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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Manuel António Pina

TANTA TERRA
Tanta terra,
tantas palavras sob tantas palavras.
Regressa como um corpo o coração
à apenas existência,

lembrança de
alguma coisa lida:
o rosto da mãe, a trepadeira do jardim.
Mãe, afastei-me de mais, perdi-me

no meio de palavras minhas e palavras alheias,
quem, se eu gritar, me ouvirá entre as legiões dos anjos?
E nem isto me pertence,

a tua ausência e o meu medo;
nem estou na minha ausência,
fui como um vaso e quebrei-me ou qualquer coisa assim.

[In Nenhuma palavra e nenhuma lembrança,  In Todas as Palavras Poesia reunida, 3a. ed, Porto, Assírio & Alvim, 2013, p. 235]. 


domingo, 3 de agosto de 2014

Manuel António Pina

ÚLTIMO POEMA
Ó Noite que me guiaste,
ó noite amável mais do que a alvorada
S. JOÃO DA CRUZ
A dor acompanhar-me-á,
a dor de não ter escrito
o teu nome e de não ter sabido
as perguntas e as respostas; nos teus braços quem me receberá?

E fará tanto frio
que a eternidade
se consumará sem mim no quarto agora vazio
de exterioridade e de contemporaneidade.

Só terei as minhas palavras,
mas também elas são mortais
mesmo as mais banais e mais
próprias para falar de coisas acabadas.

Terei talvez morrido; nunca o saberei.
Nem não o saberei tão perto estarei,
o rosto reclinado no teu peito,
a minha vida um sonho teu, desfeito.

[In Nenhuma palavra e nenhuma lembrança,  In Todas as Palavras Poesia reunida, 3a. ed, Porto, Assírio & Alvim, 2013, p. 245]. 



sábado, 19 de outubro de 2013

Manuel António Pina

O medo
Ninguém me roubará algumas coisas, 
nem acerca de elas saberei transigir; 
um pequeno morto morre eternamente 
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente 
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte 
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz
de não ter medo de nada, 
nem de algumas palavras juntas?

In Nenhum Sítio, In Todas as Palavras Poesia reunida, 3a. ed, Porto, Assírio & Alvim, 2013, p. 107. 

AGHA

domingo, 1 de setembro de 2013

Manuel António Pina

Na biblioteca
O que não pode ser dito 
guarda um silêncio 
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,

quando já a incerteza 
e o medo se consomem 
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si 
recolhida, às horas mortas em que 
a casa se recolheu também 
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez, 
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas 
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta 
nem a leitura, 
o poema está só.

E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.

In Cuidados Intensivos, In Todas as Palavras Poesia reunida, 3a. ed, Porto, Assírio & Alvim, 2013, p. 181.

Monumento ao Livro- Barcelona

terça-feira, 11 de junho de 2013

Manuel António Pina

Como se desenha uma casa
Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente 
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente, 
a mãe para sempre morta.

Anoiteceu, apagamos a luz e, depois, 
como uma foto que se guarda na carteira,
 iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.

Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.

Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.

In Como se desenha uma casa, In Todas as Palavras Poesia reunida, 3a. ed, Porto, Assírio & Alvim, 2013, p. 347. 


sábado, 4 de maio de 2013

Manuel António Pina

Luz de estrelas sobre o Rohne
Van Gogh
Matéria de estrelas

Porque é tudo para sempre, mesmo a efémera morte,
encontrar-nos-emos eternamente
e nunca mais nos veremos.
O impossível volta a ser impossível. Para sempre.

Impossível é cada manhã aberta,
um deus sonha consigo através de nós.
Às vezes quase posso tocá-lo, ao deus,
surpreendê-lo no seu sono, também ele real e efémero.

Matéria, alma do nada,
os mortos ouvem a tua música sólida
pela primeira vez, como uma respiração de estrelas.
A sua intranqüilidade transforma-se em si mesma, música.

In Nenhum Sítio, In Todas as Palavras Poesia reunida, 3a. ed, Porto, Assírio & Alvim, 2013, p. 125


Sobre o Autor


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...