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domingo, 15 de outubro de 2017

Cecília Meireles

ADOLESCENTE ROMANO
Eis a bela cabeça de bronze do remoto adolescente:
o cabelo é uma franjada coroa como de folhas de oliveira;
as sobrancelhas arredondam guirlandas serenas;
a narina respira o arcaico dia de vida;
há no lábio uma surpresa de sonho quase com forma de palavra.
E como o artista vazou-lhe a íris, tal pupila desmesurada,
cai-lhe sobre todo o rosto uma sombra densa, grave e profunda:
- redondas janelas por onde penetra a face móvel dos séculos,
redondas janelas por onde assoma esse abismo da eternidade,
silencioso, imenso, extático,
onde as imagens todas se apagam.
Que adolescente viveu com sua carne
o espetáculo de alma que o bronze traz de tão longe?
[Em Poemas Italianos, 2017]

terça-feira, 19 de abril de 2016

Cecília Meireles

O gosto da Beleza em meu lábio descansa:
breve pólen que um vento próximo procura,
bravo mar de vitória — ah, mas istmos de sal!

Eu — fantasma — que deixo os litorais humanos
sinto o mundo chorar como em língua estrangeira
eu sei de outra esperança: eu conheço outra dor.

Apenas alia noite algum radioso espelho
em sua lâmina reflete o que estou sendo.
E em meu assombro nem conheço o próprio olhar.

Alta é a alucinação da provada Beleza.
Pura e ardente, esta angústia. E perfeita, a agonia
Eu, que a contemplo, vejo um fim que não tem fim.

Dunas da noite que se amontoam.

[In Solombra, Poesia Completa. Vol. II, Nova Fronteira, 2008]



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Cecília Meireles

CAMINHANTE

Ando em ti, Roma de altos ciprestes e largas águas,
como atrás de mim mesma,
algum dia depois da minha morte.

Encontro meus próprios anjos
de asas abertas em cada esquina
e meus olhos com pálpebras de pedra, 
em cada fonte:
— cheios até a borda.

Contemplo minhas abatidas colunas,
e a nenhuma porta paro,
e sobre nenhum jardim suspiro mais.

Ando em ti, Roma dos altos sonhos e das largas ruínas,
como depois de mim mesma,
atrás de um outro destino.

Ando, ando, ando,
e sinto a extensão de meus antigos muros
e, com profunda pena,
escuto a longa tuba mitológica
derramando para nuvens efêmeras
dispersas notícias atrasadas
de inútil Glória e possível Amor.

[In Poemas Italianos, Poesia Completa, Edição do Centenário, Organização, apresentação e estabelecimento do texto Antonio Carlos Secchin,  Vol. II, Rio de Janeiro,  Nova Fronteira, 2001, pp. 1150-1151]




terça-feira, 15 de setembro de 2015

Cecília Meireles

GENTE DESAPARECIDA
O POETA PORTUGUÊS Carlos Queirós, querido amigo, já desapareceu deste mundo há vários anos, para nossa melancolia e saudade. Mas em 1935, quando ainda estava presente, publicou um livro a que dera o nome de Desaparecido e que começava assim:

“Sempre que leio nos jornais: “De casa de seus pais desapareceu...” Embora sejam outros os sinais, /Suponho sempre que sou eu.”

O poeta sonhava ir, jovem e independente, por seus próprios caminhos, à procura de um destino autêntico, e ser um “feliz desaparecido”, mesmo quando ventos contrários atormentassem a rota do seu veleiro. Por amor a essa aventura de partir para o mistério — herança náutica de seu povo — alegrava-se com a ideia de tal evasão, certamente mais no plano simbólico do sonho do que no da realidade física e imediata.

Mas por que desaparece tanta gente, todos os dias, em redor de nós, sem que possamos admitir que esses desaparecimentos sejam de origem lírica?

Ouço pelo rádio as famílias, os amigos, os conhecidos que indagam, inquietos, que reclamam,
descrevem, dão sinais, indicam pistas. Há desaparecidos de todas as idades e cores, e ambos os sexos, das mais variadas condições sociais: quem tiver notícias de seu paradeiro é favor informar às pessoas aflitas que os procuram.

