INCONCLUSO
O dia em sua metade
e o calor do corpo ainda não me deixou.
Ele estava em minha casa e ia comer conosco.
Enquanto a mãe cozinhava,
esgueirou-se e disse no meu ouvido:
Quero falar com você.
Vamos até ali, respondi abrasada,
medrosa de que alguém nos visse.
Chegara com um frango depenado
— o que não me abalava o enlevo —
como se me testasse:
A quem não ama seu corpo,
sua alma lhe fecha a porta.
Ai, que meu pai não me visse assim tão ofegante
e estumasse seu nariz perdigueiro
à cica que me entranhava.
O sonho acabou aqui, onde estou até agora
ardente e virgem.
[In MISERERE, São Paulo, Record, p. 77]
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sexta-feira, 25 de setembro de 2015
quinta-feira, 16 de julho de 2015
Adélia Prado
CONSTELAÇÃO
Olhava da vidraça
derramar-se a Via Láctea
sobre a massa das árvores.
Por causa do vidro, da transparência do ar,
ou porque me nasciam lágrimas,
tinha a impressão de que algumas estrelas
mergulhavam no rio,
outras paravam nos ramos.
Passageiros dormiam,
eu clamava por Deus
como o cachorro que sem ameaça aparente
latia desesperado na noite maravilhosa:
Ó Cordeiro de Deus, ó Cruzeiro do Sul,
ó Cordeiro, ó Cruzeiro!
Como o cão, minha língua ladrava
à aterradora beleza.
[In A DURAÇÃO DO DIA, São Paulo: Record, 2010, p. 87].
Olhava da vidraça
derramar-se a Via Láctea
sobre a massa das árvores.
Por causa do vidro, da transparência do ar,
ou porque me nasciam lágrimas,
tinha a impressão de que algumas estrelas
mergulhavam no rio,
outras paravam nos ramos.
Passageiros dormiam,
eu clamava por Deus
como o cachorro que sem ameaça aparente
latia desesperado na noite maravilhosa:
Ó Cordeiro de Deus, ó Cruzeiro do Sul,
ó Cordeiro, ó Cruzeiro!
Como o cão, minha língua ladrava
à aterradora beleza.
[In A DURAÇÃO DO DIA, São Paulo: Record, 2010, p. 87].
sábado, 4 de outubro de 2014
Adélia Prado
EU QUERO SABER SEMPRE quem é maior, quem é menor. "Senhor, meus frades foram chamados de menores para não desejarem ser maiores... Pai, eu te suplico, que eles não sejam mais soberbos que pobres, que não sejam insolentes contra os outros, que de maneira alguma permitas que sejam promovidos a prelaturas" (disse São Francisco ao cardeal Hugolino, que quis conferir prelaturas aos frades menores). Eu gosto, gosto não, amo por amor de Deus um sujeito pretensioso que escreve coisas assim: "Em nossas despretensiosas considerações de hoje vamos fazer um efêmero estudo sobre o início da arte dramática. Voltamos a considerá-la, para situá-la e melhor condicioná-la e conotar ainda mais sua radical"... Ó meus Deus, eu posso dar umas chicotadazinhas nestes vendilhões do templo? Me dá o direito de sentir ódio. Eu não sou bom. Eu gosto de fofoca. De fato, ardo por saber quem está passeando com a Nica do Gomes. Imagino a Nica, com a casa cheia de moças, toda vida fazendo pastel pra fora, na maior compostura, resolveu por chifre no Gomes, coitado do panaca. Olha que eu vivo dilacerada (corto dilacerada, palavra bonita), olha como que eu vivo esbodegada de tanto bater com a cabeça. De um lado o que eu quero: me tornar ALTER FRANCISCUS. Não é ALTER CLARA ou ALTER THERESA, não, é FRANCISCO mesmo. De outro: sonhei com uma cobra escondida numa moitinha de trevo que me picou dois dedos, com muita dor. Tou louca pra telefonar pra minha amiga pra ela me interpretar se é traição. Se for, ótimo: alguém, por me julgar importante e no auge do sucesso, quer me prejudicar. Ô glória! Tou com tanta raiva (Francisco não quis se tornar Francisco. Francisco quis se tornar Cristo. Há um equívoco da minha parte? Há.) que anunciei esta manhã pra ferir meus amados: Vou queimar toda a crítica sobre meus textos. Que me importa? Que se lixem. Que se danem. Que se arrebente tudo. (De puro orgulho eu queria ser pobre.) A banalidade, o mais absoluto anonimato, comprar quiabo na feira com as pernas cheias de varizes, ninguém me olhando nem uma primeira vez. O filete de capim tá nascendo debaixo da pedra. Vai dar, na estação, sua flor dura e cinzenta, sem ninguém saber. Me chamam de humilde: ah! ah! ah! eu não sou não. Me chamam de orgulhosa: ali! ah! ah! também não. Ouvi bem: fingidora? Não. Sou pecadora. Quero brilhar. Estou possuída da tentação do sucesso, do mais absoluto e trágico sucesso. Quero um sucesso trágico. Por isso leio as resenhas dominicais sobre minha obra. Obra? (A obra na latinha para exame?) E digo aos criados: ponham na cesta, vendam ao papel velho, se quiserem. "A simplicidade é aquela que em todas as leis divinas deixa para os que vão perecer toda verbosidade, ostentação e preciosidade, enfeites e curiosidade, e vai atrás da medula e não da casca, do conteúdo e não do continente" (escritos de São Francisco). O zumbido no meu ouvido é do meu próprio aplauso? Para glória de Deus, Satanás me envergonha. Me chama Satanasa, Ratazana, Malafama. Como uma ferida em seu auge, o pus fervendo, as bordas avermelhadas, as cascas se formando. Má. Ruim. Capaz de dar a vida? Dou. Dou? Já dei uma vez. "Simplicidade quer dizer Sinceridade." O que sou? Indigesta. O que fiz bem, só pela graça o fiz. Em alto e ótimo som repito: SÓ PELA GRAÇA O FIZ. Ó Francisco, meu pai, esposo da pobreza, pára de me amolar nesta hora paratecnológica. Eu pergunto: tem vida em Marte? Você responde: "A simplicidade não acha que as melhores glórias são as da cultura e por isso prefere fazer e não aprender ou ensinar". Eu sou filha do meu pai, eu gosto, no