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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Hélia Correia

Eram meses de verão, fartos de ventos, saturados de pó e de aridez. Milena passeava todo o dia uma inesperada e alarmante beleza. No seu encalço atropelavam-se ânsias de homens, invejas de mulheres. Irene habituara-se a segui-la, chinelando, obstinada, com um riso beato.

Pelas irmãs Ferrão veio Ercília a saber de como os inocentes percursos da sobrinha inquietavam as almas a ponto de nas ruas se sentirem pairar morrinhas de pecado.

Surpreendeu-se a velha, pois pouco tinha dado pelas saídas de Milena e muito menos pelo esplendor tardio daquele corpo. Vivia ensimesmada, em árduas rezas, para tentar redimir-se dos seus sonhos em que homens de ombros nus a derrubavam sobre um amontoado de cautelas.

Começou a espreitar os passos da sobrinha, a farejar-lhe a roupa de onde se levantavam vapores enjoativos. Aplicadamente, durante horas, abriu a canivete uma fresta na porta do quarto de Milena.

Sete noites a fio, enquanto a lua enchia, viu-a deitar-se sobre a colcha de algodão e adormecer no seu insuportável e tranquilo sorriso. Até que, encalorada por um luar terníssimo, Milena se despiu e o seu ventre redondo, tenso e resplandecente como uma madrepérola, varou os olhos espiões de Ercília. Era um ventre de grávida.

A pudica senhora quase perdeu a fala. E a ninguém da sua intimidade deixou adivinhar a causa verdadeira da prostração a que se condenou. A sobrinha passava pela mulher a dias, pelas velhas amigas em visita, com uma leve agitação de pálpebras interpretada como um cumprimento. Comia muito pouco, ia à cozinha mastigar hortelã, miúdos de aves. Os seus fatos austeros, de cores secas, apareciam leves, avivados, agarrando-se aos seios, enroscando nas pernas com lampejos, carícias de cetim.

Quando a barriga começou a levantar-se num inchaço arrogante por debaixo das saias e a vila se pasmou da maravilha, Milena abandonou a casa onde crescera. Exactamente dois minutos antes de Ercília decidir que a expulsaria, sentindo, pela dor que lhe açoitava as fontes, que dali em diante ninguém nem força alguma poderia obrigá-la a tomar decisões ou sequer a manter conhecimento sobre coisas lastimáveis e hostis. Ficou então dotada de surdez selectiva, de modo que os ouvidos decifravam apenas as falas optimistas e qualquer má notícia ou mero incómodo esbarravam numa incompreensão argelical.

Naquele sereno entardecer de Junho, preparando-se em vão para reacções de lágrimas e cenas de romance, a velha atravessou o corredor. Pareceu-lhe que no escuro faiscavam iluminações verdes como olhos de felino. Teve medo e benzeu-se, pensando que as batalhas de Deus e do Diabo se travavam tão perto dos humanos que às vezes apareciam a vistas desarmadas. Entrou no quarto da sobrinha e viu, dentro da luz marinha do crepúsculo, a cama por fazer, o armário revolvido, as gavetas abertas e caídas no chão.

— Então, já cá não está. Tanto melhor— comentou dona Ercília. E assentou a mão esquerda sobre o peito, a confortar um coração vazio.

[Excerto de Montedemo, 2a. ed, Lisboa: Ulmeiro, 1984, pp. 27-29]



sexta-feira, 2 de maio de 2014

Hélia Correia

EXCERTO DE "A CASA ETERNA"

   «Suba, tome sentido nos degraus», recomenda a mulher e toma a dianteira. Alterou-se-lhe a voz que era fraca, hesitante e agora empurra autoritariamente as vibrações do ar.
    Esta casa que eu tanto imaginara, querendo ver levantados os cheiros, as paredes, circula no entanto como um redemoinho de pós e de bolores em tomo das chinelas de Perpétua. O que quer que existiu aqui está já desfeito. Não houve tempo para que a podridão tratasse dos lugares a seu modo, um por um, conforme os usos, conforme as horas que lhes foram dedicadas. É um corredor velho e sem memória. Está reduzido à sua própria sombra. «Olhe se põe um pé em falso, olhe o soalho», diz a mulher, mas não me guia os passos. As suas chinelitas de fazenda parecem saltitar, tomam-se leves e como que doiradas naquela escuridão, brilham e apagam-se à maneira dos insectos. A madeira ressoa cavamente, está feita um algodão, fofa, sem consistência. E os passos flutuam numa fascinação de pesadelo.
    O que há por trás das portas? vou dizendo. Nada, coisas, responde. Bicharada. Há com certeza luz, vidraças por abrir. A caseira rirá, terá essa luxúria de me pôr aos tacteios, de me fazer talvez torcer um tornozelo, limpa que traz a superfície de consciência. «Bem avisei, não quis tomar cautela...» Terminando-se assim esta intrusão em acabrunhamento, em vergonha dorida. «Uma estranha, dirá, depois, na padaria, chegar ali como uma estranha, a querer ver tudo.» E encolherá os ombros, indignada.