Mas quem vai saber o paradeiro da mocinha de blusa cor-de-rosa e saia amarela que, assim colorida, bateu asas sem se despedir dos parentes? Quem viu o menino de blusão verde e sapatos novos que saiu de casa pela tardinha e lá se foi andando — e irá andando enquanto tiver boas solas nos sapatos — por muito que os pais inconsoláveis o estejam chorando e os vizinhos não possam entender tamanha ingratidão? Que foi feito da velhinha, um pouco desmemoriada, que saiu para a missa e depois entrou por um caminho desconhecido, com seu vestido cinzento, sua bolsinha de verniz e duas travessas no cabelo?

Há os desaparecidos recentes: de ontem, da semana passada, de há um mês ou dois. Assim mesmo recentes, não se encontram vestígios seus em parte alguma. Foram raptados? Ficaram debaixo do trem? Subiram para algum disco-voador? Afogaram-se? Partiram para o secreto paraíso onde não querem ser importunados? Embarcaram para Citera? Quem sabe o que lhes aconteceu?

Mais comovente, porém, é a busca de desaparecidos antigos: “Procura-se uma conhecida que há três anos não se encontra...” Para onde foi a jovem Marília que há cinco anos disse que ia trabalhar no Rio de Janeiro?.. . Que é feito do rapaz moreno, com um sinal no queixo, que usava um cordãozinho de ouro com a imagem de São Jorge?

Todas essas pessoas e muitas outras estão sendo procuradas, pacientemente, com anúncios pelos jornais e nas emissoras. Uma incansável busca. Gente de todos os Estados do Brasil, gente com vários compromissos: eram noivos, eram chefes de família, eram donas de casa... Gente miúda, que não se esperava fosse capaz de meter-se em aventuras: meninotas e rapazinhos em idade escolar; mocinhas que pareciam tímidas e assustadas, moços ainda sem emprego...

Pois desapareceram. Para onde foram? Isso é o que se deseja saber. Não quiseram mais nada com pai nem mãe, avós nem irmãos, casa, comida, sono, afeto — nada. Desejaram sumir, sumiram. Ou foram arrastados violentamente e não tiveram forças para resistir. Talvez se sintam mais felizes. Talvez estejam arrependidos e envergonhados. Talvez não existam mais. Pode ser que um dia voltem.. . Pode ser que, por enquanto, estejam dando a volta ao mundo num veleiro imaginário.. . Pode ser que já estejam cansados. Pode ser que não se cansem jamais .. . Enquanto não regressam, boa viagem, senhores desaparecidos! Se não regressarem, boa viagem, também!

Mas os afetos vigilantes continuam, inconformados, a recordar os ausentes — todos os dias novos, todos os dias mais numerosos — e, por humildes lugares, famílias tristes cultivam longos canteiros de saudades.

[In Escolha o seu sonho, 6a. ed., Record, Rio de Janeiro, s/d, pp. 47-49]



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Cecília Meireles

PERSEGUIÇÃO
Já partiram cavaleiros 
no encalço da fugitiva.
— Não rireis, ó mercadores, 
não rireis da fidalguia!
Iremos buscá-la à força, 
morta ou viva!
(Dão de esporas aos cavalos,
entre injúria e zombaria.
Passam o portal da igreja,
com olhos acesos de ira.
— Não leveis a mão à espada!
Grande pecado seria!)
E vem a monja.
Só de renúncias vestida!
Ah! Clara, se não falasses,
quem te reconheceria?
Para onde vais tão sem nada,
nessa alegria?


[Pequeno Oratório de Santa Clara - excerto]


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Cecília Meireles

PASTORA DESCRIDA
Eu, PASTORA, que apascento
estrelas da madrugada
pelas campinas do vento,

fui falar ao eco antigo,
a cuja voz fui criada,
e que supus meu amigo.

“Sou sempre a de antigamente”,
 murmurei-lhe, enternecida.
E ele anunciou longe: “Mente!”