amor, do arrebatamento do amor, o Cântico dos Cânticos. Francisco, quero ficar em transe como você, a dois metros do chão, os olhos vidrados de tanto amor, no sol, na chuva, no tempo. "Sai do tempo, menina, você apanha defruço no sereno", falava meu pai que falava: "A palavra raca está no Evangelho e quer dizer bobo. Chamar o irmão de bobo é crime!" E toda a sua vasta estrutura amedrontava-se, porque ele xingara o irmão de filho de sua mãe. Oh, desestruturo-me também. "Sabedor de seus distúrbios do baço e do estômago, um guardião, para protegê-lo do frio, mandara costurar uma pele de raposa por baixo de seu hábito. Francisco quis por outra também, pelo lado de fora, para não esconder ao povo o cuidado que tinha para consigo mesmo" (Celano, na Vida de São Francisco). Eu, querido pai, quero um vestido feito com as águas do mar e os peixinhos nadando, quero um vestido de noite com as estrelas e a lua, um vestido tão belíssimo que choro choro e choro porque o vestido existe e eu não tenho ele. Ou este, ou um vestido de saco de farinha de trigo. Posso? Não posso. "Francisco escolheu frei João, o simples, como seu irmão preferido, graças a sua simplicidade, embora em certo ponto o santo tivesse que intervir para proibi-lo de levar essa virtude a limites indiscretos" (Celano). A mulher com varizes compra quiabos na feira. Ninguém vê. A mulher põe seu vestido de malha sintética e vai dar aulas de Moral e Cívica. Ninguém vê. Recorta do jornal cheia de alegria a criticazinha do seu livro e vai pregar no caderninho de recortes. Ninguém vê, mas a alegria sobre as coisas garante que elas estão perdoadas. "Irmãos, irmãos! O Senhor me chamou pelo caminho da simplicidade e me mostrou o caminho da simplicidade" (frase de frei Leão citada por A. Clareno, Expositio regulae, cap. 10, Ed. Oliger, Acl Claras Aquas 1972, 210).
[In Solte os Cachorros, in Prosa Reunida, São Paulo, Siciliano, 1999, pp. 48-50]
El Greco - São Francisco em Meditação
[In Solte os Cachorros, in Prosa Reunida, São Paulo, Siciliano, 1999, pp. 48-50]
El Greco - São Francisco em Meditação
sábado, 2 de agosto de 2014
Adélia Prado
RODANDO
Depois de muita e boa chuva, Célia voltava de Belo Horizonte para sua casa no interior do Estado. Era bom viajar de ônibus, vendo, parecia-lhe que pela primeira vez, o verde rebrotando com força. Ouviu um passageiro falando pra ninguém: que cheiro de mato! Sol farto e os moradores desses conjuntos habitacionais de caixa de papelão e zinco, que brotam como grama à margem das rodovias, aproveitavam pra esquentar o couro rodeados de criança e cachorro. Os deserdados desfilavam, a moça e seu namorado com bota de imitação de peão boiadeiro iam de mãos dadas, com certeza à casa de uma tia da moça, comunicar que pretendiam se casar. Uma avó gorda com seu neto também passou, ela de sombrinha, ele de calcinha comprida de tergal. Iam aonde? Célia fantasiou, ah, com certeza na casa de uma comadre da avó, uma amiga dela de juventude. O menino ia sentir demais a morte daquela avó que lhe pegava na mão de um jeito que nem sua mãe fazia. Desceram três moços de bermuda e camisa do Clube Atlético Mineiro, e um quarto com grande inscrição na camiseta: SÓ CRISTO SALVA! Camiseta e bermuda não favorecem a ninguém, ela pensou desgostosa com a feiura das roupas. Bermudas principalmente, teria que se ter menos de dez anos pra se usar aquela invenção horrorosa. Teve dó dos moços que só conheciam futebol e dupla sertaneja. Foi um pensamento soberbo, se arrependeu na hora. Tinha preconceitos, lembrou-se de que gostara muito de um jogo de futebol em Londrina, rodeada de palavrões e chup-chup com água de torneira e famílias inteiras se esturricando gozosamente entre pão com molho e adjetivos brutais, prodigiosamente colocados, lindos e surpreendentes como as melhores invenções da poesia. Concluiu sonolenta, o mundo está certo. Uma criança começou a chorar muito alto: quero ficar aqui não, quero sentar com meu pai, quero o meu pai. A mãe parecia muito agoniada e pelo tom do choro. Célia achou que ela abafava a boca da criança com uma fralda ou a apertava raivosa contra o peito, envergonhada de ter filha chorona. Suposições. Tudo estava muito bom naquele dia, não sofria com nada, nem ao menos quis ajudar a mãe, botar a menina no colo, estas coisas em que era presta e mestra. Assistia ao mundo, rodava macio tudo, o ônibus, a vida, nem protagonista nem autora, era figurante, nem ao menos fazia o ponto naquele teatro perfeito, era só platéia. Aplaudia, gostando sinceramente de tudo. Contra céu azul e cheiro de mato verde Deus regia o planeta. Estava muito surpresa com a perfeita mecânica do mundo e muitíssimo agradecida por estar vivendo. Foi quando teve o pensamento de que tudo que nasce deve mesmo nascer sem empecilho, mesmo que os nascituros formem hordas e hordas de miseráveis e os governos não saibam mais o que fazer com os sem-teto, os sem-terra, os sem-dentes e as igrejas todas reunidas em concílio esgotem suas teologias sobre caridade discernida e não tenhamos mais tempo de atender à porta a multidão de pedintes. Ainda assim, a vida é maior, o direito de nascer e morar num caixote à beira da estrada. Porque um dia, e pode ser um único dia em sua vida, um deserdado daqueles sai de seu buraco à noite e se maravilha. Chama seu compadre de infortúnio: vem cá, homem, repara se já viu o céu mais estrelado e mais bonito que este! Para isto vale nascer.
