Quisera ter-me sentido tosco e essencial
assim como esses seixos que revolves,
comidos por salsugem;
lasca fora do tempo, testemunho
de uma vontade fria que não passa.
Outro fui: homem fito que repara
em si, nos outros, a efervescência
da vida fugaz — homem demorado
nos atos que ninguém, depois, destrói.
Quis procurar o mal
que corrói o mundo, a pequena torção
de alavanca que para
o engenho universal; e vi a todos
os eventos do minuto
prestes a desjuntar-se num abalo.
Na trilha dum caminho eu quis o rumo
inverso, convidativo; e talvez
precisasse do gesto incisivo,
da mente que decide e se determina.
Eram-me necessários outros livros,
não tua página estrondosa.
Mas nada posso lamentar: teu canto
desata ainda os nós interiores.
O teu delírio então sobe aos astros.
In Ossos de Sépia, p. 123
Mostrando postagens com marcador Eugenio Montale. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Eugenio Montale. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 24 de setembro de 2013
sábado, 24 de agosto de 2013
Eugenio Montale
Tudo logo será mais rude no mar
que florescerá com tons mais
sombrios.
Entretanto está assim, sob o dilúvio
do sol por terminar.
Uma ondulação subverte
formas limites já agora abstratos:
toda força decidida diverge
do curso. A vida vai crescendo aos saltos.
E como fosse fogueira sem fogo
que se preparava para claras
senhas:
nesse lume o nosso faz-se pouco,
nessa chama ardem rostos e empenhos.
Desaperta teu coração repleto
no abrir-se de uma vaga;
afunda como pedra de lastro
o teu nome com um baque na água!
Um delírio astral é desencadeado,
um mal calmo e luzente.
Veremos a hora da serenidade
vir-nos talvez pela esfera
ardente.
Encostas sobre nós declinam
de vinhas baixas, em planos.
Respigadoras lá em cima cantam
com vozes desumanas.
Oh a vindima estiva,
a distorção no curso
das estrelas! — de onde em nós deriva
um estupor com laivos de remorso.
Falas e a própria voz não reconheces.
A memória parece-te apagada.
Com o que passaste ainda sentes
a tua vida consumada.
Agora, o que há de ser? — teu peso provas
de novo,
inesperado assenta
nos seus eixos tudo quanto oscilava,
e o encanto não se
sustenta.
Ah aqui hemos de estar, sem diferença.
Imóveis assim. Nossa
voz ninguém
mais escuta. Submersos assim
numa voragem de azul que se adensa.
In Ossos de Sépia, p. 179-181.
![]() |
| GUSTAVE COUBERT |
Assinar:
Postagens (Atom)
Fernando Paixão
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
-
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
-
PÃO-PAZ O Pão chega pela manhã em nossa casa. Traz um resto de madrugada. Cheiro de forno aquecido, de levedo e de lenha queimada. Traz as...
-
O Barco Bêbado Quando eu atravessava os Rios impassíveis, Senti-me libertar dos meus rebocadores. Cruéis peles-vermelhas com uivos terríve...

