CHOVE SOBRE UM LIVRO DE F. PESSOA
CHOVER não é o que me entristece,
mas que chova sem utilidade, isto é,
que chova sem solução para o estar chovendo também em mim,
que chova audivelmente fora de mim
e em mim chova calado.
Queria que em mim a chuva fizesse barulho
ou se pudesse ver, queria que houvesse trovões,
qualquer coisa de pirotécnico,
qualquer coisa de molhado, capas impermeáveis, por exemplo,
gostaria que houvesse uma espécie de guarda-chuvas por dentro,
guarda-chuvas que abrissem ao contrário
e que tivessem só o forro preto
gruarda-chuvas com as varetas apontadas para o alto, por exemplo,
guarda-chuvas cujo cabo viesse de cima, por exemplo,
e que só servissem para chuvas interiores,
para tempos nublados interiores,
para umidades interiores.
Seria conveniente também que existissem galochas para o íntimo.
Creio que nem por uma coincidência tais apetrechos são negros,
creio firmemente que a chuva é uma coisa de fúnebre,
uma coisa de estar enterrado.
Creio que estar morto é estar chovendo sempre.
Estar morto é estarem chovendo sempre sobre a gente
e a gente sem poder usar guarda-chuva ou capa impermeável ou galochas,
creio que esse é exatamente o desconforto de estar morto,
creio que estar chovendo sobre a nossa face indefesa
é o símbolo de se estar morto,
até nossas mãos cruzadas sobre o peito
e o não poder arredar a água dos olhos
são o símbolo de se estar morto.
E firmemente sei, também e não obstante, que estar morto
é mais confortável,
(e sem dúvida será mais original)
que o estar chovendo na gente;
tudo, com a imensa vantagem de ser eterno.
[In: Obra Poética, São Paulo, Editora Hucitec, 1995, p. 149]
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quarta-feira, 30 de setembro de 2015
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
Renata Pallottini
ALGUMAS FANTASIAS SOBRE A MORTE
A memória de
Cacilda Becker
Alberto D’Aversa
Telcy Perez
I
FAÇO as inquirições de ser e morte e não respondo:
sou pouco para o largo desse campo.
Olho os verdes do templo e indago e não respondo.
Também as vozes que se alongam pela nave,
penso, não nos respondem. Se calamos
é por cansaço e sombra, é por temor da morte,
e grande irrespondida, a mais calada.
Faço o palpar do pulso e ainda não ouço,
meu saber dessas coisas tão pequeno.
Quem pode haver do coração a mágoa
surda, como os ruídos dentro d’água?
Se para o coração, caminha a morte.
Não há quem me responda de outra sorte.
II
Onde está quem não está? Onde, no ar,
está quem já se foi? No ar? Na relva?
Onde a semente está, há alguém? Alguém há sempre?
Onde estou eu estarei eu somente?
Onde estou eu, Amor está, semente.
Mas a quem já não está, Amor não salva.
Quem já não está jaz numa tabula de prata.
III
Uso palavras como pedras como beijos
meu amigo morreu
falando de esperança
Eu ensaio lutar olhando a rua
as árvores
o verde de suas folhas sobre o rio
O amigo era
de largo peito e profunda alegria
Olho a manhã com lágrimas nos olhos
as árvores depois as sementes
o amigo
Eu não bebi bastante o vinho de seu riso
não me lembro do gosto de sua pele
mas penso — porque não — construir-lhe um jazigo
onde ele sentado sobre a pedra
a sorrir convidasse os passantes a ouvi-lo
a ouvir o meu amigo...
As árvores
depois suas folhas
seus filhos
o amigo e seu perfil desdobrado no rio
vejo o barco e os reflexos
o amigo
morreu quando esperava ter chegado à vida
Eu uso versos como gritos
como espadas
Mas amava esse amigo
e não sabia nada.
[In Obra Poética, São Paulo, Hucitec, 1995, pp. 190-191].
A memória de
Cacilda Becker
Alberto D’Aversa
Telcy Perez
I
FAÇO as inquirições de ser e morte e não respondo:
sou pouco para o largo desse campo.
Olho os verdes do templo e indago e não respondo.
Também as vozes que se alongam pela nave,
penso, não nos respondem. Se calamos
é por cansaço e sombra, é por temor da morte,
e grande irrespondida, a mais calada.
