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sexta-feira, 27 de junho de 2014

Mário Faustino

DIVISAMOS ASSIM O ADOLESCENTE

Divisamos assim o adolescente,
A rir, desnudo, em praias impolutas.
Amado por um fauno sem presente
E sem passado, eternas prostitutas
Velavam por seu sono. Assim, pendente
O rosto sobre um ombro, pelas grutas
Do tempo o contemplamos, refulgente
Segredo de uma concha sem volutas.
Infância e madureza o cortejavam,
Velhice vigilante o protegia.
E loucos e ladrões acalentavam
Seu sono suave, até que um deus fendia
O céu, buscando arrebatá-lo, enquanto
Durasse ainda aquele breve encanto.

[In O HOMEM E SUA HORA E OUTROS POEMAS, São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p. 141].


sábado, 26 de outubro de 2013

Mário Faustino

O SERVO NOVO AO SOM DE CUJA LIRA
O servo novo ao som de cuja lira 
Agora dormes, Rei, aqui maldigo 
E invejo; neste burgo forte e quieto,
Em plena primavera de oliveiras,
Venho sonhar contigo e teus perigos, 
Teus combates, teu riso, teu pecado; 
Vestido, farto, amado, longe, ah, longe 
Do teu flamante outono de granadas, 
Verme seguro, salvo, tremo, ao ver-me 
Mendigo de loucura, medo e crime;
À sombra deste lírio duro, lívido,
Canto a flexível flor de fogo, amável 
Embora amarga e irmã da que sabíamos 
Lamber os muros roxos de outro inferno.

In O HOMEM E SUA HORA E OUTROS POEMAS, São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p. 155.



domingo, 5 de maio de 2013

Mário Faustino

PRELÚDIO
He was a poet, sure a lover too...
Keats, “I Stood Tiptoe”

O que eu sou, quero dizer a mim mesmo
para que venha a sabê-lo pouco a pouco.
Sejam minhas palavras não um canto
impossível agora mas retrato
que socorra e console enquanto espero
e receba o que não posso mais conter.
Pudesse eu celebrá-las, as rosas e as estrelas
cantar a noite o silêncio a morte a música...
porém, porque não amo, o mundo me repele
e vivo aprisionado atrás das pálpebras
à espera condenado, à angústia, ao sono, ao tédio.
Talvez a infância, que é minha... mas nem isso,
que toda coisa ou ser, até lembrança
só se deixa cantar quando se sabe amada. Se não amo,
só me resta esperar, navegando em meu sangue.
Agora, não vos direi paisagens, porém sonhos
jamais saudades, mas desejo e esperança
e da beleza só pressentimento. E falarei da amada
hoje miragem, mas amanhã visita
que trará tudo e encontrará somente
amor e enfim um canto — de alegria.

[1949]

In O HOMEM E SUA HORA E OUTROS POEMAS, São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p. 199.

Françoise Nielly

quarta-feira, 6 de março de 2013

Mário Faustino

BALADA
(Em memória de uma poeta suicida)

Não conseguiu firmar o nobre pacto 
Entre o cosmos sangrento e a alma pura. 
Porém, não se dobrou perante o fato 
Da vitória do caos sobre a vontade 
Augusta de ordenar a criatura 
Ao menos: luz ao sul da tempestade. 
Gladiador defunto mas intacto 
(Tanta violência, mas tanta ternura),

Jogou-se contra um mar de sofrimentos 
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim 
Para afirmar-se além de seus tormentos 
De monstros cegos contra um só delfim, 
The Drunkard - Marc Chagall
Frágil porém vidente, morto ao som 
De vagas de verdade e de loucura. 
Bateu-se delicado e fino, com 
Tanta violência, mas tanta ternura!

Cruel foi teu triunfo, torpe mar. 
Celebrara-te tanto, te adorava 
Do fundo atroz à superfície, altar 
De seus deuses solares — tanto amava 
Teu dorso cavalgado de tortura!
Com que fervor enfim te penetrou 
No mergulho fatal com que mostrou 
Tanta violência, mas tanta ternura!

Envoi

Senhor, que perdão tem o meu amigo 
Por tão clara aventura, mas tão dura?
Não está mais comigo. Nem conTigo: 
Tanta violência. Mas tanta ternura.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Mário Faustino

ESTAVA LÁ AQUILES, QUE ABRAÇAVA
Estava lá Aquiles, que abraçava
Enfim Heitor, secreto personagem
Do sonho que na tenda o torturava;
Estava lá Saul, tendo por pajem
Davi, que ao som da citara cantava;
E estavam lá seteiros que pensavam
Sebastião e as chagas que o mataram.
Nesse jardim, quantos as mãos deixavam
Levar aos lábios que os atraiçoaram!
Era a cidade exata, aberta, clara:
Estava lá o arcanjo incendiado
Sentado aos pés de quem desafiara;
E estava lá um deus crucificado
Beijando uma vez mais o enforcado. 

O homem e sua hora e outros poemas, São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p. 90

sábado, 15 de setembro de 2012

Mário Faustino


ONDE PAIRA A CANÇÃO RECOMEÇADA
Onde paira a canção recomeçada 
No capitel de acanto de teu lar?
Onde prossegue a dança terminada 
Nas lajes de meu tempo de chorar?
Rapaz, em minhas mãos cheias de areia 
Conto os astros que faltam no horizonte 
Da praia soluçante onde passeia 
A espuma de teu fim, pranto sem fonte. 
Oh juventude, um pálio de inocência 
Jamais se estenderá sobre outra aurora 
Mais clara que esta clara adolescência 
Que o lupanar da noite hoje devora:
Que vale o lenço impuro da elegia Sobre teu rosto, lúcida alegria?


EGO DE MONA KATEUDO
Dor, dor de minha alma, é madrugada 
E aportam-me lembranças de quem amo.
E dobram sonhos na mal-estrelada 
Memória arfante donde alguém que chamo 
Para outros braços cardiais me nega
Restos de rosa entre lençóis de olvido.
Ao longe ladra um coração na cega 
Noite ambulante. E escuto-te o mugido, 
Oh vento que meu cérebro aleitaste,
Tempo que meu destino ruminaste.
Amor, amor, enquanto luzes, puro, 
Dormido e claro, eu velo em vasto escuro, 
Ouvindo as asas roucas de outro dia 
Cantar sem despertar minha alegria.

In O HOMEM E SUA HORA E OUTROS POEMAS, São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, pp. 88-89

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...