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sábado, 14 de novembro de 2015

Rainer Maria Rilke

Amo as horas sombrias de meu ser,
nas quais se me aprofundam os sentidos:
nelas eu tenho achado, como em velhas cartas,
meu dia-a-dia já vivido, e feito
alguma lenda distante e sofrida.
Delas me vem a noção de que tenho
lugar numa outra vida mais ampla e infinita.

E eu às vezes me sinto feito a árvore
que, sobre um túmulo, madura e ciciante,
preenche o sonho de algum morto jovem
(a cuja volta ela aperta as raízes mornas)
perdido entre amarguras e cantigas.

[In Livro de Horas, Tradução de Geir Campos, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2ª ed., 1994]

By Ruth Doremus



segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Rainer Maria Rilke

Ah, havíamos acordado que o silêncio haveria de prevalecer entre nós: haveria de ser a lei deste inverno, uma lei dura e implacável. Agora, porém, principiava a nossa ternura; não apenas a nossa: a ternura do que fora realizado estaria em meu coração. Talvez — a necessidade era enorme — fôssemos fortes o suficiente para nos calarmos — não éramos nós que trazíamos as notícias; a boca do destino se abria e as despejava sobre nós, pois o amor é o verdadeiro clima do destino. Por mais que ele abra o seu caminho através do céu — a sua Via Láctea feita de milhões de estrelas de sangue —, o país que jaz sob o seu manto encontra-se prenhe de fatalidades. Nem mesmo os deuses, nas metamorfoses de sua paixão, eram poderosos o bastante para libertar a terrena, assustada e fugitiva amada das ciladas deste chão fecundo.

[In O TESTAMENTO, tradução e notas de Tercio Redondo, prefácio Helmut Galle, São Paulo, Globo, p. 51]

 
By Dale Knickerbocker



segunda-feira, 27 de julho de 2015

Rainer Maria Rilke

Se eu me tivesse criado em algum lugar
onde os dias são mais leves e as horas mais delicadas,
eu te teria conseguido uma grande festança
e minhas mãos não te pegariam assim,
como às vezes te pegam,
tensas e assustadas.

Lá eu teria ousado te desperdiçar,
presença sem limites.
Como uma bola
eu te teria jogado no meio de toda a estonteante alegria
e tua queda
com mãos erguidas saltasse a amparar,
ó tu, coisa das coisas.

Como uma lâmina eu te teria
deixado reluzir.
Com o dourado anel
de teu fogo eu te deixaria envolver
e seria mister eu segurar-te
acima das mais alvejadas mãos.

Ter-te-ia eu pintado: não uma parede
e sim no céu, de ponta a ponta,
e te daria a forma de um gigante
e te faria assim: montanha, incêndio,
simum crescendo das areias do deserto
- ou, é também possível,
um dia eu te acharia...

Longe estão meus amigos,
mal lhes ouço ecoarem as risadas;
e tu estás caído de teu ninho
qual tenro pássaro de patas amarelas
e olhos grandes, e me fazes sentir mal.
(Minha mão, para ti, é larga demais.)
Com o dedo apanho da fonte uma gota
e vejo se não a queres com sede
e sinto que teu coração e o meu
palpitam assustados.

 [In Livro de Horas, Tradução de Geir Campos, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2ª ed., 1994]

Jake Wood-Evans



sexta-feira, 10 de julho de 2015

Rainer Maria Rilke

SALTIMBANCOS

1
Nosso caminho não é mais largo que o teu, freqüentemente calmos de muito alto, também nos arrebentamos, mas a falta de atenção não nos obriga retornar à corda. A ti, qualquer errinho faria morrer. Divertimos com nossos mil erros a morte, espectadora que ocupa a melhor cadeira no circo de nossas desgraças.

2
Façamos como eles: jamais cair sem morrer. Que multidão ao redor de nossa queda! Mas uma criança, meio de lado, observa a corda vazia com, ao fundo, a noite intacta.

3
A corda estava tão alta que aquilo se passava acima dos refletores. Mas logo estava novamente entre nós, em seu traje tão rosa. No alto, havia outro rosa que explicava à noite imensa o absurdo de seu puro perigo movente.

4
Que perfeição. Se fosse na alma, que santos fariam! - É na alma, mas eles a tocam apenas por acaso, nos raros momentos de um imperceptível deslize.

Muzot, 7-11 de agosto de 1924

[In As janelas, seguidas de poemas em prosa franceses, organização e tradução Bruno Silva D´Abruzzo e Guilherme Gontijo Flores, Belo Horizonte: Crisálida, 2009, p. 63]

