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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Helder Magalhães

pouco sabemos
guarnecemos o poema em papel
vegetal
na esperança que
as palavras amoleçam
ou o bolor
cresça entre as fendas

se o poema estiver quente
o tempo encarregar-se-á
de guardar as lágrimas

as nuvens carregam canções
ânsia de donzelas
ao parapeito da janela
como se antecipassem a chuva
pelos mancebos
que cavam na terra o destino
dos pés a caminho da guerra

pouco sabemos
embrutecidos pela ferrugem
e osso do silêncio
que sepultámos na tracção
da saliva
garganta abaixo

*****
na certeza das manhãs, alui-se-me
o sonho. os olhos
debruçados da janela para a rua
alcançam os pingos
de chuva a sumirem nas cabeças
sem chapéu. inunda-se-me
a alma entre a espessura baça
do vidro da janela e
o caleiro.
num instante do vazio, rio,
porque isso do choro é um soro,
que anestesia candida
-mente.
cérebros há que estão enxutos e
desertos, outros pântanos
de areias movediças. eu
comovo-me.

*****
que a voz da palavra te seja mosto
a fermentar na garganta
o vinho encarregar-se-á de ser corpo à boca

não receies a espera
o tempo que demora a ser
só os elefantes sabem o percurso da morte

faz o caminho
ainda que as faces ásperas
as mãos hão-de burilar a pedra
e o rosto luz.

noticiam a probabilidade de cair
neve
espero que não seja mais uma
precipitação
que ainda não me recompus
da última queda
e à poesia supus todos
os precipícios.

*****
dormes
o devir da respiração
no vale entre os teus seios
um rio
pele a luzir todas as estrelas

dormes
na cama a que nus nos entregámos
e te velava o sono
da aurora da noite
ao sol do amanhecer
e eu resistia a dormir
para me cobrir no lençol
que da tua boca
se tecia

dormes
sou um coração ao relento
apenas com o tecto dos teus olhos
e o choro do orvalho na madrugada.

Lilian Westcott Hale. Pinterest



quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Helder Magalhães

POEMA PARA DIZER NATAL

trago um menino no peito
e os dedos cobertos de musgo
vêm adorá-lo
tocam-lhe a melodia dos anjos
sobre a cicatriz exposta
lateja mais forte
que as baladas que o anunciam
o pai é-o sem ter sido filho
e a mãe cose-lhe botões e botões
de flores
trago um menino no peito
rebenta-lhe o choro de ver a luz
do parto todos os dias
os dedos cobertos de musgo
peregrinos do rosto
submerso em um líquido
de matéria interestelar
a casa compreende-se entre
paredes de silêncio e águas-furtadas
a céu aberto
trago um menino no peito
e os dedos cobertos de musgo
arranham uma fome
e um frio de deslumbre
há-de cumprir-se pela gotícula
do orvalho sobre o jarro
aberto.
(Poema reproduzido com autorização do autor)
Ilustração: Rogier van der Weyden (1400-1464), São Lucas desenha a Virgem, têmpera, no Museu de Belas Artes de Boston.  





quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Helder Magalhães

ainda que trémula seja a luz, é na claridade
das manhãs de outono, que do sono se me
erguem sensações do infinito. acredito em
o princípio das folhas escritas ao longo das
estações, que desmaiam perante a vertigem
da queda ao parapeito da janela. oiço-lhes
a caligrafia dos pássaros e desvendo-lhe os
mistérios das árvores. sinto o devir da raiz
no ventre da terra e sou perfusão do musgo
à textura da casca. dura um sopro de vida
aquela cicatriz aberta para a criança que fui
algures num berço alheio, origem deste ser
precipício.

_________________________

a lonjura das estrelas silencia
o retinir dos sinos
amparas o pêndulo do tempo
entre as tuas mãos
a cidade baloiça no compasso maior
que as madeixas dos teus cabelos edificam
há pomares de laranjeiras
nas terras férteis do teu peito
e gomos a desfazerem-se
na carne dos teus lábios
por dentro dos teus olhos
o tempo permanece etéreo.

___________________________

caríssimos poetas
é com imenso pesar
que vos comunico
uma enorme tragédia
os versos padecem de míldio
uma praga vinda
sabe-se lá donde
abateu-se
sobre cada sílaba
os versos padecem de míldio
e agora o poema
interrogais vós
meus caros
fazedores de rimas
os versos padecem de míldio
esperai e bebei
a baco
que não falte
o tabaco.

____________________________

um pássaro nocturno
a tua casa de luz
como uma árvore
as folhas janelas entreabertas
e os ramos parapeito
a que poiso enamorado
estremeço e permaneço
voo por dentro
e detenho-me
como só os que se abraçam
se detêm
no espaço a que o amor
tem lugar.

Publicados com permissão do autor. 

[Helder Magalhães é um escritor português, autor de Na Fúria do Nós (2009)  e Iluminado (2011)]. 

By Lucien Freud

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...