domingo, 15 de julho de 2012

Carlos Pintado

A NOITE AVANÇA BREVE EM MEU CORPO

A noite avança breve em meu corpo.
Em seus braços tremo como um menino.
Ando nas sombras, enigmático,  temeroso,
perdido e desesperado para sempre.
Em mim a escuridão é um castigo
de deuses e anjos sombrios.
Meu destino é a noite. Uma penumbra
infinita ronda meus passos.
Nada além do silêncio me acompanha,
nada além de nada e de ninguém
nunca o amor, a glória do que foi
de musgo ou de ouro um frouxo anel
talvez encontrado na fonte,
pássaro de luz nas trevas, fulgurando.



Tradução livre do original espanhol, por Antonio Damásio Rego Filho (Com permissão do autor)

sábado, 14 de julho de 2012

Maria Gabriela Llansol


 O QUE APRENDI COM TERESA?

O que aprendi com Teresa? Que a ressurreição não é um acto de potência divina, mas a suprema manifestação de amor. Dar a vida não chega, não é um acorde consonante com a substância. Ressuscitar, sim, é o acorde perfeito.
            Mais adiante, o texto falar-nos-á de uma rapariga.
            Ele entra, e diz-me:
            – Sim – diz-me ela, pousando as mãos nos meus joelhos: – Desejo encontrar alguém que me ame com bondade, e que seja um homem.
            – Alguém que queira ressuscitar para ti?
­            – Sim. Alguém que tenha comigo essa memória.


In O jogo da liberdade da alma, Lisboa: Relógio d’Água, 2003

(Teresa é Thérèse de Lisieux, de quem Maria Gabriela Llansol traduziu O alto voo da cotovia)

Marguerite Yourcenar

EXCERTO DE "COMO A ÁGUA QUE CORRE"
A história de Ana adquiriu daí em diante a monotonia de uma prova longamente suportada. O senhor de Wirquin cedo abandonara o lado espanhol para reincorporar-se à França, o que aumentou o desdém que Ana lhe votava. Muitas vezes, a guerra saqueara suas terras; foi preciso salvaguardar tanto quanto possível os camponeses, o gado, os bens móveis, mas tais preocupações em comum não os reaproximaramo De seu lado, o marido de Ana não perdoava ao sogro o fato de haver dispersado sua fortuna em fundações piedosas; os bens quase fabulosos em razão dos quais, ao menos em parte, contratara essa aliança, nada mais eram que miragens. Entre Ana e ele, a polidez substituía a ternura, sentimento que ele não julgava, aliás, necessário em suas relações com uma mulher. De início, Ana suportara suas atenções noturnas com repulsa; depois, o prazer vez por outra nela se insinuara à sua revelia, mas limitado a uma parte baixa e estreita de sua carne, jamais lhe fazendo vibrar todo o ser. Foi de bom grado que Ana soube em seguida ter o marido arranjado amantes que dela o afastaram.

Algumas gravidezes, toleradas com resignação, deixaram-lhe sobretudo a lembrança de longas náuse-as. Contudo, ela amava os filhos, mas com um amor animal que diminuía quando estes dela não tinham necessidade. Dois meninos morreram em tenra idade; ela lamentou sobretudo a mais jovem, cujos traços infantis recordavam-lhe os de Miguel, mas com o tempo esse desgosto também passou. O mais velho, homem de guerra e de corte, debatia-se com os credores que lhe deixara o pai, morto em duelo após uma nebulosa questão de honra. Sua filha era religiosa em Douai. Poucos meses após a morte do senhor de Wirquin, um amigo do defunto que escoltava Ana d'Arr as a Paris, onde se encontrava seu filho, aproveitou-se de uma parada ocasional da viagem para assediar a viúva ainda bela; muito cansada para lutar, ou talvez solicitada pela própria carne, Ana o recebeu nem com mais nem com menos emoção do que experimentara no leito conjugal. Ele não deu nenhuma importância ao ocorrido, e partiu para reincorporar-se a seu regimento na Alemanha; na verdade, nada disso importava. Durante as raras permanências de Ana no Louvre, a rainha se entusiasmou por aquela espanhola de alta estirpe, com a qual lhe agradava entreter-se em seu idioma natal. Mas a viúva de Egmont de Wirquin recusou um lugar de açafata. A pompa francesa e o luxo de Flandres, sob seus céus sempre sombrios, nada eram se comparados à lembrança dos faustos de Nápoles e a seu límpido céu.

