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sexta-feira, 24 de junho de 2016

Maria Teresa Horta

ALUMBRADA
Maria baixa os olhos
alumbrada

e antes que Gabriel
a beije
fita-o por entre as pálpebras

Encandeada com as suas asas
pergunta
com voz rasgada:

- Nunca me deixas? Nunca me largas? 

CONFISSÃO DO ANJO
Vi-a levar os dedos
de brilho
aos cabelos descobertos

e escutei o som cantado
das pulseiras, na leve nudez
de pétala de cada um dos seus pulsos

Enquanto num breve impulso
a resvalar em quebranto
surge a leveza do manto

deixando a descoberto
o seu vestido vermelho

Labareda - pensei
sem desviar os olhos

atento a um lugar tamanho
que assombra e me impede
de confessar a Maria

ser ela o começo do lenho

[In Anunciações - Um Romance, Dom Quixote, Lisboa, 2016]

Philippe De Champaigne 


domingo, 23 de fevereiro de 2014

Maria Teresa Horta

OS SILÊNCIOS
Não entendo os silêncios
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo

Se escondes a imagem
e a palavra
e adivinhas aquilo que não
digo

Se te calas
eu oiço e eu invento
Se tu foges
eu sei, não te persigo

Estendo-te as mãos
dou-te a minha alma
e continuo a querer
ficar contigo

TU
Falta-te o sono
até de madrugada
Foge-te a paz aí interrompida

Fazes vigília
nas emoções rasgadas
atento à pátria onde pões vigias

Furtas o mel
do teu fim de tarde
acendes o fogo à cabeceira

Feres a chama
se ela ainda arde
Apagas o coração
de quem de ti se abeira

[In Palavras Secretas, São Paulo, Escrituras, 2007, pp. 118-119)

By Remedios Varo


terça-feira, 21 de maio de 2013

Maria Teresa Horta

EXERCÍCIO
Não retomo nos teus
braços
o calor da tua boca

nem retomo do silêncio
as palavras que se
escoam

Mas se na tua distância
existe um entendimento
na minha lenta cedência
existe um rasto de medo

In Candelabro, 1964


O Beijador - Picasso

domingo, 10 de março de 2013

Maria Teresa Horta

TEMPO
É o tempo da mentira.

É o tempo curvo de matar
a morte

É o tempo exacto
de estar exacta e nua

nua e longa
na distância das  fronteiras
do sangue
com cidades cortadas pelo meio

É o tempo grande
de estar cansada
e fria
de estar convosco e ter concessões nos olhos

É o tempo dia
de inventar paisagens
quentes
e ter um carnaval vestido sob os seios

In Cidadelas Submersas, 1961

Matisse
A mulher de chapéu

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Maria Teresa Horta

INVOCAÇÃO AO AMOR
Pedir-te a sensação
a água
o travo

Aquele odor antigo
de uma parede
branca

Pedir-te da vertigem a certeza
que tens nos olhos quando
me desejas

Pedir-te sobre a mão
a boca inchada
um rasto de saliva na garganta

Pedir-te que me dispas
e me deites
de borco e os meus seios na tua cara

Pedir-te que me olhes e me aceites
me percorras
me invadas me pressintas

Pedir-te que me peças
que te queira
no separar das horas sobre a língua

Meu ciúme
meu perfil
minha fome

Meu sossego
minha paz
minha aventura

Meu sabor
minha avidez
saciedade

Minha noite
minha angústia
meu costume

TU
Com esse teu ar
de arcanjo negro

pálido e magro
triste e alheado

ficas por vezes quase etéreo
calado
enquanto eu te olho docemente

Num espanto condenado
quase místico
debruço-me secreta à tua beira

e numa espécie de prece
porque existes

alheado magro
belo e triste

estou de joelhos meu amor
e beijo-te

(Palavras Secretas, São Paulo, Ed. Escrituras, 2007, p. 41-43)

ACUSAÇÃO NO VENTO
Acusaram-me as mãos
na loucura das luas
inclinadas na cintura
das noites

A angústia das aves
só duas
em horizontal no coração das gôndolas
celebraram a paixão
dos amantes sem lábios

rarearam os pianos
nos sonhos

nos espelhos
a angústia
tomou a forma
duma mulher
vestida de encarnado

paixões desencontradas
no som dos violinos
mortos pelo vento

pântanos na vertigem
das princesas

deslealdade
das luzes de neon
entornada nos lagos

acusaram-me os arbustos
nos cabelos

(Palavras Secretas, São Paulo, Ed. Escrituras, 2007, p. 19)
Andrea Farmer

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Maria Teresa Horta

Amadeo de Sousa Cardoso,
 " A Máscara do Olho Verde",
Óleo, 1915,

Os teus olhos
Direi verde
do verde dos teus olhos

de um rugoso mais verde
e mais sedento

Daquele não só  íntimo
ou só verde
daquele mais macio   mais ave
ou vento

Direi vácuo
                volume
direi vidro

Direi dos olhos verdes
os teus olhos
e do verde dos teus olhos direi vício

Voragem mais veloz
mais verde
               ou vinco
voragem mais crespada
ou precipício

Cem Poemas (antologia pessoal): 22 inéditos,   Rio de Janeiro: 7Letras, 2006,  p. 49-50

Mãe
Mãe
terminou o tempo
de sorrir
desculpa-me a morte
das plantas

tatuei a tua antiga
imagem loura
em todos os pulsos
que anjos inclinam
de existires

perdi-me noite na planície
branca
sobrevivente das madrugadas
da memória

trocaram-me os dias
e as ruas de ancas
verticais
e nas minhas mãos incompletas
trouxe-te
num naufrágio de flores cansadas
e o único jardim de amor
que cultivei
de navios ancorados ao espaço

(in "Espelho Inicial", 1960)

Cem Poemas (antologia pessoal): 22 inéditos,   Rio de Janeiro: 7Letras, 2006, p.19

Sobre Maria Teresa Horta

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...