem o seu prazer intenso
De sonhar o mesmo vulto sobre a cama,
O mesmo vínculo que se estabeleceu
Para ser rompido como os que o antecederam
E os que viriam raramente depois dele.
Cindiu a indiferença dos anos e voltou
Com sua fome, seu poder ambíguo de encantar
Pela eternidade do instante que floresce
Apenas quando a melancolia de tê-lo perdido
Também volta, agora com toda a sua beleza visionária.
Uma tarde cuja manhã já se esqueceu
No traço de tantas iguais que vêm e passam
Como para só cumprir o ato necessário;
Uma tarde cuja noite se tornou algum resíduo amortalhado.
Estava ilhada, suspensa no fluxo do tempo,
Era a relíquia do amante e era o seu trauma.

[In Passagens, São Paulo: Iluminuras, 2003, p. 81]

Berthe Morisot 

 Manet à l'île de Wight

domingo, 26 de janeiro de 2014

Mariana Ianelli

AS VIDAS DE MATILDE
Matilde vivia ali desde sempre. Eu assim imaginava. Que antes de Matilde era um tempo tão remoto como antes de os céus se terem separado das águas. Desde que existia a casa da avó, Matilde existia. Cozinhava. Preparava alcachofras, minestrones e um capeletti que vinha numa travessa larga, nos almoços de domingo, quando a família se fartava de tagarelar até bem depois dos pratos limpos e da travessa esvaziada. Matilde alimentava a casa, justamente ela que era tão miúda, as mãos enrugadas de lavar batatas, cheirando à salsa.

A idade de Matilde? A idade de Salé, de Héber, de Faleg, de qualquer um da geração dos velhos patriarcas. Não que fosse realmente velha, apenas que já tendo visto muitas coisas nesta vida devia ainda ter vida para ver duas vezes mais. Tinha uma pele muito fina, muito branca, e a voz miudinha como ela. Não era bonita, Matilde. Era sozinha. Tão sozinha que nunca deixava a casa. Tinha seu quarto num anexo onde se fechava durante a noite e nos feriados. Era de falar pouco, mas falava comigo, isso eu lembro, a risada que ela ria para dentro, o rosto todo afogueado.

Lembro de Matilde empoleirada num banco da cozinha roendo as unhas, de Matilde dando nacos de mamão para as tartarugas, ou de repente Matilde desvairada, batendo gavetas, ensaiando o fim do mundo num estrondo de cumbucas, panelas, colheres e facas. Porque ela também tinha seus rompantes, suas esquisitices, dizia que não era deste planeta, que por isso não mostrava seus pés nem se fosse obrigada.

O susto que foi para mim quando ela resolveu ir embora da casa. Os netos todos crescidos, os almoços de domingo rareando, foi embora sem levar nada, que não tinha mesmo nada para levar. Então que descobrimos outras vidas de Matilde. Que ela sofria da síndrome de Diógenes, aquela doença que faz a pessoa acumular todo tipo de tralha, latas velhas, jornais velhos, montes de lixo que a avó descobriu no quartinho do anexo que vivia trancado.

Susto ainda maior foi descobrir que antes das travessas de capeletti e dos pratos de alcachofra, Matilde ganhava a vida no porto de Santos, quem podia imaginar uma coisa dessas, Matilde entretendo os marinheiros do litoral. Da vida que viveu depois da casa, só ficamos sabendo do final. Um final trágico. Um dia desceu de um ônibus e foi atropelada. Dizem que morreu lá mesmo, no meio da rua, justamente ela que era tão solitária. Cá para mim, entre todas essas vidas, Matilde ainda está ali na casa da avó, empoleirada num banco da cozinha, no deserto dos seus dois séculos de idade, eu falo com ela e ela ri aquela risada miudinha, para dentro, o rosto todo afogueado.

[Fonte: Revista Rubem, 07/12/2013]




quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Mariana Ianelli

CONDOR
Noite plena
Ele paira sobre o futuro 
E não lhe pesa um século 
Mais do que um instante.

Sangue do sangue 
De cordeiros e lobos,
Ele, paciente como a terra 
Que ama a vida unânime 
E torná-la seu corpo.

Em outros tempos 
Sonhavam em suas asas 
Homens no topo da montanha. 
Na pedra rasgaram seu voo,
No préstito das honras.