Mas era a minha verdade
e, vendo-me assim descrida,
padeci com a falsidade.

“Eco amigo, eu não te iludo:
pastora sou destes prados
onde se confunde tudo;

mas sou de ontem e de agora,
dentro dos despedaçados
instantes de nenhuma hora. ..

A amargura não me aumentes..
E o eco antigo, infiel e exato,
repetiu-me perto: “Mentes...”

Vergada em móveis espelhos,
vi nas águas meu retrato,
chorei sobre mim, de joelhos.

Mas o gado que pascia
pelas colinas da aurora,
mascando as margens do dia,

veio a mim sem que o esperasse,
lambeu-me os olhos de outrora,
— reconheceu a minha face.

(Retrato Natural)
In: Obra Poética, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983, pp. 362-363).

Heidi Malott





domingo, 23 de junho de 2013

Cecília Meireles

SETE
Tudo jaz, diluído e cintilante, numa profunda névoa.
Nada, porém, se perde ou esquece, embora tão finamente 
disperso nessa grandeza.
Gastam-se as imagens e os símbolos; mas a essência resiste.
Realejos e sinos vibram, com as hélices, os cânticos e os gritos,
e tudo é som, naqueles silenciosos corredores,
e a doce luz habita mil esconderijos,
tal como foi em seus inúmeros momentos,
em olhos, flor, seda, chaga e pedra preciosa.
E em diáfanas balanças pairam diamante e pólen, 
bibliotecas e arsenais.

Tudo se encontra nesta bruma: 
o burburinho histórico, a vítima e o carrasco; 
a melodia da sereia nórdica, à proa do barco da conquista; 
plumas e arcabuzes,
o passo do fantasma por aéreas escadas, 
praga e suspiro, acontecimento e remorso...

Tudo paira na estrutura da noite, 
em seus arquivos superpostos.

Tão longe vai o rastro exíguo das gaivotas
como o odor das praias e o rumor grandioso das máquinas.
Rarefeita anatomia da paisagem,
onde cada elemento se faz translúcido,
frágil e rijo como a asa dos insetos e a flexão do pensamento.

Finíssimas pontes transpõem a noite: 
desenhos agudos prendendo as disjunções.

E quem segura a noite, assim carregada desses escombros 
que à luz do sol parecem grandiosos bens indispensáveis?

Homem, objeto, fato, sonho,
tudo é o mesmo, em substância de areia,
tudo são paredes de areia, como neste solo inventado:
mar vencido, fauna extenuada, flora dispersa,
tudo se corresponde:
zune o caramujo na onda com o mesmo som do lábio de amor 
e da voz de agonia.
Os abraços, as nuvens, o outono pelo parque 
têm o mesmo gesto, grave, precário, fluido.

Ah, e os louros cabelos caridosos, e a luminosa pálpebra, 
e as raízes pertinazes, e os ossos foscos, 
e a minha deslumbrada vigília e a memória do universo

tudo está ali, mais a luz confusa que envolve a lua, 
mais o clarão do pólo e as híbridas águas, 
e tudo se desfolha sobre lugares invisíveis 
num outro reino que apenas a noite alcança.

(Doze Noturnos da Holanda)

In: Obra Poética, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983, pp. 386-387

Jacob Maris



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Cecília Meireles

OITO
Ó linguagem de palavras
longas e desnecessárias!
Ó tempo lento
de malbaratado vento
nessas desordens amargas
do pensamento...

Vou-me pelas altas nuvens
onde os momentos se fundem
numa serena
ausência feliz e plena,
liso campo sem paludes
de febre ou pena.

Por adeuses, por suspiros,
no território dos mitos,
fica a memória
mirando a forma ilusória
dos precipícios
da humana e mortal história.

E agora podeis tratar-me
como quiserdes - que é tarde,
que a minha vida,
de chegada e de partida,
volta ao rodízio dos ares,
sem despedida.

Por mais que seja querida,
há menos felicidade
na volta do que na ida.

