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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

João Anzanello Carrascoza


 A ÚLTIMA ESTAÇÃO
No início, fazíamos amor às claras, pelos cantos da casa. Encantavam-nos o sol em nossos corpos suados, a saliva em nossas bocas, o frescor de nossos sexos. Quería­mos ver os músculos rijos, as manobras da ancoragem, o entra e sai alucinante. Ela gritava. Eu grunhia. Jorrávamos palavrões. E, se fosse noite, acendíamos todas as luzes, humilhando o escuro com nossa juventude.
Depois, veio o tempo de nos entregarmos à penumbra, escondidos das crianças. As sombras cúmplices oculta­vam nossos dentes manchados, as rugas que começavam a florescer, os primeiros cabelos brancos. No quarto fe­chado à chave, ela gemia e eu murmurava umas palavras de incentivo.
Chegou, então, a era das trevas. No breu total, esqueci­dos das longas carícias, fechamos agora os olhos e engata­mos silenciosamente, com medo da luz e seu impiedoso esplendor.

In: Amores Mínimos, São Paulo: Record, 2011, p. 125

segunda-feira, 28 de maio de 2012

João Anzanello Carrascoza


DOMINGO


André seria o primeiro a chegar ao horto, viria com as crianças, todas com aqueles olhos azuis de doer os nossos ao mirá-los, a calmaria de lagos, mas no fundo o agito dos oceanos: os três já estavam na idade de perguntar tudo, e espalhavam, como conchas, o constrangimento por onde passavam. Depois, seria a vez de Pedro e a menina, os dois quase não falavam, às vezes doía ouvir o silêncio deles, se não fosse o ruído do motor do carro se acercando, ninguém diria que teriam vindo, mas sim se materializado de repente no meio da família. Logo saberíamos, pelo latido dos cachorros, que Marcos tinha chegado, trazia-os na caçamba da caminhonete e mal abria a portinhola, eles já saíam correndo, famintos pelas larguezas do campo. João viria em seguida, sempre solteiro, no seu carro esportivo, mas com alguma nova companhia, o que costumava gerar incômodo, apesar de ser um estímulo às boas maneiras. Não tardaria também para a moto de Madalena encostar à sombra do flamboaiã, e ela descer falando alto, enfiada numa daquelas calças jeans apertadíssimas, que nós reprovávamos, os óculos escuros nos refletindo na varanda, as crianças brincando sem saber que a vida nelas já ia envelhecendo, todos os meus filhos bebendo seus drinques, felizes pelo momento de leveza. Era um conforto tê-los por perto, com suas virtudes e seus defeitos, muitos dos quais herdados de nós mesmos. Tão logo fôssemos à mesa, Maria sentaria ao meu lado, e eu ocuparia a cabeceira e abriria um sorriso, como das outras vezes, um sorriso que dizia, Tudo termina. E era justamente por estar lá com eles, vivendo mais um encontro finito, que eu sorriria.

In: Amores Mínimos, Record: São Paulo, 2011, p. 79-80

João Anzanello Carrascoza


A TERCEIRA MARGEM DE MIM


Então você saiu da cama como se de um rio, as pernas afastando as águas da cintura até chegar ao raso, e se enfiou quarto afora, molhando-me os olhos com as sombras do escuro. Percebi que recolhia suas roupas do caminho, a respiração áspera como o tecido de sua calça que eu desfolhara feito ramos de uma árvore, e me lembrei de quando você chegou pela primeira vez às minhas margens e me atravessou com o vento de seu negro silêncio. E, pressentindo que procurava ao meu redor o que era seu, igual um bicho voraz, lembrei-me do último ataque, minutos antes, em que arrancou as minhas camadas de verniz e tocou a minha trêmula nudez.

Quieto, à medida que escutava o rumor da vida vindo de suas narinas, revi cena por cena o enredo de nossas 1001 noites, cada uma com o seu aroma de perdas, cada uma com sua aura de conquistas, e os minutos todos que eram tão plenos quando a eles nos entregávamos, tangendo nossas diferenças, felizes por descobrir que aprender a viver é que era mesmo o viver.

Logo me lembrei, com o gosto de fome, dos tempos em que minha lenha acendia a sua fala, enquanto o linho de sua língua em meu falo me apagava os gritos de desejo – e refiz na memória a correnteza que eu era, me fluindo em sua boca, e a sede que você jorrava, me bebendo gota a gota, me sugando como o tempo suga um lenho ao relento, como a flor sorve o néctar da abelha, sem nenhum zumbido.

Aticei ainda mais as brasas da memória, remexendo os fatos que tínhamos provado juntos, as fagulhas de nossos vãos momentos, e então faiscaram os dias que vivemos no deserto de Atacama, o sol soldando nossos anseios, as pedras espetando nossos pés, a fina poeira de cobre maquiando nossa face em fogo, os entardeceres grandiosos vistos das montanhas, o luar queimando nossa solidão. Nesse revirar de centelhas, reluziram as nossas manhãs de dores e os nossos ardores, e, no ondular das chamas que eu recordava, surgiam e sumiam seus sorrisos, para depois surgirem de novo, e de novo sumirem.

Foi aí que, movendo-se na escuridão recém-nascida em meu olhar aberto, você se abeirou de novo em mim, como quem volta à cama, depois de fechar as janelas numa noite de temporal, e deslizou em minha pele, água com água, descendo o curso, eu rio espesso, você o sumo da viagem, a travessia, em suma.

In: Amores Mínimos, São Paulo: Record, 2011, p. 117-118

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...