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quarta-feira, 9 de abril de 2014

José Paulo Paes

MUNDO NOVO
Como estás vendo, não valeu a pena tanto esforço:
a urgência na construção da Arca
o rigor na escolha dos sobreviventes
a monotonia da vida a bordo desde os primeiros dias
a carestia aceita com resmungos nos últimos dias
os olhos cansados de buscar um sol continuamente adiado.

E no entanto sabias de antemão que seria assim. Sabias que
   a pomba iria trazer não um ramo de oliva mas de
   espinheiro.

Sabias e não disseste nada a nós, teus tripulantes, que ora
   vês lavrando com as mesmas enxadas de Caim e Abel
   a terra mal enxuta do Dilúvio.

   Aliás, se nos dissesses, nós não te acreditaríamos.

[In Prosas seguidas de Odes Mínimas, São Paulo:Companhia das Letras, 2010, p. 47]

Carlo Saraceni

quarta-feira, 19 de março de 2014

José Paulo Paes

SOBRE O FIM DA HISTÓRIA
A pólvora já tinha sido inventada, a Bastilha posta abaixo
     e o czar fuzilado quando eu nasci. Embora não me res-
     tasse mais nada por fazer, cultivei ciosamente a minha
     miopia para poder investir contra moinhos de vento.

Eles até que foram simpáticos comigo e os de minha ge-
     ração. Fingiam de gigantes, davam berros horríveis só
     para nos animar a atacá-los.

Faz muito tempo que os sei meros moinhos. Por isso os
     derrubei e construí em seu lugar uma nova Bastilha.
     Vou ver se escondo agora a fórmula da pólvora e ar-
     ranjo um outro czar para o trono.

Quero que meus filhos comecem bem a vida.

[Prosas seguidas de Odes Mínimas, São Paulo:Companhia das Letras, 2010, p. 49]


Faruk Koksal



segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

José Paulo Paes

À GARRAFA
Contigo adquiro a astúcia
de conter e de conter-me.
Teu estreito gargalo
é uma lição de angústia.

Por translúcida pões
o dentro fora e o fora dentro
para que a forma se cumpra
e o espaço ressoe.
Até que, farta da constante
prisão da forma, saltes
da mão para o chão e te estilhaces, suicida,

numa explosão
de diamantes.

À TELEVISÃO
Teu boletim meteorológico
me diz aqui e agora
se chove ou se faz sol.
Para que ir lá fora?

A comida suculenta
que pões à minha frente
como-a toda com os olhos.
Aposentei os dentes.

Nos dramalhões que encenas
há tamanho poder
de vida que eu próprio
nem me canso em viver.

Guerra, sexo, esporte
 — me dás tudo, tudo.
Vou pregar minha porta:
já não preciso do mundo.

AO SHOPPING CENTER
Pelos teus círculos
vagamos sem rumo
nós almas penadas
do mundo do consumo.

De elevador ao céu
pela escada ao inferno:
os extremos se tocam
no castigo eterno.

Cada loja é um novo
prego em nossa cruz.
Por mais que compremos
estamos sempre nus

nós que por teus círculos
vagamos sem perdão
à espera (até quando?)
da Grande Liquidação.

AO ESPELHO
O que mais me aproveita
em nosso tão frequente
comércio é a tua
pedagogia de avessos.
Fazem-se em nós defeitos
as virtudes que ensinas:
o brilho de superfície
a profundidade mentirosa
o existir apenas
no reflexo alheio.
No entanto, sem ti
sequer nos saberíamos
o outro de um outro
outro por sua vez
de algum outro, em infinito
corredor de espelhos.
Isso até o último
vazio de toda imagem
espelho de um si mesmo
anterior, posterior
a tudo, isto é, a nada.

[In: Prosas seguidas de Odes Mínimas, São Paulo, Companhia das Letras, 2010].

ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA
a poesia está morta
mas juro que não fui eu
eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la
imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres carlos drummond de andrade manuel bandeira murilo mendes vladimir maiakóvski joão cabral de melo neto paul éluard oswald de andrade guillaume apolinaire sosígenes costa bertolt brecht augusto de campos
não adiantou nada
em desespero de causa cheguei a imitar um certo (ou incerto) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho estrada de ferro araraquarense
porém ribeirãozinho mudou de nome a estrada de ferro araraquarense foi extinta e josé paulo paes parece nunca ter existido
nem eu

[In: A poesia está morta mas juro que não fui eu, Coleção Claro Enigma, São Paulo, Duas cidades, 1988].

Sobre o Autor



quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

José Paulo Paes

CEIA
Pesca no fundo de ti mesmo o peixe mais luzente.
Raspa-lhe as escamas com cuidado: ainda sangram.
Põe-lhe uns grãos do sal que trouxeste das viagens
e umas gotas de todo o vinagre que tiveste de beber
na vida.
Assa-o depois nas brasas que restem em meio a tanta cinza.

Serve-o aos teus convivas, mas com pão e vinho
do trigo que não segaste, da uva que não colheste
mas que de alguma forma foram pagos
em tempo ainda hábil
pelo teu muito suor e por um pouco do teu sangue.

Não te desculpes da modéstia da comida.
Ofereceste o que tinhas de melhor.
Podes agora dizer boa-noite, fechar a porta, apagar a luz
e ir dormir profundamente. Estamos quites
tu e eu, teu mais hipócrita leitor.

[Prosas seguidas de Odes Mínimas, São Paulo:Companhia das Letras, 2010, p. 51]

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...