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sábado, 14 de novembro de 2020

Ailton Volpato

 Finados

A criança sobre o campo sagrado traça caminhos. Brinca, não sabe o que virá e vive o dia na graça. No campo está a história, a memória. Só. A vida já é outra via antecipada pelo amor. A criança é uma promessa, ponte a oscilar o tempo, entre riso e lágrima: um desejo de ser. E o que celebramos é passagem.

2020 




terça-feira, 13 de outubro de 2020

Ailton Volpato

Quando visitas a humilde morada
É festa,
e a riqueza é o anúncio
Da vitória.
Estás sempre presente,
Em ronda silente,
Renovando o entusiasmo
De ir além.
De ti, o que ouço é sempre cântico,
Liturgia solene:
Do ínfimo instante se estende
O eterno.

 


 

domingo, 1 de junho de 2014

Ailton Volpato

GRAMÁTICA
O gosto mascado de um verbo impronunciável -/ morde a língua do lápis/ ao traçar no papel/ um poema silenciado, silenciador,/ ainda que sejam três incoerentes versos,/ a existir em seus duetos/ de uma compreensão e muitas incompreensões:/ linguístico fantasma reticente/ a perturbar o sono de um papel manchado./

de testemunho em testemunho/ se diz a inaudita obra,/ certas palavras que emergem do abismo/ grafado em históricas durações;/ e se abatem como ondas despenteadas/ a resvalar nos cimos das pedras,/ rochas a dizer água às águas./

e o poeta, um pedaço de pedra/ tingido na maresia do tempo/ aprende a sentir como o limo tocado/ a amaciar os dedos frágeis da criança/ no descobrimento das letras - /

gramática litorânea de mar e areia.

Eis quando um poema/ é da desordem do absurdo.

© Ailton Volpato


domingo, 11 de maio de 2014

Ailton Volpato

E se foi, com a música,
o músico na pauta bamba que é a vida.
Esteve só, nos sóis tocados,
inflamando o peito;
até ouvirem orbitar a Terra e os seus dons,
alqueires de homens semeados
em luz e sombra - o amor.

E as chuvas musicais,
executadas na batuta criadora
de ações e repousos,
alagaram os sons,
- penhasco sulcado dos olhos
ao barro batido aos pés -
uma nova criação.

E as criaturas  se recriam
e se reprocriam
nas vivas sinfonias de Deus.
© Ailton Volpato - Todos os direitos reservados





segunda-feira, 14 de abril de 2014

Ailton Volpato

ARBÓREO
A árvore e os seus ramos
espalhados sobre o lago -
era vivo o músico morto
ou estava no erro a peça
última de sua obra, como
boia singrando cerrada
por ondas (in)ventadas?

arbóreo fora o peito do mundo,
selvagem como a voz dos ventos
arrombando as janelas da infância -

a árvore que via, quixoteana memória,
montava a cavalo com a lança desembainhada
riscando o trajeto em seus trejeitos:
eram caminhos sobre espantos,
raízes atravessadas nos olhos;

ninhos eras órgãos engendrando vida,
ensaiando voos

litania clássica - ainda me arrependo -
e a videira me estende seus sarmentos.

(Inédito. Proibida a reprodução)


terça-feira, 18 de março de 2014

Ailton Volpato

À janela, respiramos turvando a imagem.

Disseram-nos que o fogo devoraria as lavouras destes sonhos urbanos. Mas o que fazer com as torrentes das comportas abertas nos céus?

À janela, respiramos turvando a imagem.

O pensamento é ainda labirinto em forma de ponte - às avessas, em travessias alagadas, sentamos nas caçambas das ideias a coser minutos nas vestes relojoadas do tempo.

do outro lado do rio, o destino em corredeira.

pois quando disseram-nos tempestade, fugimos para os antros seguros da casa - eis quando os desbravadores se apavoram, recolhendo-se na fragilidade dos músculos.

agarrados à janela, ainda respiram turvando a imagem.

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maternidades

A ponta da luz
aponta a lua
no dedo;
a mãe sorri
enquanto o filho
brota no canteiro
materno -
amor, leite e terra,
ternura no afago
de um incipiente
mundo -
abraços no seio
dos lábios.
eis que o regaço terreno
circunda o dorso celeste
da lua, palma de uma mão
branca, cândida epiderme
a mãe sorri
enquanto o filho
brota no canteiro
materno -
o amor e os seus múltiplos
apontam a luz:
a lua em seus dedos,
côncavo lago onírico
onde deitam apaixonados
o poeta e o poema -
o amor e o seus múltiplos
filhotes no ninho
voam na espera:
há ninho em todo sítio
quando o albatroz gera
o peixe e o poeta,
voos feitos a nados,
ainda ancorados na terra
a mãe sorri
enquanto o filho
brota no canteiro
materno -
amor ao céu e à terra,
ternura no afago
do recipiente-mundo:
tigela extensa onde correm
agitados o leite e o mel;
eternidades,
maternidades.

[Ailton Volpato nasceu em Jandira (SP), em 1991. Cursou Filosofia em Curitiba e  atualmente  é noviço da Congregação Sagrada Família de Bérgamo, naquela mesma cidade]. 


Paul Gauguin

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...