Faço o palpar do pulso e ainda não ouço,
meu saber dessas coisas tão pequeno.
Quem pode haver do coração a mágoa
surda, como os ruídos dentro d’água?
Se para o coração, caminha a morte.
Não há quem me responda de outra sorte.
II
Onde está quem não está? Onde, no ar,
está quem já se foi? No ar? Na relva?
Onde a semente está, há alguém? Alguém há sempre?
Onde estou eu estarei eu somente?
Onde estou eu, Amor está, semente.
Mas a quem já não está, Amor não salva.
Quem já não está jaz numa tabula de prata.
III
Uso palavras como pedras como beijos
meu amigo morreu
falando de esperança
Eu ensaio lutar olhando a rua
as árvores
o verde de suas folhas sobre o rio
O amigo era
de largo peito e profunda alegria
Olho a manhã com lágrimas nos olhos
as árvores depois as sementes
o amigo
Eu não bebi bastante o vinho de seu riso
não me lembro do gosto de sua pele
mas penso — porque não — construir-lhe um jazigo
onde ele sentado sobre a pedra
a sorrir convidasse os passantes a ouvi-lo
a ouvir o meu amigo...
As árvores
depois suas folhas
seus filhos
o amigo e seu perfil desdobrado no rio
vejo o barco e os reflexos
o amigo
morreu quando esperava ter chegado à vida
Eu uso versos como gritos
como espadas
Mas amava esse amigo
e não sabia nada.
[In Obra Poética, São Paulo, Hucitec, 1995, pp. 190-191].
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Renata Pallottini
NÃO SEI NADA
NÃO SEI nada
não compreendo nada
e me irei sem nada ter aprendido
senão as lições da minha própria angústia.
No entanto
desta luta de punhais que se travou dentro de mim
continuo a guardar lenços manchados
até o dia antes do fim de tudo
em que hei de expor ao sol os mapas desta viagem.
LATIFÚNDIO
NÃO quero mais me lamentar
mesmo porque
não tenho mais de quê.
Se o sabiá voou
ficou-me o bem-te-vi.
Se o amor acabou fica o estamos aí.
Eu tenho a grama do jardim
e mais
tenho-me a mim.
SURREALISTA
Em tua boca não há palavras para mim
não obstante o teu amor (e nele creio).
Vives um mundo exato; e eu tropeço
nos dias e nos medos.
Vou me virar pra dentro, como um fruto
depois da flor; e me como a mim mesma.
Vou subir pelo tronco, parasita,
vou cair no poema.
Vou voar pelas asas marinheiras
de mil e uma, mil e duas borboletas.
Ah, vou emudecer solenemente e em verso,
ah, vou me suicidar como Santos Dumont.
Quando me procurares, meu amor,
verás no meu lugar a casca da libélula
e um fio de cabelo ton sur ton.
[In Obra Poética, Editora Hucitec: São Paulo, 1995, pp. 224-225].
ESTA CANÇÃO
"Aquilo que é, já foi; e aquilo que há de ser já foi; Deus fará vir outra vez o que já se passou." (Eclesiastes, 3:15)
Esta canção tateia a tarde clara
buscando a minha voz que é sua fonte.
Assim voltam os pássaros ao campo,
assim volta o horizonte ao horizonte.
Sou doido que canta para si,
cônscio de não saber nem do que inventa;
recriando o criado, ele sorri,
ciente de que não faz nem acrescenta.
Tudo já foi, apenas se repete;
este lugar de amor será pregresso
quando for dor a dor que se promete.
Chegou-me agora o que já foi futuro;
assim Deus me prepara o teu regresso
como se planta um poema manuscrito.
[Fonte: Blog de Renata Pallottini]
NÃO SEI nada
não compreendo nada
e me irei sem nada ter aprendido
senão as lições da minha própria angústia.
No entanto
desta luta de punhais que se travou dentro de mim
continuo a guardar lenços manchados
até o dia antes do fim de tudo
em que hei de expor ao sol os mapas desta viagem.
LATIFÚNDIO
NÃO quero mais me lamentar
mesmo porque
não tenho mais de quê.
Se o sabiá voou
ficou-me o bem-te-vi.
Se o amor acabou fica o estamos aí.
Eu tenho a grama do jardim
e mais
tenho-me a mim.
