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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Marianne Moore

SILÊNCIO

Meu pai costumava dizer,
"Pessoas superiores nunca fazem longas visitas,
nem ter que ser apresentadas ao túmulo de Longfellow
ou às flores de vidro de Harvard.
Autoconfiantes como o gato —
que leva a presa à privacidade,
o rabo mole do rato pendurado como
um cadarço em sua boca —
elas às vezes gostam da solidão,
e podem ser privadas de fala
por uma fala que as encantou.
O sentimento mais profundo sempre
se manifesta no silêncio;
não em silêncio, mas em contenção."
Tampouco era insincero em dizer:
"Faça da minha casa sua pousada."
Pousadas não são residências.

(Tradução:  Mariana Basílio)

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Marianne Moore

O QUE SÃO OS ANOS?

   O que é nossa inocência,
nossa culpa? Frágeis, somos,
   vulneráveis. E de onde vem a
coragem: a pergunta sem resposta,
a resoluta dúvida, —
muda chamando, surda ouvindo — que
no infortúnio, na morte mesmo,
      encoraja outras ainda
      e em sua derrota anima

   a alma a ser forte? Compraz-se
e com perspicácia vê
   quem a mortalidade abrace
e no confinamento contra si
mesmo se volte, assim
como o mar que no abismo intenta ser,
livre mas, incapaz de ser,
      no ato de capitular
      encontra seu perdurar.

   Quem no sentimento espera
assim age. O próprio pássaro,
   que ao cantar se engrandece, acera
o corpo aprumado. Embora cativo,
seu poderoso trino
diz: o contentamento é humilde;
quão puro é o regozijo.
      Isto é mortalidade,
      isto é eternidade.

[In Poemas, seleção João Moura Jr.,  tradução e posfácio José Antonio Arantes. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 103]

by Vaggelis Fragiadakis

sábado, 6 de dezembro de 2014

Marianne Moore

NEM MELHOR QUE UM “NARCISO SEM VIÇO”

Ben Jonson disse que era? ‘ ‘Ah! eu cairia inda,
como neve a derreter numa alta colina,
          gota a gota.”

Também eu até ver luzir verde brocado
francês, como se um lagarto no sombreado
          fosse exato —

com adornos de réplicas de violeta —
feito Sidney, junto à limeira com a jaqueta
          listrada — uma

obra de arte. E a impressão que eu também dava era a de
quem descansa, tranquilo, debaixo de uma árvore —
          sem narciso.

[In Poemas, seleção João Moura Jr.; tradução e posfácio José Antonio Arantes. São Paulo, Companhia das Letras, 1991, p. 145].


segunda-feira, 5 de maio de 2014

Marianne Moore

O ARGONAUTA
   Para a autoridade com esperanças
que o mercenário é que concebe?
   O escritor seduzido pela
   fama do chá das cinco e pelo
conforto do trabalhador? Para eles não é que
   a fêmea do argonauta
   faz fina concha de vidro.

   Oferecendo o perecedouro
suvenir de esperança, o exterior
   de branco fosco e a superfície
   interna de bordas macias
acetinada como o oceano, a fazedora
   vigilante dela toma
   conta dia e noite; quase

   não come antes de chocar os ovos.
Em seus oito braços sepultada
   oito vezes, porque é num certo
   sentido uma espécie de polvo,
a carga de vidro velino-ovino embalada
   está oculta, não moída;
tal como Hércules, unhado

   por caranguejo leal à hidra,
teve êxito por tenacidade,
   os ovos intensivamente
   vigiados que saem da
concha a libertam ao ganharem liberdade —
   deixando o vespeiro de eivas
   de branco no branco e as dobras

   jônicas estreitas de quitão
iguais àquelas linhas na crina
   de um cavalo do Pártenon,
   em torno às quais os braços se
feriram, como se soubessem que a única
   fortaleza em cuja força
   se confia é o amor.