By Joachim Van Den Heuvel


sexta-feira, 3 de julho de 2015

Rainer Maria Rilke

PRIMEIRA ELEGIA DE DUINO
Quem, se eu gritasse, me ouviria em meio às ordenações
Dos anjos? E mesmo se um deles de repente
Me chamasse ao seu coração eu me apagaria face à sua
Presença mais forte. Porque o Belo nada é
Senão o começo do terrível, que estamos apenas supor-
[ tando,
E se assim admiramos é que impassível
Desdenha de nos destruir. Todo anjo é terrível.
Hei de reter-me, pois, e hei de conter em mim
O apelo de um triste soluço. Ah! a quem então
Nos é dado recorrer? Nem aos anjos, nem aos homens,
E os animais sagazes já desconfiam por instinto
Que não nos podemos sentir em intimidade
No mundo interpretado. Resta-nos talvez
Uma árvore qualquer a rever cada dia,
Sobre a encosta; resta-nos a estrada de ontem,
E a fidelidade infantil a algum costume
Que em nós se aprouve e assim ficou e não partiu.
Oh! e a noite, a noite, quando o vento cheio de ruído do
[ mundo
Nos consome a face para quem não seria a desejada
Um suave desencanto, que ante o coração sozinho
Se ergue penosamente. E’ ela mais amável aos amantes?
Ah! esses só fazem se enganar mutuamente com a pró-
[pria sorte,
Não o sabes ainda? Lança o vazio de teus braços
Aos espaços respiráveis; talvez que os pássaros
Sintam num voo mais íntimo o ar mais amplo.
Sim, quiseram-te as primaveras; muitas estreias
Viveram para que as descobrisses. Do passado
Cresceu a onda; ou bem ao cruzares
Uma janela aberta um violino se entregou a ti. Tudo isso
[era missão.
Mas lhe estiveste à altura? Não andaste sempre perdido
A espera, como se tudo te anunciasse
Uma visão amada? (E onde a queres abrigar,
Agora que grandes e estranhos pensamentos
Vêm e vão em ti e às vezes se deixam, à noite) .
Mas se sentes saudade, canta os amantes; bem longe
Da plena imortalidade está seu decantado sentimento.
Canta, a esses abandonados que quase invejas e que
Te parecem tão melhores que os aquietados. Recomeça
Sempre a tua inacessível louvação;
Pensa; o herói persiste, o próprio fim foi nele
Um pretexto para ser: seu derradeiro nascimento.
Mas aos amantes, retoma-os ainda a natureza
Esgotada como se as forças que os realizaram
Não se pudessem reproduzir. Já pensaste bem em Gas-
[para Stampa,
Essa amante em cujo exemplo exaltado se encontra
Toda jovem que o amado abandonou: se eu fosse como
[ela?
Essas penas mais antigas, enfim, não deveriam ser
Fecundas para nós? Não é chegado o tempo
Em que nós, amantes, nos livremos vibrando das amadas
Como vibra a flecha ao deixar a corda para ultrapassar-se
Na tensão do ímpeto. Porque não há repouso em nada.
Vozes, vozes! Ouve, meu coração, como só os santos
Ouviram: eles, que o apelo imenso
Ergueu do chão; e eles sobre-humanos
Prosseguiram ajoelhados, sem atender a nada:
Pois era como ouviam. Não que tu pudesses suportar
A voz de Deus, nem de longe. . . Mas ouve o sopro,
A incessante mensagem que nasce do silêncio.
Agora, daqueles que jovens morreram, sobe um murmúrio
[ aos teus ouvidos.
Não importa onde entrasses, nas igrejas
De Roma e de Nápoles, não te falou sereno o seu destino?
Ou uma inscrição se impunha, majestosa,
Como há pouco naquela lousa em Santa Maria Formosa.
Que me querem eles? Delicadamente
Preciso desfazer a impressão de erro que muitas vezes
Perturba um pouco o movimento puro de suas almas.
Bem certo deve ser estranho não habitar mais a terra,
Não recorrer mais a hábitos apenas adquiridos,
Não mais dar às rosas e às promessas de outras coisas
A significação de um futuro humano;
Estranho não se ser mais o que se foi no infinito cuidado
Das mãos, e abandonar até o próprio nome
Como um pobre brinquedo jogado.
Estranho não mais desejar desejos. Estranho
Ver tudo o que foi laço, no espaço flutuar
Desfeito. Coisa difícil é estar morto;
E cheia de ressurreições, pois que há sempre para nós
Um prenúncio de eternidade. Mas os vivos
Cometem, todos, o erro de tudo distinguir.
Os anjos (diz-se) muitas vezes ignoram se caminham
Entre os vivos ou os mortos. O eterno rio
Carrega sempre através os dois reinos todas as idades
E em ambos o que domina é a sua voz.
Afina! eles não precisam de nós, os cedo transportados;
Suavemente nos libertamos das coisas terrenas como
O ser se despega do seio materno. Mas nós, que preci-
[ samos
De tão grandes segredos dos quais em luto
Nascem tantas vezes vitórias tão abençoadas, podemos
[acaso viver sem eles?
E vá a lenda de que outrora, lamentando Linos
A primeira música ousou penetrar a estéril rigidez da
[ matéria inerte. . . e que então, no espaço em
[sobressalto que um adolescente quase divino
De súbito deixou para sempre, o vazio penetrou
Naquelas ondulações que são para nós arrebatamento e
[ consolo e socorro.

Tradução: Vinícius de Moraes

[In Poesia Alemã, Prefácio e Organização Geir Campos, Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura, 1960, pp. 331-337]

BY ALESSANDRA ZAMPARO- FLICKR

domingo, 21 de junho de 2015

Rainer Maria Rilke

Não creias, artista, que seja o trabalho o que te põe à prova. Não és o que pretendes ser nem és a pessoa por quem este ou aquele te toma, por estar mal informado, enquanto ela não se tornar natureza para ti, de modo que não possas fazer outra coisa senão conservar-te nela. Trabalhando assim, és a lança arremessada com maestria. Leis recebem-te das mãos da lançadora e precipitam-se contigo no alvo. O que seria mais seguro que o teu voo?