SURREALISTA
Em tua boca não há palavras para mim
não obstante o teu amor (e nele creio).
Vives um mundo exato; e eu tropeço
nos dias e nos medos.
Vou me virar pra dentro, como um fruto
depois da flor; e me como a mim mesma.
Vou subir pelo tronco, parasita,
vou cair no poema.
Vou voar pelas asas marinheiras
de mil e uma, mil e duas borboletas.
Ah, vou emudecer solenemente e em verso,
ah, vou me suicidar como Santos Dumont.
Quando me procurares, meu amor,
verás no meu lugar a casca da libélula
e um fio de cabelo ton sur ton.
[In Obra Poética, Editora Hucitec: São Paulo, 1995, pp. 224-225].
ESTA CANÇÃO
"Aquilo que é, já foi; e aquilo que há de ser já foi; Deus fará vir outra vez o que já se passou." (Eclesiastes, 3:15)
Esta canção tateia a tarde clara
buscando a minha voz que é sua fonte.
Assim voltam os pássaros ao campo,
assim volta o horizonte ao horizonte.
Sou doido que canta para si,
cônscio de não saber nem do que inventa;
recriando o criado, ele sorri,
ciente de que não faz nem acrescenta.
Tudo já foi, apenas se repete;
este lugar de amor será pregresso
quando for dor a dor que se promete.
Chegou-me agora o que já foi futuro;
assim Deus me prepara o teu regresso
como se planta um poema manuscrito.
[Fonte: Blog de Renata Pallottini]
sábado, 4 de janeiro de 2014
Renata Pallottini
ROMÂNICO II
Sozinho na grande abadia
o santo seco e exato
como uma pedra no alto
do monte que ali havia.
Pedra que alguém depois tomou
na sua mão
curiosa e cálida
dizendo: que esta pedra fale.
E ano após ano, num diálogo,
foi recortando e
destruindo
o que era a mais e não era santo,
o que não era paixão e sangue.
Até que deixou o osso da pedra,
o corpo seco
que ali já havia,
o santo, com seus
olhos de pranto,
com sua cara camadas de lágrimas,
sozinho e seco na grande
abadia
a chorar por mim,
por tudo o que há,
por
tudo o que houver, pelo que não se diz,
a chorar por nós, pelo que Deus não
sabe,
por aquilo que Deus não choraria.
Pela blasfêmia e pela igreja,
pelo frio e pela covardia,
pelas mãos trêmulas de quem o busca
e pelos que jamais o buscariam.
A chorar como chorou há muito
quando ainda era
pedra a sua cara triste
e sobre a pedra a ira de Deus
chovia.
[In Obra Poética, São Paulo, Editora Hucitec, 1995, p. 161]
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Renata Pallottini
POEMA
Sei bem o que fazer
mas me parece cedo.
Partir com um navio pelo mar roxo e verde
correr dentro do
bojo do navio, esse peixe,
curtir a pele dos meus dias com muitas tempestades
e
um dia — doce dia — desembarcar num cais.
Sei bem o que fazer
quando desembarcada.
Buscar por qualquer meio chegar a uma cidade
depois, por uma
estrada, ir até um grande vale,
e ali olhando a terra e os homens com suas
barbas
esquecer o que fui, beber café, e largar-me.
Sei bem o que fazer
não me surpreende nada.
Encontrar as pessoas que são novas e velhas
e comer um
punhado de cerejas com elas.
Tomar cerveja ao sol, pensar no avô e no resto
quando a
cidade era suave — quase campo —
e os delicados lírios floriam na primavera...
Sei bem o que fazer:
visitar essa terra...
Amar o amor moreno que se desdobra e arde,
afagar uns
cabelos escuros e pesados,
dormir no fim da rua no desvão de uma casa
tendo ao
meu lado um corpo forte que eu abrace
e que se agarre a mim com força, que me
beije
como eu tenho beijado as palavras e as frases...
Sei bem o que fazer;
mas me parece tarde...
[In: Obra Poética, São Paulo, Editora Hucitec, 1995, p. 149]
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| Modigliani |
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Renata Pallottini
PORQUE VOU PARTIR
Porque vou partir
e posso adivinhar a amarga hora,
desejo que em ti floresçam as ternuras alheias,
que o teu amor, se o tiveres, seja grave,
e profundo o teu pranto inevitável.
