Negra, como pupila, como pupila sorvendo
A luz - amo-te noite elevada.
Dá-me voz para cantar-te, ó mãe de todas as canções
Cujo canto é levado pelos quatro ventos.
Louvando-te, chamando-te, sou apenas uma
Concha onde ainda não cabe o oceano.
Noite! Já cansei de mirar na pupila dos homens!
Incinera-me, negro sol - é noite!
9 de agosto de 1916
(tradução de Verônica Filippovna)
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domingo, 12 de abril de 2015
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Marina Tsvétaïeva
CONQUISTAR-TE-EI A TODAS AS TERRAS...
Conquistar-te-ei a todas as terras e a todos os céus
Porque o meu berço é a floresta e o meu túmulo também
Porque tenho um só pé assente na terra
Porque te cantarei como mais ninguém
Conquistar-te-ei a todos os tempos e a todas as noites
A todas as bandeiras doiradas e a todas as espadas
Deitarei fora as chaves e afugentarei os cães das escadas
Porque na noite terrena sou mais fiel que um cão
Conquistar-te-ei a todos os outros e àquela única
Não serás noivo de ninguém nem eu mulher de ninguém
E na última disputa tomar-te-ei ouve bem
Àquele que Tiago não abandonou naquela noite
Mas até te cruzarem os dedos sobre o peito
Oh maldição! — tu continuas contigo e com mais ninguém
Tuas duas asas voltadas para o éter
Porque o teu berço é o mundo e o teu túmulo também
Jaya Suberg
Conquistar-te-ei a todas as terras e a todos os céus
Porque o meu berço é a floresta e o meu túmulo também
Porque tenho um só pé assente na terra
Porque te cantarei como mais ninguém
Conquistar-te-ei a todos os tempos e a todas as noites
A todas as bandeiras doiradas e a todas as espadas
Deitarei fora as chaves e afugentarei os cães das escadas
Porque na noite terrena sou mais fiel que um cão
Conquistar-te-ei a todos os outros e àquela única
Não serás noivo de ninguém nem eu mulher de ninguém
E na última disputa tomar-te-ei ouve bem
Àquele que Tiago não abandonou naquela noite
Mas até te cruzarem os dedos sobre o peito
Oh maldição! — tu continuas contigo e com mais ninguém
Tuas duas asas voltadas para o éter
Porque o teu berço é o mundo e o teu túmulo também
Jaya Suberg
domingo, 15 de dezembro de 2013
Marina Tsvétaïeva
Nós - as crianças, somos os reis
do mundo das visões nocturnas.
Caem sobre nós as alongadas sombras
brilham as lanternas por detrás das janelas,
escurece o tecto do salão,
os espelhos absorvem o seu rasto...
Não há tempo a perder!
Alguém sai do canto.
Debruçamo-nos os dois por cima do piano negro
e o medo chega-se a nós,
embrulhados num xaile da mamã
nem respiramos, pálidos de terror.
Vamos lá ver o que se passa
por baixo da cortina das trevas inimigas.
Os rostos deles fundiram-se no escuro,
-de novo saímos vencedores!
Somos os elos de uma mágica cadeia
e no fragor da batalha jamais desfalecemos.
Aproxima-se o combate derradeiro,
e com ele há-de perecer o reino das trevas.
Os adultos inspiram-nos desprezo,
pela rotina adormecida dos seus dias...
Nós sabemos, sabemos muita coisa
do muito que eles não sabem.
[Marina Tsvétaïeva in E Cantou como Canta a Tempestade]
do mundo das visões nocturnas.
Caem sobre nós as alongadas sombras
brilham as lanternas por detrás das janelas,
escurece o tecto do salão,
os espelhos absorvem o seu rasto...
Não há tempo a perder!
Alguém sai do canto.
Debruçamo-nos os dois por cima do piano negro
e o medo chega-se a nós,
embrulhados num xaile da mamã
nem respiramos, pálidos de terror.
Vamos lá ver o que se passa
por baixo da cortina das trevas inimigas.
Os rostos deles fundiram-se no escuro,
-de novo saímos vencedores!
Somos os elos de uma mágica cadeia
e no fragor da batalha jamais desfalecemos.
Aproxima-se o combate derradeiro,
e com ele há-de perecer o reino das trevas.
Os adultos inspiram-nos desprezo,
pela rotina adormecida dos seus dias...
Nós sabemos, sabemos muita coisa
do muito que eles não sabem.
[Marina Tsvétaïeva in E Cantou como Canta a Tempestade]
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Marina Tsvétaïeva
38. DE TSVÉTAÏEVA PARA RILKE
Saint-Gilles-sur-Vie, 2 de agosto de 1926
(...)