[In Filandras, São Paulo, Record, 2001, pp. 119-121]
quarta-feira, 26 de março de 2014
Adélia Prado
SONHO E LEMBRANÇA — I
UMA BRUMA DE CHUVA escurecia a manhã, lentíssima em clarear. Uma de nós precisava sair: minha mãe ou eu? Fui eu, com uma sombrinha preta. Desci na porta da rua os dois degraus e abri a sombrinha há muito tempo fechada. Saíram de dentro ciriricas grandes. Eu ia abrindo a sombrinha, abria junto o sol. Uma coisa desatava-se, a semente da claridade. Distinguia no ar, com a luz aumentando, muitas ciriricas, alguém me esperava para a alegria do corpo, tal qual nesta lembrança antiga que eu possuo: sol com chuva, de tarde. No caminho atrás da fábrica vai uma dona gordíssima de cabelo “à-demi”, exibindo sombrinha e ancas. É uma dona feliz, é uma dona engraçada, sem saber. É boa, boa, usa pó-de-arroz e vai me visitar com presentinhos. É igualzinho sol com chuva casamento de viúva. Na minha lembrança essa dona caminha firme até uma casa e depois não sei mais o que acontece. É retalho de vida, desenho de almanaque, é sonho? O que seja, é do céu que vem. Não pode vir de outro sítio, o que me deixa assim, picando de felicidade. É mais poderosa que o tempo a coisa orgasmática. Vige no sonho, em vigília, põe o corpo radioso, mesmo velho. É pré-cristã, não pagã. É assim: Deus é multívoco.
[Adélia Prado, in Solte os Cachorros, Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1979, pp. 99]
UMA BRUMA DE CHUVA escurecia a manhã, lentíssima em clarear. Uma de nós precisava sair: minha mãe ou eu? Fui eu, com uma sombrinha preta. Desci na porta da rua os dois degraus e abri a sombrinha há muito tempo fechada. Saíram de dentro ciriricas grandes. Eu ia abrindo a sombrinha, abria junto o sol. Uma coisa desatava-se, a semente da claridade. Distinguia no ar, com a luz aumentando, muitas ciriricas, alguém me esperava para a alegria do corpo, tal qual nesta lembrança antiga que eu possuo: sol com chuva, de tarde. No caminho atrás da fábrica vai uma dona gordíssima de cabelo “à-demi”, exibindo sombrinha e ancas. É uma dona feliz, é uma dona engraçada, sem saber. É boa, boa, usa pó-de-arroz e vai me visitar com presentinhos. É igualzinho sol com chuva casamento de viúva. Na minha lembrança essa dona caminha firme até uma casa e depois não sei mais o que acontece. É retalho de vida, desenho de almanaque, é sonho? O que seja, é do céu que vem. Não pode vir de outro sítio, o que me deixa assim, picando de felicidade. É mais poderosa que o tempo a coisa orgasmática. Vige no sonho, em vigília, põe o corpo radioso, mesmo velho. É pré-cristã, não pagã. É assim: Deus é multívoco.
[Adélia Prado, in Solte os Cachorros, Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1979, pp. 99]
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Torquato da Luz, 2004
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domingo, 5 de janeiro de 2014
Adélia Prado
PONTUAÇÃO
Pus um ponto final no poema
e comecei a lambê-lo a ponto de devorá-lo.
Pensamentos estranhos me tomaram:
numa bandeja de prata
uma comida de areia,
um livro com meu nome
sem uma palavra minha.
O medo pode explodir-nos,
é com zelo de quem leva sua cruz
que o carregamos.
Por isso, Deus, Vossa justiça é Jesus,
o Cordeiro que abandonastes.
Assim, quem ao menos se atreve
a levantar os olhos para Vós?
O capim cresce à revelia de mim,
não há esforço no cosmos,
tudo segue a si mesmo,
como eu agora fazendo o que sei fazer
desde que vim ao mundo.
Sou inocente,
pois nem este grito é meu.
[In MISERERE, São Paulo, Record, p. 63]
Pus um ponto final no poema
e comecei a lambê-lo a ponto de devorá-lo.
Pensamentos estranhos me tomaram:
numa bandeja de prata
uma comida de areia,
um livro com meu nome
sem uma palavra minha.
O medo pode explodir-nos,
é com zelo de quem leva sua cruz
que o carregamos.
Por isso, Deus, Vossa justiça é Jesus,
o Cordeiro que abandonastes.
Assim, quem ao menos se atreve
a levantar os olhos para Vós?
O capim cresce à revelia de mim,
não há esforço no cosmos,
tudo segue a si mesmo,
como eu agora fazendo o que sei fazer
desde que vim ao mundo.
Sou inocente,
pois nem este grito é meu.
[In MISERERE, São Paulo, Record, p. 63]
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Adélia Prado
Esta é uma tarde do mês de abril, diferente de seu
arquétipo. Chuvoso, parece agosto e sua névoa poeirenta. Ganhei um vaso de
monsenhores plantados em seis cores. É quase insuportável a administração do
real, a realidade é horrorosa, como disse a Alba. Bem horrorosa, no sentido de
formidável também. Pode-se dizer desastre formidável, expliquei isto ao meu pai
e a ilustração para ele foi como se tivesse lido a Barsa. Quero parar no miolo
desta flor com seu cheiro, à janela de nossa casa, com minha mãe viva, infeliz
por eu não gostar de sapatos e não falar ‘você’, já com os peitinhos aflorando.
Como doeu para ela tanto excesso. O mais lancinante de
sua boca para mim foi: ‘ô trem ordinário’, seu olhar fosforescente.
