Mostrando postagens com marcador Isabel Mendes Ferreira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Isabel Mendes Ferreira. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Isabel Mendes Ferreira

214.

que fazes inês sentada entre os cardos se estes te são cães
desamparados, que água te seca a pele e reduz a osso os
olhos pergunta pedro como se a resposta viesse cheia de
espinhos e de cartas em branco, despeço-me. despeço-me
dos lugares que não vi dos abandonos que sepultei e das
lágrimas que ousaram cozer o pão à sombra de um fogo
sem espólio.________________ e assim se deixou inês
no domínio imperfeito de uma mesa sem lugar marcado
para o rascunho da luz. a trinta e um de maio serviu-se
de um livro de estrelas para salvar o dia que nunca foi
outro nem de ouro nem anteprimeiro dos símbolos,
gratuita inês das rosas mortas a ser história sem esposo
nem despojos, apenas hóspede de um momento que
já era outro, adeus pedro que és rei das pedras e da
prudência imaculada, fica neste lugar binário, ergue-
te maior e mais hino. sobe à palavra vária e faz-me um
verso como epitáfio terno._____________________
que fazes inês assim morta e luminosa se agora não
voltas aos meus braços, nada. nada que antes já era
descoincidente. guarda-me a presença ao centro dos
cardos._____________ que volto pensante e viúva de
mim. lá fora aguardam-me abutres e serpentes, anéis dos
impasses imaginários, a trinta e um de maio veste-se inês
para morrer, já suficientemente morta.

215.

confiar no inefável ser amigo de Deus
apreender o indizível com palavras repetidas ao ritmo
do coração e manter as cinco orações diárias, às horas
prescritas, a fim de conversar com Deus de coisas
práticas__________ António Barahona
como por exemplo perguntar oh deus por onde andas
que andas tão do tamanho de uma porta fechada
onde as crianças de ontem morrem hoje selvagens e
assombrosamente abandonadas... que surdez de nó
cego te faz mudo perante o nome anónimo das árvores
que sangram em cada ruga em cada nervo em cada
dente enterrado no mais obscuro seio seco e rude.
como confiar-te oh deus esta esperança sem coração
se explodes em sono e em leite crivado de fossos e
de fomes, que criança és tu oh deus que esqueces a
folhagem do esplendor, em horas práticas de paisagem
calcinada, corrente de halos abastecida de gramática
ardida e água de sal.________ conversa inútil a um deus
de cordeiros sacrificados, em dia de ser criança, ainda e
já rouca de tanta miséria, esqueci de emendar o caos.

[In O TEMPO É RENDA, Lisboa: Labirinto de Letras, 2014, pp. 144-145]



domingo, 24 de maio de 2015

Isabel Mendes Ferreira

127.
com o corpo a ser campânula nos ombros lisos da água
fez-se película a morte em vez de viagem.

com as palavras surdas
e o coração em contrabaixo disse o profeta que seriam
horas de resgatar o anel a pedra e a tensão do sonho.

mais uma estrela e as tuas mãos submarinas seriam a
planície.
o profeta morreu e andam gaivotas no tecido que é caos.
assim se prende o rio do esquecimento à bainha do mar.

assim a face oculta que te assenta como
máscara.

128.
e um rio inteiro extenuava-se insatisfeito de ser água
sem margem, crispada a noite reincidiu em anel de
horizontes cativos, e como sílabas apolíneas vieram os
anjos, morrer estava fora do assombro, melhor seria a
mordaça e um olhar perfectus.
e logo o rio se fez nave a descrever imaginífica e
desvelada luz. assim a morte nunca será pedra, antes
maré ôntica. 

129.
dilatada a terra em que nos fazem ser sangue e ausência,
esventradas sombras como falsas muralhas de pele
rasgada, a subtileza é um mapa abandonado e neste
murmúrio cego de acento agudo sento-me à espera,
de um baptismo de espinhos redentores, que na flor é
declínio de ramagem, e nos teus olhos rotação de astro
desértico, serpentiforme o movimento anterior à fala.

130.
um dia uma ilha subiu aos céus. é verdade, existem
mistérios assim, feitos de escritos absurdos e
instáveis, um dia a unidade fez-se apenas intuição rasgo
e instância fora da pele do abandono, quilha disforme
que nenhum porto segurou, nem pelas redes que a lua
cuspiu.

um dia a infância deu à costa nas costas incomunháveis
reminiscentes e visionárias do futuro que não foi nem
história nem origem, o mistério luminoso do mundo é
ser desmascaramento e antítese, morde-se a cauda da
serpente para ser-se eterno e nada é. em círculo só a
boca. como ilha. mesmo que nada pareça ser tudo sugere
e os verdadeiros contrários são ângulos redondos

[In O TEMPO É RENDA, Lisboa: Labirinto de Letras, 2014, p. 086-087]


