VERO NOME
Chamarei deserto a este castelo que tu foste,
Noite à tua voz, ausência à tua face,
E quando caíres sobre a terra estéril,
Chamarei nada ao raio que te trouxe.
Morrer é um país que tu amavas. E eu venho
Eternamente por teus sombrios caminhos.
Destruo teu desejo, tua forma, tua memória,
Sou teu inimigo que não terá piedade.
Chamar-te-ei guerra e sobre ti
Tomarei as liberdades da guerra. Terei então
Em minhas mãos o teu rosto, obscuro e trespassado,
E em meu coração o país que acende a tempestade.
Da crepitação noturna de uma terra supliciada,
Necessita a luz para surgir
E é de bosques tenebrosos que a flama salta.
O próprio verbo sonha a essência,
Uma plácida margem além do canto.
Para que vivas, precisarás transpor a morte.
A mais imácula presença é um sangue entornado.
[Tradução de Lenilde Freitas]
Mostrando postagens com marcador Yves Bonnefoy. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Yves Bonnefoy. Mostrar todas as postagens
sábado, 8 de agosto de 2015
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Yves Bonnefoy
Ó chama
Que a consumir celebras,
Cinza
Que a dispersar recolhes.
Chama, sim, que apagas
Da mesa sacrificial do estio
A febre, os sobressaltos
Da mão crispada.
Chama, para que a pedra do céu claro
Fique lavada desta sombra, e seja
Um deus criança que brinque
Na acritude da seiva.
Sobre ti me debruço, colho, de joelhos,
Chama que vais,
A impaciência, o ardor, o luto, a solidão
Em tua fumaça
Sobre ti me debruço, aurora, e pego
Nas minhas mãos a tua face. Tempo lindo
Faz na cama deserta! Eu sacrifico
E és a ressurreição do que eu queimo.
Chama
Nosso quarto de outro ano, misterioso
Como uma proa de barca que passa.
Chama, esse vidro
Na mesa da cozinha abandonada,
Em V.
Entre os escombros.
Chama, de sala em sala,
O estuque,
Toda uma indiferença, iluminada.
Chama essa lâmpada
Onde faltava Deus
Acima do portal daquele estábulo.
Chama
A vinha do relâmpago, distante,
No pisoteamento dos bichos que sonham.
Chama essa pedra
Onde a faca do sonho lidou tanto.
[In Yves Bonnefoy, Obra Poética, Tradução e org. Mário Laranjeira, São Paulo, Iluminuras, 1998, 266-267]
Que a consumir celebras,
Cinza
Que a dispersar recolhes.
Chama, sim, que apagas
Da mesa sacrificial do estio
A febre, os sobressaltos
Da mão crispada.
Chama, para que a pedra do céu claro
Fique lavada desta sombra, e seja
Um deus criança que brinque
Na acritude da seiva.
Sobre ti me debruço, colho, de joelhos,
Chama que vais,
A impaciência, o ardor, o luto, a solidão
Em tua fumaça
Sobre ti me debruço, aurora, e pego
Nas minhas mãos a tua face. Tempo lindo
Faz na cama deserta! Eu sacrifico
E és a ressurreição do que eu queimo.
Chama
Nosso quarto de outro ano, misterioso
Como uma proa de barca que passa.
Chama, esse vidro
Na mesa da cozinha abandonada,
Em V.
Entre os escombros.
Chama, de sala em sala,
O estuque,
Toda uma indiferença, iluminada.
Chama essa lâmpada
Onde faltava Deus
Acima do portal daquele estábulo.
Chama
A vinha do relâmpago, distante,
No pisoteamento dos bichos que sonham.
Chama essa pedra
Onde a faca do sonho lidou tanto.
[In Yves Bonnefoy, Obra Poética, Tradução e org. Mário Laranjeira, São Paulo, Iluminuras, 1998, 266-267]
terça-feira, 22 de abril de 2014
Yves Bonnefoy
O ESPELHO CURVO
Olha-os lá, naquela encruzilhada;
Parecem hesitar depois retomam
A estrada. À frente deles o menino corre,
A braçadas colheram para os poucos vasos
Pelo campo essas flores que nem nome têm.
E o anjo está lá em cima, a observá-los
E envolto pelo vento de suas cores.
Tem um dos braços nu no pano rubro,
Parece que segura um espelho, e que a terra
Se reflete na água dessa outra margem.
E que designa agora, com o dedo
Que aponta nessa imagem um lugar?
Será outra casa ou será outro mundo,
Será mesmo uma porta, em meio à luz
Aqui mesclada às coisas e aos signos?
[In Yves Bonnefoy, Obra Poética, Tradução e org. Mário Laranjeira, São Paulo, Iluminuras, 1998, 235-237]
Olha-os lá, naquela encruzilhada;
Parecem hesitar depois retomam
A estrada. À frente deles o menino corre,
A braçadas colheram para os poucos vasos
Pelo campo essas flores que nem nome têm.
