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domingo, 12 de abril de 2015

Marina Tsvétaïeva

Negra, como pupila, como pupila sorvendo
A luz - amo-te noite elevada.

Dá-me voz para cantar-te, ó mãe de todas as canções
Cujo canto é levado pelos quatro ventos.

Louvando-te, chamando-te, sou apenas uma
Concha onde ainda não cabe o oceano.

Noite! Já cansei de mirar na pupila dos homens!
Incinera-me, negro sol - é noite!

9 de agosto de 1916

(tradução de Verônica Filippovna)

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Marina Tsvétaïeva

CONQUISTAR-TE-EI A TODAS AS TERRAS...
Conquistar-te-ei a todas as terras e a todos os céus
Porque o meu berço é a floresta e o meu túmulo também
Porque tenho um só pé assente na terra
Porque te cantarei como mais ninguém

Conquistar-te-ei a todos os tempos e a todas as noites
A todas as bandeiras doiradas e a todas as espadas
Deitarei fora as chaves e afugentarei os cães das escadas
Porque na noite terrena sou mais fiel que um cão

Conquistar-te-ei a todos os outros e àquela única
Não serás noivo de ninguém nem eu mulher de ninguém
E na última disputa tomar-te-ei ouve bem
Àquele que Tiago não abandonou naquela noite

Mas até te cruzarem os dedos sobre o peito
Oh maldição! — tu continuas contigo e com mais ninguém
Tuas duas asas voltadas para o éter
Porque o teu berço é o mundo e o teu túmulo também

Jaya Suberg

domingo, 15 de dezembro de 2013

Marina Tsvétaïeva

Nós - as crianças, somos os reis 
do mundo das visões nocturnas.
Caem sobre nós as alongadas sombras 
brilham as lanternas por detrás das janelas,
escurece o tecto do salão, 
os espelhos absorvem o seu rasto... 
Não há tempo a perder! 
Alguém sai do canto.

Debruçamo-nos os dois por cima do piano negro
e o medo chega-se a nós, 
embrulhados num xaile da mamã

nem respiramos, pálidos de terror.
Vamos lá ver o que se passa 
por baixo da cortina das trevas inimigas. 
Os rostos deles fundiram-se no escuro, 
-de novo saímos vencedores!

Somos os elos de uma mágica cadeia
e no fragor da batalha jamais desfalecemos.
Aproxima-se o combate derradeiro,

e com ele há-de perecer o reino das trevas. 
Os adultos inspiram-nos desprezo,
pela rotina adormecida dos seus dias...
Nós sabemos, sabemos muita coisa
do muito que eles não sabem.

[Marina Tsvétaïeva in E Cantou como Canta a Tempestade]


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Marina Tsvétaïeva


38. DE TSVÉTAÏEVA PARA RILKE
Saint-Gilles-sur-Vie, 2 de agosto de 1926

(...)
Quando um de nós sonha em conjunto — é quando nos encontramos.
Rainer, se eu quiser ir até junto de ti, é devido também ao meu novo eu, que só conseguiu nascer contigo, em ti. E, por isso, Rainer («Rainer»: o leitmotiv da minha carta), não me queiras, sou eu a má, quero dormir contigo — adormecer e dormir contigo. Esta expressão popular, como é verdadeira, profunda, sem equívocos, como diz bem aquilo que diz. Simplesmente dormir. Nada mais. Ou seja: aconchegar a minha cabeça no teu ombro, passar o braço pelo teu ombro direito — nada mais. Ou seja: saber, no sonho mais profundo, que és tu. E ainda: como bate o teu coração. E — beijar o teu coração.
Às vezes digo a mim própria: deves explorar o acaso de seres ainda (pelo menos!) um corpo. Qualquer dia ficarei sem braços. E ainda: o que vai parecer uma confissão: vangloriar-se das suas dores! Quem poderá falar dos seus sofrimentos sem ficar entusiasmado, fe­liz?!) — Não é necessário que tenha o ar duma confissão: os corpos aborrecem-se de mim. Adivinham qualquer coisa e não acreditam em mim (não acreditam no meu) ainda que eu faça o que toda a gente faz. De forma demasiado... desinteressada, talvez demasiado... benevolente. Demasiado confiante, também. São as pessoas de antigamente (os selvagens), ignorantes de usos e leis, que são confiantes. Os de agora não têm confiança! São coisas que já não têm lugar no amor, o amor não entende e não sente nada a não ser a si próprio, de forma muito localizada e pontual, e isso, eu não consigo contrariar. E — a grande compaixão, quem sabe donde virá, a bondade infinita e — a mentira.
Sempre me senti mais velha. Os jogos infantis demasiado sérios, eu não o bastante.
Sempre entendi a boca como um mundo: abóbada celeste, ca­verna, garganta, abismo. Sempre traduzi o corpo em alma (desincar­nado!), e de tal maneira magnificado o amor «físico» — para poder amá-lo — que dele, de repente, não restava mais nada. Ao abismar-me nele, afundava-o. Ao afundar-me nele, afastava-o. E de tudo não ficava mais nada senão eu: uma alma (é o meu nome, daí a admiração perante o meu dia!)
O amor odeia o poeta. O amor não quer ser magnificado (sen­do por si bastante magnífico!), toma-se por um absoluto, o único. E não confia em nós. Sabe, no mais profundo de si próprio, que não é magnífico (daí a sua tirania!), sabe que toda a magnificência é — alma, e onde a alma começa, o corpo acaba. Puro ciúme, Rainer, o mais puro. Como o da alma perante o corpo. Mas eu sou sempre ciu­menta do corpo: gratificado por louvores tais! O pequeno episódio de Paolo e Francesca. — Pobre Dante! — Quem hoje pensa ainda em Dante ou em Beatriz? É da comédia humana que eu sou cimenta. A alma não é nunca amada como o corpo, ou melhor: louva­da. Ama-se o corpo de todos esses milhares de almas. Quem alguma vez se fez condenar por uma alma? E haverá alguém que quisesse — impossível: amar uma alma até à condenação — isso é já ser um anjo. Nós somos frustrados pela totalidade do inferno: (... demasia­do puro — provoca um vento de desdém!)
Por que é que eu te falo nisto? Pela inquietação talvez, de que não vejas em mim nada a não ser uma apaixonada comum (paixão — servidão). «Amo-te e quero dormir contigo», um tal concisão não permite a amizade. Mas digo-o doutra maneira, quase em esta­do de sonolência, firme no meu sono. E a coisa não me soa como paixão. Se me apertasses contra ti, apertarias os lugares mais desertos. Tudo o que não dorme jamais quereria encontrar o seu sono nos teus braços. Até ao fundo da alma (da garganta) — assim seria o meu beijo. (Não um incêndio: um abismo.)