By Jörg Eichelberger



sexta-feira, 15 de maio de 2015

Isabel Mendes Ferreira

a relação que tenho com os anjos tenho-a com o mar onde me faço memória
bicéfala para te ser distância fácil e perto e rasante à terra onde não moras
mas voas como o vento ou como a saudade do imprevisto visto em hipnose.
é assim como vestir a nudez e despi-la de sinónimos antigos onde somos
todos ex.brilhos de frases cálidas e opalinas como o tempo da cal
adormecida. oscilas me em sílabas hemisféricamente opostas à fala onde me
falas de abalos e de nomes afiados de sal e de música peregrina como os
lírios que me atiras em segredo. nesta relação epistolarmente púrpura
adormece a mão familiar de um anjo narrador de exílios e de véus amantes
de uma luz que o mar estilhaça.________tenho-te acima da ruína e ao lado
de um coração embriagado. assim diria a boca se esta fosse fonte. mas
somos apenas mais terra queimada onde tudo é perdidamente longe. tão
ao longe que os ossos estalam
na tua mão sobre o meu ombro e desfazem-se em olhos tardios ocos e
invigilantes. olhos com pestanas de sangue cognitivamente anunciadores da
paralisia do futuro. um moinho de conflitos trágicos a ser excesso de fardo na
divina ciência dos teus dentes indicadores do fim. e um dia a carne farisaica
entrou ressurrecta no teu bolso de alquimista do vento. símbolo de um
passado morto aos pés de uma escada descendente. que nunca subiu os
passos dos amantes . era a excelência dionísica de um seio novo a
amamentar a imortalidade. mesmo que por um só momento pendular da
ausência do eco. foi assim o mar que devolvemos ao fundo de todos os
fundos. de onde se volta nu e degolado. de vidro ou vitrais sem destino outro
que não seja a morte. e um dia o efémero dos teus olhos fez-se eterno na
terra do nunca. onde o sagrado é origem e verbo irmão da memória
amordaçada. um fósforo. uma campânula. uma ressonância madura de
monstros e de anjos. lá onde os pássaros explodem serpentinamente. e tu
não vês. porque inverso às marés és da terra que se abandona.
ruinosamente.

e hoje não te semeio rosas. que és ainda menino de ninguém.

© Isabel Mendes Ferreira



segunda-feira, 9 de março de 2015

Isabel Mendes Ferreira

139.
vim do mar. da mesa do mar. que dizia pálidos os
vestidos lançados ao chão. em vagas ou implantes dos
teus dentes como verdades, e da lã das tuas mãos como
cordeiros mansos trouxe a penitência ascendida da boca
dos animais mais ternos, vim do mar que hoje estava
de oliveiras e de fragmentos territoriais, os mesmos
quando fomos transeuntes álgidos e ardis sem envelopes
fechados, as tuas mãos como andas andaram nas minhas
como se asas também fossem, e os peixes abrigaram-
se nos teus pés. cruzados, relutantes no meio da sala
fulgurosa. e um anjo absurdamente coloquial dizia das
assimetrias do teu sorriso e do meu silêncio carnoso,
ocupaste o lugar de todos os ofícios como se ocupa a
lâmina e o fio. ao longe o futuro aquecia o vinho da
despedida em lugar do transe ou da melancolia, e floriu-
se o anjo de beijos primitivos, fez-se espelho e pedra e
lágrima e perfume e cabeça em desmaio, trago do mar
uma foice, latejante o mistério ávido em que te anuncio
nunca mais outra vez. a maré alta como advérbio
mortífero, água em calafrio e deus cheio de vestidos
lançados ao chão. e tu ao largo, sempre ao largo, cada
vez mais véu. o meu.

[In O TEMPO É RENDA, Lisboa: Labirinto de Letras, 2014, p. 092]

BY MICHELA BEVILACQUA

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Isabel Mendes Ferreira

159.
e dizer-te que somos apenas selvagens na melhor das
asceses, inconfidentes do milagre assustado de ao
contrário da vida iludirmos a própria ilusão, nus e
desolados, inconfortados. ilhas sim como já te tenho dito
meu anjo sofrente das horas que nunca foram nossas,
nem outras.
afinal o espanto é mudo o poder uma fonte a secar no
verão e nada nos é amparo nos dias de assombrosas
intimidades._______________ sendo que agir ou
esquecer é tão volátil como o julgar julgamos a distância
e os flagelos como olhos dentro do tempo, inexplicável
aparição de uma palavra mensageira, ela mesma ilha
dentro de um continente, mortalha.___________
não me digas que os abutres são o coro peremptório das
ligações intoleráveis, as ditas do inferno,
desdirei que somos, e que o método de aceder ao
labirinto é mais profano e hermético que um texto
embaciado de sínteses e alegorias, sem ti____ anjo____
sou mais fora de mim. cegante de ensaios que os outros
ensaiam em nome de um impressionismo que é ponte
para lugar nenhum, sou desta dialéctica pronta a despir
em nome de uma asa que só tem o teu nome. fora desta
órbita é falível o voo? que seja. ondulante.