Com os anos, o isolamento, a fadiga, uma espécie de estupor a prostrou. O consolo das lágrimas lhe era recusado; ela se consumia nessa secura como no interior de um árido deserto. Em certos instantes, delicados fragmentos do passado se inseriam inexplicavelmente no presente, sem que se soubesse de onde vinham: um gesto de dona Valentina, uma gavinha de videira ao redor da polia de um velho poço no pátio de Acropoli, uma luva de dom Miguel esquecida sobre a mesa e ainda quente de sua mão. Parecia então que uma tépida brisa soprava: ela quase desfalecia. Depois, durante longos meses, o ar lhe faltava. O ofício dos mortos, entoado toda noite ao longo de quase quarenta anos, à força de repetido, perdia de repente todo o sentido. O rosto do bem amado lhe aparecia às vezes em sonho, nítido até o menor detalhe do buço acima dos lábios; o tempo restante jazia decomposto em sua memória como o próprio dom Miguel em sua tumba, e ora lhe parecia que este jamais existira a não ser nela, ora ela impunha a um morto, de maneira quase sacrílega, que continuasse a viver. Assim como outros se fustigam para reanimar seus sentidos, Ana se flagelava para reavivar o seu luto, mas sua dor exaurida nada mais era que uma lassidão. Esse coração mortificado recusava-se a sangrar.

Ao alcançar a casa dos sessenta, dona Ana deixou o domínio ao filho e entrou como pensionista para o convento de Douai, onde a filha tomara o hábito. Outras damas da nobreza aí terminavam seus dias. Pouco após a chegada de Ana, preparou-se um quarto para urha tal madame de Borsêle, uma das amantes pelas quais se arruinara Egrnont de Wirquin. O tempo que essas senhoras não consagravam aos ofícios religiosos era consumido em bordados, em leitura em voz alta de cartas que lhes enviavam os filhos, em pequenas refeições ou finas ceias que ofereciam umas às outras. A conversa girava em torno dos costumes e maneiras de sua juventude, dos respectivos méritos dos maridos defuntos ou dos atuais confessores e dos amantes que gabavam ter tido, ou não tê-los tido. Mas todas voltavam sempre, com uma insistência repugnante e quase grotesca, a seus males corpóreos visíveis ou ocultos. Era quase como se o fato de exibir assim suas doenças se tornasse para elas uma nova forma de impudicícia. Uma certa surdez impedia que dona Ana lhes ouvisse as frases, permitindo-lhe furtar-se àquela promiscuidade. Cada uma tinha sua serviçal, mas ocorria que essas moças eram negligentes ou que, por uma ou outra razão, as despedissem, e as irmãs conversas nem sempre eram suficientes para atender às pensionistas. Madame de Borsêle era obesa e quase inválida; Ana ajudava-a por vezes a pentear-se, e a beldade de outrora batia palmas quando se lhe aproximavam o rosto do espelho. Ou, então, se lastimava ridiculamente porque se tinham esquecido de deixar-lhe ao alcance a caixinha de confeitos. Ana se erguia então do lugar onde estava, o que não fazia senão com esforço, achava a caixinha e deixava que madame de Borsêle se entupisse de doçuras. Certa vez, uma velha pensionista, ao voltar do refeitório, vomitou no corredor. Nenhuma servente lá se encontrava no momento; Ana lavou as lajes.

As religiosas admiravam a mansidão de Ana para com sua antiga e escandalosa rival, sua austeridade, sua humildade, sua paciência. Mas nela não havia nem mansidão, nem austeridade, nem humildade, nem paciência. Ana estava, muito simplesmente, alhures.

Ela voltara à leitura dos místicos: Luis de León, frei Juan de la Cruz, a santa madre Teresa, os mesmos que lhe lia outrora, ao sol dos meios-dias, um jovem cavaleiro todo de negro. O livro ficava aberto sobre o vão da janela; sentada sob o pálido sol de outono, Ana pousava de quando em vez sobre uma linha os olhos fatigados. Ela não tentava decifrar o sentido, mas aquelas longas frases ardentes faziam parte da música amorosa e fúnebre que acompanhara sua vida. As imagens de outrora raiavam de novo em sua juventude imóvel, como se dona Ana, em seu declínio insensível, começasse a esperar o sítio onde tudo se reúne. Dona Valentina não estava longe; dom Miguel resplandecia no clarão de seus vinte anos; estava muito próximo. Uma Ana de uma vintena de anos ardia e vivia, ela também a mesma, no interior daquele corpo de mulher gasto e envelhecido. O tempo derrubara suas barreiras e rompera seus grilhões. Cinco dias e cinco noites de uma violenta felicidade outra vez inundavam com seus ecos e reflexos todos os confins da eternidade.

Sua agonia, contudo, foi longa e penosa. Ela esquecera o francês; o capelão, que se gabava de saber algumas palavras de espanhol e um pouco de italiano dos livros, vinha às vezes exortá-la em um desses dois idiomas. Mas a agonizante não o escutava nem o compreendia senão a custo. O padre, conquanto ela não o visse mais, continuava a apresentar-lhe um crucifixo. Por fim, o rosto devastado de Ana se distendeu; ela baixou lentamente as pálpebras. Ouviram-na murmurar:

- Mi amado ...