    «Pronto, aqui era o quarto», diz Perpétua e cola-se à ombreira para me deixar passar. Avisto a colcha de algodão adamascado, cor de romã, ainda arrepanhada, sob uma manta e os estilhaços do entulho. «Vê a perna da cama? É com os livros. Ou vinha tudo por aí abaixo.»
    A casa deve ter os seus recursos para se limpar de todas as presenças. Faz sentir que jamais alguém aqui entrou. O espírito dos anos lambeu-se e sacudiu-se como um bicho de pêlo. E tudo se tomou silencioso e vazio.

    «Não esteve aqui ninguém», penso em voz alta. Mas a mulher aceita a frase sem ouvir, põe-se de novo a chinelar à minha frente. Leva-me ao rés-do-chão, ao lado da cozinha, ao que fora talvez uma casa da lenha, um cubículo fresco, com janelo. «Aqui, trazia-a mais debaixo de olho.»
    Há como que um instinto narrativo na escala com que ordena esta visita, um faro que estabelece e isola os fulcros onde o que quer que fosse de ousado e misterioso veio a ter um lugar. Também aqui não restam vestígios da sobrinha, a não ser umas tachas que afixavam decerto cartazes nas paredes. «Tinha aí um divã, as roupas numa cesta. Queria era tomar banhos que eu sei lá.»
    Aos poucos reencontra o gosto pela fala. Aliviou o medo e eu prefiro parar de lhe fazer perguntas. Dá-me entrada na sala de jantar onde os aparadores descaem levemente porque o chão abateu. Na grande mesa de castanho, aberta, amontoam-se malgas amarelas, garrafões com a palha apodrecida. No lambril de azulejos há emendas absurdas, pastoras e moinhos cortam aqui e além aquilo que parece um antigo painel com cenas de tapada. Junto às duas janelas com banquinhos, alguém deu grandes chapadões de cal para alisar o esventramento da parede.
    Perpétua faz subir uma vidraça, debruça-se a cheirar as árvores, o terreiro, e isso fá-la cobrar alguma cor. «Sentava-se-me aqui, diz ela, a tarde inteira.» Não compreendo acerca de quem fala. O sol-poente pega-lhe ao cabelo um fogo quase negro, de carvão.
    Dos buracos do chão vem o bafo das velhas areias de uma adega onde durante muitos anos azedaram as espumas do vinho que fervia. Não sinto encantamento algum em tudo aquilo e é por isso que faço brutalmente a pergunta:
    — Acha que não passou de uma história de amor?
    A mulher vira a cara para mim, mas por acção do sol ou do que quer que seja, deixou completamente de me ver.
    — Assim — insisto ainda — como nestas novelas?
    Ela sacode os ombros, fatigada. Conduz-me, chinelando, para a saída, tomada de repente por uma pressa, um tique de ansiedade. Dir-se-ia que quer expulsar-me antes da noite. À porta, ri-se e encara-me por fim:
    — Aquilo foi o diabo. E o que foi.
    Fica a dizer-me adeus, hospitaleira, amável, tendo aos pés o cão fulvo que a chegada da noite agora arroxeou.

[In A Casa Eterna, Relógio D´Água, Lisboa, 1999, pp. 39-41]

Foto by Ralph Eugene Meatyard

By Ralph Eugene Meatyard


segunda-feira, 24 de março de 2014

Hélia Correia

22.
E como que o ouviam,
Esses atenienses, quando os louros
— Não eram também louros os Aqueus
Que tão saudosamente recordamos?
Capitães do império os fuzilavam.