o tempo é renda no ventre plano da saudade

não espero nada. sou assim como a desintegração, evento
cardume película e animal de infância__________
cume e discrepância, gula e palha, ampla a memória
do que sendo ávido é recato, não tenho medo das
horas nem da gelatinosa aparência que se pretende luz
sendo sombra, mais ao longe tudo me fica brando e
enquanto me curvo convulsa e herege ergo-te a face da
multiplicação do verbo, é teu o livro que não escrevo,
é nosso o ventre plano da saudade, redondo só o
futuro._________________ peregrino em cada carta
que o fogo ateia.
enquanto lá fora se fazem teias de arame e pétalas
hipnotizantes as mãos são gruas tubulares de água. tudo
o que nos é condicionante, era verão, lembras? na mesa
do mar.
mas afinal o tempo é mesmo só r e n d a
que a saudade essa sim é plana rasa e arrasa, desfaz
o peito, curva o corpo, destroça a raiz. estala a
pele._______________ já macerada de luas que
arderam aos teus pés. concebo-te estio, sempre, mesmo
na linha espumosa deste inverno.

[In O TEMPO É RENDA, Lisboa: Labirinto de Letras, 2014, pp. 106-108]


sábado, 27 de setembro de 2014

Isabel Mendes Ferreira

O CONTO DO CANSAÇO

"Só vejo pegadas, ruínas, sepulturas, a ferrugem, o musgo e o verdete... lembranças que o Tempo deixa sobre as coisas." 
Teixeira de Pascoaes

o Fernando está longe, também eu. também a memória. também o fogo. também aquele pôr-do-sol rente aos penedos sobre o mar dos sentidos, 
estou para além da luz. concha decepada pelas tempestades de abril não sei de nenhum abrigo, o Fernando escreveu-me ontem, uma carta em branco, um título para a saudade, uma ponte no ar rasgando o futuro em nuvens de sílabas cinzentas, carregadas de renúncia.
era sábado à tarde, uma melancolia doce descia para o cais e do cais vinha o cheiro das sardinhas, das redes e dos barcos, dos homens maduros com palavrões dourados na ponta dos bigodes ruivos, entrei numa tabacaria escura onde uma viúva atiradiça vendia selos, fósforos, totobolas, rifas, livros usados, marcas de cuspo nas folhas dobradas e papel de carta.
comprei um bloco, papel azul com riscas vermelhas, uma relíquia esquecida numa prateleira suja. um sorriso de boa-tarde e saí para a rua. fui andando perdida e leve. quando o ar se tornou mais denso sentei-me num banco de jardim.

os jardins de sábado têm um gosto de paraíso perdido. como uma catedral sem paredes onde os anjos tomam banho e brincam com as pombas, e quis responder ao Fernando, àquela carta sem palavras.
mas só me lembrei da música de Stravinsky. dos poemas de Pascoaes. das tranças de Madalena, dum esqueleto branco, dum quadro de Matisse e duma cesta de maçãs sobre uma mesa de pinho, e muita gente calada.

abri o coração a Horácio. Baco. Lutero e a Sancho. doía-me o corpo de tanta palavra coincidente, eram cores demais na aquarela do meu cansaço, deixei que o tempo fosse um fantasma e esqueci-me de sentir.

um polícia intrigado talvez com a minha imobilidade. confundindo-me com uma estátua de neve assoprou-me as pálpebras, abri os olhos abertos num abismo de sombras e moinhos e vi que os seus olhos eram lilases, perguntou-me se estava bem. respondi-lhe que estava louca, e ele sorriu, e disse então boa-tarde.
eu sorri e disse então adeus d. quixote. e o papel azul continuava sem palavras, num esforço último peguei num lápis de carvão e escrevi. Fernando sinto-me tão só. e disse tudo. fechei o envelope, caixão? e um cansaço mortal invadiu-me o corpo que já sentia dormente.
enderecei-me sem remetente e quando a noite chegou veio a carrinha do lixo.

pegaram-me com ternura e assim me despedi da melancolia de sábado à tarde.

[In A mais loura de Lisboa, Lisboa: Difel, 1984, pp. 77-78]


quinta-feira, 15 de maio de 2014

Isabel Mendes Ferreira

(fora de tempo)
de nada te serviu o deslumbre a fome a mirra a fuligem o ouro o vestido o emaranhado das silvas nos cabelos mercuriais nem os seios incontinentes a caírem das árvores como nêsperas cadavéricas nem as cartas aos amigos nem o retrato de vénus em focagem ácida para disfarçar o mal maior da mentira menor. de nada serviu seres o servo disponível e atento como o vento do norte a ser agenda sem data marcada para o passado. porque o presente é um poço onde a tensão da água se sente mar profundo povoado de mistérios e mostrengos. a cada momento foste pombo de correio sem asas e cavalo altivo de pupilas elípticas e palavras elásticas que davam para tudo e para todos e para o futuro. e porém de nada te serviu o fértil envio de metáforas caídas como anjos crucificados no pó. ossos geometricamente calcinados por um punhado de sirenes agudas mesmo ao centro da garganta antes ave agora muda. que nunca mudará nem a honra nem a memória. _______________________ agora sim finalmente fora de qualquer tempo.
em nome de todos os muros. que nada nem ninguém é justificável. apenas pobres heterónimos. fascinação de todos os fins.