(O Aeronauta)

Obra Poética, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983, pp. 399-400
Yoko Tanji 

sábado, 29 de setembro de 2012

Cecília Meireles

EVELYN
Não te acabarás, Evelyn.

As rochas que te viram são negras, entre espumas finas;
sobre elas giram lisas gaivotas delicadas,
e ao longe as águas verdes revolvem seus jardins de vidro.

Não te acabarás, Evelyn.

Guardei o vento que tocava
a harpa dos teus cabelos verticais,
e teus olhos estão aqui, e são conchas brancas,
docemente fechados, como se vê nas estátuas.

Guardei teu lábio de coral róseo
e teus dedos de coral branco.
E estás para sempre, como naquele dia,
comendo, vagarosa, fibras elásticas de crustáceos,
mirando a tarde e o silêncio
e a espuma que te orvalhava os pés.

Não te acabarás, Evelyn.

Eu te farei aparecer entre as escarpas,
sereia serena,
e os que não te viram procurarão por ti
que eras tão bela e nem falaste.

Evelyn! — disseram-me, apontando-te entre as barcas.

E eras igual a meu destino:

Evelyn — entre a água e o céu.
Evelyn — entre a água e a terra.
Evelyn — sozinha — entre os homens e Deus.

In: Obra Poética, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983, pp. 244-245

domingo, 9 de setembro de 2012

Cecília Meireles

CANÇÃO
Se de novo passares, 
não procures por mim. 
Preservemos o fim 
dos saudosos olhares.

Bem sei que a noite e os rios 
engendram muita flor 
parecida com o amor,
em seus ermos sombrios.

Mas nem penso aonde vais. 
Adormeço nos prados 
com os lábios ocupados 
no néctar do jamais.

Um tempo sem fronteiras 
se abriu diante de nós.
Quando tiveram voz
as verdades inteiras?

Ai, talvez noutro instante 
chegue perto de ti, 
para ver que perdi 
minha alma antiga, — e cante.

Talvez chegue, talvez, 
mas que não seja agora,
quando quem foste chora 
aquilo que não vês.

Uma vaga canção 
cantarei com doçura,
e será morte escura 
sobre o meu coração.

DECLARAÇÃO DE AMOR EM TEMPO DE GUERRA

Senhora, eu vos amarei numa alcova de seda, 
entre mármores claros e altos ramos de rosas,
e cantarei por vós árias serenas 
com luar e barcas, em finas águas melodiosas.

(Na minha terra, os homens, Senhora, 
andavam nos campos, agora.)

Para ver vossos olhos, acenderei as velas 
que tornam suaves as pestanas e os diamantes. 
Caminharão pelos meus dedos vossas pérolas,
— por minha alma, as areias destes límpidos instantes.

(Na minha terra, os homens, Senhora, 
começam a sofrer, agora.)

Estaremos tão sós, entre as compactas cortinas, 
e tão graves serão nossos profundos espelhos 
que poderei deixar as minhas lágrimas tranquilas 
pelas colinas de cristal de vossos joelhos.

(Na minha terra, os homens, Senhora, 
estão sendo mortos, agora.)

Vós sois o meu cipreste, e a janela e a coluna 
e a estátua que ficar, — com seu vestido de hera; 
o pássaro a que um romano faz a última pergunta, 
e a flor que vem na mão ressuscitada da primavera.

(Na minha terra, os homens, Senhora, 
apodrecem no campo, agora...)

In: Obra Poética, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983, pp. 356-357


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Cecília Meireles

O RAMO DE FLORES DO MUSEU
1
Ó cinérea princesa, as vossas flores
ficarão para sempre mais perfeitas,
já que o tempo extinguiu brilhos e cores;
já que o tempo extinguiu a habilidosa
mão que levou, serenas e direitas,
a tulipa sucinta e a ardente rosa.

Não há mais ilusão de outra presença
que a do Amor, que inspirou graças tão finas
— que ninguém viu e em que ninguém mais pensa
porque os homens e o mundo são de ruínas.

E este ramo de pétalas franzinas,
leve, liberto da mortal sentença,
tinha, ó Princesa, fábulas divinas
em cada flor, sobre o nada suspensa.