Consista a tua prova, porém, no fato de que nem sempre és arremessado. No fato de que a arremessadora Solidão há muito não te escolhe; olvida-se de ti. Este é o tempo das tentações, quando te sentes inutilizado, incapaz (Como se o manter-se preparado não constituísse ocupação bastante!). Então, quando estás deitado de uma maneira que não é tão pesada, as distrações exercitam-se em ti e procuram descobrir alguma outra coisa a que te possas dedicar. Como

se te tomasses a vara de um cego, uma dentre as barras de uma grade ou o bastão do equilibrista. Ou, ainda, elas se erguem e plantam-te no solo do destino, de modo que te aconteça o milagre das estações e faças brotar pequenas folhas verdes de felicidade...

                      Então, oh, férreo ser: deita-te pesadamente.
                      Sê uma lança. Sê uma lança. Sê uma lança!

(In Rainer M. Rilke, O testamento, tradução Tércio Redondo, São Paulo, Globo, 2009)


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Rainer Maria Rilke

Estou no mundo tão só, e ainda não só o bastante
para cada hora sacralizar.
No mundo eu me vejo débil demais
e ainda assim não débil o bastante
para diante de ti ser uma coisa
obscura e esperta;
vontade eu tenho e quero acompanhar minha vontade
a caminho da ação.
Quero nos calmos e de certo modo irrequietos tempos
quando algo se aproxima
estar entre os que sabem,
ou sozinho.
Eu quero espelhar-me sempre em tua forma total
e jamais estar cego ou velho em demasia
para aguentar tua imagem oscilante e pesada.
Quero me desdobrar.
Em parte alguma quero estar curvado,
pois sempre que me curvo estou mentindo.
E quero que todos os meus sentidos
sejam, diante de ti, bem verdadeiros. Quero me descrever
como a uma imagem que eu tivesse visto
tanto de perto quanto de longe,
como uma palavra que eu compreendo,
como meu vaso de todos os dias,
como o semblante de minha mãe,
como um navio
que me conduzisse
através da mortífera tormenta.

 [In Livro de Horas, Tradução de Geir Campos, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2ª ed., 1994]


segunda-feira, 16 de março de 2015

Rainer Maria Rilke

Amo as horas sombrias de meu ser,
nas quais se me aprofundam os sentidos:
nelas eu tenho achado, como em velhas cartas,
meu dia-a-dia já vivido, e feito
alguma lenda distante e sofrida.
Delas me vem a noção de que tenho
lugar numa outra vida mais ampla e infinita.

E eu às vezes me sinto feito a árvore
que, sobre um túmulo, madura e ciciante,
preenche o sonho de algum morto jovem
(a cuja volta ela aperta as raízes mornas)
perdido entre amarguras e cantigas.

***

 Se a ti, vizinho Deus, eu incomodo às vezes
com rude batimento no meio da noite,
é que de quando em quando te ouço respirar
e sei que estás sozinho no salão.
E, se careces de algo, lá não há ninguém
que te ofereça um gole às mãos tateantes...
Sempre atento estou eu: ao menor sinal teu
eu estou muito perto.

Só existe entre nós uma fina parede,
por acaso: se houvesse, por acaso,
de tua boca ou da minha algum chamado,
ela se desfaria
sem alarme ou ruído.

De imagens tuas ela é toda feita:
imagens que em tua frente se põem - nomes.
E, tão logo se acende em mim a luz
com que te reconhece a profundeza minha,
ela some com um reflexo na moldura.

E meus sentidos, que em pouco se debilitam,
desligados de ti - ficam sem pátria.

***

Capto de tuas palavras o sentido
e o da história dos gestos
com que tuas mãos em torno do devir,
quentes e sábias, tentam limitá-lo.

Da vida falavas alto, da morte falavas baixo,
e sempre e sempre repetias: ser...
Ainda antes da primeira morte veio o crime
- e era um rasgão cruzando teus maduros círculos
e uma área havia
e vozes arrastadas
que então se reuniam
para te proclamarem,
para te conduzirem
- pontes sobre todo abismo.

E o que têm, desde então, balbuciado
são pedaços
de teu antigo nome.

***

Fala Abel, pálido moço:

- Eu não existo. Algo me fez meu irmão
que meus olhos não viram.
A luz ele me apagou,
meu rosto ele sufocou
com o rosto dele.
Agora ele está sozinho.
Eu penso que ele nem deve existir:
com ele ninguém faz o que ele fez comigo.
Todos me seguem a trilha:
todos chegam defronte à ira dele
e diante dele parecem perdidos.

Creio que meu irmão maior vigia
igual a um tribunal.
É em mim que a noite tem pensado,
não é nele.

***

Tu, escuridão da qual descendo,
de ti gosto mais que da labareda:
ela reduz
o mundo em que reluz
a uma espécie de círculo
fora do qual nenhum ser a conhece.

Já a escuridão, em si tudo contém:
formas e flamas e animais, e eu
- assim como também ela reúne
pessoas e potências...

E pode ser isto: uma grande força
a se mover nos subúrbios de mim...

Acredito nas noites.


***

Eu creio em tudo que ainda não foi dito.
Quero soltar meus mais sagrados sentimentos.
O que ninguém sabe ainda querer muito
em mim um dia há de ser espontâneo.

Se é presunção isto, meu Deus, perdoa:
mas é só isto o que eu tenho a dizer-te.
A força melhor em mim há de ser como um impulso
assim sem zangas nem hesitações;
e é assim que te amam as crianças.

Com esta maré, com este estuário
nos largos braços do mar aberto,
com esta volta crescente,
quero reconhecer-te e proclamar-te
como antes ninguém fez.