Via Facebook. Todos os direitos reservados. 


sábado, 30 de novembro de 2013

Isabel Mendes Ferreira

e a montanha vai parindo ratos. brancos de névoa. inchados de adjectivos. cruzados de esteróides de madalenas e tibérios e salomés com pés de chumbo e flores mortas em vez de letras de flaubert. e assim os dias são carne para canhão e feitos de títulos apoetizados pela ganância do medo em hasta pública. são abraços senhores são nomeações fundeadas no artificioso ofício da sobrevivência de uns à custa de outros. e os ratos vão crescendo como falsos bois de ouro e cavalgam-nos pelas costas enquanto o coracão se esconde em torga e na fome do verbo orar. aleatórios os kants e todos os cânticos de baudelaire e mallarmé. aqui del rei que os ratos viram cavalos de tróia e a montanha passa a poeira. pobres e sem rosto e sem livro de horas somos a iguaria do abandono.

--------------------------------------------

e um dia o mar que foi origem da tua mão no meu ombro veio desfazer-se em olhos tardios. olhos com pestanas de sangue cognitivamente anunciadores da paralisia do futuro. um moinho de conflitos trágicos a ser excesso de fardo na divina ciência dos teus dedos indicadores do fim. e um dia a carne farisaica entrou ressurrecta no teu bolso de alquimista do vento. símbolo de um passado morto aos pés de uma escada descendente. que nunca subiu os passos dos amantes . era a excelência dionísica de um seio novo a amamentar a imortalidade. mesmo que por um só momento. foi assim o mar que devolvemos ao fundo de todos os fundos. de onde se volta nu e degolado. sem destino outro que não seja a morte. e um dia o mar efémero dos teus olhos fez-se eterno na terra do nunca. lá onde o sagrado é origem e verbo irmão da memória amordaçada. um fósforo. uma campânula. uma ressonância madura de monstros e de anjos. lá onde os pássaros explodem serpentinamente. e tu não me vês.

© Isabel Mendes Ferreira - Com permissão da autora.

Panayotis Cacoyannis

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Isabel Mendes Ferreira

 curvo-me aos teus pés em dois tempos narrantes e submeto-me à permanência telúrica das tuas pedras como um coração circular e sem estratégia. ergo-me deste chão como de um ventre sibilino onde tudo é raiz e o pouco não se demora. são terços de urze punhos de xisto quente rosário da memória fonte de todas as rondas e de todas as estevas. sou mais deste seio imenso que das estradas ou margens. é um pulo e uma garganta em chama uma lua que esmaga o diabo e faz do ar um pronome brilhante. regresso-te como se ao rio faltasse esta foz_____________________onde me corporizo em pedra solar. como tu terra sempre renascente. a caminho do maior heterónimo do silêncio. curvo-me à beira de ti para melhor me ser mais perto e maior. errante e peregrina de toda a linguagem.

Inédito. Proibida a reprodução
© Isabel Mendes Ferreira  

Profeta Oséias, obra  do Aleijadinho,
em Congonhas do Campo - MG - Brasil
                                                                     
  

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Isabel Mendes Ferreira

sentei-me na folhagem deste dia sem muralhas, desfiei o pólen do teu abraço imaginário, decantei o sorriso como cerzideira dos ramos, fendas que são os dedos sobre a palavra a esvoaçar qual pétala que te colho do chão. e depois sobra-me um vulto, a ser ordem do afecto, desordem dos flancos fosfóricos, coisas incisas e indóceis onde o tempo se demora e eu me atraso a ser ressalva, como se chagall fosse mais lírico que onírico ou nervo estridente, é que no chão de hoje a rosa que era só pálpebra fez-se presença latejante. por isso esta mensagem ou apenas carta de narrar, andamento heterónimo de todas as pausas.

[In As Lágrimas Estão Todas Na Garganta do Mar, Lisboa: Arcádia, 2010, p. 389]


domingo, 29 de setembro de 2013

Isabel Mendes Ferreira

se eu voltar será vestida de clarões em honra à morte mais doce pela regra das rosas secas e dos anjos mistos de hera e de sangue caídos à tua porta em vértice dilatado como um cálice suspenso sobre os teus cabelos cor de lírios com cheiro a chuva. se eu voltar entre as rugas da tua boca será para te ser um monólogo de facas e um sopro de vinho quente a escorrer-te nos flancos onde me farás nua como um espinho de ouro crucificando-te a garganta. e nada de muralhas nada de estrelas nada de barcos nada de portos. tudo em sílabas calcárias e ácidas e morrentes aos teus pés.
se eu voltar será apenas uma herança de silêncio ou de papel rasgado sobre a cama que nunca desfizemos mas asfixiamos. lúcidos loucos devotos e predadores. restam as aves e o cardo mais rosa que um dia te vi nascer ao som de todas as vertigens. se eu voltar será por vontade das feras. mas o tempo é de cúpulas líquidas paralelas ao gesto de desfazer o rochedo. toma as minhas mãos. como precipícios. um dia o rosto será archote. e eu não volto.

