MANHÃ
Bela é a terra
belas são as nuvens
belo é o dia
e muito intenso é o amanhecer.
Assim cantava um homem olhando para baixo, a cidade,
de onde fumegava uma bateria de cem chaminés.
E o pão da mesa era um segredo,
de vê-lo palpitava a fronte
o homem levantou alto o braço
e entre risos dançava ao redor, desfraldado.
O sabor do pão recorda a luz do sol
ao comê-lo, do pão irradiam raios.
Depois, indo para o trabalho, o homem sentiu o amor
e mencionou-o às pedras da rua.
Amo a matéria que é só um espelho que gira.
Amo o movimento do sangue, única razão do mundo.
Creio na destrublidade de tudo o que existe.
Para não perder-me, tenho na mão um lívido mapa de veias.
ESTE MUNDO
Acontece que houve um mal entendido.
Tomou-se por literal o que não passava ainda de uma prova.
Os rios voltarão às suas origens,
o vento deixará de dar voltas.
As árvores não brotarão e voltarão às suas raízes.
Os velhos correrão atrás da bola,
Olhar-se-ão no espelho e serão outra vez meninos.
Os mortos despertarão sem compreender.
Até que todo o andado se desandará.
Que alívio! Respirai, vós que tanto haveis sofrido!
(Versão: Antonio Cabrita)
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terça-feira, 24 de julho de 2018
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Czeslaw Milosz
CONJURO
Bela é a razão humana e invencível.
Nem grades, nem arame farpado, nem trituração de livros,
Nem a condenação ao exílio nada podem contra ela.
Ela instala nas línguas ideias universais
E guia nossa mão, de sorte que escrevemos com maiúscula
Verdade e Justiça, e com minúscula mentira e iniquidade.
Acima do que é ela ergue o que deveria ser,
Inimiga do desespero, amiga da esperança.
Ela não conhece judeu nem grego, servo ou senhor,
Confiando a nosso governo o ofício comum do mundo.
Da vil balbúrdia das palavras atormentadas
Ela salva as frases severas e claras.
Ela nos diz que tudo é sempre novo sob o sol,
Abre a mão petrificada do que já foi.
Bela e muito jovem é a Philo-Sophia
E a poesia, sua aliada a serviço do Bem.
A natureza ainda ontem festejou seu nascimento,
O licorne e o eco trouxeram a notícia às montanhas.
Gloriosa será esta amizade, seu tempo não tem fim.
Seus adversários fadaram-se à destruição.
Berkeley, 1968
[Não mais, Coleção Poetas do Mundo, seleção, tradução e introdução de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza, Brasília, Ed. UNB, 2003, p. 73]
Sobre CZESLAW MILOSZ
Bela é a razão humana e invencível.
Nem grades, nem arame farpado, nem trituração de livros,
Nem a condenação ao exílio nada podem contra ela.
Ela instala nas línguas ideias universais
E guia nossa mão, de sorte que escrevemos com maiúscula
Verdade e Justiça, e com minúscula mentira e iniquidade.
Acima do que é ela ergue o que deveria ser,
Inimiga do desespero, amiga da esperança.
Ela não conhece judeu nem grego, servo ou senhor,
Confiando a nosso governo o ofício comum do mundo.
Da vil balbúrdia das palavras atormentadas
Ela salva as frases severas e claras.
Ela nos diz que tudo é sempre novo sob o sol,
Abre a mão petrificada do que já foi.
Bela e muito jovem é a Philo-Sophia
E a poesia, sua aliada a serviço do Bem.
A natureza ainda ontem festejou seu nascimento,
O licorne e o eco trouxeram a notícia às montanhas.
Gloriosa será esta amizade, seu tempo não tem fim.
Seus adversários fadaram-se à destruição.
Berkeley, 1968
[Não mais, Coleção Poetas do Mundo, seleção, tradução e introdução de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza, Brasília, Ed. UNB, 2003, p. 73]
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