Se isto é soberba, deixa eu ser o soberbo
por minha prece,
que tão grave e solitária
ergue-se em frente a teu rosto de nuvens.


 [In Livro de Horas, Tradução de Geir Campos, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2ª ed., 1994]
















quinta-feira, 10 de julho de 2014

Rainer Maria Rilke


OS CADERNOS DE MALTE LAURIDS BRIGGE - EXCERTO
Oh noite sem objetos. Oh janela cega para o mundo lá fora, oh portas fechadas com cuidado; hábitos do passado, recebidos, reconhecidos, nunca inteiramente compreendidos. Oh silêncio na escadaria, silêncio dos quartos vizinhos, silêncio no alto, junto ao teto. Oh mãe: oh única que dissimulou todo esse silêncio, outrora, na infância. Que o toma sobre si, e diz: não te assustes, sou eu. Que tem a coragem, em plena noite, de ser esse silêncio para aquele que tem medo, que se arruma de medo. Acendes uma luz, e já o ruído és tu. E a seguras diante de ti e dizes: sou eu, não te assustes. E tu a depões, devagar, e não há dúvida: és tu, és a luz em volta das coisas costumeiras, cordiais, que aí estão sem sentidos ocultos, boas, simples, inequívocas. E quando algo se inquieta em algum lugar na parede ou dá um passo nas tábuas: apenas sorris, sorris, sorris de maneira transparente sobre um fundo claro para o rosto assustado que te inquire como se estivesses conluiada e tivesses segredos com cada voz baixa, como se estivesses combinada e de acordo com ela. Algum poder no império terreno se assemelha ao teu? Vê, reis jazem e olham fixamente, e o contador de histórias não é capaz de distraí-los. Reclinados nos seios felizes de suas favoritas, o horror rasteja sobre eles e os deixa trêmulos e desanimados. Tu vens, porém, e manténs o monstruoso atrás de ti e o encobres completamente; não como uma cortina que pudesse se abrir aqui ou ali. Não, mas como se o tivesses vencido em razão do chamado que precisou de ti. Como se tivesses chegado muito antes de tudo que pode vir, e tivesses às costas apenas a tua chegada apressada, o teu caminho eterno, o voo do teu amor.

[In Os cadernos de Malte Laurids Brigge, tradução e notas de Renato Zwick, Porto Alegre, L&PM, 2010, pp. 60-61]. 



quarta-feira, 18 de junho de 2014

Rainer Maria Rilke

OS CADERNOS DE MALTE LAURIDS BRIGGE - EXCERTO

Às vezes passo diante de pequenas lojas na Rue de Seine, por exemplo. Negociantes de coisas velhas ou pequenos alfarrabistas ou vendedores de gravuras em cobre com vitrines abarrotadas. Jamais alguém entra em seus estabelecimentos; é manifesto que não fazem negócios. Quando olhamos para dentro, porém, eles estão sentados, estão sentados e leem sem preocupações; não se preocupam com o amanhã, não se inquietam com o sucesso, têm um cão, que fica sentado diante deles, bem-disposto, ou um gato que toma o silêncio ainda maior ao passar pelas fileiras de livros como se apagasse os nomes das lombadas.

Ah, se isso bastasse: às vezes, gostaria de comprar uma dessas vitrines repletas e me sentar atrás dela com um cão durante vinte anos.

É bom dizer em voz alta: “Não aconteceu nada”. Mais uma vez: “Não aconteceu nada”. Isso ajuda?

[In Os cadernos de Malte Laurids Brigge, tradução e notas de Renato Zwick, Porto Alegre, L&PM, 2010, pp. 33-37]. 


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Rainer Maria Rilke

OS CADERNOS DE MALTE LAURIDS BRIGGE

Mas havia algo mais. Havia uma voz, a voz que há apenas sete semanas era desconhecida de todos: pois essa não era a voz do camareiro da corte. Essa voz não pertencia a Christoph Detlev, essa voz pertencia à morte de Christoph Detlev.

A morte de Christoph Detlev já habitava há muitos e muitos dias em Ulsgaard, falava com todos e fazia exigências. Exigia ser carregada, exigia o quarto a/ul, exigia o salão pequeno, exigia a sala. Exigia os cães, exigia que se risse, falasse, tocasse música, ficasse em silêncio ou tudo ao mesmo tempo. Exigia a presença de amigos, mulheres e falecidos, e exigia inclusive morrer: exigia. Exigia e gritava.