2
Que fantasmas lerão, nas incolores
pétalas, as mensagens não aceitas
em nítidos momentos anteriores?

Que fantasmas verão a vossa airosa
figura erguendo as claras mãos desfeitas,
noutro império, a uma luz mais gloriosa?

Ó cinérea Princesa, é muito densa
no mundo humano a trama das neblinas. . .
A floresta do absurdo é negra, é imensa,
e as sibilas se escondem, repentinas.

Crepitam os junquilhos e as boninas
a um vento secular de indiferença.
Mas, entre vãs paredes vespertinas,
o ramo existe, sem que a morte o vença.


OS GATOS DA TINTURARIA
Os gatos brancos, descoloridos,
passeiam pela tinturaria,
miram polícromos vestidos.

Com soberana melancolia,
brota nos seus olhos erguidos
o arco-íris, resumo do dia,

ressuscitando dos seus olvidos, 
onde apagado cada um jazia, 
abstratos lumes sucumbidos.

No vasto chão da tinturaria, 
xadrez sem fim, por onde os ruídos 
atropelam a geometria,

os grandes gatos abrem compridos 
bocejos, na dispersão vazia 
da voz feita para gemidos.

E assim proclamam a monarquia 
da renúncia, e, tranquilos vencidos, 
dormem seu tempo de agonia.

Olham ainda para os vestidos, 
mas baixam a pálpebra fria.

BALADA DE OURO PRETO
Parei a uma porta aberta 
para mirar um ladrilho.
Veio de dentro o leproso 
como quem sai de um jazigo. 
Caminhava ao meu encontro, 
sinistramente sorrindo.

Mas vi-lhe os braços de líquen, 
e as duas mãos desfolhadas, 
que cauteloso escondia 
nos fundos bolsos das calças. 
Chamas de um secreto inferno 
em seu sorriso oscilavam.

Fora menos triste a lepra 
do que o fogo do sorriso.
E era linda aquela casa 
com o vestíbulo vazio; 
e era alegre aquela porta 
de claro azulejo antigo.

Ó santos da Idade Média, 
descei por esta ladeira, 
parai a esta porta suave, 
que de azul toda se enfeita, 
tocai estes braços fluidos 
que vão sendo rosa e areia,
tornai-os firmes e pulcros,
com mãos lisas, dedos novos,
para que este homem não fite
ninguém mais com os mesmos olhos,
e seja outro o seu sorriso
per saecula saeculorum.

[In: Obra Poética, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983, pp. 341-344]



quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Cecília Meireles

MULHER ADORMECIDA
Moro no ventre da noite: 
sou a jamais nascida.
E a cada instante aguardo vida.

As estrelas, mais o negrume
são minhas faixas tutelares, 
e as areias e o sal dos mares.

Ser tão completa e estar tão longe! 
Sem nome e sem família cresço, 
e sem rosto me reconheço.

Profunda é a noite onde moro.
Dá no que tanto se procura.
Mas intransitável, e escura.

Estarei um tempo divino 
como árvore em quieta semente, 
dobrada na noite, e dormente.

Até que de algum lado venha 
a anunciação do meu segredo 
desentranhar-me deste enredo,

arrancar-me à vagueza imensa, 
consolar-me deste abandono, 
mudar-me a posição do sono.

Ah, causador dos meus olhos, 
que paisagem cria ou pensa 
para mim, a noite densa?
(Mar Absoluto e outros poemas)

PRELÚDIO
Que tempo seria, 
ó sangue, ó flor, 
em que se amaria 
de amor.

Pérolas de espuma, 
de espuma e sal.
Nunca mais nenhuma 
igual.

Era mar e lua: 
minha voz, mar.
Mas a tua. . . a tua,
luar!

Coroa divina 
que a própria luz 
nunca mais tão fina 
produz.

Que tempo seria, 
ó sangue, ó flor, 
em que se amaria 
de amor!
(Mar Absoluto e outros poemas)

In: Obra Poética, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983, pp. 238-239




Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...