segunda-feira, 28 de maio de 2012

Arnaldo Antunes


MANCHA

toda mancha
tem o desenho de uma
poça
com o contorno de uma
rocha
toda mancha
roxa
na pele
ou no papel
onde uma gota
de sangue
se derrama
no lenço
ou no lençol
da cama
como
mangue
ou ilha
numa foto
aérea
quase
esfera
filha
imprecisa
de orla
que o
acaso
forja
fora
do destino
sibilino
:
forma.

EXTRAIR

ex
trair
do tempo improvável, do improvável,
de suas maquinações, ações,
do ato regular que se dissipa em método, todo
hábito que habito, repito,
da meta inalcançável que me fita, cripta
do incontável número dos dias vividos, idos,
da inumerável cota dos dias por vir, ir,
da engrenagem que não pára, dispara,
sacode o chão que piso, piso
de um ônibus em movimento, momento
em que me agarro ao cilindro de metal do alto
-
a vida
-
não a que resta ainda, indo,
mas a que transborda de cada ar expirado, inspirado,
até que arrebente, vente.

Folha de são Paulo, Ilustrissima, 06 de maio de 2012

Mario Benedetti


A PONTE

Para cruzá-la ou não cruzá-la
eis a ponte

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país

trago comigo oferendas desusadas
entre elas um guarda-chuva de umbigo de madeira
um livro com os pânicos em branco
e um violão que não sei abraçar

venho com as faces da insônia
os lenços do mar e das pazes
os tímidos cartazes da dor
as liturgias do beijo e da sombra

nunca trouxe tanta coisa
nunca vim com tão pouco

eis a ponte
para cruzá-la ou não cruzá-la
e eu vou cruzar
sem prevenções

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país

(De Preguntas al azar – 1984-1985)

Fonte: ANTOLOGIA POÉTICA.  Rio de Janeiro: Record, 1988, Tradução de Julio Luís Gehlen

Hilda Hilst


LXVIII

Te penso.
E já não és o pensado.
És tu e mais alguém
No informe, nos guardados
Alguém
E tu mesmo sem nome, imaginado.
Te penso
Como quem quer pintar o pensamento
Colorir os muros do passado
De umas ramas finas, mergulhadas
Num luxo de tinturas.
Te penso novo e vasto.
E velho
Igual à fome que tenho das funduras.

In: Cantares, Ed. Globo: São Paulo, 2004, p. 105

Hilda Hilst


Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível

E o que eu desejo é luz e imaterial.

Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?

(Da Noite – 1992)

Augusto Frederico Schmidt

FOI A ESTRELA …
Foi a estrela, a última estrela no céu;
Foi o galo, foi a Rosa da Manhã,
Foi um cheiro de carne pálida,
Foi um perfume de cabelos em flor,
Foi o som de uma voz
Que de repente voltou de muito longe,
Foi um silêncio, uma pausa, um esquecimento,
Um abandono, uma janela aberta.
Foi o coração distraído,
Foi uma fraqueza, sem dúvida,
Foi um gesto perdido que se repetiu sem querer,
Foi o acaso, o imprevisível
Que permitiu à tímida esperança
Voltar por um momento,
Viver por um instante,
Respirar em mim de novo brandamente
Depois do exílio, do duro exílio para sempre!

In Coleção Melhores Poemas, seleção de Ivan Marques, Ed. Global: são Paulo, 2010, p. 168

Wislawa Szymborska

POSSIBILIDADES
Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro- me gostando das pessoas
do que amando a humanidade.
Prefiro ter agulha e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
do ser ter sua razão.

[In Poemas, Comnpanhia das Letras: são Paulo, 2011, p.p. 87-88, trad. Regina Przybycien]


Olga Orozco


LAMENTO DE JONAS


Este corpo tão denso com que fecho todas as saídas,
este saco de sombras, costurado às minhas duas asas
não impedem que eu vá até o fundo de mim:
uma noite cerrada onde vêm incidir todas as
miragens da noite,
algumas águas distraídas onde a esfinge de outro
mundo molha seus pés.
Aqui costumo encontrar vestígios de outra era,
fragmentos de panteões não destruídos pelo sal de meu
sangue,
oráculos e faunas aspirados pelas cinzas de meu
porvir.
Às vezes aparecem continentes em vôo,
plumas de outras roupagens submersas;
às vezes permanecem quase como o anúncio da
ressurreição.
Mas é melhor não estar.
Porque aqui há armadilhas.
Alguém brinca de não estar quando estou
ou me observa junto comigo por entre as guaridas de
cada solidão.
Alguém simula um fosso entre o sonho e a pele para
eu deslizar até o último abismo dos outros
ou me induz a cavoucar embaixo de minha sombra.

In Poesia Argentina (1940-1960), Iluminuras: São Paulo,1990, p. 101, seleção e tradução Bella Jozef

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...