Pois quando a noite havia chegado e os membros da criadagem esgotada que não tinham vigília a cumprir procuravam adormecer, a morte de Christoph Detlev gritava, gritava e gemia, berrava por tanto tempo e com tanta insistência que os cães, que de início a acompanhavam uivando, emudeciam e não ousavam se deitar, mas, em pé sobre suas pernas longas, delgadas e trêmulas, tinham medo. E quando as pessoas ouviam no povoado, através da noite estival dinamarquesa, vasta e prateada, que a morte berrava, punham-se de pé como faziam quando havia temporal, vestiam-se e ficavam sentadas em tomo da candeia até que tudo tivesse passado. E as mulheres que estavam próximas de dar à luz eram alojadas nos quartos mais afastados e atrás dos tabiques mais espessos; mas elas a ouviam, ouviam-na como se estivesse em seus próprios corpos, e imploravam para que também as deixassem levantar, e iam, brancas e grandes, sentar-se junto aos outros com seus rostos apagados. E as vacas que pariam nessa época estavam desamparadas e ficavam trancadas, e, de uma delas, arrancaram o feto morto e todas as entranhas quando ele não quis sair de maneira alguma. E todos faziam mal o seu trabalho cotidiano e esqueciam-se de recolher o feno porque durante o dia receavam a noite e porque estavam tão fatigados das tantas vigílias e de levantar assustados que não podiam se lembrar de nada. E quando, no domingo, iam à igreja, branca e sossegada, oravam pedindo para que não houvesse mais nenhum senhor em Ulsgaard: pois esse senhor era terrível. E o que todos pensavam e oravam, o pastor dizia em alta voz de cima do púlpito, pois também ele não tinha mais noites e não podia compreender Deus. E também o dizia o sino, que agora tinha um rival apavorante que ressoava a noite inteira e contra o qual, mesmo que começasse a repicar a todo metal, nada podia. Sim, diziam-no todos, e havia um jovem que tinha sonhado que entrara no castelo e matara o senhor com o forcado do estrume, e as pessoas estavam tão irritadas, tão acabadas, tão exaltadas, que todas prestavam atenção nele enquanto contava seu sonho e, inteiramente sem se darem conta, mediam-no para ver se estaria à altura de semelhante ato. Era isso que as pessoas sentiam e era assim que falavam por toda a região em que, havia apenas algumas semanas, o camareiro da corte era amado e lastimado. Mas ainda que as pessoas assim falassem, nada mudou. A morte de Christoph Detlev, que morava em Ulsgaard, não se deixou coagir. Ela tinha vindo para ficar dez semanas, e as cumpriu. E durante esse tempo, foi mais senhoril do que Christoph Detlev Brigge jamais o fora, ela foi qual uma rainha, chamada, depois e para sempre, de a terrível.

Essa não foi a morte de um hidrópico qualquer, essa foi a morte maléfica, principesca, que o camareiro da corte levara durante toda a sua vida dentro de si e alimentara com seu próprio sangue. Todo o excesso de orgulho, vontade e força senhoril que ele próprio não pudera consumir em seus dias tranquilos passara para a sua morte, a morte que agora se encontrava em Ulsgaard e esbanjava.

Com que expressão o camareiro da corte Brigge não teria encarado aquele que lhe pedisse para morrer outra morte que não essa! Ele morreu a sua morte difícil.

[In Os cadernos de Malte Laurids Brigge, tradução e notas de Renato Zwick,  L&MP, Porto Alegre, 2010, pp. 14-16]



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Rainer Maria Rilke

A MORTE DO POETA
Jazia. A sua face, antes intensa,
pálida negação do leito frio,
desde que o mundo e tudo o que é presença,
dos seus sentidos já vazio,
se recolheu à Era da Indiferença.

Ninguém jamais podia ter suposto
que ele e tudo estivessem conjugados,
e que tudo, essas sombras, esses prados,
essa água mesma eram o seu rosto.

Sim, seu rosto era tudo o que quisesse
e que ainda agora o cerca e o procura;
a máscara da vida que perece
é mole e aberta como a carnadura
de um fruto que no ar, lento, apodrece.

[In Augusto de Campos, Coisas e Anjos de Rilke, São Paulo: Perspectiva, 2013, p.105]





quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Rainer Maria Rilke

Apolo Prematuro
Como por vezes dos ramos sem flor
se entremostra a manhã tal que pareça
já primavera: nada em sua cabeça
impede que sintamos o esplendor

quase letal de todos os poemas
no seu olhar sem sombras ou centelhas,
a fronte ainda fria para emblemas,
pois só depois, do arco das sobrancelhas,

virá o jardim de rosas que se apruma,
as pétalas soltando-se, uma a uma,
a cair sobre a boca, que, tremente,

cintila já, mas sem uso, silente,
bebendo algo com o seu sorriso,
como à espera de um canto ainda impreciso.

In Augusto de Campos, Coisas e Anjos de Rilke, São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 93.




segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Rainer Maria Rilke

ELEGIA A MARINA TSVÉTAÏEVA
Estas perdas no Todo, Marina, estas estrelas que desabam!
Onde quer que nos lancemos, qualquer que seja a estrela, nós
Nada alcançamos: a conta já está fechada.
Assim, quem cai não diminui o número sagrado.
A queda que renuncia escolhe na origem e, ali, se cura.
Não será tudo afinal um jogo, mudança do Mesmo ou transferência,
E em lugar algum um nome, o mínimo lugar de um ganho íntimo? 
Nós ondas, Marina, e mar! Nós profundezas, e céu!
Nós terra, Marina, e mil vezes primavera, estas cotovias 
Cujo canto ao irromper as lança na invisibilidade!
Entoamo-lo em alegria, mas ele já nos ultrapassou 
E de súbito o nosso peso transforma em pranto o canto.
Mas o pranto? Não é ele uma alegria nova, inversa?
Os deuses cá em baixo também querem ser louvados:
Tão ingênuos que esperam, como o menino de escola, o elogio! 
Deixa-nos então ser pródigos no louvor!
Nada é nosso. E dificilmente podemos pegar com a nossa mão 
O caule de flores não colhidas, fá vi isso à beira do Nilo,
Em Kôm-Ombo. Os reis, renunciando, vazam desse modo as libações. 
Como os anjos marcam o portal de quem deve ser salvo,
E assim, aparentemente ternos, tocamos isto ou aquilo.
Mas já levados para tão longe, Marina, tão distraídos, mesmo sob 
O mais profundo pretexto. Fazedores de signos, nada mais.
Este comércio ligeiro, quando um de nós 
Já não se contenta e decide investir
E se vinga e mata. Que ele tenha o poder de morte, com efeito,
Já todos nós tínhamos compreendido ao ver a sua tema discrição
E a força estranha que faz de nós viventes
De sobreviventes. Não ser. 
Sabes tu quantas vezes
Uma ordem cega através da antecâmara gelada
Nos trouxe dum novo nascimento? Nós? Um corpo feito de olhos
Sob pálpebras inumeráveis dizendo não? Trará o coração
Abatido por toda uma raça que há em nós? Para que fim de migração
Transporta o voo, a imagem aérea das nossas mutações.
Os amantes, Marina, não deveriam, não têm o direito 
De saber de mais sobre o seu declínio. Eles devem continuar jovens. 
Só o seu túmulo é velho. Só o seu túmulo, cada vez mais sombrio, 
Sob a árvore que soluça, se lembrará para sempre.
Só o seu túmulo deve quebrar-se; eles são flexíveis como o vime,
O excesso que os verga entrança-os numa rica coroa.
Como desvanecem no vento de Maio! Do centro de Sempre 
Em que adivinhas, respiras, são excluídos pelo instante.
(Como vos entendo, ó femininas flores sobre o silvado 
Sempre o mesmo. E me inflas de força no ar da noite 
Que irá aflorar-vos.) Os Deuses aprenderam cedo 
A simular metades. Nós, inscritos na órbita,
Tornamo-nos plenos como o disco da lua.
Mesmo na fase decrescente, ou nas semanas do que se revolve,
Nada há que nos possa devolver à plenitude, a não ser 
Os nossos passos, só eles, por cima da paisagem sem sono.

oo00oo

Janela distante das nossas paredes há muito já transposta 
Entre os astros, festeja e reina;
Tu, sobrevivente ao Cisne e à Lira, tu derradeira 
Imagem lentamente divinizada.

Usamos-te ainda, forma das nossas casas engastada 
Levemente, que nos promete a infância.
Mas as janelas da terra, mesmo a mais abandonada 
Imitava as tuas decantações!

O Destino lá em cima enlaçou-te, com a sua medida usual 
De perdas e declínios.
Janela de astros estáveis, sujeito ao movimento ele emerge
por cima daqueles que escolhem.

In Correspondência a Três, Trad. Armando Silva Carvalho, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006, pp. 191-194

Wassily Kandinsky


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Rainer Maria Rilke

LEDA
Quando o deus revestiu sua figura, 
surpreendeu-se de achar tanta beleza 
no cisne e se deixou perder na alvura. 
Mas logo se aprestou à sua empresa,

antes ainda que da sua presa 
provasse as sensações. A que se abria 
compreendeu quem no cisne se encobria. 
Soube que demandava com presteza

algo que a resistência de sua mente 
não pôde mais deter com arma alguma. 
O deus, vencendo a mão desfalecente,

cingiu a amada num coleio-abraço, 
sentiu o próprio corpo, pluma a pluma, 
e só então foi cisne em seu regaço.

In Augusto de Campos, Coisas e Anjos de Rilke, São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 205

LEDA E O CISNE
Leonardo da Vinci

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Rainer Maria Rilke

Fim de Outono em Veneza
A cidade sem luz já não é mais o anzol
pescando à beira-mar o dia renascido.
Os palácios de vidro emitem um sonido
mais quebradiço aos olhos. Dos jardins, o sol,

penca de marionetes em um fim da festa,
pende, exaurido, morto, de ponta-cabeça.
Mas da raiz dos esqueletos da floresta
cresce um querer: assim, durante a noite espessa,

no arsenal em vigília ordena o comandante
redobrar as galés, para que a sua frota
possa cobrir de breu a brisa da alvorada

com os remos que vão abrindo a sua rota,
e súbito, as bandeiras todas em parada,
recebe o grande vento, lúgubre e radiante.

In Augusto de Campos, Coisas e Anjos de Rilke, São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 259


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Rainer Maria Rilke

NASCIMENTO DE VÊNUS
Esta manhã, depois que a noite inquieta
esmoreceu entre urros, sustos, surtos, -
o mar ainda uma vez se abriu e uivou.
E quando o grito aos poucos foi cessando
e do alto o dia pálido emergente
caiu no vórtice dos peixes mudos -:
o mar pariu.


Ao sol reluzem os pelos de espuma
do amplo ventre da onda, em cuja borda
surge a mulher, alva, trêmula e úmida.
E como a folha nova que estremece,
se estira e rompe aos poucos a clausura,
ela vai desvelando o corpo à brisa
e ao vento intacto da manhã.


Como luas erguem-se os joelhos claros,
réstias de nuvens soltam-se das coxas,
das pernas caem pequeninas sombras,
os pés se movem bêbados de luz,
vibram as juntas como gorgolhantes
gargantas.


Na taça da bacia jaz o corpo,
como um fruto na mão de uma criança,
o estreito cálice do umbigo encerra
tudo o que é escuro nessa clara vida.
Em baixo alteiam-se as pequenas ondas
que escorrem, incessantes, pelas ancas,
onde, de quando em quando, a espuma chove.
Porém, exposto, sem sombras, emerge,
como um maço de bétulas de abril,
quente, vazio e descoberto, o sexo.


A balança dos ombros paira, ágil,
em equilíbrio sobre o corpo ereto
que irrompe da bacia como fonte
vacilante entre os longos braços fluindo
veloz pela cascata dos cabelos.


