segunda-feira, 28 de maio de 2012

Hilda Hilst


LXXV

As maçãs ao relento. Duas. E o viscoso
Do Tempo sobre a boca e a hora. As maçãs
Deixei-as para quem devora esta agonia crua:
Meu instante de penumbra salivosa.
As maçãs comi-as como quem namora. Tocando
Longamente a pele nua.
Depois mordi a carne
De maçãs e sonhos: sua alvura porosa.
E deitei-me como quem sabe o Tempo e o vermelho:
Brevidade de um passo no passeio.

In DO AMOR, Ed. Massao Ohno: São Paulo, 1999, p. 85

Adélia Prado

A TRANSLADAÇÃO DO CORPO
Eu amava o amor
e esperava-o sob árvores,
virgem entre lírios. Não prevariquei.
Hoje percebo em que fogueira equívoca
padeci meus tormentos.
A mesma em que padeceram
as mulheres duras que me precederam.
E não eram demônios o que me punha um halo
e provocava o furor de minha mãe.
Minha mãe morta,
minha pobre mãe,
tal qual mortalha seu vestido de noiva
e nem era preciso ser tão pálida
e nem salvava ser tão comedida.
Foi tudo um erro, cinza
o que se apregoou como um tesouro.
O que tinha na caixa era nada.
A alma, sim, era turva
e ninguém via.

By Rosamund Smith Bouve 

Eugénio de Andrade


ROSA DO MUNDO

Rosa. Rosa do mundo.
Queimada.
Suja de tanta palavra.
Primeiro orvalho sobre o rosto.
que foi pétala
a pétala lenço de soluços.
Obscena rosa. Repartida
Amada.
Boca ferida, sopro de ninguém.
Quase nada.

O INOMINÁVEL

Nunca
dos nossos lábios aproximaste
o ouvido; nunca
ao nosso ouvido encostaste os lábios;
és o silencio,
o duro espesso impenetrável
silêncio sem figura.
Escutamos, bebemos o silencio
Nas próprias mãos
E nada nos une
- nem sequer sabemos se tens nome.

Fonte:  http://www.astormentas.com

SOBRE EUGÉNIO DE ANDRADE

Manoel de Barros


Com cem anos de escória uma lata aprende a rezar.
Com cem anos de escombros um sapo vira árvore e cresce
por cima das pedras até dar leite.
Insetos levam mais de cem anos para uma folha sê-los.
Uma pedra de arroio leva mais de cem anos para ter murmúrios.
Em seixal de cor seca estrelas pousam despidas.
Mariposas que pousam em osso de porco preferem melhor
as cores tortas.
Com menos de três meses mosquitos completam a sua
eternidade.
Um ente enfermo de árvore, com menos de cem anos,
perde o contorno das folhas.
Aranha com olho de estame no lodo se despedra.
Quando chove nos braços da formiga o horizonte diminui.
Os cardos que vivem nos pedrouços têm a mesma sintaxe
que os escorpiões de areia.
A jia, quando chove, tinge de azulo seu coaxo.
Lagartos empernam as pedras de preferência no inverno.
O vôo do jaburu é mais encorpado do que o vôo das horas.
Besouro só entra em amavios se encontra a fêmea dele
vagando por escórias …
A quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso.
Caracóis não aplicam saliva em vidros; mas, nos brejos,
se embutem até o latejo.
Nas brisas vem sempre um silêncio de garças.
Mais alto que o escuro é o rumor dos peixes.
Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a fazer
parte dos pássaros que a gorjeiam.
Quando a rã de cor palha está para ter -
ela espicha os olhinhos para Deus.
De cada vinte calangos enlanguescidos por estrelas,
quinze perdem o rumo das grotas.
Todas estas informações têm soberba desimportância
científica – como andar de costas.


In O GUARDADOR DE ÁGUAS , Record: São Paulo, 2003, p. 40-41

Paulo Leminski

A LUA NO CINEMA
A lua foi ao cinema
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.
Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!
Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.
A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste
- Amanheça, por favor!

(Do livro Distraídos venceremos)
Fonte: lectusexlibris.blogspot.com.br/

Daniel Lima

A casa onde nasci tinha um jeito risonho.
Tinha um quintal com mangueiras
E alguns pés de pitangas
e um pequeno jardim
de cravos e roseiras
e uma cisterna cheia de água de chuva
e um alpendre com redes sempre armadas.
Na frente,um portão velho que rangia
como se dissesse coisas tristes a quem por ela passava.
E dentro da casa onde nasci
Um corredor sem fim corria não sei para onde
E nem sei por que corria
o corredor sem fim da casa onde nasci
nem sei para onde.

Letras às terças. Diário de Pernambuco, 22 de fevereiro de 2011

María Elena Walsh


OBJETOS NA SOLIDÃO


Entrar em uma casa, comer frio.
A ternura deixou suas chinelas
debaixo de uma sombra.
Desconfio do sigilo de lâmpadas e cadeiras
e de algumas condutas amarelas.
O que permanece quieto alarma, dói,
provoca pânico, derrama o canto.
Não há estatística que não revele
tesouras na fila do espanto,
um alfinete que se parece com o pranto.
Não haverá quem traga pálpebras lá de fora,
lapelas, fumaça, senhas enrijecidas.
Um ruído de recantos desespera
e somente móveis homicidas
falam de preparativos, despedidas.
Ganha-se gestos de suspeita,
envelhece-se de tamanho disparate.
Não há senão como remédio uma flor desfeita,
o vigiar um cigarro morto.
Sociedade bem anônima, com certeza.
E o pior é que o travesseiro incomoda
com lúcida iminência. Dormir
tem uma ambiguidade tão perigosa
que em tais noites nunca se deve dizer:
desta desolação não hei de morrer.

In: Poesia Argentina (1940-1960), Iluminuras: São Paulo, 1990, p. 155, seleção, prefácio e seleção de Bella Jozef

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...