[In A Terceira miséria, Lisboa, Relógio D´Água, 2013, p. 28]

24.
O que não sabe
De cor poemas como os que salvaram
Literalmente os soldados que, vencidos
E condenados a morrer à míngua
Ou a serem vendidos como escravos —
Atenienses contra Siracusa —,
Deram aos inimigos, mais valioso
Do que ouro podia ser, versos de Eurípides,
E em troca disso foram libertados.

[In A Terceira miséria, Lisboa, Relógio D´Água, 2013, p. 30]

25.
Sim, falamos de sombras. Vendo bem,
Incendiámos tudo: Alexandria
E os sábios, as mulheres. Incendiámos
O grande coração. Temos aos ombros
O apetrecho dos destruidores,
Não a pólvora, não: essa arrogância
Pela qual o ocidente se perdeu.

[In A Terceira miséria, Lisboa, Relógio D´Água, 2013, p. 31]

26.
Humilhado lugar, empobrecido
Palácio de colunas, vitoriosa
Atena a qual se inclina para atar
Os fios da sandália e assim perdura
Na austera opulência, sem que algum
Visitante se cale a contemplá-la. 

[In A Terceira miséria, Lisboa, Relógio D´Água, 2013, p. 32]

27.
Oh Grécia que chamaste Byron como
Incestuosa irmã, tu que lutavas
Contra visíveis com visíveis armas,
E invisíveis também pois não lançou
Zeus o seu raio contra os ocupantes
Que fizeram do Pártenon paiol
E foram, no entanto, incendiados,
Tu, Grécia, semelhante a heroína
Sujeita a vilipêndio, tu a quem
Acorreram os jovens da Europa,
Os de linhagem, como impacientes
Por qualquer boa espécie de jornada,
Tu, que também chamaste por Friedrich
Tarde de mais, pois ele cortara com
Toda a noção de possibilidade,
Parecias levar tudo tão a sério
Que tu própria quiseste matar Byron
Deitando-o devagar, adoecendo-o,
Poupando o ao confronto e à derrota,
Porque derrota houve uns anos mais. 

[In A Terceira miséria, Lisboa, Relógio D´Água, 2013, p. 33]

28.
«Acorda — a Grécia não, que está desperta —
Acorda tu, meu espírito», disse ele.
Cavalgava na chuva, cavalgava
Distante dos amigos, de mãos nuas,
Prevendo a glória e acordando o chão
De Missolonghi, um chão esfaimado há muito.
Um chão onde ele esperava repousar. 

[In A Terceira miséria, Lisboa, Relógio D´Água, 2013, p. 34]





sábado, 17 de agosto de 2013

Hélia Correia

29.

«Que o meu corpo não seja», escreveu ele,
«Levado, entregue a túmulo inglês.»
Mas foi. Que pode um voto, que podia
Um último poema, dito a custo,
Por quem se ergueu do leito nessa casa
Que o fogo em breve iria destruir,
O que pode o desejo contra a ordem?
Que segurou nos braços essa Grécia
A quem ele deu tudo, quando as urnas,
A do corpo e a das vísceras embarcaram?
Ficou, pois já o tinham oferecido
Em pedaços, ao povo, o órgão duplo,
O da inspiração, esse em que o ar
Transportador da musa, se demora
No milagre da química, esse, sim,
Perdido para sempre, ali ficou.


In A Terceira miséria, Lisboa, Relógio d´água, 2012



rachelle

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Hélia Correia

Quatro poemas de Hélia Correia

1.
Para quê, perguntou ele, para que servem
Os poetas em tempo de indigência?
Dois séculos corridos sobre a hora
Em que foi escrita esta meia linha,
Não a hora do anjo, não: a hora
Em que o luar, no monte emudecido,
Fulgurou tão desesperadamente
Que uma antiga substância, essa beleza
Que podia tocar-se num recesso
Da poeirenta estrada, no terror
Das cadelas nocturnas, na contínua
Perturbação, morada da alegria;


2.
Essa beleza que era também espanto
Pelo dom da palavra e pelo seu uso
Que erguia e abatia, levantava
E abatia outra vez, deixando sempre
Um rasto extraordinário. Sim, a hora,
Dois séculos antes, em que uma ausência
E o seu grande silêncio cintilaram
Sobre a mão do poeta, em despedida.


7.
Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.


23.
A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.


[in A Terceira Miséria, Relógio d'Água, 2012]

Fonte: Bibliotecário de Babel 

Sobre Hélia Correia 



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...