Nunca soube como me trespassou, era um xingo, ele mesmo
ordinário, como não amola, vai dormir, vai tomar banho. Foi o tom, a vibração
inusitada que me expulsou do amor. Senti-o como os bichos que
pressentem catástrofes. Não correra à sua ordem de recolher a roupa do varal e
ela enlouqueceu de raiva, estranha como se hoje eu chamasse ‘mulher’ a uma
menina de cinco anos. Estou falando de minha mãe? Sou capaz de tantas
coisas horríveis. Deus sabe de quem falo e me protege para que eu não diga, me
perdoa, me poupa enquanto me castiga. A coragem de ficar alegre depois desta
lembrança é agora minha única via de santidade. Sei que Abel me ama, algumas
pessoas também têm amor por mim, mas
qual mulher me ama? Só uma, uma só, a que entrega o filho a meus cuidados,
sabendo que posso esquecê-lo no táxi, deixá-lo com sede e tomar de sua boca três quartos
de sua comida. Queria ser um soprano do mais extenso fôlego, num teatro
adequado pra cantar. Descobri, em dias como hoje, de fôlego difícil e
desconforto pré-cordial, sou levada a desejos de cantar, cantar muito sem medir
volume. Quando o faço, melhoro. Saio-me. O corpo me limita, a pele, a casa, o
quarto, a roupa, os óculos, o sofrimento de dona Luizinha que não entende eu
não comparecer às suas bodas de ouro. É ilusão voar de asa-delta, estamos todos
retidos e em culpa, o maior de todos os limites. Só uma coisa não castiga, a
nudez verdadeira, a que não se vende, porque ninguém compra a desolação, a
terra arrasada de nossa impotência. É dramático só termos pelos na cabeça e nos
lugares recônditos. Nada posso contra isso. Até o carteiro manda em mim, ‘assina aqui, dona, senão o pacote fica retido
no correio’. Sou uma retida. Voo muito
nos sonhos. Como fluir e escapar à ferrugem? Dona Luizinha trouxe pessoalmente o
convite, escrito a mão, ela e seo Manoel. Falaram do tempo, da horta, da
barulheira do bar de mulheres ao lado da casa deles, da hérnia dele, da
osteoporose dela. Do homem das cavernas a
esta constatação, meu espírito está preso à carne. Voo muito em sonhos. Creio
na ressurreição dos mortos, aceito e confesso o absurdo que me salva.
[In Quero minha mãe, Rio de Janeiro, Ed. Record, 2005, pp. 35-37].
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| John Singer Sargent |
domingo, 22 de dezembro de 2013
Adélia Prado
O PRESÉPIO
[In Filandras, São Paulo, Record, 2001, pp. 111-112]
Minha alma debate-se, tentada à tristeza e seus requintes. Meu pai morto não vai repetir este ano: ‘Nada como um frango com arroz depois da missa.’ Minha irmã chora porque seu marido é amarradinho com dinheiro e ela queria muito comprar uns festões, uns presentinhos mais regalados, ô vida, e ele acha tudo bobagem e só quer saber de encher a geladeira com mortadela e cerveja. Talvez, por isto, ou porque me achei velha demais no espelho da loja, sinto dificuldades em ajudar Corália. Queria muito chorar, deveras estou chorando, às vésperas do nascimento do Senhor, eu que estremeço recém-nascidos. Estou achando o mundo triste, querendo pai e mãe, eu também. Corália disse: você é tão criativa! E sou mesmo, poderia inventar agora um sofrimento tão insuportável que murcharia tudo à minha volta. Mas não quero. E ainda que quisesse, por destino, não posso. Este musgo entre as pedras não consente, é muito verde. E esta areia. São bonitos demais! À meia-noite o Menino vem, à meia-noite em ponto. Forro o cocho de palha. Ele vem, as coisas sabem, pois estão pulsando, os carneiros de gesso, a estrela de purpurina, a lagoa feita de espelhos. Vou fazer as guirlandas para Corália enfeitar sua loja. A radiação da “luz que não fere os olhos” abre caminho entre escombros, avança imperceptível e os brutos, até os brutos, banhados. Desfoco um pouco o olhar e lá está o halo, a expectante claridade, em Corália, em Joana com seu marido e em mim, também em mim que escolho beber o vinho da alegria, porque deste lugar, onde “o leão come a palha com o boi”, esta certeza me toma: “um menino pequeno nos conduzirá”.
[In Filandras, São Paulo, Record, 2001, pp. 111-112]
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Adélia Prado
NEM UM VERSO EM DEZEMBRO
Não quero nunca desejar a morte,
a não ser por santidade,
como a chamou Francisco: ‘irmã’.
É quase 25 e nem um verso.
Movo as pernas sem conter meus quadris,
como deveria ter feito a vida toda,
pra conquistar o mundo.
Borboletinhas pardas, ciscos, seixos, gravetos,
água de sabão escapando do muro, duram ofertados
enquanto percorro o bairro,
a menina me olha do alpendre ladrilhado
e nem um verso.
Eu primo na minha obra porque é tudo que tenho.
Na casa de três cômodos, de terreirinho escorrido,
a vida é ruim, a alma Fica gemendo: ô vida.
Desguio dali uma ideia de suicídio
que paira sobre o telhado junto com a antena do rádio,
mas a ideia volta, e nem um verso.
Preciso me confessar ao homem de Deus:
cometi gula, ansiei pelo detalhe das fraquezas alheias
e mesmo tendo marido explorei meu corpo.
Nem um verso em dezembro, eu que para isso nasci e vim ao
[mundo.
Minha alma quer copular.
Os magos passam de jato,
a estrela se esconde,
chove torrencialmente no Brasil.
In Coração Disparado
[Poesia Reunida, São Paulo: Siciliano, 2001, p. 159]
Não quero nunca desejar a morte,
a não ser por santidade,
como a chamou Francisco: ‘irmã’.
É quase 25 e nem um verso.
Movo as pernas sem conter meus quadris,
como deveria ter feito a vida toda,
pra conquistar o mundo.
Borboletinhas pardas, ciscos, seixos, gravetos,
água de sabão escapando do muro, duram ofertados
enquanto percorro o bairro,
a menina me olha do alpendre ladrilhado
e nem um verso.
Eu primo na minha obra porque é tudo que tenho.
Na casa de três cômodos, de terreirinho escorrido,
a vida é ruim, a alma Fica gemendo: ô vida.
Desguio dali uma ideia de suicídio
que paira sobre o telhado junto com a antena do rádio,
mas a ideia volta, e nem um verso.
Preciso me confessar ao homem de Deus:
cometi gula, ansiei pelo detalhe das fraquezas alheias
e mesmo tendo marido explorei meu corpo.
Nem um verso em dezembro, eu que para isso nasci e vim ao
[mundo.