(Isabel Mendes Ferreira -  Inédito, publicado com licença da autora)



segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Isabel Mendes Ferreira

descobri que só somos importantes para a meia dúzia de almas que nos seguram os dias. todos os dias.o resto é mera passagem de interesses vários e alguns desconcertantes e deste inventário triste nem a morte é substância. a grande loba abre a boca do esquecimento.
______________________________________________obsessiva a carne que embrulha a mão que mata.


Isabel Mendes Ferreira (Inédito, com especial licença da autora)


 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Isabel Mendes Ferreira

tudo o que digo e escrevo não passa de falso adubo com que adubo a sigla do teu nome. terra íngreme e escarpada de pedras certeiras onde o eco é só sentimento e sedimento. instantes de pobres canteiros sem jardineiro nem plátanos para me resguardar do tempo. inteiras amarras que o grande nome amarra à urze e à saudade. tudo o que não digo é um louvor à voz do silêncio. a galgar os pinheiros bravios e a ser pálido reflexo do timbre asfaltado que a cidade sublima e o corpo amortece.
____________________________________________haja terra para me ser casa e crepúsculo. gravo nela o passo sem náusea.

oo00oo
há quanto tempo não te amava assim. lisboa. fragmentada de águas. memórias inchadas de prazer. assim caída nos meus ombros à deriva por outros mares outras marés outros cheiros mas sempre rente à música do teu ventre inclinado para o tejo. há quanto tempo não te fazia e dizia amor nos dentes. amor nas ancas dedilhadas por farpas e guitarras e vielas... assim te desdigo saudade. e volto aos teus flancos como gaivota em dezembros líquidos e densos. oleosos. florestais. lisboa de um piano que finalmente se cala. neste aqui. que já foi tanto. mesmo quando tocava sangue e silêncio. não é de adeus que te falo. é de mais longe. de mais logo. de outro lugar. as árvores dão ramos. que fazem de ninho. onde me aninho. e beijo-te lisboa. de teclas acesas. amanhã. outro rio. e voltar é o princípio.

oo00oo
e nesta longa noite insone que é o dia chega a galope a porta de ida. longos cabelos de vidro. longa a asa que esconde o sol. destapo e recorto cada hora como se última fosse nas tuas mãos. mártir e guerreiro escreves-me um hino de sílabas átonas para que a noite não volte a ser o soalho do medo. os teus versos são agora escamas. que injectas nas veias. relator de hinos incompletos mas sempre em declinação de salmos. um dia este outro dia será apenas relance.__________________________enquanto não há uma casa que bombardeio com pombas e algumas faces quentes.

oo00oo
sou de lugar nenhum.enquanto a palha arde. como fogo oficioso. diário de signos onde as navalhas se limpam ao sol para que este as molde em infaustas moedas falsas. sou de antes. de muito mais antigamente que a fala. o vento foi o cordel que desatei. e em cada sementeira fiz de conta que era ninho. sem árvore. sem dono. apenas o lugar de um instante. sem chão. breve visibilidade familiar onde cada aparição é silhueta sem sombra.
_____________________o tojo. os atalhos. o caos em sossego.


oo00oo
e pergunta-me um rio bastardo porque me não faço ao mar. respondo doce e ductilmente que há muito me encharco de pó nas margens das sete montanhas. sou sem ser o grito esgotado e os círios esquecidos ao canto dos amores. em ilha ergo o cadáver do corpo cego de ecos. e pergunta-me a geografia que abrigo é este onde imito um bosque para ser apenas mancha. nada. respondo. nenhum caminho me será próximo. antes travessia. estranha.______________________cama de negros cordeiros que em sendo ásperos lincham o medo. e tudo passa a sustento.

(Inéditos)




quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Isabel Mendes Ferreira

__________________________é agora que vejo a realidade. em suspenso. como se fazem milagres? em cortes de viés ou com dores de parto? pergunta com resposta na ponta do sonho que nos olha obliquamente. pensar mata. repensar é vestir a corda bamba do futuro com a plasticina do sangue vivo. sei nada. estou cega de saber da expansão do silêncio. ergo a voz imaterial. trepadeira de água. não espero. a confiança é uma partitura rasgada.

ooOOoo

dos cínicos e dos falsos competentes é que reza a história_______________________________sagrada profana torrencial poderosa violenta frágil festiva submissa retórica exaltada falsa invejavelmente impecável a história dos anjos e demónios que nos batem à porta para ser coração e entram adagas e se fazem sudários. flores de um mal que disfarçam bem o péssimo que são. dos cínicos e dos falsos cantores é que reza o presente. em altar de sombras e pontos de fuga. renda dormideira e tecedora de grinaldas mortas. são estes os insaciáveis anjos mortíferos que nos abraçam as costas com punhos de fogo. e sempre caminheiros sobreviventes sobre a nossa morte.