Julgaram que ela falasse a Deus. Talvez ela falasse a Deus.


In YOURCENAR, M. Como a Água que Corre, Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1983, pp. 72-76, trad. Ivan Junqueira

Adélia Prado

TROTTOIR
Minhas fantasias eróticas, sei agora,
eram fantasias de céu.
Eu pensava que sexo era a noite inteira
e só de manhãzinha os corpos despediam-se.
Para mim veio muito tarde
a revelação de que não somos anjos.
O rei tem uma paixão - dizem à boca pequena -
regozijo-me imaginando sua voz,
sua mão desvencilhando da fronte a pesada coroa:
´Vem cá, há muito tempo não vejo uns olhos castanhos,
tenho estado em guerras´ ...
O rei desataviado,
com seu sexo eriçável mas contido,
pertinaz como eu em produzir com voz,
mão e olhos quase estáticos, um vinho,
um sumo roxo, acre, meio doce,
embriaguez de um passeio entre as estrelas.
À voz apaixonada mais inclino os ouvidos,
aos pulsares, buracos negros no peito,
rápidos desmaios,
onde esta coisa pagã aparece luminescente:
com ervas de folhas redondinhas
um negro faz comida à beira do precipício.
À beira do sono, à beira do que não explico
brilha uma luz. E de afoita esperança
o salto do meu sapato no meio-fio
bate que bate.

[In: Poesia Reunida, São Paulo: Siciliano, 2001, p. 246]

Rubens
Venus e Adonis




sexta-feira, 13 de julho de 2012

Carlos Pintado

ORLANDO

Virginia Woolf

Como o terror é só um exercício,

solitário me perco noite adentro,

sonho um poente sombrio e em seu centro

a fraca luz me oferece vão ofício.

Mas o terror não é mais que artifício,

da luz e da sombra, talvez um jogo,

treva que se apaga como o fogo,

treva fatal a me negar o juízo.

In "Habitación a oscuras"

Traducción con permisso, por Antonio Damásio Rêgo Filho

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Carlos Pintado


AS NOITES

Noites de amantes breves como círios ardendo,
e cetros e fortunas e reis e palácios.
Noites de fundos espelhos, águas de um rio mágico.
Noites de altas torres a se perder na noite
e sonoras trevas retumbando na escuridão.
Noites de labirintos como folhas a cair
no poço abissal onde a minha sede enfeita
de música seus cânticos, as suas noites tão eternas.
Noites de altas cercas, jardins e estátuas.
Noites onde tudo parece não querer
dominar a forma terrível de minha sombra.
Noites em que me perco sem sabê-lo na noite,
sob finíssimas gotas de cristal sonhado,
por caminhos nebulosos, por bosques de unicórnios.
Noites em que as coisas amadas se despedem
agitando no ar uma espantosa mão.
Noites para sonharmos com a mão que retira
a neve da espada, a espada da pedra,
e o mágico orvalho sobre a água do lago,
água lustral fluindo, água de prata e lua.
Noites de fundos espelhos em sombras desvelados,
e rostos que olham para um fundo de sombras.
Noites que são o sonho de chifre e de marfim.
Noites de altas portas, de interiores sagrados,
e paisagens que mostram a madrepérola de algum rosto.
Noites para esquecer quem avança para minha sombra,
debaixo de estrelas nas quais sustenho meu corpo
insone e solitário,  como uma luz trêmula.
Noites de longínquas ilhas, de  barcos sombrios
e portos ideais para agitar lenços.
Noites para sentarmos e falar sobre a noite.
Noites de  aves sinistras e de tigres na escuridão,
e dedos sobre a vidraça, e cítaras tocando.
Noites em que somos a própria noite,
reconhecendo o passo trôpego de seus mortos.

Tradução livre para do espanhol para o  português do Brasil, por Antonio Damásio Rêgo Filho. 

Alejandra Pizarnik

CANTORA NOTURNA
Aquela que morreu por causa do seu vestido azul está cantando. Canta na plenitude da morte ao sol da sua embriaguez. Por dentro de sua canção há um vestido azul, há um cavalo branco, há um coração verde tatuado com os ecos das batidas de seu morto coração. Exposta a todas as perdições, ela canta junto a uma menina perdida que é ela mesma: seu amuleto da boa sorte. E apesar da névoa verde nos lábios e do frio cinza nos olhos, sua voz corrói a distância que se abre entre a sede e a mão que busca o copo. Ela canta.         
Para Olga Orozco

[In Poesía Completa, Barcelona: Editorial Lumen, 2000, p. 213]




Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...