Então bem lentamente vem o rosto:
da sombra estreita da reclinação
para a clara altitude horizontal.
Após o qual fecha-se, abrupto, o queixo.


Eis que o pescoço surge como um fluxo
de luz, ou talo, de onde a seiva sobe,
e se estiram o s braços como o colo
de um cisne quando busca a ribanceira.


Então, da obscura aurora desse corpo,
ar da manhã, vem o primeiro alento.
No fio mais tênue da árvore das veias
há como que um bulício e o sangue flui
a sussurrar nas fundas galerias,
e essa brisa se expande: agora cresce
com todo o hausto sobre os peitos novos
que se intumescem de ar e a impulsionam, _
e como velas côncavas de vento
levam a jovem para a praia.


Assim aportou a deusa.

Atrás dela, pisando a terra nova,
lépida, ergueram-se toda a manhã
flores e caules, quentes, perturbados,
como num beijo. E ela foi e correu.

Porém, ao meio dia, na hora mais intensa,
o mar se abriu de novo e arremessou
no mesmo ponto o corpo de um delfim.
Morto, roxo e oco.


In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, 193-199

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Rainer Maria Rilke

O LEGENTE
Há muito tempo, desde que a tarde se ouvia
Com o murmúrio da chuva nas janelas, eu lia.
O vento lá fora, já o não escutava:
O meu livro pesava.
Como se fossem rostos, as folhas sob o meu olhar
Escurecem de tanto pensamento
E, envolvendo a leitura, avolumava o tempo.
De súbito desce sobre as páginas um fulgor,
E em vez de confusas palavras - um tormento -
Há em todas só... noite, noite só, a nascer.
Não olho ainda para fora, mas já as longas
Linhas se desfazem, e as palavras rolam
Do fio que as liga, vão para onde querem...
E então eu sei que há céus sem fim
Sobre o esplendor e a plenitude dos jardins;
O sol teve de nascer mais uma vez. -
E agora é verão e noite o horizonte:
O que andava disperso em grupos se une,
Poucos, e há gente pelos caminhos escuros,
E longe, estranhamente, como se outro sentido
Tivesse, ouve-se o pouco que ainda acontece.

E ao levantar do livro o olhar agora,
Nada me é estranho, tudo tem grandeza.
O que aqui dentro eu vivo, está lá fora,
E aqui e lá não tem limite o mundo;
Só eu me teço mais com tudo isso,
Quando os meus olhos se ajustam às coisas
E à grave singeleza dessa gente -
O mundo cresce então, num golpe de asa.
O céu inteiro o abraça, é o que se sente:
E a estrela d′ alba é como a última casa.

In O Livro das Imagens, trad. Maria Teresa Dias Furtado

O SOLITÁRIO
Como alguém que por mares desconhecidos viajou,
assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua pátria;
os dias cheios estão sobre as suas mesas
mas para mim a distância é puro sonho.

Penetra profundamente no meu rosto um mundo,
tão desabitado talvez como uma lua;
mas eles não deixam um único pensamento só,
e todas as suas palavras são habitadas.

As coisas que de longe trouxe comigo
parecem muito raras, comparadas com as suas —:
na sua vasta pátria são feras,
aqui sustém a respiração, por vergonha.

In O Livro das Imagens, trad. Maria João Costa Pereira

Anastasia Kraineva



domingo, 24 de março de 2013

Rainer Maria Rilke

O TORSO ARCAICO DE APOLO
Não conhecemos sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado

Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.

De outro modo erguer-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros.
E não tremeria assim, como pele selvagem.

E nem explodiria para além de todas as fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: precisas mudar de vida.

Tradução: Paulo Quintela

QUE FARÁS TU, MEU DEUS, SE EU PERECER?
Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
Eu sou o teu vaso - e se me quebro?
Eu sou tua água - e se apodreço?
Sou tua roupa e teu trabalho
Comigo perdes tu o teu sentido.

Depois de mim não terás um lugar
Onde as palavras ardentes te saúdem.
Dos teus pés cansados cairão
As sandálias que sou.
Perderás tua ampla túnica.
Teu olhar que em minhas pálpebras,
Como num travesseiro,
Ardentemente recebo,
Virá me procurar por largo tempo
E se deitará, na hora do crepúsculo,
No duro chão de pedra.

Que farás tu, meu Deus? O medo me domina.

Tradução: Paulo Plínio Abreu

MORGUE
Estão prontos, ali, como a esperar
que um gesto só, ainda que tardio,
possa reconciliar com tanto frio
os corpos e um ao outro harmonizar;

como se algo faltasse para o fim.
Que nome no seu bolso já vazio
há por achar? Alguém procura, enfim,
enxugar dos seus lábios o fastio:

em vão; eles só ficam mais polidos.
A barba está mais dura, todavia
ficou mais limpa ao toque do vigia,

para não repugnar o circunstante.
Os olhos, sob a pálpebra, invertidos,
olham só para dentro, doravante.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 115

A PANTERA
                        No Jardin des Plantes, Paris
De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 121


A GAZELA
                            Gazella Dorcas
Mágico ser: onde encontrar quem colha
duas palavras numa rima igual
a essa que pulsa em ti como um sinal?
De tua fronte se erguem lira e folha

e tudo o que és se move em similar
canto de amor cujas palavras, quais
pétalas, vão caindo sobre o olhar
de quem fechou os olhos, sem ler mais,

para te ver: no alerta dos sentidos,
em cada perna os saltos reprimidos
sem disparar, enquanto só a fronte

a prumo, prestes, pára: assim, na fonte,
a banhista que um frêmito assustasse:
a chispa de água no voltear da face.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 123

SÃO SEBASTIÃO
Como alguém que jazesse, está de pé,
sustentado por sua grande fé.
Como mãe que amamenta, a tudo alheia,
grinalda que a si mesma se cerceia.