Quando um de nós sonha em
conjunto — é quando nos encontramos.
Rainer, se eu quiser ir até junto
de ti, é devido também ao meu novo eu, que só conseguiu nascer contigo, em ti.
E, por isso, Rainer («Rainer»: o leitmotiv da minha carta), não me queiras,
sou eu a má, quero dormir contigo — adormecer e dormir contigo. Esta expressão
popular, como é verdadeira, profunda, sem equívocos, como diz bem aquilo que
diz. Simplesmente dormir. Nada mais. Ou seja: aconchegar a minha cabeça no teu
ombro, passar o braço pelo teu ombro direito — nada mais. Ou seja: saber, no
sonho mais profundo, que és tu. E ainda: como bate o teu coração. E — beijar o
teu coração.
Às vezes digo a mim própria:
deves explorar o acaso de seres ainda (pelo menos!) um corpo. Qualquer dia
ficarei sem braços. E ainda: o que vai parecer uma confissão: vangloriar-se das
suas dores! Quem poderá falar dos seus sofrimentos sem ficar entusiasmado, feliz?!)
— Não é necessário que tenha o ar duma confissão: os corpos aborrecem-se de
mim. Adivinham qualquer coisa e não acreditam em mim (não acreditam no meu)
ainda que eu faça o que toda a gente faz. De
forma demasiado... desinteressada, talvez demasiado... benevolente. Demasiado
confiante, também. São as pessoas de antigamente (os selvagens), ignorantes de
usos e leis, que são confiantes. Os de agora não têm confiança! São coisas que
já não têm lugar no amor, o amor não entende e não sente nada a não ser a si
próprio, de forma muito localizada e pontual, e isso, eu não consigo
contrariar. E — a grande compaixão, quem sabe donde virá, a bondade infinita e
— a mentira.
Sempre me senti mais velha. Os jogos infantis demasiado sérios, eu não o
bastante.
Sempre entendi a boca como um mundo: abóbada celeste, caverna, garganta,
abismo. Sempre traduzi o corpo em alma (desincarnado!), e de tal maneira
magnificado o amor «físico» — para poder amá-lo — que dele, de repente, não restava mais nada. Ao abismar-me nele, afundava-o.
Ao afundar-me nele, afastava-o. E de tudo não ficava mais nada senão eu: uma alma
(é o meu nome, daí a admiração perante o meu dia!)
O amor odeia o poeta. O amor não quer ser magnificado (sendo por si
bastante magnífico!), toma-se por um absoluto, o único. E não confia em nós.
Sabe, no mais profundo de si próprio, que não é magnífico (daí a sua
tirania!), sabe que toda a magnificência é — alma, e onde a alma começa, o
corpo acaba. Puro ciúme, Rainer, o mais puro. Como o da alma perante o corpo.
Mas eu sou sempre ciumenta do corpo: gratificado por louvores tais! O pequeno
episódio de Paolo e Francesca. — Pobre Dante! — Quem hoje pensa ainda em Dante
ou em Beatriz? É da comédia humana que eu sou cimenta. A alma não
é nunca amada como o corpo, ou melhor: louvada. Ama-se o corpo de todos esses
milhares de almas. Quem alguma vez se fez condenar por uma alma? E haverá
alguém que quisesse — impossível: amar uma alma até à condenação —
isso é já ser um anjo. Nós somos frustrados pela totalidade do inferno: (...
demasiado puro — provoca um vento de desdém!)
Por que é que eu te
falo nisto? Pela inquietação talvez, de que não vejas em mim nada a não ser uma apaixonada comum (paixão —
servidão). «Amo-te e quero dormir contigo», um tal concisão não permite a
amizade. Mas digo-o doutra maneira,
quase em estado de sonolência, firme no meu sono. E a coisa não me soa como
paixão. Se me apertasses contra ti, apertarias os lugares mais desertos. Tudo o
que não dorme jamais quereria encontrar o seu sono nos teus braços. Até ao
fundo da alma (da garganta) — assim seria o meu beijo. (Não um incêndio: um
abismo.)
Je ne plaide pas ma
cause, je plaide la cause du plus absolu
des baisers."
________________________________
Tu andas sempre em
viagem, não vives em lugar certo, e encontras russos que não são eu. Ouve-me,
uma vez por todas: na Raineria, só eu represento a Rússia.
Rainer, no fundo,
quem és tu? Não és alemão — ainda que sejas a Alemanha inteira! Não és da
Boêmia — ainda que tenhas nascido lá (N.B.! nascido num país que ainda não
existia) não és austríaco, porque a Áustria era e tu — passas a ser! Isto não é
magnífico? Tu — sem país. «O maior poeta checoslovaco», escrevem os jornais
parisienses. Eis-te portanto eslovaco,
finalmente, Rainer. O que não deixa de ser engraçado.