Sei que a verdade está em ti que a arrancas da carne
e não hesitas nunca e te embriagas de sofrimento.
No entanto, nenhuma pessoa é mais triste,
nenhum homem errou tantas vezes a estrada,
ninguém morreu de tantas mortes.
Porque vou partir
e posso adivinhar a amarga hora,
digo-te adeus e nada mais te digo.
No entanto eu choraria como tu choraste,
nenhuma pessoa é hoje mais triste,
ninguém tão largamente errou no seu caminho.
Não houve quem morresse desta morte,
desta morte que ensinas,
reto caminho das águas,
exato comportamento do fruto
que cai no momento propício.
Volto hoje a estar sem ti
como antes de saber os profundos do abismo,
volto a desconhecer-me e a ser o estranho
de mim mesma.
E estarei para sempre de ti perdida.
Porque vou partir.
[In: Obra Poética, São Paulo, Editora Hucitec, 1995, p. 149]
Porque vou partir
e posso adivinhar a amarga hora,
desejo que em ti floresçam as ternuras alheias,
que o teu amor, se o tiveres, seja grave,
e profundo o teu pranto inevitável.
Sei que a verdade está em ti que a arrancas da carne
e não hesitas nunca e te embriagas de sofrimento.
No entanto, nenhuma pessoa é mais triste,
nenhum homem errou tantas vezes a estrada,
ninguém morreu de tantas mortes.
Porque vou partir
e posso adivinhar a amarga hora,
digo-te adeus e nada mais te digo.
No entanto eu choraria como tu choraste,
nenhuma pessoa é hoje mais triste,
ninguém tão largamente errou no seu caminho.
Não houve quem morresse desta morte,
desta morte que ensinas,
reto caminho das águas,
exato comportamento do fruto
que cai no momento propício.
Volto hoje a estar sem ti
como antes de saber os profundos do abismo,
volto a desconhecer-me e a ser o estranho
de mim mesma.
E estarei para sempre de ti perdida.
Porque vou partir.
[In: Obra Poética, São Paulo, Editora Hucitec, 1995, p. 149]
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
Renata Pallottini
ANTONIO EM LISBOA
1
Ouve, Antonio, quando fores a Lisboa
espera a noite chegar,
mas que seja noite funda
e noite desesperada,
sai pra longe da cidade
pra fora, ao que lá se chama
não sei se fora de portas
e vai ao Lobos do Mar.
O lobo é falsificado,
o mar é falsificado,
Nazaré cheira a Miami
mas não faz mal.
Vai e diz àqueles lobos
que eu os amo com constância,
com muita inutilidade
como convém que se ame
ao que longe nos está.
Em disponibilidade:
e que choro a madrugada
(e que choro a madrugada)
que me arrebatou de lá.
2
Imprecisão de lugares e réstias de sol sobre as pedras;
um cheiro de flor anônima: ciência de primavera.
Lembras-te do café no Rocio? Era de tarde,
o frio era amável e abria os braços
enquanto a fonte distribuía pássaros.
Lembras-te dos livros postos para a nossa gula?
Depois de subir a ladeira
que grande fome, a nossa, de Pessoa!
Bela coisa, ter-se fome e ser primavera,
bela coisa, beber-se café num grande gole tranqüilo
e estar-se tão imensamente vivo,
com o ar transeunte entre os dedos,
com sangue nos lábios conscientes
que vedam para sempre as palavras denunciadoras,
que guardam para sempre essa solene alegria.
3 (Cantadeira)
Fazes pensar num quarto — água-furtada —
num leito modestíssimo e insalubre
onde deitassem tua submissão.
Ali, tendo a cabeça subjugada,
havias de cantar um fado triste
pra aquela original celebração
a alguém que por mulher te tomaria
e não, como o desejas, por canção.
[In Obra Poética, São Paulo, Editora Hucitec, 1995, p. 82-84]
1
Ouve, Antonio, quando fores a Lisboa
espera a noite chegar,
mas que seja noite funda
e noite desesperada,
sai pra longe da cidade
pra fora, ao que lá se chama
não sei se fora de portas
e vai ao Lobos do Mar.
O lobo é falsificado,
o mar é falsificado,
Nazaré cheira a Miami
mas não faz mal.
Vai e diz àqueles lobos
que eu os amo com constância,
com muita inutilidade
como convém que se ame
ao que longe nos está.