Je ne plaide pas ma cause, je plaide la cause du plus absolu des baisers."
________________________________

Tu andas sempre em viagem, não vives em lugar certo, e encon­tras russos que não são eu. Ouve-me, uma vez por todas: na Raineria, só eu represento a Rússia.
Rainer, no fundo, quem és tu? Não és alemão — ainda que se­jas a Alemanha inteira! Não és da Boêmia — ainda que tenhas nas­cido lá (N.B.! nascido num país que ainda não existia) não és austríaco, porque a Áustria era e tu — passas a ser! Isto não é magní­fico? Tu — sem país. «O maior poeta checoslovaco», escrevem os jornais parisienses. Eis-te portanto eslovaco, finalmente, Rainer. O que não deixa de ser engraçado.
Rainer, a noite cai, e eu amo-te. Um comboio uiva. Os comboios são lobos, os lobos são a Rússia. Não é um comboio — é a Rússia inteira que uiva perto de ti. Não te zangues comigo, e zangado ou não, esta noite dormirei contigo. Uma falha na escuridão, porque há estrelas, e eu fecho a janela. (Quando penso em ti e em mim, penso numa janela, não numa cama.) Com os olhos grandes, abertos, por que lá fora, está mais escuro que cá dentro. A cama é um barco, partimos em viagem.

... E um dia nunca mais se viu.
O pequeno barco sem velas,
Cansado dos malditos oceanos 
Vogando no país das estrelas —
Tinha ganho o paraíso...
(Canção infantil de Lausanne)

Não precisas de responder — a não ser ao beijo.
M.

P.-S. A propósito de ter razão (de estar no seu direito): «A natu­reza também é não natural» (Goethe), deve ser isso o que tu querias dizer (natureza: direito) Os déserts lieux são uma prenda de Boris de que te faço presente.

In Rilke / Pasternak / Tsvétaïeva Correspondência a Três, trad. do francês Armando Silva Carvalho, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006, pp. 268-271

Saint-Gilles-sur-Vie

terça-feira, 16 de julho de 2013

Marina Tsvétaïeva

DO CICLO "INSÔNIA"
“Gosto de beijar”

Gosto de beijar 
As mãos, e gosto 
De semear os nomes,
E ainda - escancarar 
As portas!
- Abertas - na noite escura!

Apertando a testa,
Escutar como o passo grave 
Se torna leve,
Como o vento embala 
A floresta insone 
Que quer dormir.

Ah, noite!
Algures correm riachos. 
Estou com sono.
Durmo, eu acho.
Algures, na noite,
Alguém se afoga.


27 de maio de 1916

In Indícios Flutuantes, trad. de Aurora F. Bernardini, São Paulo, Martins Fontes, 2006,  p. 19.

Summer Night
Edvard Munch

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Marina Tsvétaïeva

“O que aos outros não é preciso - tragam para mim”´

O que aos outros não é preciso - tragam para mim! 
Tudo há de queimar em meu fogo!
Atraio a vida, atraio a morte 
No leve regalo de meu fogo.

A chama gosta - de substâncias leves:
O mal passado, - grinaldas - palavras.
A chama - arde desse alimento!
Levante-se pois - mais puro que a cinza!

Ave-Fênix - só no fogo eu canto!
Mantenham minha vida elevada!
Eu queimo alto - e queimo até o fim!
E assim a noite ser-lhes-á - clara!

Fogueira de gelo, fonte de fogo!
Levanto ao alto meu talhe elevado,
Levanto ao alto minha alta estirpe - 
De Herdeira e Conjurada!

2 de setembro de 1918

In Indícios Flutuantes, trad. de Aurora F. Bernardini, São Paulo, Martins Fontes, 2006,  p. 51.


domingo, 14 de abril de 2013

Marina Tsvétaïeva

Eu não penso, não me queixo, nem discuto,
nem durmo.
Não desejo nem sol, nem lua, nem mar,
nem barco.

Não penso no calor que faz entre estas
paredes,
nem como o jardim está verde;
e esse presente, que tanto desejei,
já não o espero.

Não me anima nem a manhã, nem o eléctrico
o seu tilintar alegre,
vivo sem ver o dia, esquecendo-me, do tempo,
o ano e a hora.

Sobre uma corda estragada,
eu danço – pobre dançarina.
sou a sombra de uma sombra. Sou lunar
de duas sombrias luas.

In  E cantou como canta a tempestade
tradução: António Mega Ferreira, Assírio e Alvim, 2007


Sobre Marina Tsvétaïeva 




Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...