© Isabel Mendes Ferreira

RENOIR

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Isabel Mendes Ferreira

era da alma. sim. estilhaços, era da paisagem caída sobre os acordes da noite, cálida. calada, de poeiras e relâmpagos em extinção, porém fecundos ainda, como silêncio ambarino nos teus ombros, redondos, estilhaços, sim. de um dezembro que a morte fez de todos os dias o mesmo dia. mesmo depois de mim. rasa na tua sepultura de ervas e cardos. estilhaços sim. refracções isoladas de tempo e som. e a vida é só este instante, de estilhaços sim. “as obras primas são sempre escritas numa espécie de língua estrangeira”.

voilá la vie. la nuit. estilhaços, oui. sim. línguas de aço. doença sem frêmito, devagar, só espaço, praia sem ondas, rebentação fria. sono­lenta no horizonte, cada vez mais perto, na constante matéria do pre­cário. rígido, hirto. um devir-anjo felino, a irromper-me a garganta, inchada, de sílabas, de papel, ardido, ardente, rumor parasita de uma ausência musculada. on est ce quon pense? já não me penso, arrefece a respiração, medo estreito, ponte alargada de certezas, rios árabes a serem pedras líquidas no deserto enquanto me visto de areia, ou de sombra, cada vez mais perto, perto, perto, estilhaços, sim. agora, incêndio, sem sentido, de olhos abertos, a devorar dezembro, que atento e vingativo me espera e abraça, perto, muito perto, viagem, certa, e a casa é uma estátua, presença de nuvem tumular. on devient noir sur le corp et on se quitte.. .em estilhaços, reveladora a ausência de luz. e de dezembro é o pulso. decepado. é bom não escrever. des. ser. aberto o olhar em estilhaços. arrepio.
alma tensa e húmida de terra e de sal. como ser interior sendo corpo e planta silente? 

In As Lágrimas Estão Todas Na Garganta do Mar, Lisboa: Arcádia, 2010, pp. 358-359.

Amadeo de Souza-Cardoso

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Isabel Mendes Ferreira

acordo atravessado ao lado de ninguém sem saber o dia o que é o jantar e digo bom dia ao estranho que se corta a fazer a barba dedilho um até já e não há água oxigenada, falta-me a raquel o urso as fraldas o cheiro do talco o passeio na areia o carro com estrelitas de choco­late o choro da noite, e choro, porque é tudo novo. tudo frio. deitei fora a aliança, estou só. visto-me a correr, tenho uma reunião, trago o coração à vista, invisto num piano. Mozart fica bem no meu peito lacrimoso, vou a enterrar, escrevo um verso sem sentido, sentido, penso na geometria absurda dos meus telhados infantis, saudades do vento, sou arquitecto de um abismo que não domino, solteiro de novo. e não sei o que faço sábado à tarde. estou perdido, lanço-me ao rio. é a ana a paula a helena, estou magro aos pedaços aos saltos, devoro os jornais, descasco laranjas, amargo-me. pronto, ele aí está. um divórcio delgado preso por fitas de cetim, tu ficas com os móveis eu levo os discos tu guardas o sorriso eu aparo o corpo, levo a carne, deixo-te o verbo, liberto-te de nós. prendi a sombra.
perdi o passado, sou um fogo sem lume. e ardo. despojada.

In As Lágrimas Estão Todas Na Garganta do Mar, Lisboa: Arcádia, 2010, pp. 322.