Em disponibilidade:
e que choro a madrugada
(e que choro a madrugada)
que me arrebatou de lá.
2
Imprecisão de lugares e réstias de sol sobre as pedras;
um cheiro de flor anônima: ciência de primavera.
Lembras-te do café no Rocio? Era de tarde,
o frio era amável e abria os braços
enquanto a fonte distribuía pássaros.
Lembras-te dos livros postos para a nossa gula?
Depois de subir a ladeira
que grande fome, a nossa, de Pessoa!
Bela coisa, ter-se fome e ser primavera,
bela coisa, beber-se café num grande gole tranqüilo
e estar-se tão imensamente vivo,
com o ar transeunte entre os dedos,
com sangue nos lábios conscientes
que vedam para sempre as palavras denunciadoras,
que guardam para sempre essa solene alegria.
3 (Cantadeira)
Fazes pensar num quarto — água-furtada —
num leito modestíssimo e insalubre
onde deitassem tua submissão.
Ali, tendo a cabeça subjugada,
havias de cantar um fado triste
pra aquela original celebração
a alguém que por mulher te tomaria
e não, como o desejas, por canção.
[In Obra Poética, São Paulo, Editora Hucitec, 1995, p. 82-84]
![]() |
| Abel Manta |
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Renata Pallottini
VIZINHA
Vizinha,
me dá um pouco da tua sopa
me deixa partilhar o azeite
e as batatas da tua ceia
estou tão triste.
A esta hora da noite
sois ao redor da mesa
uma família
e o vapor da terrina embaça os óculos
do homem
e as crianças riem.
Sei muito bem das vossas dificuldades
que o dinheiro é pouco e a paixão
já se acabou
porém
vizinha
tua sopa cheira bem, teus filhos estão crescendo
tens um canário e rosas
e não sabes de nada;
abre a porta, vizinha, e me admite no seio
dessa coisa que um dia eu supus acabada
que eu detesto e desejo,
e não compreendo.
Por favor, por favor,
deixa-me entrar, vizinha.
Estou tão triste.
[In Obra Poética, Editora Hucitec: São Paulo, 1995, p. 293]
Vizinha,
me dá um pouco da tua sopa
me deixa partilhar o azeite
e as batatas da tua ceia
estou tão triste.
A esta hora da noite
sois ao redor da mesa
uma família
e o vapor da terrina embaça os óculos
do homem
e as crianças riem.
Sei muito bem das vossas dificuldades
que o dinheiro é pouco e a paixão
já se acabou
porém
vizinha
tua sopa cheira bem, teus filhos estão crescendo
tens um canário e rosas
e não sabes de nada;
abre a porta, vizinha, e me admite no seio
dessa coisa que um dia eu supus acabada
que eu detesto e desejo,
e não compreendo.
Por favor, por favor,
deixa-me entrar, vizinha.
Estou tão triste.
[In Obra Poética, Editora Hucitec: São Paulo, 1995, p. 293]
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Renata Pallottini
CORAÇÃO AMERICANO
1976
“Coração Americano um sabor de vidro e corte.” (Fernando Brant)
Aos meus companheiros de sala Almino Affonso e Plinio Arruda Sampaio
1
Tombou sobre as cúpulas
sem forma
aos poucos penetrando com suas cinzas
as pedras e os beirais e as próprias pombas
foi tomando de úmido
o que era só frio
pois pelo alto chegava
e quase de repente os vitrais embaçava
foi colhendo pessoas
pálidas e com olhos de fadiga
e as foi cercando com seus braços grossos
que se diluíam e de novo condensavam
armas daninhas de nenhuma identidade
mas incansáveis
e fomos vendo que ninguém nos salva
fomos sentindo que este peso é muito
que não somos capazes
Senhor faz de nós qualquer coisa
alguma coisa que seja tua para sempre
que te pertença
qualquer coisa menos isto que agora calados somos:
gente com medo.
2
Estamos todos cansados
É de tarde e o céu escuro cai
o chão de asfalto pesa
temos amigos
é como se pudéssemos falar
e como se pudéssemos sorrir
Mas já não sabemos nada
Um grande dedo aponta direção desconhecida
Estamos perdidos
e muito cansados
Os amigos consultam-se com olhares
as palavras são curtas e a angústia
muita
Nem a música pode o que podia
Vemos os quadros azuis e por vezes o mármore
olhamos o campo verde emoldurando cinzas
estamos aqui calados olhando e tristes
e duramente e infinitamente
cansados
Quem há de delatar
quem há de resistir por forte e quem
sucumbirá depois de algumas lágrimas?
