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terça-feira, 3 de agosto de 2021

Nikos Kazantzákis

“...Como os incrédulos conseguirão crer nos prodígios que a fé pode gerar? Esquecem-se de que a alma do homem torna-se onipotente, ao ser tomada por uma grande ideia. As pessoas assustam-se quando, depois de amargas provações, entendem que têm no íntimo uma força que pode exceder a força humana; assustam-se, porque a partir do momento em que entendem que existe essa força, não podem mais encontrar justificativas para suas ações insignificantes ou indignas, para suas vidas perdidas, jogando a culpa nos outros: já sabem que elas – e não a sorte, não o destino, nem mesmo os outros ao redor -, apenas elas têm integral responsabilidade, não importa o que façam, não importa no que se tornem. E aí então se envergonham de rir e de zombar se uma alma inflamada busca o impossível. ”

[In O capitão Mihális (Liberdade ou Morte), trad. Silvia Ricardino, São Paulo: ed. Grua, 2013]

 


 

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Nikos Kazantzákis

2 DE FEVEREIRO — Quando acordei, a amendoeira ainda floria em mim. Meu sangue latejava em ritmo musical, cheio de júbilo, tristeza e nostalgia. Seu nome, querida Mariô, pairava sobre ele como uma gaivota sobre o mar. Ah! Como gostaria de ter tempo — e ânimo — para traduzir esse ritmo em palavras, transformando-o num poema! Uma canção bailava em meus lábios e eu dizia: “Ah! Deixem-me em paz hoje, com um lápis e papel!”

Mas o clarim soou o alarme, apanhamos os fuzis. Os rebeldes assomaram a ponta do nariz no cume das Águias, onde estão entrincheirados há meses sem que se consiga desalojá-los. Cumpria matar-se mutuamente. Na hora em que lhe escrevo já é noite, regressamos exaustos, ensanguentados. As perdas de ambos os lados se equivalem, sem o mínimo resultado, nem para eles, nem para nós. 

Correu sangue por nada. . .

Quando Homero descreve os combates dos aqueus e troianos, quando lemos o relato de suas agonias, experimenta-se uma alegria soberana, nosso espírito ganha asas, porque um grande criador soube extrair de um massacre o canto inimitável. Parece então que aquelas vítimas não são mais homens e sim nuvens de formato humano, insensíveis à dor, que se afrontam no meio do éter imarcescível, num simulacro de combate. E o sangue derramado tem a cor púrpura da noite. A poesia não estabelece diferença entre o homem e a nuvem, a morte e a imortalidade. Mas quando tudo se passa sobre a terra e os guerreiros possuem um corpo verdadeiro, composto de carne, osso e pelos, e dotado de alma, que coisa atroz é a guerra, meu amor! 

Parte-se para a batalha com o propósito de não odiar ninguém, de se dominar, continuar humano, mesmo em plena carnificina. Porém, ao ter de defender a própria vida, sente-se no âmago de si mesmo uma fera negra e felpuda que acorda, como um longínquo antepassado esquecido. Nosso rosto humano cede lugar à máscara do gorila, nosso cérebro se converte numa bola de sangue entremeada de pelos. Começa-se a gritar: “Todos à frente, vamos matá-los!” Mas esses gritos não são nossos, embora saiam de nossas bocas. Não são gritos humanos. O próprio metatipo recua apavorado diante desse ancestral das profundezas: o gorila.

Às vezes sou acometido da nostalgia de me deixar matar para resguardar o que me resta de humano e escapar à brutalidade. Mas você me prende à vida, resigno-me. Digo- me que um dia este massacre terá de acabar e poderei abandonar a pele de gorila: a farda, os coturnos, o fuzil.

Então, Mariô querida, voltaremos a Súnio, de mãos dadas, para recitar os versos imortais da Ilíada.

- Excerto de "Os irmãos inimigos", Nikos Kazantzakis, Nova Fronteira, 1965. 


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Nikos Kazantzákis

 EXCERTO DE "RELATÓRIO AO GRECO"

