sexta-feira, 27 de julho de 2012
Maria Gabriela Llansol
Fragmento de "Causa Amante"
Era impossível que o fogo ardesse além, portas adentro, não no palácio da Inquisição mas num convento. Jorge Anés tinha acabado apenas por sofrer a pena dos reconciliados
(sacrifício espiritual, prisão, ou desterro). Era impossível que o fogo ardesse ali até ao fim; era um conluio vegetal, nesse princípio da Primavera, enleado de verde de limoeiro, e de humidade; o sacrifício espiritual que lhe tinha sido dado como penitência fora o de lhe fazerem crer que ia ser queimado vivo; para que as plantas não fossem atingidas, devia arder num dia imprevisível em que não houvesse vento, ou o vento soprasse a leste, dispersando nessa direcção faúlhas e cinzas. Eu dizia a mim mesma que nesse lugar devia ser ainda mais estranho ver submetido fosse a que poder fosse um homem, ou ser vivo de qualquer espécie. Jardim de reflexão crescido lentamente, as plantas medicinais, legumes, os loureiros, haviam sido olhados, e cultivados, através do deslumbramento dos cegos:
Alice, que dizia a si própria viver na cegueira do entendimento e eu, que chegara quase aos cinquenta anos para constatar, com muita pena, que vivia na cegueira da língua.
Causa Amante, Lisboa: Relógio D´Água, 1996, p. 99
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