Quem será traidor quem o herói
a quem havemos de encontrar um dia
marcado a ouro na rua?
Quem está degradado em seu ofício
quem desterrado e puro
a quem enviaremos nossas cartas cifradas?
Para quem os cifrões?
3
Todos partiram:
os que liam
e os que escreviam.
Os que sorriam
e os que calculavam.
Os que brilhavam
e os sofriam.
Todos foram de partida.
Mudou-se a vida.
Hoje estão vivos
os que se calam.
Os que concordam que estão concordes.
Quando se acorda
mandam dormir
quem nos acorda.
Partiram os que cantavam
e os que cantando despertavam.
Partiram os que falavam
e os que falando explicavam.
Partiram os que lidavam
com brinquedos de palavras;
e os que brincando ensinavam.
Partiram. E no entanto
havendo gente de menos
o mundo ficou mais apertado.
4
Ficção científica.
Faz um livro de ficção científica e esquece.
Telenovela.
Escreve logo uma telenovela.
E esquece.
Introspecção.
Faz a introspecção e a masturbação.
E esquece.
Resistência carnavalesca.
Entra no campeonato
bebe e esgota o peito
canta e seca o hálito
e cai na rua como um trapo.
E esquece.
5
Aos poucos o homem fraqueja
e lentamente agoniza
antes da sepultura.
Seu epitáfio é composto,
longamente meditado
muito antes de feito o túmulo.
Outros homens, como a estátua
que ornamentará seu leito,
fazem sua morte.
E muito antes,
como a fizeram, precisos,
sua vida determinaram.
E o homem adormece
sem nunca haver suspeitado,
sem haver lutado nunca.
6 (VALLEGRANDE)*
Nas verdes colinas há um silêncio de morte.
Entre árvores, pássaros, moradas
um silêncio que veio se acomoda.
Surgem as fontes de água,
caminhos de homens sós, passos, picadas,
entre pássaros, fontes, emboscadas.
Nas montanhas mais verdes a morte está plantada
e o céu que ali se estende não se estende por nada.
Se alguém ali morreu, pouco importa quem seja:
foi um homem quem morreu com seus olhos de estrelas,
sua barba e seus cabelos, sua boca e seus desejos.
Um homem morto apenas e não morto por nada
entre árvores, pássaros, fontes, emboscadas,
a caminho das últimas, indistintas moradas.
In: Obra Poética, Editora Hucitec: São Paulo, 1995, pp. 195-198
O PÃO AMARGO
O pão amargo e a água consumada
do odre seco em cáustico deserto;
sob o mirrado arbusto a esquiva sombra
se nega pela areia e é como um rastro.
Sem planta fresca, a fruta apetecida
traz a longínqua fixação do incerto;
quando a brasa arenosa for alfombra
tornar-se-á carícia o fogo do astro.
Para a criança adormecida ao braço
o olhar alonga, e faz como se fosse
para nos olhos tê-la, traço a traço.
Lembrando a noite aquela e a face gêmea
que lhe roçara a face em mágoa doce,
a escrava chora a condição de fêmea.
* Vallegrande, segundo a Wikipedia, é uma cidade da Bolívia localizada no departamento de Santa Cruz. No censo realizado em 2001 possuia 7.793 habitantes. Vallegrande foi fundada em 30 de Março de 1612 pelo ruralista Lucio Escalante. Vallegrande, originalmente, tinha como nome "Jesús y Montes Claros de los Caballeros". A cidade se tornou mundialmente famosa porque nela foi achada a ossada do revolucionário Ernesto Che Guevara em 1997. Além disso, a cidade está bastante próxima de onde o grupo guerrilheiro de Che se estabeleceu em 1960 e perto de onde Ernesto teria sido morto.