Minha alma quer copular.
Os magos passam de jato,
a estrela se esconde,
chove torrencialmente no Brasil.
In Coração Disparado
[Poesia Reunida, São Paulo: Siciliano, 2001, p. 159]
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| Encontro de Folias de Reis Helena Maria Boaretto Paula Vasconcelos |
domingo, 10 de novembro de 2013
Adélia Prado
A SAGRADA FACE
A dentadura encravou-se? Rezai,
prometei abstinências por um ano
para que a prótese malfeita se despregue da boca.
Ó Deus, como éreis bom,
rosas, dentes postiços,
touceiras de coqueirinho,
a profusão dos milagres.
Casimiro de Abreu, que não era santo,
mas que estava nos livros,
também ele dizia, como Jó,
como meu pai e minha mãe diziam:
“um Ser que nós não vemos
é maior que o mar que nós tememos...”
Que faço agora que Vos descubro em silêncio,
mas, dentro de mim, em meus ossos,
vertiginosa doçura?
Os dentistas fazem as próteses, não Vós,
a terra é quem gera as rosas.
Desde a juventude pedi, quero ver Teu Rosto,
mostra-me Tua Face.
Então é este o esplendor,
este deserto ardente, claro,
de tão claro sem caminhos!
Esta doçura nova me empobrece,
nascer sem pai, sem mãe,
objeto de um amor em mim mesma gerado.
Flor não é Deus, terra não é, eu não sou.
Pobre e desvalida entrego-me ao que seja
esta força de perdão e descanso, paciência infinita.
Quase posso dizer, eu amo.
In O Pelicano, Rio de Janeiro, Ed. Guanabara, 1987, p. 43.
A dentadura encravou-se? Rezai,
prometei abstinências por um ano
para que a prótese malfeita se despregue da boca.
Ó Deus, como éreis bom,
rosas, dentes postiços,
touceiras de coqueirinho,
a profusão dos milagres.
Casimiro de Abreu, que não era santo,
mas que estava nos livros,
também ele dizia, como Jó,
como meu pai e minha mãe diziam:
“um Ser que nós não vemos
é maior que o mar que nós tememos...”
Que faço agora que Vos descubro em silêncio,
mas, dentro de mim, em meus ossos,
vertiginosa doçura?
Os dentistas fazem as próteses, não Vós,
a terra é quem gera as rosas.
Desde a juventude pedi, quero ver Teu Rosto,
mostra-me Tua Face.
Então é este o esplendor,
este deserto ardente, claro,
de tão claro sem caminhos!
Esta doçura nova me empobrece,
nascer sem pai, sem mãe,
objeto de um amor em mim mesma gerado.
Flor não é Deus, terra não é, eu não sou.
Pobre e desvalida entrego-me ao que seja
esta força de perdão e descanso, paciência infinita.
Quase posso dizer, eu amo.
In O Pelicano, Rio de Janeiro, Ed. Guanabara, 1987, p. 43.
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| JÔ TURQUEZZA |
terça-feira, 23 de julho de 2013
Adélia Prado
Glória e Gabriel passeavam em Belo Horizonte quando viram o
mendigo se arrastando sobre as nádegas. Haviam acabado de almoçar. O homem
certamente espirrara, um grosso canudo de matéria — catarro, ela se obrigou a
dizer mentalmente — tremulava sobre seu bigode. Gabriel disse apenas: — Ih! Glória,
incapaz de viver levemente, quis olhar de novo. Instintivamente passou o lenço
no seu próprio nariz, certificando-se estar seca e limpa. Tempos atrás
vomitaria até exaurir-se, por dias e dias não comeria nada, imaginando contra
si o frio pegajoso da coisa, sessões de tortura, onde fosse obrigada a
manipulá-la, o reino do céu concedido a troco do sacrifício máximo: tocar a
coisa com a língua. A repugnância absoluta como quando via minhocas depois das
chuvas, quanto menores e mais finas, pior. O terreno úmido no quintal, tio
Joaquim cavando iscas, as minhocas em suas colônias, seus ovos branquinhos,
horror! Desejo de que o sol esturricasse aquilo, enjôo de comida, pensamento inventando minúcias que
faziam seu estômago revirar-se. O avô apertava uma narina no meio do terreiro e
assoava-se. Pulava no chão a coisa esverdeada, grande, dura, como aquelas
orelhas que brotam nos paus podres. Difícil imaginar aquilo cabendo numa fossa
nasal. As galinhas corriam disputando a prenda, ele falava: “Ê sinusite, é isso
que me incomoda.” Todos repugnavam mas ninguém cometia o desrespeito de dizer
nada a ele. Glória disfarçava, espantava as galinhas e varria a coisa, cobria-a
com um monte de terra e lavava, lavava as mãos, escovava bem os dentes,
penteava e amarrava o cabelo, pegava o ferrinho que o pai fez pra aquele fim e
ia pra privada limpar o vaso de barro encaixado no cimento. Raspava as crostas,
jogava latas e latas dágua. A vida parecendo resumir-se em excrementos, odores,
consistência e aspectos de matérias nojentas. O que era aquilo? ela a ponto de
adoecer, pensando coisas absurdas: o corpo de Deus que a gente come, também
ele uma gruta de dejetos? Uma ocasião depois das chuvas o tampo da fossa
afundou. A mãe levantou pra fazer café deu com a cratera, os paus que a
protegiam apodrecidos, alguns caídos no buraco desbarrancado, a massa da coisa
exposta. O pai não foi pra oficina aquele dia pra fazer o conserto. Desceu ele
mesmo o buraco horrível e cavou, limpou, calçou, arrumou dormentes novos sobre
o vão. Glória admiradíssima daquilo, corajoso como entrar na cova dos leões, igual como Laocoonte
entre as cobras no seu livro de história. A mãe porque estava com dó do pai fez
arroz- doce. Ele gracejava. Depois tomou banho bem tomado, passou álcool e
creolina nas mãos, cortou as unhas dizendo: “Sou o mesmo, limpinho, limpinho.”
