sábado, 21 de julho de 2012

Javier Iglesias

HAVANA E EU

Esta cidade morre lentamente,
Há mortos que não fazem barulho,
a Fé foi ao passado,
extraviou-se entre as colunas
e o ar cheirando à política.
Esta cidade de música
só escuta seu réquiem
e o som de copos de rum
afogando vidas.
Esta cidade que amo,
porque ensinou-me a caminhar,
emprenhou-me de amor e ódio
fugiu de minhas mãos,
agora que os sonhos pesam.
Esta cidade morre
e eu me nego a abandoná-la.

(Tradução do autor)


Javier Iglesias Alfonso. Havana, Cuba, 1963. Poeta, narrador e roteirista, publicou o livro de poemas “Mapa de Solidão”. Traduziu o livro de Lúcio Costa “Registro de uma Vivência”, publicado em Cuba e no exterior. Tem textos publicados em revistas e jornais de Brasil, Argentina, Estados Unidos e outros países. 


Copiado de http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/cuba/javier_iglesias.html

Joca Reiners Torreon

Reflexões de Bárbara Cartland I


Há um ácaro num buraco
em meu peito. Surgiu como cravo,
assim, do lado direito. Às vezes
suspeito que habita meu coração,
então espremo. Sai aquela gordura
e o ácaro, nunca o coração.
Gosto de imaginá-la, saindo por
aquele poro largo de espinha,
uma lesma longa e mole, meu
coração. Cairia na escada dos fundos,
pulsando, degrau em degrau, até
a casinha de Vênus, minha cadela,
que acharia seu gosto igualzinho
ao da Purina de fígado que ela
putz!, odeia.

Animal Anônimo - 2002


In: Roteiro da Poesia Brasileira - anos 90, seleção e prefácio Paulo Ferraz, São Paulo: Global, 2011, p. 177


Sobre Joca Reiners Torreon

Blog do autor

Mariana Ianelli

IGNORO SE TU ÉS CAPAZ DE VOLTAR
Ignoro se tu és capaz de voltar.
Quero a novidade de tua ausência
Com uma paixão sem calor que mais aumenta
Quando tento vencer a realidade.
Sou a paz em que acredito inutilmente
E ainda sou a vertigem desta paz.
O desejo de que tu compareças
Não dura em mim do mesmo modo que tua imagem,
Que tua forma irresponsável de mover-se,
E se despir e descansar no meu passado.
Tu permaneces aqui sem corpo
E, pensando no oculto, eu abondono a existência
Para me deitar no lago das carpas.
Teria sido o final de um verão
E não o tempo em que te foste
Se em vez de amando eu estivesse louco.
Tu vives no propósito de minhas ficções:
Uma terra deserta, estável e mansa.
Nesta hora em que despareces do meu sonho,
Também eu, predador da tua alma, vou com os mortos.

Do livro Passagens, São Paulo: Iluminuras, 2003, p. 67

Mariana Ianelli

Nada foi feito que revivesse a coisa morta

Mas no rosto do amante solitário
Uma tarde despontou dentre milhares
E quis do homem o seu prazer intenso
De sonhar o mesmo vulto sobre a cama,
O mesmo vínculo que se estabeleceu
Para ser rompido como os que o antecederam
E os que viriam raramente depois dele.
Cindiu a indiferença dos anos e voltou
Com sua fome, seu poder ambíguo de encantar
Pela eternidade do instante que floresce
Apenas quando a melancolia de tê-lo perdido
Também volta, agora com toda a sua beleza visionária.
Uma tarde cuja manhã já se esqueceu
No traço de tantas iguais que vêm e passam
Como para só cumprir o ato necessário;
Uma tarde cuja noite se tornou algum resíduo amortalhado.
Estava ilhada, suspensa no fluxo do tempo,
Era a relíquia do amante, e era o seu trauma.

Do livro Passagens, São Paulo: Iluminuras, 2003, p. 59

Entrevista com Mariana Ianelli



sexta-feira, 20 de julho de 2012

Renan Nuernberger

AS COISAS CLARAS

O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.
(João Cabral de Melo Neto)


Suponha um copo d’água
e uma sala repleta de luz.
Sobre o tampo d’uma mesa
o copo translúcido atua
suando tranquilo
sua mancha na madeira teca
opaca. Os bichos ciscando
lá fora. Janelas enormes
que ocupam quase
toda a extensão das
paredes da sala. O sol
emanando seus raios
ao pulmão de vidro
em que estou contido.
Escrevo à prova de balas.

Renan Nuernberger nasceu em São Paulo, SP, em 1986. Poeta. Mestrando em Teoria Literária na Universidade de São Paulo com dissertação sobre a poesia brasileira dos anos 1970. Publicou Mesmo poemas (Selo Sebastião Grifo, 2010) com apoio do ProAC e organizou a antologia Armando Freitas Filho por Renan Nuernberger(EdUERJ, 2011) para a coleção Ciranda da Poesia.


Fonte: http://asescolhasafectivas.blogspot.com.br/

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Adélia Prado

PRANTO PARA COMOVER JONATHAN

 
Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.

Sobre Adélia Prado

In O Pelicano, Rio de Janeiro, Ed. Guanabara, 1987, p. 63



quarta-feira, 18 de julho de 2012

Antônio Cícero


O PAÍS DAS MARAVILHAS
Não se entra no país das maravilhas,
pois ele fica do lado de fora,
não do lado de dentro. Se há saídas
que dão nele, estão certamente à orla
iridescente do meu pensamento,
jamais no centro vago do meu eu.
E se me entrego às imagens do espelho
ou da água, tendo no fundo o céu,
não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
do mundo, coisa entre coisas que há
no lume do espelho, fora de si:
peixe entre peixes, pássaro entre pássaros,
um dia passo inteiro para lá.
(A Cidade e os livros - 2002)

In: Roteiro da Poesia Brasileira - anos 90, seleção e prefácio Paulo Ferraz, São Paulo: Global, 2011, p. 122

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...