Rainer, a noite
cai, e eu amo-te. Um comboio uiva. Os comboios são lobos, os lobos são a
Rússia. Não é um comboio — é a Rússia inteira que uiva perto de
ti. Não te zangues comigo, e zangado ou não, esta noite dormirei contigo. Uma
falha na escuridão, porque há estrelas, e eu fecho a janela. (Quando penso em
ti e em mim, penso numa janela, não numa cama.) Com os olhos grandes, abertos,
por que lá fora, está mais escuro que cá dentro. A cama é um barco, partimos em
viagem.
... E um dia nunca mais se viu.
O pequeno barco sem velas,
Cansado dos malditos oceanos
Vogando no país das
estrelas —
Tinha ganho o paraíso...
(Canção infantil de Lausanne)
Não precisas de
responder — a não ser ao beijo.
M.
P.-S. A propósito de
ter razão (de estar no seu direito): «A natureza também é não natural» (Goethe), deve ser isso o que tu querias
dizer (natureza: direito) Os déserts lieux são uma prenda de Boris de que te faço
presente.
In Rilke / Pasternak / Tsvétaïeva Correspondência a Três, trad. do francês Armando Silva Carvalho, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006, pp. 268-271
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| Saint-Gilles-sur-Vie |
terça-feira, 16 de julho de 2013
Marina Tsvétaïeva
DO CICLO "INSÔNIA"
“Gosto
de beijar”
Gosto de beijar
As mãos, e gosto
De semear os nomes,
E ainda - escancarar
As portas!
- Abertas - na noite escura!
Apertando a testa,
Escutar como o passo grave
Se torna leve,
Como o vento embala
A floresta insone
Que quer dormir.
Ah, noite!
Algures correm riachos.
Estou com sono.
Durmo, eu acho.
Algures, na noite,
Alguém se afoga.
27 de
maio de 1916
In Indícios Flutuantes, trad. de Aurora F. Bernardini, São Paulo, Martins Fontes, 2006, p. 19.
![]() |
| Summer Night Edvard Munch |
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Marina Tsvétaïeva
“O que aos outros não é preciso - tragam para mim”´
O que aos outros não é preciso - tragam para mim!
Tudo há de
queimar em meu fogo!
Atraio a vida, atraio a morte
No leve regalo de meu fogo.
A chama gosta - de substâncias leves:
O mal passado, - grinaldas - palavras.
A chama - arde desse alimento!
Levante-se pois - mais puro que a cinza!
Ave-Fênix - só no fogo eu canto!
Mantenham minha vida elevada!
Eu queimo alto - e queimo até o fim!
E assim a noite ser-lhes-á - clara!
Fogueira de gelo, fonte de fogo!
Levanto ao alto meu talhe elevado,
Levanto ao alto minha alta estirpe -
De Herdeira e
Conjurada!
2 de setembro de 1918
In Indícios Flutuantes, trad. de Aurora F. Bernardini, São Paulo, Martins Fontes, 2006, p. 51.
In Indícios Flutuantes, trad. de Aurora F. Bernardini, São Paulo, Martins Fontes, 2006, p. 51.
domingo, 14 de abril de 2013
Marina Tsvétaïeva
Eu não penso, não me queixo, nem discuto,
nem durmo.
Não desejo nem sol, nem lua, nem mar,
nem barco.
Não penso no calor que faz entre estas
paredes,
nem como o jardim está verde;
e esse presente, que tanto desejei,
já não o espero.
Não me anima nem a manhã, nem o eléctrico
o seu tilintar alegre,
vivo sem ver o dia, esquecendo-me, do tempo,
o ano e a hora.
Sobre uma corda estragada,
eu danço – pobre dançarina.
sou a sombra de uma sombra. Sou lunar
de duas sombrias luas.
In E cantou como canta a tempestade
tradução: António Mega Ferreira, Assírio e Alvim, 2007
Sobre Marina Tsvétaïeva
nem durmo.
Não desejo nem sol, nem lua, nem mar,
nem barco.
Não penso no calor que faz entre estas
paredes,
nem como o jardim está verde;
e esse presente, que tanto desejei,
já não o espero.
Não me anima nem a manhã, nem o eléctrico
o seu tilintar alegre,
vivo sem ver o dia, esquecendo-me, do tempo,
o ano e a hora.
Sobre uma corda estragada,
eu danço – pobre dançarina.
sou a sombra de uma sombra. Sou lunar
de duas sombrias luas.
In E cantou como canta a tempestade
tradução: António Mega Ferreira, Assírio e Alvim, 2007
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Fernando Paixão
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