No Monte Athos, um monge pegou minha mão para, disse ele, ler a minha sorte; realmente, seu rosto era de um cigano, preto, redondo, grossos lábios de bode e olhos que lançavam chamas.
—    Não acredito em magia - disse-lhe rindo.
—    Não faz mal, eu acredito e isso chega.
Olhou as linhas de minha mão, suas estrelas, suas cruzes, suas linhas.
—    Não se meta, - disse depois de estudá-la bem - não se meta onde não é chamado; você não foi feito para a ação, fique longe; você não pode lutar com os homens; enquanto luta, vai sempre pensar que seu inimigo pode ter razão e, mesmo que não goste dele, vai sempre perdoá-lo. Entendeu?
—    Continue! - disse-lhe porque estava meio perturbado, pois, vi que esse monge, que me via pela primeira vez, tinha razão.
Observou atentamente a palma da minha mão;
—    Muitas preocupações o torturam, você pede muito, pergunta muito, consome o seu coração; pelo bem que te quero, não se apresse a encontrar a resposta; não é você que tem que ir buscá-la, é ela que deve vir a você; ouça o que estou dizendo, está vindo alguma coisa muito tranquila. Ouve mais uma palavra que, um dia, o abade me disse: um monge, durante toda a sua vida, ansiava por Deus e, apenas quando estava lutando com a morte, percebeu que era Deus que ansiava por ele.
Inclinou-se de novo, sobre a minha mão, arregalou os olhos e olhou para mim:
—    Você - disse - vai ser monge na velhice. Não ria, você vai ser monge.
Uma profecia mentirosa pode, num momento qualquer, se tornar verdadeira,
é só você acreditar nela. Lembrei-me da profecia da parteira no meu nascimento, olhou-me na luz e disse; “Essa criança, um dia, será bispo”. Assustei-me.
—    Eu não quero - gritei, e arranquei minha mão como se sentisse cheiro do perigo.
Com a passagem do tempo, esqueci-me disso, o mesmo aconteceu com as palavras do monge que, esta noite, de repente, vieram à minha mente, quis rir, mas, não consegui; ao que parece, elas trabalhavam em silêncio durante todo esse tempo e me empurravam para onde eu não queria ir; não podia mais rir.
Fechei os olhos para que o sono viesse e me salvasse.
Eu era, dizem, um rebelde, me perseguiam pelas ruas de uma grande cidade, pegaram-me,  julgaram-me, condenaram-me à morte. O carcereiro me pegou,  colocou-me à sua frente, ele vinha atrás com o chicote no ombro; eu corri. “Por que você está correndo?” perguntou o carcereiro, que já estava ficando ofegante. “Estou com pressa” respondi, “estou com pressa”. E, antes que eu tivesse terminado a frase, um ventinho fresco soprou e o carcereiro desapareceu. Não era um carcereiro, era uma nuvem negra que se espalhou. Eu queria prosseguir, mas não podia; uma montanha toda de pedras agudas apareceu na minha frente e fechou o meu caminho. No cimo da montanha, tinha uma bandeira vermelha. Eu disse: “Tenho que subir para poder prosseguir em nome de Deus!”. Fiz o sinal da cruz e comecei a subir; mas, os pregos dos meus coturnos batiam nas pedras e levantava faísca. Eu subia, subia, escorregava, caía, tornava a subir. E, quando cheguei perto do pico, vi, não era uma bandeira, era um chama. Subia e tinha meus olhos fixos no pico; não, não era chama, via-o claramente agora, era Deus, mas não o Pai, o outro, o terrível Jeová, que me esperava.
O sangue me gelou nas veias; por um momento, pensei em voltar; fiquei com vergonha. “Agora,” murmurei, “já era... Continue em frente!” “Você não está com medo?” ouvi uma voz feminina dentro de mim. “Sim, tenho medo!” gritei tão alto e com tanta angústia que acordei.
[In RELATÓRIO AO GRECO, tradução direta do grego por Lucilia Soares Brandão, introdução de Carolina Dônega Bernardes, Rio de Janeiro: Cassará, 2014, p. 244].



terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Nikos Kazantzákis

  EXCERTO DE "RELATÓRIO AO GRECO"

VOLTEI À CASA PATERNA; E ALI, DENTRO DO silêncio e do amor materno, sob o olho severo do meu pai, tinha chegado o momento de reviver a viagem e de colocar ordem nas alegrias e nas tristezas. Agora, a responsabilidade tinha adquirido voz dentro de mim, já não podia escapar; as terras falavam, os mortos se levantavam, uma grande Creta se desencobriu, assim como a Grécia e sua luta secular pela liberdade — esse é o seu destino. Qual era o meu dever? Trabalhar junto com ela, lançar-me na luta com ela, eu e meu espírito.

   Para libertar-me de que? De quem? Difícil a pergunta, não conseguia responder; apenas sentia que o meu combate não era nas montanhas com armas nas mãos e que ainda não conseguia distinguir bem os meus inimigos. Apenas isto via claramente: qualquer que fosse a minha decisão, faria minha obrigação o mais honestamente que pudesse, certeza eu só tinha de minha persistência e de minha honestidade, e de nada mais.

   Vocês se lembram daquele professor que procurou meu pai para se queixar que eu não obedecia ao que me diziam os professores e que ele respondeu, eu estava lá e ouvi: “Que ele não minta, nem apanhe; essas duas coisas, quanto ao resto, que faça o que quiser!” Essas palavras encravaram-se em minha mente; acho que, se não as tivesse escutado, minha vida não teria sido a mesma; um sombrio e irrepreensível instinto parecia levar meu pai a educar seu filho; o instinto do lobo que educa o filhote.

   Não saí de casa, não tinha mais amigos, a Filikí Eteria, tendo satisfeito sua fome, deixou suas asas caírem. Afastei as novas preocupações que me tiranizavam depois de minha peregrinação pela Grécia, convoquei meu raciocínio estudando a Renascença italiana e os grandes espíritos que a criaram; porque tinha decidido rodar a Itália, complementando a viagem que meu pai me tinha dado.