1976
“Coração Americano um sabor de vidro e corte.” (Fernando Brant)
Aos meus companheiros de sala Almino Affonso e Plinio Arruda Sampaio
1
Tombou sobre as cúpulas
sem forma
aos poucos penetrando com suas cinzas
as pedras e os beirais e as próprias pombas
foi tomando de úmido
o que era só frio
pois pelo alto chegava
e quase de repente os vitrais embaçava
foi colhendo pessoas
pálidas e com olhos de fadiga
que se diluíam e de novo condensavam
armas daninhas de nenhuma identidade
mas incansáveis
e fomos vendo que ninguém nos salva
fomos sentindo que este peso é muito
que não somos capazes
Senhor faz de nós qualquer coisa
alguma coisa que seja tua para sempre
que te pertença
qualquer coisa menos isto que agora calados somos:
gente com medo.
2
Estamos todos cansados
É de tarde e o céu escuro cai
o chão de asfalto pesa
temos amigos
é como se pudéssemos falar
e como se pudéssemos sorrir
Mas já não sabemos nada
Um grande dedo aponta direção desconhecida
Estamos perdidos
e muito cansados
Os amigos consultam-se com olhares
as palavras são curtas e a angústia
muita
Nem a música pode o que podia
Vemos os quadros azuis e por vezes o mármore
olhamos o campo verde emoldurando cinzas
estamos aqui calados olhando e tristes
e duramente e infinitamente
cansados
Quem há de delatar
quem há de resistir por forte e quem
sucumbirá depois de algumas lágrimas?
Quem será traidor quem o herói
a quem havemos de encontrar um dia
marcado a ouro na rua?
Quem está degradado em seu ofício
quem desterrado e puro
a quem enviaremos nossas cartas cifradas?
Para quem os cifrões?
3
Todos partiram:
os que liam
e os que escreviam.
Os que sorriam
e os que calculavam.
Os que brilhavam
e os sofriam.
Todos foram de partida.
Mudou-se a vida.
Hoje estão vivos
os que se calam.
Os que concordam que estão concordes.
Quando se acorda
mandam dormir
quem nos acorda.
Partiram os que cantavam
e os que cantando despertavam.
Partiram os que falavam
e os que falando explicavam.
Partiram os que lidavam
com brinquedos de palavras;
e os que brincando ensinavam.
Partiram. E no entanto
havendo gente de menos
o mundo ficou mais apertado.
4
Ficção científica.
Faz um livro de ficção científica e esquece.
Telenovela.
Escreve logo uma telenovela.
E esquece.
Introspecção.
Faz a introspecção e a masturbação.
E esquece.
Resistência carnavalesca.
Entra no campeonato
bebe e esgota o peito
canta e seca o hálito
e cai na rua como um trapo.
E esquece.
5
Aos poucos o homem fraqueja
e lentamente agoniza
antes da sepultura.
Seu epitáfio é composto,
longamente meditado
muito antes de feito o túmulo.
Outros homens, como a estátua
que ornamentará seu leito,
fazem sua morte.
E muito antes,
como a fizeram, precisos,
sua vida determinaram.
E o homem adormece
sem nunca haver suspeitado,
sem haver lutado nunca.
6 (VALLEGRANDE)*
Nas verdes colinas há um silêncio de morte.
Entre árvores, pássaros, moradas
um silêncio que veio se acomoda.
Surgem as fontes de água,
caminhos de homens sós, passos, picadas,
entre pássaros, fontes, emboscadas.
Nas montanhas mais verdes a morte está plantada
e o céu que ali se estende não se estende por nada.
Se alguém ali morreu, pouco importa quem seja:
foi um homem quem morreu com seus olhos de estrelas,
sua barba e seus cabelos, sua boca e seus desejos.
Um homem morto apenas e não morto por nada
entre árvores, pássaros, fontes, emboscadas,
a caminho das últimas, indistintas moradas.
In: Obra Poética, Editora Hucitec: São Paulo, 1995, pp. 195-198
O PÃO AMARGO
"Ela foi sentar-se em frente dele a boa distância,
como a de um tiro de arco;
pois disse:
que não veja eu a morte do menino.
Sentada em frente dele,
levantou sua voz e chorou."
Gênesis, 21,16
do odre seco em cáustico deserto;
sob o mirrado arbusto a esquiva sombra
se nega pela areia e é como um rastro.
Sem planta fresca, a fruta apetecida
traz a longínqua fixação do incerto;
quando a brasa arenosa for alfombra
tornar-se-á carícia o fogo do astro.