Glória não entendia, invejava o pai, sua inacreditável saúde. Só uma vez o vira
não comer. Chegou em casa pálido, engasgado: “A máquina acabou de cortar no
meio um companheiro meu.” “O senhor viu, pai?” “Vi, o meninozinho dele assistiu
tudo, segurando a marmita, morreu sem almoço, o coitado, me pedindo: acaba de
me matar...” “acaba de me matar...” “Morreu sem almoço...” Comer era
importante demais... Choraram com ele, as panelas no fogão parecendo pessoas
intrometidas que a gente manda calar, pretas, murchas, pobres. Se Stella
estivesse ali seria como seu pai, teria coragem de se acercar do mendigo,
emprestar seu lenço, limpar seu bigode sujo — São Francisco de Assis e o beijo
no leproso. — A dois passos de onde se encontrava esperando Gabriel que entrara
num banco, Glória viu a mulher tirar do saquinho plástico uma colher de massa
escura e comer. Três novos mendigos se acercaram, ela pôs na mão de cada um.
Quem comeu por último foi um passante, um moço negro. Sem dizer palavra, parou,
estendeu a mão, comeu e seguiu. A mulher guardou o resto. Vamos, disse
Gabriel, já resolvi o que queria. Vamos passar por ali, pediu Glória, com intuito de se
purgar, olhar de frente o mendigo. Ele se limpara, o que lhe deu alívio. Estava
longe da inocência de sua infância quando desejava resolver o problema dos
pobres com uma praça bem grande cheia de tanques, bucha e sabão. Agora, bem
sabia o que deveria fazer.
In Cacos para um Vitral, Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1980, pp. 89-92.
domingo, 23 de junho de 2013
Adélia Prado
22
"Se eu pudesse, hoje,
varria, isto mesmo, varria as pessoas todas com vassoura, como se fossem cisco.
Limpava o chão, passava pano molhado pra refrescar, ia chorar e dormir. Meu
coração agora faz diferença nenhuma de coração de galinha ou barata que galinha
come. Não tem amor nele, nem de mãe, nem de esposa, nem de nada. Tá seco,
raivoso e antipático, quer é sossego, quer é lembrar o morto horas a fio,
espernear em cima da vida tão sem graça e cinzenta. Gosto de ir até no fundo da
cisterna e revirar o lodo, tirar ele com a mão, me emporcalhar bastante, só pra
depois ver a água minando clarinha de novo. Gosto da cesta sobre a mesa com
mamões e bananas, gosto de lavar o filtro todo sábado, encher as talhas com
água nova, gosto. Gosto, mas exaspero-me esquecida dos dons, e parto, como
hoje, o pão, sem reparti-lo. É verdade que sou uma mulher inscrita no seu
ciclo. Mas já dura demais. Quero é neste dia mesmo, prenhe do meu mênstruo não
vazado, escutar dos meus: “esta é minha mãe”; “não vá agora, minha mulher vai
fazer um café.” Sorrindo, servindo-os como a pombos, com arrulhos, milho e
água fresca, andando no meio do revoar deles, sem pisar nenhum; inocente do pensamento que eu vou gerar nos homens: “é uma mulher que se pode
contar com ela à noite.” Assim, riquíssima e útil, a alta tensão, por fim,
domesticada. O poste fincado sem perigo, no meio do jardim".
Adélia Prado, in Solte os Cachorros, Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1979, pp.69-70
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| Cynthia Angeles |
domingo, 19 de maio de 2013
Adélia Prado
LÍNGUAS
Meu coração
é a pele esticada de um tambor.
é a pele esticada de um tambor.
Como tentação a dor percute nele,
travestida de dor, pra
que eu desista,
duvide de que tenho um pai.
Vem tudo em forma de carne,
grandes mantas de carne
palpitante,
recobrindo ossos, frustrações, desejos
sobre os quais tenho culpa e
devo purgar-me
até que eu mesma seja apenas ossos.
Um sujo me salvará,
quando pegar minha cuia
e comer à vista
dele
sem sentir ânsia de vômito.
As sombras dos satélites
conspurcaram as estrelas.
Que faço para escrever de novo
‘louvado sejas pelo capim
verde’
ou até mesmo o gemido
‘meu coração nem em sonhos repousa’.
Vou perguntar até que interpolado
e ininteligível tudo se
ordene
como oração em línguas
e em forma de um cansaço me abençoes.
In A DURAÇÃO DO DIA, São Paulo: Record, 2010, p. 96.
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| Amadeo de Souza Cardoso |
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Adélia Prado
BITOLAS
O mar existindo com este navio imenso,
coitado de quem não viu
e só soube de mar de rosas e rio de enchente parecendo um mar.
O navio apita, dentro dele é grande, dividido em cômodos,
tem espaço pra cozinha, piscina, sala de visita,
até capela tem com seu capelão! OHAH!
Tão diverso de anzolinho de piaba e água doce
esta água estendendo-se até dormir de cansaço
e virar país estrangeiro.
Coitados de pai e mãe que morreram sem ver.
Dizem que estrela do mar, quando está viva, é um bicho,
depois de seca é que vira enfeite de parede. Tem navio
que cabe essa rua toda de gente.
Eu dou as costas pro mar,
afogada em despeito choro um rio de lágrimas.
Já li ´mar de sargaços´; seja o que for, é belo.
Qualquer homem é estrangeiro, comparado a outro homem
que nunca viu sua terra.
Não quero viajar mais. Tenho gravuras do mar e mais
o que me foi dado com pequeno quintal e distraiu meus avós
e foi causa de celebração e motins, juramentos solenes
acompanhados de viola e rostos graves.
Um doou um rim; outro, um lote,
outro me deu um enxoval pra estudar no ginásio
e sofreu até morrer da doença terrível,
sem um ai de sua boca que agravasse o Senhor.
Pecados graves, medo, inocências incríveis cometeram,
espraiaram satisfações por causa da chuva, das galinhas chocando,
por causa das passagens do livro prometendo alegria:
“a figura deste mundo passa, olho humano jamais viu
o que espera os eleitos...”
Não quero saber do mar. No fundo da mina,
em minas, também tem frestas de luz.
Queria ser dramática e não sou.
Isto me fez sofrer até agora.
É um córrego, um veio d’água,
um estro pequeno, o meu.
