«Noutros Rostos» VIII
vou contando todas as vidas tristes que se amadurecem
no fundo dos meus olhos a passarem atrás das coisas gastas
em cada rua vazia espero pelo seu sabor mudo
e desapareço naquele estremecimento que sai virgem do chão
por onde caminho novamente sombrio
«Noutros Rostos» XII
em todo o andar doido dos pais
escorrega sempre um sorriso leve entre os braços puros
e as cabeças dos filhos deslocam-se
os corações ao alto
como tremem e tremem por dentro
como são tão silenciosos corações e deliciosos sorrisos
e os pais envolvem comovendo-se
os braços apaixonados
os rostos dos pais
inundam-se nos lados das suas bocas
pelas veias e sangue arterial desentupidos
e os filhos rodopiam nos dedos formosos
no chão escorregadio
os filhos abertos ao novo amor sentam-se nos colos calmos
dos pais sentindo todo aquele momento visceral
e eterno
movem-se em silhuetas vivas
atentas a tudo o que se passa e mexe à sua volta
procuram o manso amor a florescer
na cadência absurda das coisas inseparáveis e escorregam
nos pequenos corpos celestes
enquanto a paixão surge numa sombra uma paixão quente fria
os pais têm urgência
nesse amor são do dia para a noite
progressivamente maiores e mais fortes
todos os filhos a certa altura perdem-se
nas brincadeiras para que os pais os encontrem e dancem
a levitar junto ao tecto
junto às janelas que batem noutras janelas
que batem por cima nas cortinas loucas por voarem
com a brisa daquele minúsculo vento levíssimo
a transbordar de imagens suores
e flores deambulantes
mas amplamente perfumadas
e o vento a respirar
dos movimentos doidos dos filhos encavalitados nos ombros pérola
dos pais
são vestígios desse doce amor
a erguer-se dentro de todos os órgãos
até chorarem os corações e os sorrisos fora
os seus lábios estão na fímbria do andar pontual dos pais
mas os pais atravessam a morte desértica
pelos seus filhos
os pais são realmente heróis anjos de guarda que mergulham
no magma da terra adentro
e esmagam-se no seu interior por eles
os pais devem ser as coisas mais frágeis e dóceis do mundo
porque os filhos deformam a expressão
do próprio mundo
e alagam os pulmões e cabelos dos pais nos brinquedos de fogo
e nos jogos adúlteros um pouco mais tarde
os filhos sabem aos pais
andam à velocidade das ruas intermináveis
dos becos frios
contudo confidentes
e os pais os mais elevados Deuses
chegam a rachar os seus próprios ossos através da saliva
e lágrimas dos altos filhos
amor mortal
amor a desaparecer no lusco-fusco
todo esse triste amor atira-se precipício abaixo sem pressentir
o desassossego espiritual dos filhos e pais recalcados
pelas submersas infâncias
todas as palavras que os filhos escoam pelo ar negro
arrancam a doçura do mar do sol
mas também das casas
dos quartos intensamente alagados pela força anterior
das belas memórias
como a interromperem-se num vazio corajoso e recente passado
os pais desenterram essas lembranças
como escapam nelas também
filhos e pais a queimarem-se melancólicos
depois certo dia os filhos
numa rara homenagem
escavam de novo o chão da sua casa e penetram solitários
dentro dos quartos
engolem toda aquela água d’alfinetes pretos
para se entrelaçarem nos velhos sorrisos dos pais
vêm à superfície
com os pais às cavalitas
e como brilham o recente caminhar!
sentam-se hoje nas mãos uns dos outros partilhando o choro nu
os pais embrulhados nas roupas dos filhos de alto a baixo
tocam-se em ambas as peles
nos ligeiros poros esvoaçantes beijam-se
nas faces viradas ao avesso com o relevo da luz
a asfixiar os seus reflexos
e as luzes solares inclinam as estrelas cadentes equilibrando
filhos e pais
num sorriso possível sorriso amante
nos pensamentos magnificentes
nada há na morte
pensam filhos e pais pois a vida incha toda a matéria que se mexe
com toda uma violência e alegria certas
germinando por si
o incondicional amor que nas profundezas loucas dos filhos
desentranham o coração manso dos pais
que desliza no sorriso
saboroso dos filhos
que desliza na sua doçura
deslizando na força do amor
que desliza na violência sonâmbula do medo
e crê-se
que o amor entre pais e filhos por fora e por dentro
deve acontecer
e ao acontecer devemos acreditar
que por fora e por dentro está todo o nosso leal amor
e todo o leal amor acontece
«Noutros Rostos» XIV
porque durante o silêncio da noite tudo respira tranquilo
na mais breve insolvência musical
e na cama ouço a inocência das eternas servidões...
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Filipe Marinheiro nasceu em Coimbra, a 30 de julho de 1982, e atualmente reside em Aveiro.
Publicou Um Cândido Dilúvio / Sombras em Derivas (2013), Silêncios (2013), Noutros Rostos (2014), todos pela Ed. Chiado.
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sexta-feira, 17 de abril de 2015
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