Paula Rego

terça-feira, 2 de julho de 2013

Isabel Mendes Ferreira

CINCO DA TARDE E LORCA NÃO ESTÁ AQUI

cinco da tarde e Lorca não está aqui. desertou, esfumou-se. ao invés a minha cozinha brilha.brílho contínuo ironia de detergentes acidulada com lixívia eficaz espessa e aromática, nada de debussy nem de verdi. só os pratos no lugar o fogão limpo a mesa com cheiro a pedra e a iogurtes magros que a elegância é o elixir da vaidade, não sei cozinhar mas sei de cor as vitaminas dos legumes profilacticamente estou em dia. não sei organizar um refogado mas desenho nas facas um destino incerto de sal e fermento, dos outros dias aqueles que cabiam no bolso na saia recorto um seio alto as pernas esguias um ventre liso andrógino infecundo. esbelta solta e livre soltava os cabelos corria para o vale incerta evasiva assimétrica florbela sem fogos cadentes antígona com sílabas sáficas. inconseqüente, cinco da tarde e sento-me sozinha a vigiar a solidão de massa e farinha, estou crescida, abro a gaveta das horas, arrumo dois anos no pote da pimenta verde e falo para as moscas, o peixe está congelado, bebo café. não sei passar a ferro, reforço as minhas rugas, engordo, penso no verão e limpoaspiro a secura dos cotovelos que já não mostro no areai, compro uma senha de solário e envio-me resmas de barcos de papel, cheira a branco na minha cozinha, é um diagnóstico de claras em castelo, são cinco da tarde e não comprei fiambre nem melancia, o elevador chia. os vizinhos também, o gato dorme, tudo está no seu lugar, na respectiva e milimétrica simetria de uma casa deserta, onde nem o pó entra, apenas a certeza congelada de que a vida não é solar, antes a cartilha de somar sonhos marítimos que dão para nenhuma praia, um lençol espremido na máquina um saco cheio de cascas de laranjas amargas um óleo espesso a escorrer para o chão. cinco da tarde e proust não me disfarça o cabelo branco, não sei ligar o forno, não quero ler as instruções, nem quero saber, mesmo, eu gosto é de fazer nada. ficar assim à escuta dos ecos do meu corpo que anoitece depressa sem glória nem anestésicos, alimento-me de indolência mole doce abuso do sal das minhas lágrimas ouço o meu colesterol a gemer a inchar a aorta a arredondar as ancas a tornar mínimas as calças a implorar dois furos acima no cinto, cinco da tarde e não me revolto, sou puré de ameixas uma camisa desbotada manteiga fora de prazo tudo ao contrário menos a mão que segura o espelho, onde moras agora mãe? era tão cedo quando partiste. bem sei que já passava das cinco da tarde quando só e nua fechaste os olhos, para sempre, e eu não estava lá para chorar, chorar por mim por ti por nós que nos desencontrámos no maldito quarto de hospital onde uma estúpida e incisiva hiperplasia do útero te negou a vida e apoucou a minha, para sempre, e ainda agora não posso chorar tudo o que não soube dar-te. tu que com dedos de leite me deste os olhos da vida como se nunca fosses abandonar-me. e agora a tua ausência é um pico na minha língua e dói. dói até ao limite, dói-me a falta do teu sorriso estelar e sei que nunca cresceste qual peter pan que sempre detestei mas que por ti fingi gostar e juntas nos levei a voar em ramos de cerejeira, brincámos ao faz de conta de mãe e filha como bichos de seda incapazes da transição natural, eu não voei e tu inesperadamente alteraste o curso de todos os rios. a meio caminho abriste a foz e logo me afundei no meu frágil casulo, sem teias nem janelas, são cinco da tarde e os meus olhos rasam a espuma de novembro e porque tu foste em novembro agora é sempre inverno. São cinco da tarde e nada é relevante, já mudei a água das túlipas dei a volta ao quarto do meu filho arrumei os legos fechei as asas do avião e dei-lhe cereais com mel. na minha cozinha anda um mozart adoentado a compor palavrões e eu digo-lhe tem juízo e dá-me antes uma receita contra as dores de alma. não te rias assim tão staccato alarve e genial, irrita-me a tua música magnífica densa pura. escreves alto o que não posso dizer, um dicionário o meu filho quer um dicionário e já são cinco da tarde e a tua mão cheira a leite com chocolate e as letras estão com baunilha e a tua boca tem flúor e temos de ir ao pediatra, vamos já. deixa-me só barrar-me de competência o teu pai vai adorar, cinco da tarde e a minha vida é uma risca azul na tua camisola de marinheiro, e que interessa esta sinopse inábil de abelha de patas para o ar se amanhã regresso ao sítio inóspito do senso comum? gosto de não gostar, a música toca-me e lima-me as arestas e à noite imito o salto do tigre voando sobre um ninho de corpos nus e anônimos, de vez em quando a beleza surge em bemol nos teus olhos azuis e eu sorrio como se estivesse nas caraíbas e tu fosses marlon brando mas é só muito de vez em quando porque amanhece sempre cedo e de repente são cinco horas da tarde. cinco horas desta tarde branca e o amor é um vândalo vencido pela sede e pelo medo. um tumor excisado através da internet, sempre às cinco da tarde.

In As Lágrimas Estão Todas Na Garganta do Mar, Lisboa: Arcádia, 2010, pp. 334-336

Judith Leyster


sexta-feira, 26 de abril de 2013

Isabel Mendes Ferreira

Amadeo de Souza-Cardoso 
adezembrando
decidi que morro hoje que é dezembro e morro não como as árvores que gráficas sustentam o céu. morro para dentro de um movimento desagregatório onde o eu e o tu são cumes altíssimos ensombrados de visitas tardias. nada de diferente nem sequer a diferença no seu alargar de sinais. são as sombras. elas sempre. elas muralhas imateriais resplandecentes de negrume como sangue oleoso. desço a mais interna das palavras e subo ao regaço do sono. lenta.lentamente.  sem permutas frásicas nem ombro a ombro com o sempre dito e perseguido. as ilhas são de chumbo. o chumbo é frio.  o processo de liquidação do sonho é como um animal ferido mas sangrante até à batalha final. e mesmo que o sol volte a ser autentico nunca mais serei outra. senão esta morte dezembrina do entendimento da solidão.