   E, uma manhã, desincorporei-me da casa paterna; minha mãe chorava, “Até quando”, dizia, “até quando você vai ficar fora?” Mas a juventude é dura, pensei em responder: “enquanto eu viver, mamãe, enquanto viver, vou ficar fora”; mas, controlei-me, beijei sua mão e o mar me levou.

   Ser jovem, ter vinte e cinco anos, ser forte, não amar ninguém em especial, nem homem nem mulher, que lhe restrinja o coração c não lhe deixe amar tudo o que lhe cerca da mesma forma desinteressada c veemente; viajar a pé pela Itália na primavera; deixar vir o verão e chegar as frutas, as chuvas, o outono e o inverno — acredito que seria petulância do homem querer uma maior felicidade.

   Acho que nada me faltava; corpo, espírito, cérebro, essas três feras se regozijavam da mesma forma, igualmente satisfeitas e felizes. Durante o tempo que durou essa minha viagem de lua de mel com meu espírito, sentia, como nunca tinha sentido na vida, como o corpo, o espírito e o cérebro eram criaturas da mesma terra. Apenas quando você envelhece, adoece ou cai em desgraça, eles se separam e lutam um contra o outro, às vezes, o corpo assume o comando, outras vezes,o  espírito levanta bandeira, quer sair e o cérebro, desamparado, olha e registra a desintegração. Mas enquanto você é jovem e forte, essa trindade forma uma irmandade que se amamenta com o mesmo leite!

   Fecho os olhos, a juventude volta, a harmonia se refaz dentro de mim, diante de mim tornam a passar as praias, montanhas e aldeias com seus delgados campanários, com os pinheiros, as águas que correm, as calçadas em volta com seus velhos que, à tardinha, sentam-se apoiados em seus bastões e conversam tranquilamente, sempre a mesma coisa entra ano sai ano, já há tantos séculos, assim como o ar acima deles também é secular. A primeira vez que vi essas famosas imagens, meu coração faminto tremeu, meus joelhos se dobraram e fiquei durante horas no umbral da porta até que sossegassem as batidas do meu coração e eu pudesse suportar tanta beleza, não é você que a olha, é ela que olha para você e o perdoa.

[In RELATÓRIO AO GRECO, tradução direta do grego por Lucilia Soares Brandão, introdução de Carolina Dônega Bernardes, Rio de Janeiro: Cassará, 2014, pp. 174-175]. 





terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Nikos Kazantzákis

EXCERTO DE "CARTA A GRECO"          

Foi um momento decisivo na minha vida; a angústia que em mim se instalara, nessa manhã, ia talvez escolher este meio de abrir a porta e fugir. Quem sabe, devo ter pensado, ainda que de modo confuso, se esta angústia adquirisse um corpo, se a palavra lhe desse um corpo, então veria o seu rosto e, vendo-o, nunca mais o temeria. Tinha cometido um grande pecado; se o confessasse, ficaria aliviado.

Pus-me, portanto, a mobilizar as palavras, a evocar as vidas de santos, as canções e os romances que tinha lido, a pilhar involuntariamente aqui e ali, a escrever... Fiquei surpreendido logo que alinhei as primeiras palavras sobre o papel. Nada tinha no espírito, recusava-me a escrever semelhante coisa, porque o tinha feito? Como se não me tivesse libertado para sempre do contacto amoroso — e contudo estava seguro de me ter libertado —, pus-me a cristalizar em redor da irlandesa uma lenda cheia de paixão e de imaginação. Nunca lhe tinha dito palavras tão ternas, jamais sentira tantas alegrias ao aproximar-me dela como o que proclamava no papel. Mentiras, só mentiras, e no entanto, ao alinhá-las no papel, compreendia, com espanto, que tinha saboreado com ela grandes alegrias. A verdade estaria, pois, em todas essas mentiras? Porque é que, quando as vivia, não as compreendia? E porquê, agora que escrevia, era a primeira vez que as compreendia?

Escrevia e estava cheio de orgulho: era um deus, fazia o que queria, transformava a realidade, recriava-a tal como a desejava, tal como ela poderia ser, misturava inextricavelmente verdades e mentiras, já não havia verdades e mentiras, tudo era um barro mole que eu afeiçoava, desfazia, a meu bel-prazer, livremente, sem pedir autorização a quem quer que fosse.

Deve existir uma incerteza mais segura do que a certeza; mas uma delas encontra-se num andar acima desta construção do homem mesmo no solo a que se chama verdade. 

A irlandesa insignificante, um pouco atarracada, tomara-se irreconhecível naquela obra; e eu, o galo depenado, enchera-me de grandes penas cintilantes que não existiam em mim.

Acabei ao fim de poucos dias. Fechei o manuscrito, escrevi sobre a capa, em letras bizantinas vermelhas, A Serpente e o Lí­rio, depois levantei-me, fui à janela e respirei profundamente. A irlandesa já não me atormentava, tinha-me deixado, estava deitada no papel de onde não podia mais separar-se, eu encontrava-me livre.

[In Carta a Greco, Tradução de Armando Pereira da Silva e Armando da Silva Carvalho, Lisboa, Ed. Ulisseia, 1961, pp. 136-137]

          Sobre Nikos Kazantzákis


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...