Para a criança adormecida ao braço
o olhar alonga, e faz como se fosse
para nos olhos tê-la, traço a traço.
Lembrando a noite aquela e a face gêmea
que lhe roçara a face em mágoa doce,
a escrava chora a condição de fêmea.
Fonte: Jornal de Poesia e Fonte: Itaú Cultural
Copiado de www.vermelho.org.br
Saiba mais sobre a grande intelectual brasileira Renata Pallottini
domingo, 19 de agosto de 2012
Renata Pallottini
DECLARAÇÃO DE
ÚLTIMA VONTADE
Quando eu estiver pra morrer
levem-me depressa a Madrid,
avisem Juan Carlos e Sofia
e preparem o Teatro Real.
Flores vermelhas e amarelas,
tapetes pendurados nas janelas
e os reis — tão acertados, tão repousantes.
Tanto, a essa altura já será vitoriosa
a revolução
socialista...
Por que não posso morrer monárquica?
Por que não posso me enterrar antiga?
É um velho desejo, um conflito insopitado.
Levem-me para a Praça Isabel Segunda
(antes, Praça da Ópera)
e deixam que o povo venha vender castanhas no meu enterro
— Esse povo, para sempre dividido
entre a revolta e o amor ibérico às bandeiras.
Mas se alguém me quiser ainda viva
pra responder por
malfeitos
ou retribuir um beijo
bastará que ordene à banda pra atacar “La Revoltosa”.
Em dez segundos estarei de pé
com um cravo na orelha e um
touro vivo no coração.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Renata Pallottini
MÃO E IMAGEM
Se EU pudesse encontrar palavras muito nítidas,
se eu pudesse acertar meu horizonte íntimo
com o teu horizonte, se eu conseguisse
vencer a mútua indiferença que nos une
quanto ao passado, se eu falasse em coisas mortas
mas de um modo vivo, e sem pedir o seu retorno
então talvez compreendesses a amarga distância
das mãos que a carne modela e do coração
que o sangue inunda à ilusão construída
e à imagem feita de frases suspensas,
e talvez sentisses que as mão são trêmulas demais
para inventar novos caminhos e o coração
é fraco, é muito fraco, e se dilui dentro de nós
como a neve ao calor das chamas,
e que a boca que se cala talvez pedisse um beijo
assim, cerrada e muda, e que os cabelos
(ah, os cabelos, o mistério do humano movimento
e a distância fluindo neles, e a ternura!)
e que os cabelos, assim deitados sobre os ombros
sugerem laços e dedos que se perdem na cálida penumbra.
[In: Obra Poética, Editora Hucitec: São Paulo, 1995, p. 69-70]
Se EU pudesse encontrar palavras muito nítidas,
se eu pudesse acertar meu horizonte íntimo
com o teu horizonte, se eu conseguisse
vencer a mútua indiferença que nos une
quanto ao passado, se eu falasse em coisas mortas
mas de um modo vivo, e sem pedir o seu retorno
então talvez compreendesses a amarga distância
das mãos que a carne modela e do coração
que o sangue inunda à ilusão construída
e à imagem feita de frases suspensas,
e talvez sentisses que as mão são trêmulas demais
para inventar novos caminhos e o coração
é fraco, é muito fraco, e se dilui dentro de nós
como a neve ao calor das chamas,
e que a boca que se cala talvez pedisse um beijo
assim, cerrada e muda, e que os cabelos
(ah, os cabelos, o mistério do humano movimento
e a distância fluindo neles, e a ternura!)
e que os cabelos, assim deitados sobre os ombros
sugerem laços e dedos que se perdem na cálida penumbra.
[In: Obra Poética, Editora Hucitec: São Paulo, 1995, p. 69-70]
Renata Pallottini
O SANGUE Não te quero brutal, mas represado.
Quero teu curso, feito entre paredes
de carne. Quero teu caminho
azul e frágil quando vais, e quando
vermelho e novo pelo teu retorno.
Quero-te movimento entrecortado
e não fonte espantosa
Quero tatear no íntimo
do que és substancialmente
e ali surpreender-te vida.
Contigo latejar nos pulsos longos
e adivinhar contigo as emoções
das frontes imortais.
Assim te quero, sangue: musical,
com teu calor de sumo excelso
e essencial.
In: Obra Poética, Editora Hucitec: São Paulo, 1995, p. 72
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