E o anjo está lá em cima, a observá-los
E envolto pelo vento de suas cores.
Tem um dos braços nu no pano rubro,
Parece que segura um espelho, e que a terra
Se reflete na água dessa outra margem.
E que designa agora, com o dedo
Que aponta nessa imagem um lugar?
Será outra casa ou será outro mundo,
Será mesmo uma porta, em meio à luz
Aqui mesclada às coisas e aos signos?
[In Yves Bonnefoy, Obra Poética, Tradução e org. Mário Laranjeira, São Paulo, Iluminuras, 1998, 235-237]
segunda-feira, 17 de março de 2014
Yves Bonnefoy
SOBRE UMA PIETÁ DE TINTORETTO
Nunca uma dor
Teve mais elegância nessas grades
Negras, e devoradas pelo sol. Nem nunca
Elegância foi causa mais espiritual,
Um fogo duplo, em pé sobre as grades da noite.
Aqui,
Uma grande esperança foi pintor. Que é
Mais real: o amargor desejante ou a imagem
Pintada? O desejo rasgou o véu da imagem,
A imagem deu vida ao exangue desejo.
UMA VOZ
Tu que dizem beberes da água quase ausente,
Lembra-te de que ela nos escapa e fala-nos.
A frustrante teria, enfim cativa,
Outro gosto que o da água mortal e serás
O iluminado de palavra obscura
Bebida nessa fonte e sempre viva,
Ou a água é sombra só, em que teu rosto
Reflete apenas sua finitude?
— Eu nada sei, eu já não sou, o tempo acaba
Como a cheia de um sonho aos deuses ocultados,
E tua voz, também como uma água, apaga-se
Dessa linguagem clara e que me consumiu.
Sim, posso aqui viver. O anjo, que é a terra,
Vai em cada touceira surgir e queimar.
Sou esse altar vazio, e esse abismo, e esses arcos
E tu mesmo talvez, e a dúvida: mais a alva
E o refulgir das pedras descobertas.
ARTE DA POESIA
Dragado foi o olhar fora daquela noite.
As mãos secadas e imobilizadas.
Reconciliou-se a febre. Disse-se ao coração
Que fosse o coração. Há um demônio nessas veias
Que fugiu a gritar.
Há na boca uma voz tíbia e sangrenta
Que foi lavada e outra vez chamada.
[In Yves Bonnefoy, Obra Poética, Tradução e org. Mário Laranjeira, São Paulo, Iluminuras, 1998, 235-237]
Sobre Yves Bonnefoy
Nunca uma dor
Teve mais elegância nessas grades
Negras, e devoradas pelo sol. Nem nunca
Elegância foi causa mais espiritual,
Um fogo duplo, em pé sobre as grades da noite.
Aqui,
Uma grande esperança foi pintor. Que é
Mais real: o amargor desejante ou a imagem
Pintada? O desejo rasgou o véu da imagem,
A imagem deu vida ao exangue desejo.
UMA VOZ
Tu que dizem beberes da água quase ausente,
Lembra-te de que ela nos escapa e fala-nos.
A frustrante teria, enfim cativa,
Outro gosto que o da água mortal e serás
O iluminado de palavra obscura
Bebida nessa fonte e sempre viva,
Ou a água é sombra só, em que teu rosto
Reflete apenas sua finitude?
— Eu nada sei, eu já não sou, o tempo acaba
Como a cheia de um sonho aos deuses ocultados,
E tua voz, também como uma água, apaga-se
Dessa linguagem clara e que me consumiu.
Sim, posso aqui viver. O anjo, que é a terra,
Vai em cada touceira surgir e queimar.
Sou esse altar vazio, e esse abismo, e esses arcos
E tu mesmo talvez, e a dúvida: mais a alva
E o refulgir das pedras descobertas.
ARTE DA POESIA
Dragado foi o olhar fora daquela noite.
As mãos secadas e imobilizadas.
Reconciliou-se a febre. Disse-se ao coração
Que fosse o coração. Há um demônio nessas veias
Que fugiu a gritar.
Há na boca uma voz tíbia e sangrenta
Que foi lavada e outra vez chamada.
[In Yves Bonnefoy, Obra Poética, Tradução e org. Mário Laranjeira, São Paulo, Iluminuras, 1998, 235-237]
Sobre Yves Bonnefoy
Assinar:
Postagens (Atom)
Fernando Paixão
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
-
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
-
PÃO-PAZ O Pão chega pela manhã em nossa casa. Traz um resto de madrugada. Cheiro de forno aquecido, de levedo e de lenha queimada. Traz as...
-
O Barco Bêbado Quando eu atravessava os Rios impassíveis, Senti-me libertar dos meus rebocadores. Cruéis peles-vermelhas com uivos terríve...