[In Poemas, seleção João Moura Jr.; tradução e posfácio José Antonio Arantes. São Paulo, Companhia das Letras, 1991, pp. 113-115].


domingo, 8 de dezembro de 2013

Marianne Moore

PROPRIEDADE
é palavra conforme
aquele acorde
que a ave emitiu
e Brahms ouviu,
executado à base da garganta;
é o miúdo pica-pau penugento
que sobe a árvore em espirais —
qual mercúrio, mais e mais;

um canto breve
de pardal que é
no mais pequeno
um grão de feno —
reticência afinada com o rigor
da força na fonte. Propriedade
é o Solfegietto de Bach —
e gaita-de-boca e baixo.

Espinhas em
abetos, em
negro arvoredo
junto ao penedo
à beira-mar batido pelas ondas —
têm-na; e um halo de lua e a firmeza
alegre de Bach, só que em tom
menor. É um entendimento
gato-e-coruja-
aos-dois-lambuja.
Vem, vem. É o dito
dado por dito;
não graciosa desdita. É resistência
humilde, como a da espiga da cauda-
de-raposa. Brahms e Bach, não;
Bach e Brahms. Ter gratidão

antes a Bach
por tudo, bah!
Peço perdão;
pois ambos são
involuntários amores-perfeitos
isentos de auto-exame; enegrecidos
porque assim nasceram.

[In Poemas, seleção João Moura Jr.; tradução e posfácio José Antonio Arantes. São Paulo, Companhia das Letras, 1991, pp. 125-127].


Barbara Kelley


sábado, 12 de outubro de 2013

Marianne Moore

POESIA
Também não gosto: coisas mais importantes que toda essa baboseira.
Lendo-a, no entanto, com total desprezo,  a gente acaba descobrindo 
nela, afinal de contas, um lugar para o genuíno.
Mãos que agarram, olhos
que se dilatam, cabeleira que se eriça
quando preciso, são coisas importantes, não porque se

lhes pode impor pomposa interpretação mas por serem
úteis. Quando se tornam tão derivativas que ficam ininteligíveis, 
o mesmo se pode dizer de todos nós, pois 
não admiramos aquilo que 
somos incapazes de compreender: o morcego
 pendurado de ponta-cabeça ou em busca de algum

alimento, elefantes em marcha, um cavalo selvagem a se espojar, um lobo
infatigável embaixo
de uma árvore, o crítico impassível a crispar a pele como um cavalo mordido
por pulga, o fã do
beisebol, o estatístico — 
nem é válido
ter preconceito contra “documentos comerciais e
livros didáticos” *; todos esses fenômenos são importantes. Contudo, a gente deve
fazer uma
distinção: se um semipoeta os realça à força, o resultado não é poesia, 
nem, enquanto nossos poetas não forem “literalistas
da imaginação” ** — acima
da insolência e da trivialidade — e não apresentarem

para inspeção “jardins imaginários com sapos de verdade”, teremos acesso a 
ela. Até lá, se exigir, por um lado, 
a matéria-prima da poesia em 
toda a sua primariedade e 
aquilo que é, por outro lado,
genuíno, então você tem interesse por poesia.

__________________________________________

* Diário de Tolstói: “Jamais serei capaz de compreender onde fica a fronteira entre prosa e poesia. Essa questão é discutida em manuais de estilo, mas não alcanço a resposta. Poesia é verso; prosa não é verso. Ou então poesia é tudo exceto documentos comerciais e livros didáticos".
** Literalistas da imaginação.  Yeats, Ideas of good and evil (A. H. Bullen, 1903), p. 182. “A limitação de sua visão derivava da própria intensidade de sua visão; era um realista da imaginação demasiado literal, assim como outros o são da natureza; e, como estava convencido de que as figuras vistas pelos olhos da mente, quando a inspiração as exaltava, eram ‘existências eternas’, símbolos das essências divinas, repudiava toda graça de estilo que pudesse obscurecer suas ca­racterísticas.”

[In Poemas, seleção João Moura Jr.; tradução e posfácio José Antonio Arantes. São Paulo, Companhia das Letras, 1991, pp. 168-169].


RENOIR




Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...