ABÓBADAS IMPRECISAS
Sobre um leito de açucenas, as cicatrizes amontoam-se.
Nos fluidos imperceptíveis, a penumbra dispersa
os antigos turbilhões, cobertos de ramagens lúgubres,
e os ranúnculos sacodem o ar, a noite das avencas,
a boca toda sem pressa de concluir a palavra,
o limite, a suavidade;
o mar suspenso entre constelações preciosas,
as palavras crescendo,
a terra vibrando num ritual análogo de velas, redes,
sargaços, sulcando a luz, os sons do nevoeiro;
os cachos, as páginas, os frutos revolvidos
diante do maravilhoso enigma da relva que respira
e vive, no lacre silencioso, fechado numa garrafa de mar.
Nas antigas gretas da geada, há borboletas rosadas,
inesperadas lunações, cristais preciosos
e a vida pode ser o início, um princípio,
entre feridas sem regresso, abóbadas imprecisas,
guizos que chocalham
pássaros ungidos com água de chuva,
insectos sobre os nenúfares lavrando a caligrafia
ardente, sublime,
sob a lua abundante que segreda uniões.
In “Meandros Translúcidos"
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Fernando Paixão
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