Se o crítico tiver razão,
nunca terei estátua.
Valha-me, pai,
num mar de vaidades não me deixe morrer,
pela vida, entrego os versos todos;
na perna erisipelada
porei compressas quentes.
A noite inteira, se for preciso.
In: Poesia Reunida, São Paulo: Siciliano, 2001, pp. 207-208
O mar existindo com este navio imenso,
coitado de quem não viu
e só soube de mar de rosas e rio de enchente parecendo um mar.
O navio apita, dentro dele é grande, dividido em cômodos,
tem espaço pra cozinha, piscina, sala de visita,
até capela tem com seu capelão! OHAH!
Tão diverso de anzolinho de piaba e água doce
esta água estendendo-se até dormir de cansaço
e virar país estrangeiro.
Coitados de pai e mãe que morreram sem ver.
Dizem que estrela do mar, quando está viva, é um bicho,
depois de seca é que vira enfeite de parede. Tem navio
que cabe essa rua toda de gente.
Eu dou as costas pro mar,
afogada em despeito choro um rio de lágrimas.
Já li ´mar de sargaços´; seja o que for, é belo.
Qualquer homem é estrangeiro, comparado a outro homem
que nunca viu sua terra.
Não quero viajar mais. Tenho gravuras do mar e mais
o que me foi dado com pequeno quintal e distraiu meus avós
e foi causa de celebração e motins, juramentos solenes
acompanhados de viola e rostos graves.
Um doou um rim; outro, um lote,
outro me deu um enxoval pra estudar no ginásio
e sofreu até morrer da doença terrível,
sem um ai de sua boca que agravasse o Senhor.
Pecados graves, medo, inocências incríveis cometeram,
espraiaram satisfações por causa da chuva, das galinhas chocando,
por causa das passagens do livro prometendo alegria:
“a figura deste mundo passa, olho humano jamais viu
o que espera os eleitos...”
Não quero saber do mar. No fundo da mina,
em minas, também tem frestas de luz.
Queria ser dramática e não sou.
Isto me fez sofrer até agora.
É um córrego, um veio d’água,
um estro pequeno, o meu.
Se o crítico tiver razão,
nunca terei estátua.
Valha-me, pai,
num mar de vaidades não me deixe morrer,
pela vida, entrego os versos todos;
na perna erisipelada
porei compressas quentes.
A noite inteira, se for preciso.
In: Poesia Reunida, São Paulo: Siciliano, 2001, pp. 207-208
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Adélia Prado
O PENITENTE
Nunca tive um rapto como Santa Teresa,
só um pequeno desmaio devido a dores agudas
e por três vezes seguidas
a sensação de estar fora do tempo.
Palavras são meu consolo.
Meu pai fez planos, morreu.
Minha mãe privou-se, morreu.
Provo grande vergonha
se o caminhão de São Paulo grita no alto-falante:
‘Alô, alô, dona Maria, vem pegar sua melancia.’
Carminha desenhava na terra
meio grão de café, forçando na rachadura:
‘Lá na gente é assim, sua boba!’
Não sentia vergonha, só um calor esquisito.
Sou ingrata?
Pergunto-Vos e já me sei perdoada,
como se Vos tivesse imolado pelos meus e por mim.
E só Vos dei palavras, ó Deus santo.
Quando achei que exigíeis
cabeças sanguinolentas,
um punhado de versos aplacou-nos.
In A DURAÇÃO DO DIA, São Paulo: Record, 2010, p. 65
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Adélia Prado
NEM PARECE AMOR
Perdi a conta das vezes
que retomei esta escritura
sem avançar de sítios pantanosos,
tomando por melodia
o que era um ranger de ferros
de máquina contristada em seu limite.
Foi ontem e já tem cem anos,
faz um minuto só,
foi agora e foi nunca,
jamais aconteceu,
não há, não houve,
o que não tem palavras não existe.
De quem é então esta pegada?
Este filete de sangue?
Masturbações, risadas,
caretas no escuro, aliterações picarescas,
comem do meu cansaço em mesa farta.
Aquele que não responde
trata-me como a um cão
que por não ter aonde ir
se enrodilha aos Seus pés.
QUERIDO LOUCO
Quando um homem delira,
de onde fala sua alma a língua
para todas as línguas traduzível
sem prejuízo de sua insensatez?
Ouvi-la obriga a alfabeto novo,
dói tanto que os relógios param.
Tem piedade de mim é o mesmo que
‘me dá um chinelo pra eu surrar o enfermeiro,
Deus é bom, nas famílias em crise ninguém escuta ninguém’.
Tira do bolso nota de pouca valia,
me dando a senha pra encerrar a visita:
Obrigado por tudo e vai com Deus,
vai comprar pra você uma coisa bonita.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Adélia Prado
PRANTO PARA COMOVER JONATHAN
Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.
Sobre Adélia Prado
In O Pelicano, Rio de Janeiro, Ed. Guanabara, 1987, p. 63
sábado, 14 de julho de 2012
Adélia Prado
TROTTOIR
Minhas fantasias eróticas, sei agora,
eram fantasias de céu.
Eu pensava que sexo era a noite inteira
e só de manhãzinha os corpos despediam-se.
Para mim veio muito tarde
a revelação de que não somos anjos.
O rei tem uma paixão - dizem à boca pequena -
regozijo-me imaginando sua voz,
sua mão desvencilhando da fronte a pesada coroa:
´Vem cá, há muito tempo não vejo uns olhos castanhos,
tenho estado em guerras´ ...
O rei desataviado,
com seu sexo eriçável mas contido,
pertinaz como eu em produzir com voz,
mão e olhos quase estáticos, um vinho,
um sumo roxo, acre, meio doce,
embriaguez de um passeio entre as estrelas.
À voz apaixonada mais inclino os ouvidos,
aos pulsares, buracos negros no peito,
rápidos desmaios,
onde esta coisa pagã aparece luminescente:
com ervas de folhas redondinhas
um negro faz comida à beira do precipício.
À beira do sono, à beira do que não explico
brilha uma luz. E de afoita esperança
o salto do meu sapato no meio-fio
bate que bate.
