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domingo, 27 de setembro de 2015

W. H. Auden

LUNAR, ESTA BELEZA

Lunar, esta beleza
E primeva, inteira,
Não tem nenhuma história.
Se a beleza mais tarde
Exibe algum traço,
Foi porque teve amante,
Já não é como antes.

Nisto, qual em sonho,
Vige um outro tempo,
Perdido se o dia
De tudo se apropria.
O tempo são centímetros
E mudanças de alma
Que espectro assombrou,
Perdeu e desejou.

Mas isto, por certo,
Não foi coisa de espectro,
Nem espectro, ela finda,
Sentiu-se a gosto, ainda,
E enquanto persista,
Nem se chega amor
A tal doçura e a dor
Tampouco lhe vem dar
Seu infinito olhar.

(J. P.P.)

[In Poemas, Seleção de João Moura Jr., Tradução e Introdução: José Paulo Paes e João Moura Jr., São Paulo, Companhia das Letras, 1986, p. 35]



segunda-feira, 7 de julho de 2014

W. H. Auden

RIMBAUD
As noites, os arcos da ferrovia, o feio céu,
Não o sabiam sequer suas horríveis companhias;
A mentira retórica, qual chaminé, o
Queimava em criança: do frio nascera a poesia.

O álcool que o amigo fraco e lírico ofertara
Metodicamente os sentidos desregrou,
Pôs fim ao contra-senso ao qual se acostumara;
Até que de lira e fraqueza se afastou.

O verso era uma doença especial do ouvido;
A integridade não era o bastante; ali estava
O inferno da infância: devia tentar de novo.

Agora, cavalgando em África, sonhava
Com um outro eu, um filho, alguém bem-sucedido,
E sua verdade aceita pelos mentirosos.

Dezembro 1938

[In Poemas, Seleção de João Moura Jr., Tradução e Introdução: José Paulo Paes e João Moura Jr., São Paulo, Companhia das Letras, 1986, p. 73]

- Sobre este poema, leiam o interessante artigo de José Castello: Auden e o Imperfeito

By Ricardo Humberto

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

W. H. Auden

HERMAN MELVILLE
(A Lincoln Kirstein)

Perto do fim velejou rumo a uma extraordinária mansuetude
E ancorou em sua própria casa e chegou até a esposa
E vogou dentro do golfo da mão dela
Que atravessava todas as manhãs para ir a um escritório
Como se a sua ocupação fosse outra ilha.

A bondade existia: era esse o saber novo.
Seu terror teve de arder até esgotar-se
Para ele poder vê-la; mas fora o temporal que o arrastara
Além do cabo Horn do sucesso perceptível
Que brada: “Este rochedo é o Éden. Naufragai aqui.”

Ensurdeceu-o com trovões, porém; com raios confundiu-o:
— O herói maniaco a buscar, como se joia,
O raro monstro ambíguo que o sexo lhe arruinara,
Ódio por ódio terminando em grito,
O inexplicado sobrevivente atalhando o pesadelo —
Tudo isto era intrincado e fácil; a verdade era bem simples.

O Mal é pouco aparatoso e sempre humano
E partilha o nosso leito e come à nossa mesa,
E somos apresentados à Bondade todo dia,
Mesmo em salas de visita entre uma turba de enganos;
Tem um nome, algo assim como Billy, e é quase perfeito,
Mas ostenta uma gagueira como se fosse enfeite;
E toda vez que se encontram o mesmo tem de acontecer;
É o Mal que qual amante se vê só e sem socorro
E lhe cumpre puxar briga e dela sair bem,
E ambos claramente se destroem aos nossos olhos.

Pois agora ele estava desperto e bem sabia
Que ninguém é poupado nunca, exceto em sonhos.
Mas havia algo mais que o pesadelo distorcera —
Mesmo o castigo era humano e uma forma de amor:
A tormenta a rugir fora a presença do seu pai
E no peito do pai havia sido carregado o tempo todo.

O pai agora o pôs no chão, com jeito, e foi-se embora.
Ele ficou de pé na exígua sacada, ouvido à escuta:
Como na infância, os astros cantavam lá de cima
“Tudo é vaidade, tudo’’, mas não era a mesma coisa;
Pois agora as palavras desciam como a calma das montanhas —
— Nathaniel havia sido tímido porque o seu amor era egoísta —
Renascido, gritou, de exultação rendido:
“A Divindade partiu-se como um pão. Nós somos os pedaços.”

E sentou-se à escrivaninha e escreveu um conto.
(j. P.P.)

[In Poemas, Seleção de João Moura Jr., Tradução e Introdução: José Paulo Paes e João Moura Jr., São Paulo, Companhia das Letras, 1986, pp. 83-85]

OLIVER RAY



domingo, 13 de outubro de 2013

W. H. Auden

ACALANTO
Pousa, amor, a cabeça sonolenta,
Humana sobre o meu braço inconstante;
A beleza das crianças pensativas 
Tempo e febres consomem lentamente 
E cabe à tumba mostrar quão efêmeras 
Essas mesmas crianças vêm a ser:
Mas que em meu braço, até que nasça o dia, 
Possa repousar a viva criatura,
Mortal e culpada, e, no entanto, para 
Mim a coisa mais bela de se ver.

Nem a alma nem o corpo têm amarras:
Para os amantes, quando eles se deitam 
No seu declive indulgente e encantado, 
Tomados da languidez costumeira,
Intensa é a visão que Vênus manda 
De uma simpatia sobrenatural,
De esperança e amor generalizado; 
Enquanto uma abstrata intuição desperta, 
No meio das geleiras e das pedras,
Do eremita o êxtase carnal.

Certeza e fidelidade se estiolam 
Quando bate meia-noite o relógio 
Como se fossem vibrações de um sino,
E lançam seu pedante palavrório,
Aos gritos, os delirantes em voga:
Os últimos centavos a pagar — 
Assim o prevê o baralho mofino —
Serão saldados; porém, desta noite,
Que não se perca nenhum pensamento, 
Nenhum suspiro, nenhum beijo ou olhar.

A beleza, a meia-noite e a visão morrem: 
Deixa os ventos do amanhecer, que sopram 
Suaves em tua sonhadora cabeça,
Exibirem um dia de tal forma
Propício que o olho e o coração o saúdem,
Satisfeitos com o mundo mortal;
Quer a secura meridiana te veja 
Nutrida pela força involuntária 
E permita-te ir a noite adversária 
Guardada pelo amor universal.
(J. M.J.)

Sobre W. H. AUDEN 

[In Poemas, Seleção de João Moura Jr., Tradução e Introdução: José Paulo Paes e João Moura Jr., São Paulo, Companhia das Letras, 1986, pp. 45-47]

                 Rio Villegas 

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...