Mostrando postagens com marcador José Agostinho Baptista. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador José Agostinho Baptista. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

José Agostinho Baptista

MAIS UM ANO
Mais um ano está cumprido.
De repente, implacavelmente, o tempo
arrancou as suas folhas,
a vertiginosa sucessão dos números.
Despenharam-se os relógios, as clepsidras, as
varas do sol.
Girei, contorci-me, explodi no ar como
as canas do fogo.
Mas não havia cor.
As sombras, a sombra do mal, a sombra do
medo,
a sombra da nostalgia,
adensaram os contornos da minha vida.
Desejei morrer tantas vezes.
Viajei entre baldios, colhi plantas sem nome,
quebrei os corais do último sonho,
debrucei-me em varandas que davam apenas
para a cidade das trevas.
Bebi todos os vinhos,
tudo o que nascia dos cactos, do absinto, das
juníperas alucinadas,
da cevada dos países frios.
Devorei palavras sem sentido, orações,
rosários de pérolas negras.
liturgias que jamais responderam à extrema
solidão do homem.
Abracei um corpo de inocência perdida e
estremeci,
e esse corpo estremeceu na inquietude da
minha vida desesperada.
Talvez fosse amor esse agitar de asas,
esse brilho de lantejoulas enlouquecidas.
Não sei.
Havia uma praça onde os cães adormeciam,
sem endereço, sem dono,
sem os antigos passeios pelos prados da alegria.
Aí estavas tu, josé,
meu amigo de desumana voz,
a guardar o meu sono, a angústia das suas praias.
Mas não dizias nada.
Eras o único caminhante desses planetas para
onde eu partia,
sempre que Deus me chamava,
com a sua urgência inexplicável.
Penso sempre no seu trono de jóias raras,
sob as árvores frondosas,
e procuro a sua mão sobre a minha fronte,
sobre o meu pensamento de casas puras.
Já não tenho casa.
Fiz do desabrigo um imenso campo de anis e
flores altas.
A minha cama é essa planície onde os
animais se deitam, sem pensar em nada.
Por isso não quero a mentira dos povos, as
estátuas de bronze,
as armas brancas atrás das costas.
Quero um barco de papel, um espelho de
água, um lago.
Mais nada.
(Epílogo Poesia reunida, Assírio & Alvim, 2019)

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

José Agostinho Baptista

CONSTATAÇÃO  
Agora
posso calar-me, meu amigo,
para sempre,
agora, meu irmão,
posso entregar-te as palavras que me
assaltam como um exército de
armas negras,
de aço temperado nas oficinas de um
país demente,
agora
posso baixar a voz e falar-te em surdina
dos rios de prata que vi correrem
pelo mundo,
agora
posso deixar à tua porta os punhais de
Deus e o cordeiro do sacrifício,
agora posso morrer de vez
e chamar-te do outro lado dos alpendres.
(In Epílogo [poesia reunida], Lisboa, Assírio & Alvim, 2019)

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

José Agostinho Baptista

Já não sei de ti as teias do sono, as palmeiras
ao longo do coração.
Setembro leva-te à grande noite,
as tardes descem para o outono.

Das margens advém-nos a ausência:
mãos, afcctos, uma dança ao alvorecer das caravanas;
uvas, um vinho doce se fosses tu.

Não regressarás, eu sei.
Apagam-se as estrofes nas estradas de uns lábios,
apagam-se os candelabros.

Escrever é como um fio de punhais, uma dor que anoitece.

////

Deem-me uma tela onde escurecem os campos.
Trabalharei a cor,
lilás e púrpura que inunda as margens,
o coração que bate como um tumulto de pincéis.

Desfraldam-se as janelas onde se faz tarde.
Repousam as coisas:
giestas, a lira, uma rosa amarela.

Movem-se os remos.
Oiço-os que chamam, os marinheiros do tempo.
Eu lhes darei um porto com a nostalgia dos violinos;
tabernas onde se apagam os girassóis.

Enlouqueço com a voz dos búzios, essa nota marítima
que persigo,
equinócios,
guitarras do trópico ao fundo da noite.

Acende-se o farol nos promontórios.
É como uma rapidíssima estrela girando, um relance de
sóis,
altos poentes —
afiadas escarpas, em baixo.
se apagam os girassóis.

Busco esse destino de sons despenhados, ossos que
se entrechocam, desnudando-se;
uma vertigem de setas trespassa o peito,
as suas corolas frias.

Galopam os cavalos em demanda do sul,
as crinas recortadas pelo fim do dia, um brilho negro.
Ventos do norte crescem na direcção da planície e dos
livros,
enfurecendo as páginas —

timoneiro que fui, aí me escrevo, despeço-me, quebro os
espelhos no interior de uma beleza agreste,
regresso ao sono da terra —

Tudo dorme.

(Em Autoretrato, Assírio e Alvim, 1986)

Sobre José Agostinho Baptista




Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...