[In: Poesia Reunida, São Paulo: Siciliano, 2001, p. 246]
Minhas fantasias eróticas, sei agora,
eram fantasias de céu.
Eu pensava que sexo era a noite inteira
e só de manhãzinha os corpos despediam-se.
Para mim veio muito tarde
a revelação de que não somos anjos.
O rei tem uma paixão - dizem à boca pequena -
regozijo-me imaginando sua voz,
sua mão desvencilhando da fronte a pesada coroa:
´Vem cá, há muito tempo não vejo uns olhos castanhos,
tenho estado em guerras´ ...
O rei desataviado,
com seu sexo eriçável mas contido,
pertinaz como eu em produzir com voz,
mão e olhos quase estáticos, um vinho,
um sumo roxo, acre, meio doce,
embriaguez de um passeio entre as estrelas.
À voz apaixonada mais inclino os ouvidos,
aos pulsares, buracos negros no peito,
rápidos desmaios,
onde esta coisa pagã aparece luminescente:
com ervas de folhas redondinhas
um negro faz comida à beira do precipício.
À beira do sono, à beira do que não explico
brilha uma luz. E de afoita esperança
o salto do meu sapato no meio-fio
bate que bate.
[In: Poesia Reunida, São Paulo: Siciliano, 2001, p. 246]
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| Rubens Venus e Adonis |
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Adélia Prado
Glória filosofava: toda vez que se diz "o inconsciente coletivo" ele me parece um personagem. Tal qual o bufão que entremeia as cenas no teatro, papel cuja suprema importância será revelada a todos no final. "O inconsciente coletivo" como "o Sobrenatural de Almeida" que o cronista inventou pra justificar o injustificável, o sem explicação no futebol. Confio no inconsciente coletivo, simpatizo em extremo com ele, deposito-lhe inabalável confiança. Descobri-lo me descansou da angústia catequética com as professoras na greve, com os filhos, com os alunos. Deus responderá ao nosso labor através do inconsciente coletivo. Na hora agá espero vê-lo interromper a cena escabrosa, com os sapatos imensos, a luz piscando no nariz ou no traseiro, conforme os palhaços gostam, e fazer sua intervenção, sua opção pela claridade, pelo brilho da espada, se for preciso. Pela misericórdia. O inconsciente coletivo quer um país com rebanhos e lavouras de milho, viola, namoro, noivado, casamento, dor de parto, panelas fumegantes e o que mais urge pra todo ser humano, em qualquer canto do mundo, suspirar e dizer: GRACIAS A LA VIDA.
In: Cacos para um Vitral, pp. 86-87
In: Cacos para um Vitral, pp. 86-87
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Adélia Prado
UMA VALSA PARA DANÇAR
AMÉRICO, EU TE AMO, Américo. Você tem uma loja de tecidos e uma mulher que você vive querendo não enganar, um filho tão bonitinho, Américo, as mãos macias de medir tecido, de apalpar meu pescoço com intenções de quem vai assassinar. Você é um colosso, Améríco, tem tudo pra me agradar. Sua inteligência sem escolas é tão ignorante que eu me arrepio dos seus mundos novos. Dentes afiados, uma saúde enxuta você tem, não vai me pedir um chá. Quando eu te peço um metro de voal, você retruca pra espichar a conversa: "leva também um metro de amorim." Você fala amorim, de sabido ou de bobo, Américo? Antigamente se um homem falasse errado, descartava na hora. Hoje, não. Quero vinho de todos os barris. Você é pai extremoso, exemplar marido caseiro. Tens um livro, não tens? Uma coleção de marcas de cigarro e o retrato de sua mãe. Você fecha a loja aos domingos e feriados, incrível Américo, você não quer ficar rico, como te resistir? Sua mulher me pede açúcar emprestado, eu peço a ela é licença pra ver o álbum de retratos: você segurando seu filho, você pondo comida nra passarinho, brincando com o cachorro. Se você ficar quieto e parar de me espreitar desse modo invisível, eu pinto você, seus olhos bonitos de homem, mais que os de uma mulher, bonitos. Você é meu amor delicado, por você faço doce de leite, corto em pequenos losangos, ponho minha blusa bordada e fico no banco da praça te esperando no seu caminho, quando "cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor", pra te entregar o coração.
Você passa e eu digo: boa tarde, Américo.
In Solte os Cachorros, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1979, p. 101-102
AMÉRICO, EU TE AMO, Américo. Você tem uma loja de tecidos e uma mulher que você vive querendo não enganar, um filho tão bonitinho, Américo, as mãos macias de medir tecido, de apalpar meu pescoço com intenções de quem vai assassinar. Você é um colosso, Améríco, tem tudo pra me agradar. Sua inteligência sem escolas é tão ignorante que eu me arrepio dos seus mundos novos. Dentes afiados, uma saúde enxuta você tem, não vai me pedir um chá. Quando eu te peço um metro de voal, você retruca pra espichar a conversa: "leva também um metro de amorim." Você fala amorim, de sabido ou de bobo, Américo? Antigamente se um homem falasse errado, descartava na hora. Hoje, não. Quero vinho de todos os barris. Você é pai extremoso, exemplar marido caseiro. Tens um livro, não tens? Uma coleção de marcas de cigarro e o retrato de sua mãe. Você fecha a loja aos domingos e feriados, incrível Américo, você não quer ficar rico, como te resistir? Sua mulher me pede açúcar emprestado, eu peço a ela é licença pra ver o álbum de retratos: você segurando seu filho, você pondo comida nra passarinho, brincando com o cachorro. Se você ficar quieto e parar de me espreitar desse modo invisível, eu pinto você, seus olhos bonitos de homem, mais que os de uma mulher, bonitos. Você é meu amor delicado, por você faço doce de leite, corto em pequenos losangos, ponho minha blusa bordada e fico no banco da praça te esperando no seu caminho, quando "cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor", pra te entregar o coração.
Você passa e eu digo: boa tarde, Américo.
In Solte os Cachorros, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1979, p. 101-102
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Fernando Paixão
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O Barco Bêbado Quando eu atravessava os Rios impassíveis, Senti-me libertar dos meus rebocadores. Cruéis peles-vermelhas com uivos terríve...