e de que adianta saber o caminho se este já não é senão a sombra. o declínio. o tão avulso ser debaixo das cinzas....
sempre que o chão se move movem-se as raízes da terra de ninguém. pecúlio e peculiar destino do além fora das assimetrias. antecipação do género e do fogo. decifrado o êthos como olho de vulcão a acontecer em regiões de enclaves ontológicos onde tu és casa e eu apenas cave. submersa. líquida e quase aprumática na distância que nunca foi amplexo. por graça ou destino divino escolhi um caminho paralelo. sem angelismos nem alvos autocomplacentes. sem mistérios nem signos fulgurantes. apenas o invisível como ária que não me sendo própria me veste a nuca de arrepios. e de um certo bucólico sentimento de perda.
é assim que sou chave e núcleo. mesmo que fragmentada ou vária ou apenas fio.
sempre que o chão se abre só resiste a contaminação das coincidências. a alma é uma forma romântica de ser-se único por um momento. e neste culto de ligações te afogo. de afagos. porque o dificil já foi dito e lá fora o que se move é só a ironia dos embaciamentos.
o enredo perdeu o drama. e este passou a comédia.a tragicidade já não dilacera.
resta a geografia do caminho infinitesimal.

******

há sempre uma hora em que falamos para o céu. e outra em que descemos ao impreciso como se uma nave carregada de lírios nos fosse o deliro de Esmirna ou o lenço da fluidez às portas do rio que purifica o silêncio. há sempre uma hora de Borges e outra de insaciáveis serpentes. és a minha pátria. explosiva rendição de uma linhagem de sal suor e joelhos macerados de terços em vão. há esta hora mínima a encher o tempo pisado de farpas e de régios adeuses. como se mais nada a violência fosse.

(tempo é renda______________________________)

******


andam lobas esfaimadas borboletas iguanas falas frases tudo numa rútila excepção na baínha de uma verdade que nunca chega a ser. andam e bastardamente matam. o alvo. em arco. sem flechas. com beijos . substâncias ardentes ardilosas cuspidas a fogo lambidas a lodo. em luto permanente. passadeira de lírios brancos com sangue.

******

curvo-me aos teus pés em dois tempos narrantes e submeto-me à permanência telúrica das tuas pedras como um coração circular e sem estratégia. ergo-me deste chão como de um ventre sibilino onde tudo é raiz e o pouco não se demora. são terços de urze punhos de xisto quente rosário da memória fonte de todas as rondas e de todas as estevas. sou mais deste seio imenso que das estradas ou margens. é um pulo e uma garganta em chama uma lua que esmaga o diabo e faz do ar um pronome brilhante. regresso-te como se ao rio faltasse esta foz_____________________onde me corporizo em pedra solar. como tu terra sempre renascente. a caminho do maior heterónimo do silêncio. curvo-me à beira de ti para melhor me ser mais perto e maior. errante e peregrina de toda a linguagem.

******

no imperfeito ar em que se respira também se morre vestido de pó. essa nudez alva como uma cidade sem corpo e um corpo sem país. sinais irradiantes de uma perplexidade caótica e encapelada de fogo como música ou de música como dedos separados das mãos. anoitecemos como pinhais.

******

____________________disse te um dia que as palavras amarradas ao osso seriam silêncio ruidosamente insuportável se operáticas e nervosas te fossem tóxicas. ebúrneas e vertiginosas miseráveis e espectrais emprestadas a prazo mordidas e esposas do fel te seriam a anca ou apenas um guindaste de lama. sorriste. e desse sorriso nasceram flores como oxigénio. hoje o linho faz-se mosto e ao longe o discurso é mais frontal. este país de sal é uma pose. e tu repousas. como um hífen de orquídeas.é tão nu o momento.

******

andam lobas esfaimadas borboletas iguanas falas frases tudo numa rútila excepção na baínha de uma verdade que nunca chega a ser. andam e bastardamente matam. o alvo. em arco. sem flechas. com beijos . substâncias ardentes ardilosas cuspidas a fogo lambidas a lodo. em luto permanente. passadeira de lírios brancos com sangue.

____________________________________________________
Isabel Mendes Ferreira, escritora, poetisa e pintora, natural do Montijo, editou o seu primeiro livro de poesia em 1982: "Sobre as Ervas um corpo de Junho". No ano seguinte edita na Bertrand "Um Nocturno de Bach e um Relâmpago no Olhar", segue-se “Um Corpo (sub) Exposto” na Imprensa Nacional, sendo 1984 o ano de edição do livro de contos "A Mais Loura de Lisboa". Em 1990 volta à poesia com "A Pele" na Presença, “Ponto Final” na Átrium, “Cantochão” e “Vermelho Doce” na Produce e entra em duas antologias. Em 2010, regressa com "As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar" da Babel, com chancela da Arcádia. Foi cronista no "O Jornal", no "Diário de Notícias", no “Diário de Lisboa" e nas revistas "Guia", "Activa" e "Tomorrow" e ainda Copy Writer nas Agências de Publicidade, Sistema, Ogilvy, Cinevoz, Boom and Bates, entre outras. 


Fonte: vozdecelenia.blogs.sapo.pt

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...