E as setas chegam: de espaço em espaço,
como se de seu corpo desferidas,
tremendo em suas pontas soltas de aço.
Mas ele ri, incólume, às feridas.

Num só passo a tristeza sobrevém
e em seus olhos desnudos se detém,
até que a neguem, como bagatela,
e como se poupassem com desdém
os destrutores de uma coisa bela.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013,p. 125

O ANJO
Com um mover da fronte ele descarta
tudo o que obriga, tudo o que coarta,
pois em seu coração, quando ela o adentra,
a eterna Vinda os círculos concentra.

O céu com muitas formas lhe aparece
e cada qual demanda: vem, conhece -.
Não dês às suas mãos ligeiras nem
um só fardo; pois ele, à noite, vem

à tua casa conferir teu peso,
cheio de ira, e com a mão mais dura,
como se fosses sua criatura,
te arranca do teu molde com desprezo.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 127

FONTE ROMANA
                               Borghese
Duas velhas bacias sobrepondo
suas bordas de mármore redondo.
Do alto a água fluindo, devagar,
sobre a água, mais em baixo, a esperar,

muda, ao murmúrio, em diálogo secreto,
como que só no côncavo da mão,
entremostrando um singular objeto:
o céu, atrás da verde escuridão;

ela mesma a escorrer na bela pia,
em círculos e círculos, constante-
mente, impassível e sem nostalgia,

descendo pelo musgo circundante
ao espelho da última bacia
que faz sorrir, fechando a travessia.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 157

DANÇARINA ESPANHOLA
Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.

E logo ela é só flama, inteiramente.

Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com a arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.

Então, como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 159

O CEGO
Ele caminha e interrompe a cidade,
que não existe em sua cela escura,
como uma escura rachadura
numa taça atravessa a claridade.

Sombras das coisas, como numa folha,
nele se riscam sem que ele as acolha:
só sensações de tato, como sondas,
captam o mundo em diminutas ondas:

serenidade; resistência -
como se à espera de escolher alguém, atento,
ele soergue, quase em reverência,
a mão, como num casamento.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 243

EXERCÍCIOS AO PIANO
O calor cola. A tarde arde e arqueja.
Ela arfa, sem querer, nas leves vestes
e num étude enérgico despeja
a impaciência por algo que está prestes

a acontecer: hoje, amanhã, quem sabe
agora mesmo, oculto, do seu lado;
da janela, onde um mundo inteiro cabe,
ela percebe o parque arrebicado.

Desiste, enfim, o olhar distante; cruza
as mãos; desejaria um livro; sente
o aroma dos jasmins, mas o recusa
num gesto brusco. Acha que á faz doente.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 277

O SOLITÁRIO
Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.

Ainda uma coisa, só, no imenso mar
das coisas, e uma luz depois do escuro,
um rosto extremo do desejo obscuro
exilado em um nunca-apaziguar,

ainda um rosto de pedra, que só sente
a gravidade interna, de tão denso:
as distâncias que o extinguem lentamente
tornam seu júbilo ainda mais intenso.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 293

O FRUTO
Subia, algo subia, ali, do chão,
quieto, no caule calmo, algo subia,
até que se fez flama em floração
clara e calou sua harmonia.

Floresceu, sem cessar, todo um verão
na árvore obstinada, noite e dia,
e se soube futura doação
diante do espaço que o acolhia.

E quando, enfim, se arredondou, oval,
na plenitude de sua alegria,
dentro da mesma casca que o encobria
volveu ao centro original.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 349

O MUNDO ESTAVA NO ROSTO DA AMADA
O mundo estava no rosto da amada -
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.

In Coisas e anjos de Rilke, 130 poemas traduzidos, Augusto de Campos, 2a. ed., São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 351


Marc Chagall





sábado, 2 de fevereiro de 2013

Rainer Marie Rilke

O CISNE
Esta labuta avançar pelo que ainda não está acabado
pesadamente, com os pés como que ligados,
assemelha-se ao cisne, com o seu andar desajeitado.

E o morrer, essa súbita incapacidade
para entender o solo que todos os dias pisamos,
o seu deixar-se ir ao fundo angustiante -:

na água que suavemente o acolhe
e que, como que feliz e passada,
sob ele passa, fluxo por fluxo;
enquanto, infinitamente calmo e seguro
cada vez mais emancipado e majestoso
ele se move, cada vez mais imperturbado.


Tradução de Maria do Sameiro Barroso

Der Schwan

Diese Mühsal, durch noch Ungetanes
schwer und wie gebunden hinzugehn,
gleicht dem ungeschaffnen Gang des Schwanes.

Und das Sterben, dieses Nichtmehrfassen
jenes Grunds, auf dem wir täglich stehn,
seinem ängstlichen Sich-Niederlassen -:

in die Wasser, die ihn sanft empfangen
und die sich, wie glücklich und vergangen,
unter ihm zurückziehn, Flut um Flut;
während er unendlich still und sicher
immer mündiger und königlicher
und gelassener zu ziehn geruht.

Rainer Marie Rilke

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...