Mostrando postagens com marcador Eugenio Montale. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Eugenio Montale. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Eugenio Montale

Quisera ter-me sentido tosco e essencial
assim como esses seixos que revolves,
comidos por salsugem;
lasca fora do tempo, testemunho 
de uma vontade fria que não passa. 
Outro fui: homem fito que repara 
em si, nos outros, a efervescência 
da vida fugaz — homem demorado 
nos atos que ninguém, depois, destrói. 
Quis procurar o mal 
que corrói o mundo, a pequena torção 
de alavanca que para 
o engenho universal; e vi a todos 
os eventos do minuto 
prestes a desjuntar-se num abalo.
Na trilha dum caminho eu quis o rumo
inverso, convidativo; e talvez
precisasse do gesto incisivo,
da mente que decide e se determina.
Eram-me necessários outros livros,
não tua página estrondosa.
Mas nada posso lamentar: teu canto
desata ainda os nós interiores.
O teu delírio então sobe aos astros.

In Ossos de Sépia, p. 123




sábado, 24 de agosto de 2013

Eugenio Montale

Tudo logo será mais rude no mar 
que florescerá com tons mais sombrios. 
Entretanto está assim, sob o dilúvio 
do sol por terminar.

Uma ondulação subverte
formas limites já agora abstratos:
toda força decidida diverge
do curso. A vida vai crescendo aos saltos.

E como fosse fogueira sem fogo 
que se preparava para claras senhas: 
nesse lume o nosso faz-se pouco, 
nessa chama ardem rostos e empenhos.

Desaperta teu coração repleto 
no abrir-se de uma vaga; 
afunda como pedra de lastro 
o teu nome com um baque na água!

Um delírio astral é desencadeado, 
um mal calmo e luzente.
Veremos a hora da serenidade 
vir-nos talvez pela esfera ardente.

Encostas sobre nós declinam 
de vinhas baixas, em planos. 
Respigadoras lá em cima cantam 
com vozes desumanas.

Oh a vindima estiva, 
a distorção no curso
das estrelas! — de onde em nós deriva
um estupor com laivos de remorso.

Falas e a própria voz não reconheces.
A memória parece-te apagada.
Com o que passaste ainda sentes 
a tua vida consumada.

Agora, o que há de ser? — teu peso provas 
de novo, inesperado assenta 
nos seus eixos tudo quanto oscilava, 
e o encanto não se sustenta.

Ah aqui hemos de estar, sem diferença. 
Imóveis assim. Nossa voz ninguém 
mais escuta. Submersos assim 
numa voragem de azul que se adensa.

In Ossos de Sépia, p. 179-181.


GUSTAVE COUBERT

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...