Extinto das alturas, malvisto 
Ladrão dos que já não sonham, 
Ainda se abre em cruz
O dramaturgo. 

[In Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, Casa da Palavra Produção Editorial, 2009, p. 27]



terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Mariana Ianelli

O DIA FINAL
É véspera da passagem
do ano velho
e como os primos distantes
que se reconhecem
só nos dias de ceia
(mas calorosamente)
aqueles deveres vitais
de resolver as falhas
no amor e na moral,
por inteiro, reaparecem
(calorosamente)
prometendo a solução
que não há.
E como o peru grávido
de passas e de bom cheiro,
o peru da ceia
a que vão os primos,
chegam os projetos de hoje,
estelares,
na poesia, no suicídio,
e são tantos
que estão fora de pauta
em bombardeio
na mira da página branca
- é um salto ágil
para cima do muro
para as telhas de casa
para um rabo de nuvem
para os confins do céu
para além do mundo.
Esse ano terminando,
incandescemos:
como a chama de um dia
que treme até à tarde
e pousa rápida, grafite.

[In Trajetória de Antes (1999), pp. 73-74]




domingo, 24 de novembro de 2013

Mariana Ianelli

FILHO PRÓDIGO
Um animal 
De grata obediência 
Fui criado.

Sempre os teus favores,
A tua pontualidade,
Minha pele macia
Sem rastro de batalha.

Pai, eu era fraco:
Teu amor me apequenava.

Ver à distância
Eu via apenas por metáfora.
Não me punha em risco,
Não sabia errar.

A mesa dos teus mandamentos 
Onde todos comiam,
Eu definhava.

Difícil partilha dos bens,
Ser o herdeiro
De tua audácia e desertar.

Perdido
Estranhei meu nome,
Fui jogador,

Do teu ouro fiz jorrar 
A noite alta.

Pai, eu descobri a fome.
No descampado sob o sol 
Amei e fui triste,
Me inventei como se inventam 
Os donos de uma história.

Mais difícil que partir
Eu volto, eu te devolvo
Meu rosto endurecido
Mediante um coração em liberdade.

E festejamos juntos 
E devoramos juntos 
A morte do novilho cevado.

In Treva Alvorada, São Paulo, Iluminuras, 2010, pp. 93-94


GIOVANNI FRANCESCO BARBIERI



sábado, 2 de novembro de 2013

Mariana Ianelli

Para honrar tua vontade, festejamos.
Esse amor rente à boca nos ensina 
A crer no tempo da eternidade,
Num espaço em que a matéria é luz, enfim,
E onde o temor da morte se destrói. 
Atravessamos a época de um verão que faz sofrer, 
Uma serpente se levanta entre os cascalhos 
E se põe contra quem vem pelo caminho.
Mas somos muitos, somos teus, e aguardamos.
Se coragem há que torne as horas mais tranquilas, 
Nós não sabemos,
Apenas contamos com o retorno de teus olhos 
E ao poder da natureza suplicamos 
Que recuperes a mesma identidade 
Pela qual te reconhecíamos diariamente 
Como o soberano autor de tua vida 
E não este ser convulso que de nós se afasta 
Para vagar numa esfera invernal 
De mudez, alienação e indiferença.
Estamos em ti sempre que te ausentas.

[Passagens, São Paulo: Iluminuras, 2003, p. 81]

Mark Rothko

sábado, 12 de outubro de 2013

Mariana Ianelli

A FÁBULA DE SÉRAPHINE
Séraphine Louis tinha treze anos quando partiu de Arsy, onde pastoreava ovelhas, para trabalhar na casa da condessa de Beaumini, em Paris. Mas Paris não era lugar para Séraphine, ela voltou. Aos dezoito, foi empregada no convento Charité de la Providence, em Clermont. Passou ali vinte anos. Partiu novamente. Foi trabalhar nas casas dos burgueses de Senlis, na casa de Mme. Mong, na casa de M. Chambard. Até que, em 1906, Séraphine com quarenta e dois anos, a Virgem lhe apareceu na catedral Notre-Dame de Senlis.

“Séraphine, você deve pintar!”

Obediente e devota como era, Séraphine começou a pintar. Inventava suas misturas usando Ripolin comprado na drogaria da praça do mercado. Pintava à noite, no seu quarto feito atelier na rua Puits-Tiphaine. Os de Senlis se divertiam com a empregada que pintava quadros. Debochavam da mulher sem instrução, que dizia ter visto a Virgem e pintava salmodiando os cânticos das freiras de Clermont.

