A TERCEIRA MARGEM DE MIM

Então você saiu da cama como se de um rio, as pernas afastando as
águas da cintura até chegar ao raso, e se enfiou quarto afora,
molhando-me os olhos com as sombras do escuro. Percebi que recolhia suas
roupas do caminho, a respiração áspera como o tecido de sua calça que
eu desfolhara feito ramos de uma árvore, e me lembrei de quando você
chegou pela primeira vez às minhas margens e me atravessou com o vento
de seu negro silêncio. E, pressentindo que procurava ao meu redor o que
era seu, igual um bicho voraz, lembrei-me do último ataque, minutos
antes, em que arrancou as minhas camadas de verniz e tocou a minha
trêmula nudez.
Quieto, à medida que escutava o rumor da vida vindo de suas narinas,
revi cena por cena o enredo de nossas 1001 noites, cada uma com o seu
aroma de perdas, cada uma com sua aura de conquistas, e os minutos todos
que eram tão plenos quando a eles nos entregávamos, tangendo nossas
diferenças, felizes por descobrir que aprender a viver é que era mesmo o
viver.
Logo me lembrei, com o gosto de fome, dos tempos em que minha lenha
acendia a sua fala, enquanto o linho de sua língua em meu falo me
apagava os gritos de desejo – e refiz na memória a correnteza que eu
era, me fluindo em sua boca, e a sede que você jorrava, me bebendo gota a
gota, me sugando como o tempo suga um lenho ao relento, como a flor
sorve o néctar da abelha, sem nenhum zumbido.
Aticei ainda mais as brasas da memória, remexendo os fatos que
tínhamos provado juntos, as fagulhas de nossos vãos momentos, e então
faiscaram os dias que vivemos no deserto de Atacama, o sol soldando
nossos anseios, as pedras espetando nossos pés, a fina poeira de cobre
maquiando nossa face em fogo, os entardeceres grandiosos vistos das
montanhas, o luar queimando nossa solidão. Nesse revirar de centelhas,
reluziram as nossas manhãs de dores e os nossos ardores, e, no ondular
das chamas que eu recordava, surgiam e sumiam seus sorrisos, para depois
surgirem de novo, e de novo sumirem.
Foi aí que, movendo-se na escuridão recém-nascida em meu olhar
aberto, você se abeirou de novo em mim, como quem volta à cama, depois
de fechar as janelas numa noite de temporal, e deslizou em minha pele,
água com água, descendo o curso, eu rio espesso, você o sumo da viagem, a
travessia, em suma.
In: Amores Mínimos, São Paulo: Record, 2011, p. 117-118