Em 1912 apareceu na pequena vila, vindo de Paris, Wilhelm Uhde, um aristocrata alemão. Procurava um retiro não muito longe da cidade das artes e em Senlis encontrou esse lugar. A catedral gótica da vila o seduzia com suas histórias de Deus e de reis. Nessa época, Uhde já colecionava obras de Picasso e enfrentava a desconfiança dos marchands para expor artistas ainda à sombra da história e do mercado, como Henri Rousseau e Marie Laurencin.

Em Senlis, Uhde se instalou num apartamento na praça Lavarande. Todas as manhãs uma mulher que lhe haviam recomendado vinha fazer a faxina. Era Séraphine. A insignificante, insólita Séraphine. Quando Uhde viu pela primeira vez um de seus quadros, uma pequena natureza-morta com maçãs, não se conteve: “Cézanne ficaria feliz de ver essas maçãs”. Sob a vista sarcástica da gente da vila, Uhde encorajava Séraphine a pintar, comprava seus quadros, mostrava-os aos amigos parisienses.

Veio a Primeira Guerra, muitos debandaram de Senlis. Uhde, perseguido, despareceu. Mais de dez anos se passaram até o improvável acontecer. Desta vez, de Chantilly, Uhde vinha para uma exposição de pintura regional na prefeitura de Senlis. Percorrendo a grande sala, no meio de toda aquela arte provinciana, estacou diante de três telas: um ramo de lilás, uma cerejeira, uvas negras e brancas.

Lá estavam as cores da rosácea medieval, as flores semoventes de Séraphine, suas árvores estreladas, águas-vivas, borboletas-cauda-de-andorinha, peixes-mandarins. Três quadros, e lá a inteligência sensível, autodidata, que resolvia na pintura, com seu métier secreto, as questões de cor, equilíbrio e harmonia. Uhde pensou no Cântico de Salomão. Sentiu que badalavam juntos os sinos de Saint-Fraimbault, de Saint-Aignan, de Saint-Hilaire.

Nenhuma palavra sobre Séraphine na imprensa local que noticiava a exposição enquanto os jornais de Paris divulgavam a descoberta evocando a arte do Extremo Oriente. A velha empregada agora abandonava a faxina, pintava de três a quatro telas por semana, tinha de volta seu mecenas e colecionadores na Alemanha, em Londres, em Paris.

A bonança duraria pouco. Era o fim dos anos loucos na França. Começavam a irradiar os maus tempos da grande crise de 1929. Menos de dez anos depois explodia a Segunda Guerra. Uhde já não podia sustentar Séraphine, que, por sua vez, ia submergindo na loucura.

“Ideias de perseguição; alucinações auditivas; alucinações visuais”, assinalou o médico no documento de admissão de Séraphine no asilo de Clermont-de-l’Oise em fevereiro de 1932. Vieram os anos de miséria, alienação e nenhum quadro. A visionária que imaginava um cortejo iluminado no dia da sua morte foi enterrada numa vala comum no ano de 1942. Uhde viveria cinco anos mais.

Aquela pintura inspirada, magnificamente colorida, hoje pertence ao acervo de vários museus da França. Dizem que brilha como se ainda estivesse fresca. Essa pintura cuja técnica vem de uma mistura indecifrável. Algo que contém Ripolin, às vezes verniz, e o óleo santo da Notre-Dame da pequena vila de Senlis.

[Crônica publicada no dia 12/10/2013, na Revista Digital RUBEM]


quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Mariana Ianelli

DESAFIO
Um último olhar para os canteiros repisados, 
Ainda isso te comove -

São coisas familiares que retornam,
Pequenas pedras, lâmpadas de um caminho, 
Uma trilha sob o arco da folhagem 
Como se apesar de tudo os mesmos passos,
A mesma ronda, o mesmo afogueado abrigo.

Provando o rumor dos interiores,
As cores sóbrias, o lado gótico da vida, 
Pouco a pouco perdendo o fogo e o viço,

O desafio é quanto pode durar o teu sorriso 
Contra toda a tua escória, as tuas derrotas, 
No fragor dos estilhaços, algum brilho.

In O amor e Depois, São Paulo: Iluminuras, 2012, p. 59

Francisco de Goya
O cão


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...